﻿{"id":25937,"date":"2024-12-16T19:00:00","date_gmt":"2024-12-16T22:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=25937"},"modified":"2024-12-16T17:36:56","modified_gmt":"2024-12-16T20:36:56","slug":"a-estrategia-do-governo-e-tentar-reduzir-o-efeito-agora-e-diluir-o-impacto-fiscal-ao-longo-do-tempo-afirma-economista-sobre-pacote-de-corte-de-gastos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2024\/12\/16\/a-estrategia-do-governo-e-tentar-reduzir-o-efeito-agora-e-diluir-o-impacto-fiscal-ao-longo-do-tempo-afirma-economista-sobre-pacote-de-corte-de-gastos\/","title":{"rendered":"\u201cA estrat\u00e9gia do governo \u00e9 tentar reduzir o efeito agora e diluir o impacto fiscal ao longo do tempo\u201d, afirma economista sobre pacote de corte de gastos.\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p>Anunciado pelo Ministro da Economia, Fernando Haddad, nos \u00faltimos dias de novembro, o pacote de <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2024-11\/entenda-pacote-fiscal-de-r-70-bi-anunciado-por-haddad\">corte de gastos<\/a> gerou rebuli\u00e7o no mercado financeiro. Entre as medidas comunicadas est\u00e1 uma nova regra para o c\u00e1lculo do sal\u00e1rio m\u00ednimo, a revis\u00e3o dos benef\u00edcios sociais concedidos atrav\u00e9s de uma esp\u00e9cie de malha fina dos benefici\u00e1rios e corre\u00e7\u00f5es na previd\u00eancia dos militares, al\u00e9m de limita\u00e7\u00f5es nos repasses de emendas parlamentares. A expectativa do governo \u00e9 gerar uma economia de 30 bilh\u00f5es de reais j\u00e1 em 2025. Em 2026, o valor deve alcan\u00e7ar 40 bilh\u00f5es, chegando a 79,9 bilh\u00f5es de reais em 2030.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A finalidade do projeto \u00e9 permitir o cumprimento do <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2023-08\/entenda-regras-do-novo-arcabouco-fiscal\">arcabou\u00e7o fiscal<\/a> (2023), regra posterior ao teto de gastos, aprovado ainda no governo de Michel Temer, que busca dar maior flexibilidade ao regime fiscal brasileiro. Pela legisla\u00e7\u00e3o aprovada em 2023, o crescimento das despesas deve ser equivalente a 70% do crescimento da receita do pa\u00eds, aumentando entre 0,6 e 2,5% da infla\u00e7\u00e3o. Ou seja, em momentos de crescimento econ\u00f4mico, as despesas n\u00e3o podem aumentar al\u00e9m de 2,5%. Nos momentos de baixa, n\u00e3o podem ser inferiores a 0,6% da infla\u00e7\u00e3o. A regra anterior, aprovada em <a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/materias\/2016\/12\/15\/promulgada-emenda-constitucional-do-teto-de-gastos\">2016<\/a>, limitava o crescimento \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, sem ganho real. A inten\u00e7\u00e3o do terceiro governo Lula era zerar o d\u00e9ficit fiscal (diferen\u00e7a entre receitas e despesas) j\u00e1 em 2024, e atingir o super\u00e1vit em 2025.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Junto com isso, foi anunciada a mudan\u00e7a na <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2024\/11\/28\/mudancas-imposto-de-renda-2026-isencao-haddad.ghtml\">faixa de isen\u00e7\u00e3o do Imposto de Renda<\/a>: o governo deve enviar em 2025 o projeto que isenta pessoas que ganham at\u00e9 cinco mil reais ao m\u00eas, ou 60 mil reais ao ano, do pagamento do imposto. Em contrapartida, haver\u00e1 inclus\u00e3o dos mais ricos na tabela do IR. \u201cA reforma tribut\u00e1ria da renda tem o pressuposto da neutralidade fiscal. A reforma tribut\u00e1ria n\u00e3o visa nem aumentar, nem diminuir a arrecada\u00e7\u00e3o. O objetivo \u00e9 buscar efici\u00eancia e justi\u00e7a tribut\u00e1ria\u201d, afirmou Haddad durante coletiva de imprensa sobre o pacote de corte