﻿{"id":21619,"date":"2023-07-07T18:36:53","date_gmt":"2023-07-07T21:36:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=21619"},"modified":"2023-07-20T11:14:45","modified_gmt":"2023-07-20T14:14:45","slug":"nene-da-brasilandia-a-historia-alem-das-paginas-policiais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2023\/07\/07\/nene-da-brasilandia-a-historia-alem-das-paginas-policiais\/","title":{"rendered":"\u201cNen\u00ea da Brasil\u00e2ndia\u201d: A hist\u00f3ria al\u00e9m das p\u00e1ginas policiais"},"content":{"rendered":"\n<p>Essa an\u00e1lise marca a retomada do <strong>#Cr\u00edticaHumanista<\/strong> neste semestre. A se\u00e7\u00e3o foi criada em 2019, com o prop\u00f3sito de dar visibilidade a express\u00f5es art\u00edsticas que preservem e promovam os direitos humanos, a democracia e a diversidade ou, ent\u00e3o, assuntos que estejam nesta esfera.<br><br>Produzido pela R\u00e1dio Novelo, o podcast \u201cNen\u00ea da Brasil\u00e2ndia\u201d remonta a hist\u00f3ria da mulher que comandou o maior esquema de tr\u00e1fico de drogas na cidade de S\u00e3o Paulo nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980. Ela colecionou passagens pela pol\u00edcia, fez amigos e inimigos dentro e fora do crime, mas, mais do que isso, foi uma figura t\u00e3o temida quanto respeitada pelos moradores. Trata-se de Floripes Souza de Oliveira, a alagoana que fez hist\u00f3ria no sub\u00farbio de S\u00e3o Paulo, sendo reconhecida como a primeira mulher considerada traficante na regi\u00e3o.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Embarcou com a m\u00e3e em dire\u00e7\u00e3o ao estado no \u201cpau de arara\u201d &#8211; caminh\u00e3o coberto por lona que servia como condu\u00e7\u00e3o na \u00e9poca. L\u00e1, conheceu o trabalho duro logo cedo, e atuou por anos como empregada dom\u00e9stica em casas de fam\u00edlias abastadas. Sua hist\u00f3ria se confunde com a hist\u00f3ria do Brasil: n\u00e3o apenas viveu sob o cen\u00e1rio de viol\u00eancia no pa\u00eds, como tamb\u00e9m foi testemunha de que certos privil\u00e9gios estavam restritos apenas aos bairros nobres da cidade. Presenciar a vida de pessoas ricas que tinham todo o tipo de luxo poss\u00edvel, e depois ter de enfrentar a realidade de retornar para a periferia paulistana foi gerando cada vez mais revolta.<br><br>Ela carregou consigo o nome da comunidade hom\u00f4nima que escolheu para se estabelecer na terra da garoa &#8211; o bairro da Brasil\u00e2ndia. E assim, se tornou uma das personagens principais da regi\u00e3o naquela \u00e9poca. Mulher, m\u00e3e e comandante de um esquema de distribui\u00e7\u00e3o de t\u00f3xicos e entorpecentes da Zona Norte por quase duas d\u00e9cadas. Suas condena\u00e7\u00f5es, datadas a partir de 1971, v\u00e3o de homic\u00eddio, tr\u00e1fico, envolvimento com esquema de jogo do bicho e uso de documento falso.<br><br>Ao longo dos oito epis\u00f3dios, um dos relatos mais frequentes \u00e9 que, em um contexto de ascens\u00e3o da ditadura militar, quando o governo do pa\u00eds mais se preocupava com os considerados \u201ccriminosos pol\u00edticos\u201d, cabia a Nen\u00ea proteger o bairro dos grupos rivais. Enquanto comandou, ela jamais permitiu que invadissem e revirassem as casas dos moradores. Acostumada a realizar a\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e zelar pela seguran\u00e7a do local, logo ela conquistou a confian\u00e7a e o carisma no entorno.