﻿{"id":25892,"date":"2024-12-11T19:26:20","date_gmt":"2024-12-11T22:26:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=25892"},"modified":"2024-12-11T21:07:55","modified_gmt":"2024-12-12T00:07:55","slug":"nossa-questao-nao-e-o-aumento-de-ocorrencia-e-o-aumento-de-flagrantes-afirma-pesquisador-sobre-violencia-policial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2024\/12\/11\/nossa-questao-nao-e-o-aumento-de-ocorrencia-e-o-aumento-de-flagrantes-afirma-pesquisador-sobre-violencia-policial\/","title":{"rendered":"\u201cNossa quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o aumento de ocorr\u00eancia, \u00e9 o aumento de flagrantes\u201d, afirma pesquisador sobre viol\u00eancia policial"},"content":{"rendered":"\n<p>A <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/noticia\/2024\/12\/02\/pm-e-flagrado-jogando-homem-em-rio-em-carapicuiba-na-grande-sp.ghtml\">cena de um policial arremessando um homem<\/a> do alto de uma ponte foi apenas um dos casos de viol\u00eancia policial que tiveram repercuss\u00e3o nas \u00faltimas semanas pelos portais de not\u00edcias, telejornais e redes sociais. As imagens&nbsp; deram in\u00edcio a um debate sobre a atua\u00e7\u00e3o dos policiais e dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a p\u00fablica, principalmente do estado de S\u00e3o Paulo. Em 2023, foram registradas<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/direitos-humanos\/noticia\/2024-07\/mortes-por-intervencao-policial-quase-triplicam-em-10-anos-no-pais\"> 6.296 mortes por interven\u00e7\u00e3o policial<\/a>, o que coloca a pol\u00edcia brasileira como a mais letal do mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender o aumento dos registros de casos de viol\u00eancia policial no pa\u00eds, e a cobertura jornal\u00edstica feita a respeito, o <strong>Humanista <\/strong>conversou com Pedro Barreto Pereira, jornalista e doutor em Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nas \u00faltimas semanas diversos casos de viol\u00eancia policial ocorridos em S\u00e3o Paulo foram noticiados pelos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. O que pode nos ajudar a explicar esse aumento nas ocorr\u00eancias?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A gente precisa entender que a viol\u00eancia policial sempre ocorreu. Esse \u00e9 o modus operandi das pol\u00edcias militares em todo o pa\u00eds. O Brasil tem um sistema de pol\u00edcia desde 1808,&nbsp; com a chegada da fam\u00edlia real Portuguesa. Era guarda real, depois passou para guarda civil, e a Pol\u00edcia Militar foi fundada em 1838. E sempre teve como objetivo proteger a propriedade, e os os nobres, dos escravos, de uma eventual viol\u00eancia vinda das pessoas negras escravizadas, isso \u00e9 preciso ficar claro. Por isso que \u00e9 um tremendo equ\u00edvoco que as pessoas falem que a pol\u00edcia \u00e9 despreparada, ela n\u00e3o \u00e9 despreparada, ela \u00e9 muito preparada, h\u00e1 mais de 200 anos, para agir exatamente como age.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o aumento de ocorr\u00eancia, \u00e9 o aumento de registros, de flagrantes. \u00c9 justamente as c\u00e2meras, que est\u00e3o sendo utilizadas pela popula\u00e7\u00e3o, pelos moradores, nesses atos. \u00c9 por isso que se fala tanto na import\u00e2ncia do <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2024\/12\/09\/barroso-determina-uso-obrigatorio-de-cameras-corporais-por-policiais-militares-de-sao-paulo.ghtml\">uso da c\u00e2mera na farda do policial<\/a>. Isso pode de alguma maneira inibir, s\u00f3 que apenas isso n\u00e3o garante que a viol\u00eancia policial vai ser extinta. Primeiro, porque quem vai ter acesso \u00e0s imagens dessas c\u00e2meras \u00e9 a pr\u00f3pria pol\u00edcia, a pr\u00f3pria corregedoria. Segundo, porque hoje em dia existe uma legisla\u00e7\u00e3o de que os militares s\u00e3o julgados pelo tribunal militar, por isso \u00e9 t\u00e3o frequente que casos t\u00e3o escandalosos de viol\u00eancia policial sejam absolvidos pela justi\u00e7a militar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O grande volume de casos revelados pela m\u00eddia pode acabar normalizando ou anestesiando o leitor sobre a viol\u00eancia policial?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, a gente precisa se perguntar se o leitor de fato est\u00e1 indignado com essa viol\u00eancia policial. Porque a gente precisa observar que essa viol\u00eancia policial muitas vezes \u00e9 apoiada e&nbsp; incentivada por grande parte da sociedade. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Tarc\u00edsio Freitas, Cl\u00e1udio Castro e outros governadores, pelo Brasil afora, sejam eleitos com discurso de matar, de atirar contra a popula\u00e7\u00e3o negra empobrecida nas favelas e nas periferias. Ent\u00e3o a pergunta que eu devolvo \u00e9: ser\u00e1 que essa viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 incentivada pela popula\u00e7\u00e3o, pelo pr\u00f3prio discurso midi\u00e1tico e pelo pr\u00f3prio sistema de Justi\u00e7a quando absolve os policiais que cometem essa viol\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Historicamente a cobertura jornal\u00edstica de seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil \u00e9 pol\u00eamica, muitas vezes contribuindo para perpetuar estere\u00f3tipos e cren\u00e7as sobre a viol\u00eancia policial. Como voc\u00ea v\u00ea o atual cen\u00e1rio da imprensa brasileira perante os casos mais recentes de viol\u00eancia policial em S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pol\u00eamica \u00e9 um eufemismo, n\u00e9? Eu vou propor um outro adjetivo para isso. Tanto a seguran\u00e7a p\u00fablica, como o sistema de justi\u00e7a e a m\u00eddia brasileira, eles s\u00e3o lombrosianos. Cesare