﻿{"id":25361,"date":"2024-11-06T20:49:27","date_gmt":"2024-11-06T23:49:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=25361"},"modified":"2024-11-06T20:49:29","modified_gmt":"2024-11-06T23:49:29","slug":"entenda-o-que-e-neurodiversidade-e-por-que-e-uma-luta-tambem-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2024\/11\/06\/entenda-o-que-e-neurodiversidade-e-por-que-e-uma-luta-tambem-politica\/","title":{"rendered":"Entenda o que \u00e9 neurodiversidade e por que \u00e9 uma luta tamb\u00e9m pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p>A neurodiversidade \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que o c\u00e9rebro de cada pessoa tem um funcionamento neurol\u00f3gico diferente. Segundo a soci\u00f3loga australiana <a href=\"https:\/\/autismoerealidade.org.br\/2020\/06\/25\/judy-singer-e-a-neurodiversidade\/\">Judy Singer<\/a>, que cunhou o termo em 1998, todas as pessoas do mundo s\u00e3o neurodiversas, sejam elas t\u00edpicas ou neurodivergentes. Tanto em sua composi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, quanto em seu funcionamento pr\u00e1tico, com a forma\u00e7\u00e3o de personalidade e de costumes pr\u00f3prios, cada c\u00e9rebro funciona de uma maneira \u00fanica. Nesse sentido, n\u00e3o h\u00e1 uma forma certa ou errada do funcionamento cerebral, apenas formas diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta edi\u00e7\u00e3o do #Explica\u00e7\u00e3oHumanista, apresentamos as principais informa\u00e7\u00f5es a respeito da neurodiversidade e neurodiverg\u00eancia e seus desdobramentos como pauta pol\u00edtica e social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Afinal, o que \u00e9 a neurodiversidade?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O termo nomeia tanto a ideia de pluralidade neurol\u00f3gica, quanto o movimento social das minorias neurol\u00f3gicas em favor de seus direitos. Judy Singer come\u00e7ou a atuar como ativista da causa ap\u00f3s sua filha ser diagnosticada com o <a href=\"https:\/\/specialisternebrasil.com\/autismo-neurodiversidade-e-neurodivergente\/#:~:text=Essas%20pessoas%20s%C3%A3o%20definidas%20como,%2C%20discalculia%2C%20disgrafia%2C%20etc.\">Transtorno do Espectro Autista<\/a> (TEA). Posteriormente, a pesquisadora descobriu que tamb\u00e9m possu\u00eda tra\u00e7os de autismo, assim como sua m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dessa diversidade, existem pessoas consideradas neurot\u00edpicas e neurodivergentes. As neurot\u00edpicas s\u00e3o aquelas cujo funcionamento neurol\u00f3gico acontece dentro dos padr\u00f5es esperados pela sociedade. J\u00e1 a express\u00e3o \u201cneurodiverg\u00eancia\u201d foi cunhada pela a ativista com diverg\u00eancias m\u00faltiplas <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Kassiane_Asasumasu\">Kassiane Asasumasu<\/a> em 2000, com o objetivo de designar pessoas com forma\u00e7\u00e3o cerebral diferente do considerado t\u00edpico como, por exemplo, pessoas autistas e pessoas com Transtorno de D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o e Hiperatividade (TDAH).<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o psic\u00f3logo especialista em avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica de transtornos do neurodesenvolvimento C\u00e9sar Marques, a ideia da neurodiverg\u00eancia surge com o objetivo de retirar o estigma patol\u00f3gico difundido sobre essas pessoas. Nesse paradigma, essas diferen\u00e7as n\u00e3o podem ser vistas como doen\u00e7as, mas como varia\u00e7\u00f5es naturais da biologia humana, que n\u00e3o s\u00e3o pass\u00edveis de cura. \u201cO termo fala sobre essas pessoas