<br><br>A partir dos depoimentos de familiares e moradores do bairro, onde ela viveu e criou seu imp\u00e9rio, \u00e9 poss\u00edvel entender como as quest\u00f5es de viol\u00eancia e sexismo perpassam sua trajet\u00f3ria. S\u00e3o 8 epis\u00f3dios relativamente curtos, com apresenta\u00e7\u00e3o dos jornalistas Davi Molinari e Paulo Motoryn e dire\u00e7\u00e3o de Paula Sacchetta.&nbsp; Apesar de ter 30 minutos de dura\u00e7\u00e3o, o formato narrativo escolhido faz com que esse tempo seja quase impercept\u00edvel, passando em um estalar de dedos.<br><br>Apesar de n\u00e3o fazer parte oficialmente da apresenta\u00e7\u00e3o,&nbsp; a diretora Paula Sacchetta surge, em v\u00e1rios momentos, para fazer coment\u00e1rios: ela questiona o porqu\u00ea das mulheres serem comparadas com os homens desse universo &#8211; se referindo ao fato de Nen\u00ea ter sido ser chamada v\u00e1rias vezes de \u201cPablo Escobar da quebrada\u201d, ou s\u00e3o reconhecidas no mundo do crime apenas quando s\u00e3o companheiras dos traficantes. O recurso, por ser frequente, pode parecer cansativo, mas funciona como ferramenta para antecipar poss\u00edveis problematiza\u00e7\u00f5es.<br><br>A l\u00edder foi executada em 1989, em frente a sua resid\u00eancia, em uma situa\u00e7\u00e3o que nunca foi solucionada. Ela era considerada uma pedra no sapato n\u00e3o apenas de pol\u00edticos, mas tamb\u00e9m de traficantes dos arredores na qual mantinha uma rixa, recebendo diversas amea\u00e7as de morte &#8211; como bem lembra o filho, Luis Carlos Fran\u00e7a, conhecido como \u2018Cal\u2019. Familiares, amigos e comerciantes da regi\u00e3o compareceram ao vel\u00f3rio, onde mal tinha espa\u00e7o para circula\u00e7\u00e3o, tamanha a import\u00e2ncia daquela figura. Em depoimento, Solange, sua sobrinha, comenta que na semana depois da sua morte, o delegado \u2018da 45\u2019 afirmou que Nen\u00ea fazia muita falta.<br><br>O \u00faltimo epis\u00f3dio dispon\u00edvel trata dos \u00faltimos momentos de Nen\u00ea antes de ser assassinada. Anderson, seu outro filho, foi testemunha ocular, e participa da reconstitui\u00e7\u00e3o. 35 anos depois, o epis\u00f3dio final busca compreender como est\u00e1 o bairro e o que teria acontecido com a fam\u00edlia, amigos e ex \u201cfuncion\u00e1rios\u201d dela.<br><br>Em uma an\u00e1lise geral, o podcast n\u00e3o a demoniza, tampouco romantiza, mas explora a vida dessa figura complexa para al\u00e9m das p\u00e1ginas policiais na qual ela estampou. O fato \u00e9 que ela segue viva no imagin\u00e1rio das pessoas. Sendo elas curiosas pela hist\u00f3ria, ou ent\u00e3o, daqueles que conviveram com a personagem controversa que foi Nen\u00ea.<br><br><strong>FICHA T\u00c9CNICA<\/strong><br>\u201cNen\u00ea da Brasil\u00e2ndia\u201d \u00e9 um podcast Wondery &#8211; est\u00fadio global de podcasts adquirido em 2021, ganhando estrutura no Brasil &#8211; produzido pela R\u00e1dio Novelo. Foi distribu\u00eddo inicialmente pela Amazon como janela principal, uma estrat\u00e9gia para fortalecer a plataforma como uma pot\u00eancia em podcasts, mas j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel em todas as plataformas de \u00e1udio.<br><br><strong>GLOSS\u00c1RIO<br><\/strong>&#8220;Servid\u00e3o&#8221;, como \u00e9 mencionado em alguns epis\u00f3dios, \u00e9 como os moradores se referem \u00e0 Estrada L\u00e1zaro Am\u00e2ncio de Barros que, antigamente, se chamava Rua Servid\u00e3o P\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: Nen\u00ea da Brasil\u00e2ndia\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/show\/20CMHD9yH3KPQiz3ThAGTX?si=43ed2f7538584684&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa an\u00e1lise marca a retomada do #Cr\u00edticaHumanista neste semestre. 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