Lombroso foi um m\u00e9dico italiano que fundou uma pseudoci\u00eancia chamada frenologia, que dizia que as pessoas negras tinham uma tend\u00eancia a cometer crimes por causa&nbsp; do tamanho e do formato do seu cr\u00e2nio e de aspectos f\u00edsicos. Ou seja, \u00e9 uma pseudoci\u00eancia que jamais se comprovou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A minha pesquisa de doutorado deu origem ao livro <a href=\"https:\/\/editora.ufrj.br\/produto\/noticias-da-pacificacao-outro-olhar-sobre-uma-realidade-em-conflito\/\">Not\u00edcias da pacifica\u00e7\u00e3o: outro olhar poss\u00edvel sobre uma realidade em conflito<\/a>, em que foi feita uma an\u00e1lise de 2008 a 2016 da cobertura jornal\u00edstica sobre as UPPs (Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora) no Rio de Janeiro. A cobertura considerava a viol\u00eancia policial como um dano colateral. Ou seja, algo que ainda restava de viol\u00eancia, que n\u00e3o era o padr\u00e3o e que deveria ser tolerado justamente porque o Rio estava passando por um processo de pacifica\u00e7\u00e3o e que tudo ia ficar bem.<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a que eu vejo desse momento pra c\u00e1 \u00e9 que hoje em dia esse discurso racista lombrosiano, de criminaliza\u00e7\u00e3o dos jovens negros perif\u00e9ricos e moradores de favelas e periferias, \u00e9 mais frequente uma negocia\u00e7\u00e3o com um outro tipo de comunica\u00e7\u00e3o que naquela \u00e9poca n\u00e3o era t\u00e3o disseminado, que s\u00e3o justamente as c\u00e2meras. Como naquele caso em que a c\u00e2mera flagrou o policial jogando o rapaz pela ponte, e tamb\u00e9m o policial \u00e0 paisana matando com 11 tiros o rapaz que tinha roubado sab\u00e3o numa loja de conveni\u00eancia. Ent\u00e3o, hoje em dia \u00e9 mais frequente essa negocia\u00e7\u00e3o com um outro tipo de discurso, um que chama aten\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o dos Direitos Humanos. Porque se voc\u00ea n\u00e3o tiver essas imagens, n\u00e3o tem um contra discurso. Setem, principalmente, o discurso hegem\u00f4nico estatal, da pol\u00edcia, do governador, do delegado, que vai sempre sobressair.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, um breve comparativo em rela\u00e7\u00e3o aos dois casos recentes citados. Houve uma como\u00e7\u00e3o muito maior em rela\u00e7\u00e3o ao rapaz que foi jogado da ponte do que o rapaz que foi morto na loja de conveni\u00eancia. Porque existe uma percep\u00e7\u00e3o de que o ladr\u00e3o tem que ser morto, ent\u00e3o a viol\u00eancia policial \u00e9 justificada&nbsp; em caso de roubo. Ent\u00e3o&nbsp; essa percep\u00e7\u00e3o permeia&nbsp; e atravessa a leitura e interpreta\u00e7\u00e3o dos leitores ou dos espectadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual deve ser o papel da imprensa na reportagem desses casos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><\/strong>Para ter uma uma cobertura mais equilibrada, voc\u00ea precisa observar outros aspectos da quest\u00e3o da viol\u00eancia policial, n\u00e3o apenas a quest\u00e3o da seguran\u00e7a como priorit\u00e1ria, mas tamb\u00e9m a quest\u00e3o dos Direitos Humanos. Fazer outras perguntas, ouvir diferentes atores sociais, escutar mais os moradores e as fam\u00edlias das v\u00edtimas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma discuss\u00e3o muito frequente \u00e9 sobre a diversidade nas reda\u00e7\u00f5es, e eu concordo perfeitamente, mas tem alguns aspectos que voc\u00ea vai bater no teto ali e n\u00e3o vai conseguir mudar. A linha editorial de determinado ve\u00edculo n\u00e3o vai mudar por causa da presen\u00e7a de mais diversidade nas reda\u00e7\u00f5es, nesse sentido \u00e9 que eu chamo a aten\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, da imprensa alternativa e independente, que \u00e9 ler e ouvir um discurso diferente daquele discurso hegem\u00f4nico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cena de um policial arremessando um homem do alto de uma ponte foi apenas um dos casos de viol\u00eancia policial que tiveram repercuss\u00e3o nas \u00faltimas semanas pelos portais de not\u00edcias, telejornais e redes sociais. As imagens&nbsp; deram in\u00edcio a um debate sobre a atua\u00e7\u00e3o dos policiais e dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a p\u00fablica, principalmente do &#8230; <a title=\"\u201cNossa quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o aumento de ocorr\u00eancia, \u00e9 o aumento de flagrantes\u201d, afirma pesquisador sobre viol\u00eancia policial\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2024\/12\/11\/nossa-questao-nao-e-o-aumento-de-ocorrencia-e-o-aumento-de-flagrantes-afirma-pesquisador-sobre-violencia-policial\/\" aria-label=\"More on \u201cNossa quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o aumento de ocorr\u00eancia, \u00e9 o aumento de flagrantes\u201d, afirma pesquisador sobre viol\u00eancia policial\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":25893,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[224,33,49],"tags":[],"class_list":["post-25892","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-humanistaentrevista","category-seguranca","category-vida"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25892","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25892"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25892\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25899,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25892\/revisions\/25899"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25892"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25892"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25892"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}