de gastos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para entrar em vigor em 2025, o pacote ainda deve tramitar no Congresso Nacional, cercado de negocia\u00e7\u00f5es e trocas pol\u00edticas, o que deve ser dificultado pelo recesso parlamentar, com in\u00edcio em 23 de dezembro. O <strong>Humanista <\/strong>conversou com o professor de Economia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Alessandro Miebach, que explica quais ser\u00e3o os poss\u00edveis impactos do pacote do corte de gastos nas \u00e1reas sociais e destaca os erros e os acertos da proposta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se o pacote de gastos for aprovado para 2025, que impactos ele deve gerar para a popula\u00e7\u00e3o?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A tua pergunta tem uma quest\u00e3o impl\u00edcita que \u00e9 a aprova\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a nos impostos, e eu n\u00e3o acredito que isso v\u00e1 acontecer. S\u00e3o duas coisas que est\u00e3o no mesmo conjunto de medidas propostas pelo governo. Uma coisa \u00e9 uma reforma tribut\u00e1ria, na qual se reduz a incid\u00eancia do Imposto de Renda para quem recebe at\u00e9 5 mil reais e aumenta a incid\u00eancia de impostos para rendas maiores. Eu n\u00e3o acredito em tempo h\u00e1bil para a aprova\u00e7\u00e3o dessa reforma no ano de 2025.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 imediato s\u00e3o os elementos de natureza fiscal. Tem uma coisa interessante [no pacote] que \u00e9 a limita\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios mais altos, <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/noticia\/2024\/11\/28\/supersalarios-governo-quer-reduzir-excecoes-ao-teto-remuneratorio-mas-nao-estima-impacto-da-medida.ghtml\">dos supersal\u00e1rios<\/a>, vai ter uma minirreforma na previd\u00eancia dos militares, alinhando mais com o servi\u00e7o p\u00fablico em geral. Outro elemento importante \u00e9 a nova regra de corre\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, que vai gerar um aumento menor do que pela regra antiga. E isso vai ter um efeito nos gastos p\u00fablicos, caso entre em vigor. O aumento [do sal\u00e1rio m\u00ednimo] que seria a varia\u00e7\u00e3o do PIB somado \u00e0 infla\u00e7\u00e3o passa a ser limitado em 2,5%. A previs\u00e3o de crescimento do PIB est\u00e1 se aproximando de 4% ao ano, ent\u00e3o \u00e9 uma diferen\u00e7a importante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\"><strong>COMO ERA ANTES:<br><\/strong><br>Infla\u00e7\u00e3o do ano anterior + crescimento do PIB nos dois \u00faltimos anos<br><br>Por esse c\u00e1lculo, o SM crescer\u00e1 2,9% acima da infla\u00e7\u00e3o a partir de 2025.&nbsp;<br><br><strong>COMO FICA COM O PACOTE DE CORTES:&nbsp;<br><\/strong><br>Crescimento dado pelo PIB mas dentro dos limites do arcabou\u00e7o fiscal (0,6-2,5% da infla\u00e7\u00e3o).&nbsp;<br><br>Ou seja, nos anos de menor crescimento do PIB o sal\u00e1rio cresce pelo menos 0,6%.<\/pre>\n\n\n\n<p>A limita\u00e7\u00e3o das emendas parlamentares pode acontecer, mas eu acho dif\u00edcil. Acho inclusive que foi colocada no processo como um elemento a ser negociado ao longo do tr\u00e2mite do pacote no Congresso Nacional. Mas tamb\u00e9m cortaria gastos. A estrat\u00e9gia do governo \u00e9 tentar reduzir o efeito agora e diluir o impacto fiscal ao longo do tempo. Em 2025, se implementado o conjunto de medidas, o impacto seria de 30 bilh\u00f5es de reais, de acordo com as estimativas do governo. Em 2030, o impacto seria de 79,9 bilh\u00f5es de reais, o dobro. Porque ele vai num crescente, justamente pela perspectiva de ir alterando o efeito cumulativo do aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual o impacto para as \u00e1reas sociais do or\u00e7amento e de aux\u00edlio do governo?