﻿{"id":25702,"date":"2024-11-27T12:13:46","date_gmt":"2024-11-27T15:13:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=25702"},"modified":"2024-11-27T12:16:50","modified_gmt":"2024-11-27T15:16:50","slug":"filme-ainda-estou-aqui-ajuda-a-preservar-a-memoria-da-ditadura-no-brasil-diz-professora-de-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2024\/11\/27\/filme-ainda-estou-aqui-ajuda-a-preservar-a-memoria-da-ditadura-no-brasil-diz-professora-de-historia\/","title":{"rendered":"Filme \u201cAinda Estou Aqui\u201d ajuda a preservar a mem\u00f3ria da ditadura no Brasil, diz professora de hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Em menos de duas semanas em cartaz, o filme \u201cAinda Estou Aqui\u201d, dirigido por Walter Salles e protagonizado por Fernanda Torres e Selton Mello, <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/cinema\/noticia\/2024\/11\/25\/ainda-estou-aqui-volta-a-liderar-bilheteria-nacional-e-ja-soma-17-milhao-de-espectadores.ghtml\">ultrapassou um milh\u00e3o de espectadores nos cinemas<\/a>. A obra conta a hist\u00f3ria de Eunice Paiva e de sua fam\u00edlia depois que seu marido, Rubens Paiva, \u00e9 levado por militares \u00e0 paisana e desaparece em 1970. O sucesso do filme reacende o debate sobre a import\u00e2ncia de preservar a mem\u00f3ria da ditadura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Baseada no livro hom\u00f4nimo do escritor e jornalista Marcelo Rubens Paiva, um dos cinco filhos do casal, o filme tamb\u00e9m ficou em primeiro lugar nas bilheterias do Brasil no primeiro fim de semana ap\u00f3s o lan\u00e7amento. Em setembro, recebeu o <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/cinema\/noticia\/2024\/09\/07\/filme-brasileiro-ainda-estou-aqui-ganha-premio-de-melhor-roteiro-no-festival-de-veneza.ghtml\">pr\u00eamio <\/a>de melhor roteiro no Festival Internacional de Cinema de Veneza e <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/entretenimento\/academia-confirma-que-ainda-estou-aqui-esta-elegivel-ao-oscar-entenda\/\">\u00e9 cotado para o Oscar<\/a> na categoria de Melhor Filme Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma hist\u00f3ria real&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/memorialdaresistenciasp.org.br\/pessoas\/rubens-beyrodt-paiva\/\">Rubens Paiva<\/a> foi um engenheiro civil e pol\u00edtico brasileiro, eleito como deputado federal por S\u00e3o Paulo, pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), em 1962. Seu mandato foi cassado logo ap\u00f3s o golpe militar de 1964, devido ao AI-1 (Ato Institucional N\u00famero Um). Foi exilado no mesmo ano e retornou ao Brasil em 1965, onde se instalou com a fam\u00edlia, primeiramente, em S\u00e3o Paulo e, depois, no Rio de Janeiro, onde voltou a atuar como engenheiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1971, o ex-deputado foi sequestrado, torturado e <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/noticia\/2024\/11\/26\/quem-matou-rubens-paiva-relatorio-revelou-em-2014-assassino-de-ex-deputado-retratado-no-filme-ainda-estou-aqui.ghtml\">morto no DOI-CODI<\/a> do I Ex\u00e9rcito, \u00f3rg\u00e3o de intelig\u00eancia e <a href=\"http:\/\/memorialdademocracia.com.br\/card\/doi-codi-a-maquina-de-torturar-e-matar\">repress\u00e3o<\/a> do governo, no Rio de Janeiro. Seus familiares ficaram detidos dentro de casa, sob vigil\u00e2ncia de militares. No dia seguinte, Eunice Paiva e sua filha Eliane, com 15 anos na \u00e9poca, tamb\u00e9m foram levadas ao DOI para serem interrogadas. Eliane foi liberada no dia seguinte, mas Eunice passou mais de dez dias presa.