que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es que eram consideradas psicopatologias, mas que o movimento da neurodiversidade reivindica que na verdade s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o transtornos a serem tratados, mas uma especificidade humana que precisa ser respeitada mesmo sendo diferente\u201d, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o existem c\u00e9rebros defeituosos, isso tamb\u00e9m significa que n\u00e3o h\u00e1 como definir um padr\u00e3o de \u201cnormalidade\u201d \u2013 mesmo existindo constru\u00e7\u00f5es sociais que beneficiem alguns indiv\u00edduos em detrimento de outros. Sendo assim, o termo \u201c<a href=\"https:\/\/jessemeadows.medium.com\/youre-using-the-word-neurodiversity-wrong-e579ffa816a8\">neurot\u00edpico<\/a>\u201d n\u00e3o descreve um tipo de c\u00e9rebro em nenhum sentido biol\u00f3gico, mas um modo de ser e de pensar que \u00e9 culturalmente valorizado e socialmente favorecido em rela\u00e7\u00e3o a outras disposi\u00e7\u00f5es, consideradas neurodivergentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora, inicialmente, amovimento neurodiverg\u00eancia fosse mais associada \u00e0s pessoas com TEA, TDAH e transtornos de neurodesenvolvimento em geral, \u00e0 medida que o movimento cresceu e ganhou visibilidade, pessoas com outros tipos de diferen\u00e7as neurol\u00f3gicas tamb\u00e9m aderiram a essa identidade.&nbsp; Ao longo do tempo, o conceito se expandiu para abranger Transtornos Espec\u00edficos de Aprendizagem, como Dislexia, Disgrafia e Discalculia, al\u00e9m de S\u00edndrome de Tourette, Altas Habilidades e Superdota\u00e7\u00e3o (AHSD) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual, como S\u00edndrome de Down e S\u00edndrome de Rett, entre outros. Ativistas como Kassiane Asasumasu tamb\u00e9m incluem como neurodiverg\u00eancias transtornos mentais como Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), Esquizofrenia, transtornos de personalidade como Transtorno Borderline, al\u00e9m de doen\u00e7as que afetam o sistema nervoso central, como Epilepsia, Parkinson e diferentes tipos de Esclerose.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>A neurodiversidade \u00e9 a biodiversidade aplicada ao campo neurol\u00f3gico: todas as esp\u00e9cies do planeta integram a biodiversidade, mas nenhuma \u00e9 \u201cmais\u201d ou \u201cmenos\u201d diversa do que a outra, pois o conceito s\u00f3 \u00e9 formado na compara\u00e7\u00e3o de todas.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Ainda que as palavras \u201cneurodiversidade\u201d e \u201cneurodiverg\u00eancia\u201d sejam muito confundidas, <a href=\"https:\/\/autismoerealidade.org.br\/2023\/03\/03\/vocabulario-basico-do-autismo-neurodiverso-x-neurodivergente\/\">elas n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos<\/a>. A neurodiversidade diz respeito \u00e0 variedade existente entre todas as pessoas, t\u00edpicas ou n\u00e3o, enquanto a neurodiverg\u00eancia se aplica a indiv\u00edduos espec\u00edficos. <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O paradigma m\u00e9dico e social da neurodiverg\u00eancia<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A neurodiversidade \u00e9 uma luta pol\u00edtica que busca a inclus\u00e3o e acessibilidade, com a disponibiliza\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e tratamentos adequados para as pessoas que necessitem. Al\u00e9m disso, \u00e9 tamb\u00e9m a luta pela garantia de ambientes adaptados para receber essas pessoas, bem como por um sistema educacional que compreenda as diferen\u00e7as de aprendizado entre os alunos e se adeque \u00e0s