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O argumento do governo \u00e9 de tentar qualificar os programas. Ou seja, eu vou tentar especificar o p\u00fablico-alvo da pol\u00edtica p\u00fablica. Ent\u00e3o, por exemplo, vai se tentar refinar os crit\u00e9rios de concess\u00e3o dos benef\u00edcios. No caso do <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2024-12\/governo-pode-fazer-novos-ajustes-nas-regras-do-bpc\">BPC (Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada)<\/a> vai se ter biometria para a concess\u00e3o, \u00e9 uma tentativa de ampliar a efici\u00eancia da concess\u00e3o. A\u00ed tem quest\u00f5es do ponto de vista pr\u00e1tico, que dependem muito da implementa\u00e7\u00e3o. O que acaba acontecendo no caso dessas pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e9 que se restringe o acesso. Na medida em que eu aumento a fiscaliza\u00e7\u00e3o, eu posso, por um lado, aumentar a efici\u00eancia, mas existe sempre o risco, que vai depender da capacidade de gest\u00e3o, de dificultar o acesso para a popula\u00e7\u00e3o que precisa. Mas o argumento do governo \u00e9 de tentar melhorar a focaliza\u00e7\u00e3o dos programas, direcionando eles, evitando desvios e concedendo os benef\u00edcios para pessoas que n\u00e3o se classificam nos crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o. A mesma coisa acontece para o <a href=\"https:\/\/exame.com\/economia\/biometria-atualizacao-obrigatoria-e-restricao-para-unipessoais-o-que-deve-mudar-no-bolsa-familia\/\">bolsa-fam\u00edlia<\/a>. As concession\u00e1rias de servi\u00e7o p\u00fablico v\u00e3o disponibilizar informa\u00e7\u00f5es para conferir os cadastros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Existem experi\u00eancias internacionais que mostram que ao complexificar o acesso aos programas, muitas pessoas eleg\u00edveis acabam n\u00e3o acessando o programa, ent\u00e3o \u00e9 uma coisa que se tem que estar atento.&nbsp; Talvez isso seja um elemento importante para entender a rea\u00e7\u00e3o ao pacote, porque de fato o que o pacote n\u00e3o est\u00e1 fazendo \u00e9 cortar esses gastos de natureza mais social. Ele n\u00e3o atende uma demanda que estava colocada de reduzir os gastos com sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, alterar os m\u00ednimos constitucionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\"><em>Os m\u00ednimos constitucionais s\u00e3o percentuais m\u00ednimos de investimento definidos pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal para as \u00e1reas da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o, consideradas direitos sociais b\u00e1sicos dos cidad\u00e3os. Nos artigos 198 e 212, est\u00e3o estabelecidos percentuais de investimento para as duas \u00e1reas para a uni\u00e3o, estados e munic\u00edpios. Para a educa\u00e7\u00e3o, o governo federal deve dedicar pelo menos <\/em><a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/noticias\/1063555-comissao-aprova-proposta-que-padroniza-piso-constitucional-da-educacao\/#:~:text=A%20Constitui%C3%A7%C3%A3o%20prev%C3%AA%20que%20a,aplica%C3%A7%C3%A3o%20m%C3%ADnima%20%C3%A9%20de%2025%25.\"><em>18%<\/em><\/a><em> das receitas de impostos. Para a sa\u00fade, o percentual m\u00ednimo \u00e9 de <\/em><a href=\"https:\/\/normas.leg.br\/?urn=urn:lex:br:federal:constituicao:1988-10-05;1988#\/con1988_06.06.2017\/art_198_.asp\"><em>15%<\/em><\/a><em>.<\/em><br><\/pre>\n\n\n\n<p><strong>Se fala muito do corte de gastos, mas pouco se explica sobre os motivos pelos quais ele poderia ser importante. Por que esse corte pode ser necess\u00e1rio?