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte de Rubens Paiva s\u00f3 foi confirmada durante a <a href=\"http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/\">Comiss\u00e3o Nacional da Verdade<\/a>, institu\u00edda em 2012, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. O relat\u00f3rio confirmou que ele morreu em instala\u00e7\u00f5es militares depois de ser submetido a tortura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAinda Estou Aqui\u201d, retrata os desafios enfrentados por Eunice e seus cinco filhos depois do desaparecimento de Rubens. A vi\u00fava precisou se reinventar depois de ficar sozinha e incerta sobre o retorno do marido. Depois da morte de Rubens, Eunice ingressou no curso de Direito e se formou aos 47 anos, posteriormente atuando contra a expropria\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mem\u00f3rias da ditadura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, existem dois memoriais que tratam sobre a ditadura: o Memorial da Resist\u00eancia, em S\u00e3o Paulo, e o Memorial das Lutas e Ligas Camponesas, na Para\u00edba. No Rio Grande do Sul, n\u00e3o existe nenhum espa\u00e7o dedicado a essa mem\u00f3ria, apenas monumentos. Porto Alegre possui tr\u00eas monumentos em homenagem \u00e0s v\u00edtimas da ditadura, al\u00e9m de placas que sinalizam os locais onde houve repress\u00e3o e que serviram como pris\u00f5es ou centros de deten\u00e7\u00e3o, tortura e desaparecimento de pessoas durante a Ditadura Militar. As placas fazem parte do projeto <a href=\"https:\/\/www.matinaljornalismo.com.br\/matinal\/reportagem-matinal\/placas-que-indicam-locais-de-tortura-na-ditadura-militar-em-porto-alegre-sao-retiradas-para-restauro\/\">Marcas da Mem\u00f3ria<\/a>, organizado pelo MJDH&nbsp; (Movimento de Justi\u00e7a e Direitos Humanos).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A capital ga\u00facha tamb\u00e9m conta com o projeto \u201c<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/caminhosdaditaduraemportoalegre\/\">Caminhos da Ditadura em Porto Alegre<\/a>\u201d, que mapeia mais 200 lugares da cidade ligados \u00e0 repress\u00e3o e \u00e0 resist\u00eancia. Uma vez por m\u00eas, s\u00e3o realizados \u201cTrajetos de Mem\u00f3ria de Porto Alegre\u201d, percorrendo alguns desses locais demarcados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O <strong>Humanista <\/strong>conversou com a professora, mestra em Hist\u00f3ria e idealizadora do <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/caminhosdaditaduraemportoalegre\/\">\u201c<\/a>Caminhos da Ditadura<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/caminhosdaditaduraemportoalegre\/\">\u201d<\/a>, Anita Carneiro, para discutir a constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria como ponto chave para n\u00e3o repetir o que aconteceu no per\u00edodo da ditadura no Brasil.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como surgiu a ideia do Caminhos da Ditadura?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, preciso voltar um pouquinho no tempo, a 2014, que foi quando eu entrei na gradua\u00e7\u00e3o e que foi exatamente o marco dos 50 anos do golpe da ditadura. A universidade estava repleta de atividades, encontros e discuss\u00f5es sobre esse assunto. E em um desses eventos que eu fui eles estavam distribuindo um mapa f\u00edsico com pontos ligados \u00e0 ditadura em Porto Alegre. Aquilo me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o, porque durante a escola eu nunca tinha pensado sobre a ditadura na minha pr\u00f3pria cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O Caminhos da Ditadura surgiu em 2016 enquanto eu ainda estava na gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria, na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). A gente tinha uma disciplina que era de introdu\u00e7\u00e3o ao est\u00e1gio e t\u00ednhamos que pensar numa sequ\u00eancia did\u00e1tica para uma turma fict\u00edcia. O meu grupo quis trabalhar com a quest\u00e3o da ditadura porque uma colega do grupo j\u00e1 se interessava sobre essa tem\u00e1tica. A professora da disciplina gostou