suas necessidades. Outra finalidade \u00e9 a da promo\u00e7\u00e3o de conscientiza\u00e7\u00e3o social sobre a tem\u00e1tica e do respeito \u00e0s neurodiverg\u00eancias. Por\u00e9m, muito mais do que isso, a neurodiversidade diz respeito a uma mudan\u00e7a de perspectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Judy Singer, a neurodiversidade deve ser respeitada e reconhecida, assim como outras categorias de minorias sociais, como etnia, ra\u00e7a, g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual, classe econ\u00f4mica. O paradigma social da neurodiversidade explica que n\u00e3o existe um modo \u201ccerto\u201d de se pensar, assim como n\u00e3o existem culturas, ra\u00e7as e g\u00eaneros \u201ccertos\u201d ou \u201cerrados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPor pol\u00edtico, quero dizer o processo combativo atrav\u00e9s do qual grupos organizados nas sociedades tomam decis\u00f5es sobre como alocar recursos, poder e estatuto. Os membros das minorias neurol\u00f3gicas, rotulados como diagn\u00f3stico ou n\u00e3o, t\u00eam sido geralmente discriminados [&#8230;] o que afeta nosso padr\u00e3o de vida, a menos que tenhamos a sorte de nascer em um fam\u00edlia abastada. Isto deve mudar\u201d, reflete.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com C\u00e9sar Marques, a visibilidade do movimento nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas resultou em uma s\u00e9rie de conquistas para as pessoas neurodivergentes. Uma delas \u00e9 a regulamenta\u00e7\u00e3o do cord\u00e3o de girassol, utilizado como s\u00edmbolo para demarcar defici\u00eancias invis\u00edveis ou ocultas. Al\u00e9m das neurodiverg\u00eancias, as defici\u00eancias ocultas incluem surdez, fibromialgia, l\u00fapus, entre outras. Embora existam controv\u00e9rsias sobre a utiliza\u00e7\u00e3o da palavra \u201cdefici\u00eancia\u201d para classificar as neurodiverg\u00eancias, a utiliza\u00e7\u00e3o do cord\u00e3o garante alguns direitos para pessoas at\u00edpicas, como a utiliza\u00e7\u00e3o da fila preferencial em estabelecimentos comerciais ou servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Transtorno do Espectro Autista<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/institutoinclusaobrasil.com.br\/o-paradigma-da-neurodiversidade-nada-sobre-o-autismo-sem-os-autistas\/\">Transtorno do Espectro Autista<\/a> \u00e9 um dist\u00farbio de neurodesenvolvimento, caracterizado por d\u00e9ficits na comunica\u00e7\u00e3o e na intera\u00e7\u00e3o social, al\u00e9m padr\u00f5es de comportamentos repetitivos e estereotipados, o que pode causar dificuldades em entender ironias, tons de voz e express\u00f5es faciais. Alguns autistas podem ter d\u00e9ficits de aprendizagem, enquanto outros possuem um grau de conhecimento e habilidades acima do comum em suas \u00e1reas de interesse espec\u00edfico \u2013 conhecidas como hiperfocos \u2013 as quais variam de acordo com o indiv\u00edduo. O atraso no desenvolvimento j\u00e1 pode ser percebido na inf\u00e2ncia e, assim que constatado pela fam\u00edlia, \u00e9 recomendado encaminhar a crian\u00e7a para a terapia.