﻿{"id":16934,"date":"2022-04-06T19:35:49","date_gmt":"2022-04-06T22:35:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=16934"},"modified":"2022-04-07T16:00:15","modified_gmt":"2022-04-07T19:00:15","slug":"editorial-dia-do-jornalista-em-2022-nada-a-comemorar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2022\/04\/06\/editorial-dia-do-jornalista-em-2022-nada-a-comemorar\/","title":{"rendered":"Editorial | Dia do Jornalista: em 2022, nada a comemorar"},"content":{"rendered":"\n<p>O ano \u00e9 2022, mas para quem faz jornalismo no Brasil o cen\u00e1rio \u00e9 similar a 1968. Ao final da d\u00e9cada de 60, ap\u00f3s o decreto do Ato Institucional n\u00ba 5, teve in\u00edcio o per\u00edodo mais repressivo da ditadura militar brasileira, com censura aos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o e tortura aos opositores. Passados 37 anos desde o t\u00e9rmino do regime, os profissionais da imprensa continuam sendo alvo de atos violentos e persegui\u00e7\u00f5es por agentes oficiais do governo. Em abril, m\u00eas em que se comemora o Dia do Jornalista, <a href=\"https:\/\/congressoemfoco.uol.com.br\/projeto-bula\/nota\/miriam-leitao-fala-sobre-tortura-vivida-na-ditadura-militar\/\"><strong>o deputado Eduardo Bolsonaro debochou<\/strong><\/a>, mais uma vez, de uma tortura sofrida por uma profissional da imprensa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio do mandato do atual presidente, os ataques aos jornalistas em redes sociais e em declara\u00e7\u00f5es oficiais foram constantes. Segundo dados da organiza\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/rsf.org\/pt\/relacoes\/imprensa-brasileira-verdadeiro-saco-de-pancadas-da-familia-bolsonaro-uma-tendencia-que-se\"><strong>Rep\u00f3rteres sem Fronteiras (RSF)<\/strong><\/a><strong>,<\/strong> entre janeiro e junho de 2021, Jair Bolsonaro atacou a imprensa 87 vezes, n\u00famero 74% maior do que o referente \u00e0s ofensas do segundo semestre do ano anterior. Enquanto isso, no mesmo per\u00edodo, os filhos do chefe de Estado, o vereador Carlos Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, insultaram a imprensa, respectivamente, 83 e 85 vezes. O RSF tamb\u00e9m constatou que 80% desses ataques s\u00e3o realizados pelo Twitter. Em abril de 2021, a <a href=\"https:\/\/www.abraji.org.br\/noticias\/jair-bolsonaro-e-a-autoridade-que-mais-bloqueia-usuarios-no-twitter\"><strong>Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)<\/strong><\/a><strong> <\/strong>registrou que o atual presidente da rep\u00fablica \u00e9 a autoridade que mais bloqueia usu\u00e1rios no Twitter, entre eles, os jornalistas s\u00e3o a principal categoria.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00faltimo domingo (03), Miriam Leit\u00e3o, apresentadora da GloboNews e colunista do jornal O Globo, foi v\u00edtima de mais um ataque. A jornalista foi insultada pelo deputado Eduardo Bolsonaro que debochou, em uma publica\u00e7\u00e3o no Twitter, do epis\u00f3dio de tortura sofrido por ela durante a ditadura militar. A ofensa teve in\u00edcio quando M\u00edriam compartilhou uma coluna de sua autoria, na qual afirma que o presidente Jair Bolsonaro \u00e9 inimigo da democracia. Em resposta \u00e0 publica\u00e7\u00e3o da jornalista, Eduardo Bolsonaro disse ter \u201cpena da cobra\u201d, referindo-se ao animal utilizado durante a tortura da qual Miriam Leit\u00e3o foi v\u00edtima. <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/politica\/miriam-leitao-fala-sobre-tortura-que-sofreu-nua-gravida-de-1-mes-durante-ditadura-13663114\"><strong>Em seus relatos<\/strong><\/a>, a jornalista contou que foi presa e torturada durante a ditadura, per\u00edodo em que estava gr\u00e1vida. Ela foi colocada nua, frente a soldados e agentes de repress\u00e3o, em uma sala escura com uma cobra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 simb\u00f3lico que o caso de ataque a uma mulher e jornalista, por parte do deputado, tenha ocorrido poucos dias ap\u00f3s a data que marcou 58 anos do golpe militar, 31 de mar\u00e7o. Atos violentos como o cometido contra Miriam s\u00e3o recorrentes entre os integrantes da fam\u00edlia que exalta, explicitamente, um dos per\u00edodos mais sombrios da hist\u00f3ria do Brasil, e que ocupa espa\u00e7os de poder no Executivo e Legislativo brasileiro. O triste epis\u00f3dio traz \u00e0 tona o questionamento: at\u00e9 quando sofreremos ataques diretos aos princ\u00edpios b\u00e1sicos dos direitos humanos e da democracia, sem consequ\u00eancias significativas para os agressores?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, o mesmo deputado disse que bastaria um cabo e um soldado para <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2018\/10\/basta-um-soldado-e-um-cabo-para-fechar-stf-disse-filho-de-bolsonaro-em-video.shtml\"><strong>fechar o Supremo Tribunal Federal (STF)<\/strong><\/a> e defendeu a possibilidade de um \u201cnovo AI-5\u201d no ano seguinte. Durante a vota\u00e7\u00e3o do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, o atual presidente dedicou seu voto ao <a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/politica\/bolsonaro-afirma-que-torturador-brilhante-ustra-e-um-heroi-nacional\/\"><strong>comandante Brilhante Ustra<\/strong>,<\/a> um dos respons\u00e1veis pela tortura da ex-presidente. Da mesma forma, neste 31 de mar\u00e7o, Bolsonaro novamente enalteceu o regime militar.&nbsp; Os casos contabilizam as diversas vezes em que os posicionamentos do presidente e de sua fam\u00edlia foram inimigos do Estado Democr\u00e1tico de Direito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Coincidentemente, uma semana ap\u00f3s a data que marca o in\u00edcio do per\u00edodo de repress\u00e3o, nos aproximamos do Dia do Jornalista (07\/04). Criado pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI), a data presta homenagem ao m\u00e9dico e jornalista Giovanni Battista Libero Badar\u00f3, assassinado no dia 22 de novembro de 1830, em S\u00e3o Paulo. Giovanni lutava pela independ\u00eancia do Brasil. Em mem\u00f3ria ao jornalista, o dia 7 foi escolhido para homenagear todos os profissionais da imprensa que buscam o compromisso com a informa\u00e7\u00e3o e a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da data, o <strong>Humanista<\/strong> lamenta o fato de n\u00e3o estarmos em condi\u00e7\u00f5es de celebrar. Pela agress\u00e3o sofrida, prestamos solidariedade \u00e0 Miriam Leit\u00e3o e a todos os colegas que j\u00e1 sofreram ataques e persegui\u00e7\u00f5es pelo exerc\u00edcio do jornalismo. Infelizmente, neste 7 de abril, n\u00e3o h\u00e1 nada a comemorar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano \u00e9 2022, mas para quem faz jornalismo no Brasil o cen\u00e1rio \u00e9 similar a 1968. 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