bastante e incentivou a gente a continuar alimentando esse mapa digital. Os meus colegas acabaram n\u00e3o seguindo nessa proposta, mas eu continuei alimentando o mapa com pesquisas de tese, disserta\u00e7\u00f5es, TCCs e reportagens. Depois, eu apresentei no sal\u00e3o de ensino da UFRGS, fui premiada como destaque de sala e o mapa foi se desenvolvendo a partir da\u00ed. Hoje temos mais de 200 pontos mapeados, entre pontos de repress\u00e3o e de resist\u00eancia. E a\u00ed a seguimos fazendo, vimos que teve muita procura, muitas pessoas interessadas. Agora, seguimos nessa sistem\u00e1tica de uma vez por m\u00eas aplicar esse trajeto para quem quiser se inscrever.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Com esse projeto, como voc\u00ea percebe a preserva\u00e7\u00e3o, ou a falta de preserva\u00e7\u00e3o, da mem\u00f3ria da ditadura em Porto Alegre?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em Porto Alegre existem v\u00e1rias iniciativas, s\u00f3 que algumas ficam muito ocultas. Na minha disserta\u00e7\u00e3o falo que n\u00e3o basta ter um monumento, a gente precisa ter uma educa\u00e7\u00e3o em cima daquele monumento. O trajeto de mem\u00f3ria vem para isso. Mas a gente tem alguns monumentos, que marcam espa\u00e7os, e outros que s\u00e3o monumentos que n\u00e3o necessariamente est\u00e3o em lugares de mem\u00f3ria. Por exemplo, temos o Monumento aos Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos no Parque Marinha. L\u00e1 tamb\u00e9m tem o monumento das m\u00e3os amarradas, tem um&nbsp; monumento no Memorial do Rio Grande do Sul, enfim, temos alguns monumentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Porto Alegre tem o projeto Marcas da Mem\u00f3ria, organizado pelo Movimento de Justi\u00e7a e Direitos Humanos (MJDH), que s\u00e3o essas <a href=\"https:\/\/www.matinaljornalismo.com.br\/matinal\/reportagem-matinal\/placas-que-indicam-locais-de-tortura-na-ditadura-militar-em-porto-alegre-sao-retiradas-para-restauro\/\">placas memoriais<\/a> nos lugares ligados \u00e0 repress\u00e3o. Ent\u00e3o s\u00e3o uns oito ou nove lugares, como, por exemplo, ali na frente do <a href=\"https:\/\/camarapoa.rs.gov.br\/noticias\/marcas-da-memoria-volta-a-calcada-do-dopinho\">Dopinho <\/a>(como \u00e9 chamado&nbsp; o primeiro centro clandestino de deten\u00e7\u00e3o e tortura do Cone Sul, durante a ditadura militar). As placas ficam no ch\u00e3o e eles t\u00eam essa caracter\u00edstica de serem locais em que ocorreram viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Caminhos da Ditadura vai muito al\u00e9m disso, ele vai pensar tamb\u00e9m nos locais de resist\u00eancia. Por um tempo, l\u00e1 no in\u00edcio do projeto, eu acho que eu pensava muito que precisava demarcar todos os lugares, precisava ter placa em todos eles. Hoje, acho que sim, em alguns lugares \u00e9 importante ter essa demarca\u00e7\u00e3o, principalmente lugares que foram recorrentes nas viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o acho que isso mude alguma coisa, porque muita gente passa por esses lugares todos os dias e n\u00e3o para para ver a placa. \u00c9 muito mais importante essa educa\u00e7\u00e3o, de ter o trajeto de mem\u00f3ria, de ter esse desenvolvimento de uma reflex\u00e3o mais aprofundada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Enquanto historiadora com pesquisa nessa \u00e1rea, voc\u00ea acha que o Brasil valoriza e reconhece a mem\u00f3ria do que aconteceu no regime militar?