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 um debate no campo da economia entre a necessidade ou n\u00e3o de regras fiscais. A partir da d\u00e9cada de 80 se criou uma esp\u00e9cie de consenso dentro das correntes que chamamos de <em>mainstream<\/em>, da ortodoxia econ\u00f4mica, relativo \u00e0 necessidade de regras fiscais, que obrigam os governos, independente de quem estiver no poder, a cumprir regras em rela\u00e7\u00e3o aos gastos p\u00fablicos. No Brasil, historicamente, n\u00f3s temos uma s\u00e9rie de regras, como a regra de ouro, mas o governo Michel Temer implementou o <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2022-12\/agencia-brasil-explica-o-que-e-teto-de-gastos\">teto de gastos<\/a>. Ou seja, uma restri\u00e7\u00e3o ao crescimento dos gastos p\u00fablicos. O argumento macroecon\u00f4mico para isso \u00e9 que o governo compete pelos recursos com o setor privado. Se o governo gastar muito ele vai pegar recursos que poderiam estar dispon\u00edveis para o setor privado fazer investimento. O segundo elemento \u00e9 que muitas dessas correntes consideram o gasto p\u00fablico como ineficiente. Quando se combina os dois elementos, a vis\u00e3o para essa corrente \u00e9 que uma boa pol\u00edtica macroecon\u00f4mica pressup\u00f5e o menor gasto p\u00fablico poss\u00edvel, porque a\u00ed sobra recurso para o gasto privado, o governo n\u00e3o pressiona pelo recurso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>\u201cQuando se combina os dois elementos, a vis\u00e3o para essa corrente \u00e9 que uma boa pol\u00edtica macroecon\u00f4mica pressup\u00f5e o menor gasto p\u00fablico poss\u00edvel, porque a\u00ed sobra recurso para o gasto privado, o governo n\u00e3o pressiona pelo recurso\u201d.\u00a0<\/strong><\/p>\n<cite><strong> <em>Alessandro Miebach, professor de economia da UFRGS\u00a0<\/em><\/strong><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Existe uma outra vis\u00e3o que vai discordar dessa perspectiva e vai colocar que o gasto p\u00fablico tem um efeito multiplicador. Ele tem o potencial de induzir a atividade econ\u00f4mica. Ent\u00e3o o governo gasta, e com isso movimenta a economia, gerando um efeito multiplicador. Isso vai induzir na contrata\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os de empresas, que demandam outros bens de outras empresas, ativando o mercado de trabalho e girando a economia. Essas s\u00e3o duas vis\u00f5es distintas da economia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E a m\u00eddia corporativa d\u00e1 muito pouco espa\u00e7o para as perspectivas cr\u00edticas e heterodoxas. O discurso que aparece \u00e9 muito mais un\u00edssono em replicar esses discursos <em>mainstream <\/em>da economia. Mas o que a gente observa \u00e9 que as evid\u00eancias emp\u00edricas n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o assertivas. Existem v\u00e1rios casos de sucesso em usar pol\u00edticas de ativa\u00e7\u00e3o da economia, existem tamb\u00e9m limita\u00e7\u00f5es. N\u00e3o me parece que seja vi\u00e1vel a gente pensar que o gasto p\u00fablico possa ser infinito, que o governo possa se endividar indefinidamente. Existem quest\u00f5es tamb\u00e9m associadas ao mercado externo, aos fluxos do c\u00e2mbio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No governo Michel Temer seguido pelo governo Jair Bolsonaro a vis\u00e3o <em>mainstream <\/em>era a vis\u00e3o hegem\u00f4nica, expressa, por exemplo, pelo ex-ministro Paulo Guedes. Nessa vis\u00e3o, para promover o crescimento seria necess\u00e1rio ter o que chamamos de austeridade, que \u00e9 contrair os gastos para abrir espa\u00e7o para o setor privado. A vis\u00e3o do novo governo \u00e9 