<\/p>\n\n\n\n<p>A preval\u00eancia de diagn\u00f3sticos de TEA \u00e9 mais comum em pessoas designadas do sexo masculino ao nascer. Entretanto, muitas mulheres autistas acabam n\u00e3o sendo diagnosticadas ou s\u00e3o diagnosticadas tardiamente, pois, embora se sintam desconfort\u00e1veis em algumas situa\u00e7\u00f5es sociais, conseguem esconder suas caracter\u00edsticas divergentes ao \u201ccopiar\u201d os comportamentos das pessoas neurot\u00edpicas a sua volta, uma pr\u00e1tica conhecida como <a href=\"https:\/\/br.academiadoautismo.com\/masking-no-autismo-o-que-e\/\"><em>masking<\/em><\/a> (do ingl\u00eas \u201cmascarar\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, <a href=\"https:\/\/institutoinclusaobrasil.com.br\/aumento-exponencial-de-casos-de-autismo-no-mundo\/#:~:text=Embora%206%2C7%20em%201.000,em%201.000%20crian%C3%A7as%20em%202020\">a porcentagem de pessoas com diagn\u00f3sticos de TEA<\/a> mais do que dobrou ao redor do mundo. No ano 2000, apenas 6,7 a cada mil pessoas possu\u00edam o diagn\u00f3stico nos Estados Unidos. Em 2020, por\u00e9m, o n\u00famero subiu para 27,6 a cada mil. Isso n\u00e3o quer dizer que exista uma propor\u00e7\u00e3o maior de autistas nas novas gera\u00e7\u00f5es. Embora n\u00e3o haja um consenso na comunidade cient\u00edfica sobre as raz\u00f5es do aumento de casos, \u00e9 prov\u00e1vel que um dos principais motivos \u00e9 a visibilidade que o movimento ganhou na atualidade, que fez com que mais pessoas identificassem atipicidades e procurassem terapia. As mudan\u00e7as nos crit\u00e9rios de diagn\u00f3stico, a cria\u00e7\u00e3o de mais escolas adaptadas e a capacita\u00e7\u00e3o de profissionais para atuar na \u00e1rea facilitam o mapeamento do transtorno.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas com TEA podem ter comportamentos diferentes dependendo do n\u00edvel de suporte que necessitam. Pessoas com autismo de n\u00edvel um precisam de pouco suporte, e tem mais autonomia e habilidade para realizar tarefas di\u00e1rias sem ajuda de terceiros. Pessoas com autismo de n\u00edvel dois precisam de uma quantidade intermedi\u00e1ria de suporte, enquanto autistas de n\u00edvel tr\u00eas precisam de muito suporte, necessitando de ajuda para realizar tarefas como se alimentar ou se vestir, al\u00e9m de ter mais dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o, sendo, muitas vezes, pessoas n\u00e3o-verbais.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo C\u00e9sar Marques, grande parte dos autistas que integram o movimento da neurodiversidade s\u00e3o de n\u00edvel um ou dois, que t\u00eam independ\u00eancia para se posicionarem e exigir os seus direitos. Enquanto isso, autistas de n\u00edvel tr\u00eas, por dependerem de aux\u00edlio, muitas vezes, acabam sendo representados pelas m\u00e3es e outros parentes e amigos. Por conta dessas diferen\u00e7as, algumas reivindica\u00e7\u00f5es do movimento s\u00e3o v\u00e1lidas para certos grupos de autistas, enquanto, para outros, podem n\u00e3o se encaixar.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Marques, o importante \u00e9 fazer uma an\u00e1lise cl\u00ednica de cada caso: \u201cUm bom profissional da sa\u00fade que trabalha com pessoas com transtornos de desenvolvimento precisa atuar pensando no conceito de neurodiversidade, sabendo que t\u00eam comportamentos que n\u00f3s n\u00e3o precisamos modificar, que s\u00e3o comportamentos t\u00edpicos daquela pessoa. Porque uma coisa \u00e9 eu querer que aquela pessoa seja socialmente aceit\u00e1vel para os outros, e outra coisa \u00e9 eu dar ferramentas para ela conseguir fazer as coisas que ela quer fazer. Eu n\u00e3o preciso intervir sobre algo que a pessoa n\u00e3o quer que seja diferente na vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A neurodiversidade \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que o c\u00e9rebro de cada pessoa tem um funcionamento neurol\u00f3gico diferente. Segundo a soci\u00f3loga australiana Judy Singer, que cunhou o termo em 1998, todas as pessoas do mundo s\u00e3o neurodiversas, sejam elas t\u00edpicas ou neurodivergentes. 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