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, eu n\u00e3o acho que reconhece ou tem espa\u00e7o suficiente. A gente ainda t\u00e1 caminhando muito lento nesse processo de criar memoriais e espa\u00e7os em que se fa\u00e7a de fato a reflex\u00e3o sobre a ditadura. Se formos pensar a n\u00edvel Brasil, temos apenas dois memoriais que se pode dizer que tratam sobre a hist\u00f3ria da ditadura: o <a href=\"https:\/\/memorialdaresistenciasp.org.br\/\">Memorial da Resist\u00eancia<\/a> em S\u00e3o Paulo, e o <a href=\"https:\/\/www.ligascamponesas.org.br\/\">Memorial das Lutas e Ligas Camponesas<\/a>, na Para\u00edba. Claro, a\u00ed temos tamb\u00e9m os monumentos, mas isso est\u00e1 longe de retratar o que foram 21 anos de viola\u00e7\u00f5es. Se a gente for pegar como exemplo a forma como a Argentina tratou, ou como Chile tratou [as suas ditaduras militares], tem muito mais memoriais, muito mais espa\u00e7os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Rio Grande do Sul n\u00e3o tem nenhum memorial ou museu de fato, sendo que foi um estado muito importante para ditadura, porque \u00e9 uma zona de fronteira. Ent\u00e3o, em todas essas organiza\u00e7\u00f5es da Opera\u00e7\u00e3o Condor, que era a opera\u00e7\u00e3o de ajuda m\u00fatua entre as ditaduras (da Am\u00e9rica Latina), ele foi um espa\u00e7o chave no deslocamento de v\u00e1rias frentes militares. Seria muito mais relevante, em vez de colocar a placa em todos os 200 locais, ter um memorial; seria muito mais importante transformar esse espa\u00e7o em um espa\u00e7o de reflex\u00e3o, de mem\u00f3ria e que tivesse um arquivo, que tivesse roda de conversa, exposi\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o \u00e9 por falta de interesse da sociedade. Quando criamos o projeto do trajeto de mem\u00f3ria, n\u00e3o imagin\u00e1vamos que tantas pessoas iam estar interessadas, tanto que s\u00f3 continuamos fazendo porque vimos que tinha uma demanda social. Vemos hoje, por exemplo, a quest\u00e3o do filme \u201cAinda Estou Aqui\u201d, que bateu um milh\u00e3o de pessoas indo ao cinema assistir. Isso mostra que as pessoas est\u00e3o interessadas, elas querem debater.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa semana foi descoberta <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/politica\/veja-6-pontos-do-plano-para-assassinatos-de-lula-alckmin-e-moraes\/\">toda aquela a\u00e7\u00e3o<\/a> que seria feita contra o Lula, contra o Alckmin e contra o Alexandre de Moraes, que era organizado por militares. Ent\u00e3o, as coisas n\u00e3o est\u00e3o deslocadas no espa\u00e7o tempo e a gente n\u00e3o falar sobre isso, n\u00e3o punir, n\u00e3o s\u00f3 durante os 21 anos, mas tamb\u00e9m agora, \u00e9 de uma burrice tremenda. O passado sempre volta para nos assombrar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O sucesso e a repercuss\u00e3o de \u201cAinda Estou Aqui&#8221; pode ser importante para que a discuss\u00e3o sobre o regime militar alcance pessoas mais jovens?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que sim, porque muitas vezes as pessoas v\u00e3o ao cinema mais porque est\u00e1 todo mundo falando. Se fez um trabalho muito importante inicial de convocar essas primeiras pessoas a irem ao cinema. Eu fui porque eu pesquiso essa tem\u00e1tica, mas muita gente foi simplesmente porque os outros estavam falando. Esse boca a boca tamb\u00e9m facilitou. E claro, tem essa expectativa, porque vai ser o candidato do Brasil para ser selecionado ao Oscar (de melhor filme internacional), tudo isso tamb\u00e9m convoca muitas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa que achei bem legal e que acho que \u00e9 importante destacar, \u00e9 que a classifica\u00e7\u00e3o indicativa do filme \u00e9 14 anos, o que \u00e9 baixa pensando num filme que trata de um tema sens\u00edvel. Eu, como professora, acho isso muito bom, porque, assim que eu puder, vou passar esse filme para os meus alunos. Essa \u00e9 a faixa et\u00e1ria dos alunos do 9\u00ba ano, que \u00e9 quando a gente trata do do contexto da ditadura (nas escolas), ent\u00e3o a gente consegue passar esse filme em sala de aula, o que tamb\u00e9m \u00e9 muito bom.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos dos filmes que foram lan\u00e7ados p\u00f3s-ditadura, na d\u00e9cada de 80 e 90, traziam essa viol\u00eancia muito expl\u00edcita, mas hoje \u00e9 preciso trazer outras narrativas e pensar a narrativa de uma outra forma. O filme consegue fazer isso, trazer a ditadura por uma outra \u00f3tica. Pela \u00f3tica da fam\u00edlia, de quem ficou, de quem pereceu. Muitas vezes essa hist\u00f3ria da ditadura \u00e9 s\u00f3 a hist\u00f3ria dos que j\u00e1 foram, dos mortos, dos desaparecidos, e n\u00e3o da luta, da mem\u00f3ria. Muitas das hist\u00f3rias mais famosas, tudo \u00e9 fruto da fam\u00edlia, dos amigos que ficaram e que foram atr\u00e1s, desafiaram a ditadura e, depois, ainda permaneceram nessa luta pela mem\u00f3ria. A personagem da Eunice \u00e9 a personagem principal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esse filme representa um avan\u00e7o para a preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria da ditadura no Brasil?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que sim e acho que qualquer atitude j\u00e1 \u00e9 uma grande atitude. Temos esse processo de apagamento e silenciamento, que n\u00e3o \u00e9 por acaso. \u00c9 um projeto, \u00e9 algo organizado desde os \u00faltimos governos militares, com a abertura lenta gradual e restrita. A forma como \u00e9 desenhado isso \u00e9 de \u201cn\u00e3o vamos falar sobre\u201d, \u201cn\u00e3o vamos punir quem tem que ser punido\u201d. Ent\u00e3o, cada forma que temos de falar sobre isso, de manter essa mem\u00f3ria viva, seja por projetos como o Caminhos, seja um filme, sejam os testemunhos e pessoas que viveram esse contexto, j\u00e1 \u00e9 muito importante. Acabamos focando muito mais nos militantes de esquerda, mas a gente precisa falar tamb\u00e9m de outras formas de resist\u00eancia que v\u00e3o contra o regime ditatorial. Tem um movimento negro muito forte, os movimentos camponeses, a quest\u00e3o dos ind\u00edgenas, das mulheres. S\u00e3o outras narrativas que t\u00eam vindo muito forte e que s\u00e3o hist\u00f3rias para serem contadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como se constroi essa mem\u00f3ria?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acima de tudo com a educa\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o poderia n\u00e3o falar disso como professora. A gente precisa tratar desse tema em sala de aula, com a seriedade que ele deve ser tratado, mostrando o que aconteceu, tratando dos mitos. Hoje, \u00e9 muito importante falar desses mitos, de que n\u00e3o havia viol\u00eancia, de que a economia era melhor. Esse tipo de fala s\u00e3o as falas replicadas pelos ainda apoiadores da ditadura. E n\u00e3o s\u00f3 o ambiente da sala de aula, os trajetos de mem\u00f3ria tamb\u00e9m s\u00e3o uma forma de educa\u00e7\u00e3o, cinema \u00e9 uma forma de educa\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o se deixar silenciar, n\u00e3o ter medo de falar,&nbsp; assim como durante a ditadura quem resistiu n\u00e3o teve medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 a forma de se manter minimamente vigilantes, porque, mesmo falando e conhecendo, n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o vai acontecer de novo, infelizmente. Como a gente falou, desses poss\u00edveis atentados, ou de tudo que aconteceu no <a href=\"https:\/\/www.intercept.com.br\/2024\/11\/21\/bolsonaro-indiciados-golpe\/\">8 de Janeiro<\/a>, das pessoas indo para as portas dos quart\u00e9is pedindo ditadura. O sil\u00eancio, colocar embaixo do tapete ou dizer que n\u00e3o d\u00e1 para remoer nunca vai ser a solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em menos de duas semanas em cartaz, o filme \u201cAinda Estou Aqui\u201d, dirigido por Walter Salles e protagonizado por Fernanda Torres e Selton Mello, ultrapassou um milh\u00e3o de espectadores nos cinemas. 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