diferente. O pa\u00eds tem operado com gastos maiores, e a economia vem crescendo mais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na atual conjuntura econ\u00f4mica brasileira, o mercado tem errado muito com a previs\u00e3o de crescimento. Isso parece indicar que, de fato, o mercado n\u00e3o acredita que a economia vai crescer. Enquanto o governo, at\u00e9 mesmo pela forma como foi colocado o ajuste fiscal, trabalha com um horizonte de manuten\u00e7\u00e3o do crescimento. E o mercado n\u00e3o enxerga isso, mas de fato a economia brasileira tem crescido nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cO mercado tem errado muito a previs\u00e3o de crescimento. Isso parece indicar que, de fato, o mercado n\u00e3o acredita que a economia vai crescer. Enquanto o governo, at\u00e9 mesmo pela forma como foi colocado o ajuste fiscal, trabalha com um horizonte de manuten\u00e7\u00e3o do crescimento\u201d.<\/p>\n<cite><em><strong>Alessandro Miebach, professor de economia da UFRGS<\/strong><\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Na sua vis\u00e3o, o cen\u00e1rio brasileiro indicava para uma necessidade de corte de gastos? E que avalia\u00e7\u00e3o faz do projeto entregue pelo governo?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O projeto \u00e9 bom, tem muitas coisas que s\u00e3o razo\u00e1veis, de bom senso. A previd\u00eancia dos militares, o controle mais estrito dos supersal\u00e1rios. Tem uma quest\u00e3o complexa que \u00e9 a do sal\u00e1rio m\u00ednimo. Por um lado se cria uma regra salarial que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o boa quanto a anterior, mas o governo est\u00e1 apostando no crescimento da economia. E esse crescimento permitiria estabilizar a rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida PIB de maneira mais suave. A quest\u00e3o \u00e9 que o pacote n\u00e3o endere\u00e7a a press\u00e3o do mercado, que exige cortes mais intensos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira discuss\u00e3o \u00e9 sobre a <a href=\"https:\/\/www.bcb.gov.br\/controleinflacao\/metainflacao\">meta de infla\u00e7\u00e3o brasileira<\/a>, que \u00e9 muito baixa para a nossa economia. Dever\u00edamos ter uma meta de infla\u00e7\u00e3o mais alta para seguir crescendo. Seria preciso tolerar um pouco mais a infla\u00e7\u00e3o, e isso n\u00e3o quer dizer infla\u00e7\u00e3o descontrolada, mas uma meta mais condizente com a estrutura econ\u00f4mica. Uma meta de infla\u00e7\u00e3o muito baixa restringe muito o crescimento econ\u00f4mico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">A meta de infla\u00e7\u00e3o definida para 2024 e para 2025 pelo Conselho Monet\u00e1rio Nacional (CMN) \u00e9 de 3%. A margem de erro \u00e9 de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo. Caso a infla\u00e7\u00e3o ultrapasse esses valores, considera-se que o Banco Central n\u00e3o cumpriu a meta. <\/pre>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso ter cuidado com os dados no \u00e2mbito do c\u00e2mbio porque tem a quest\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio, mas o d\u00f3lar est\u00e1 se valorizando no mundo inteiro. \u00c9 um processo generalizado ligado \u00e0s <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?post_type=post&amp;p=25532\">incertezas do governo Trump<\/a>, \u00e0s tarifas que v\u00e3o ser impostas e o efeito na infla\u00e7\u00e3o norte-americana. Ent\u00e3o, quando a gente olha o c\u00e2mbio e faz uma liga\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica, ajuste fiscal \u2013 governo \u2013 c\u00e2mbio, est\u00e1 errado. Na minha vis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico componente e nem o principal. O principal elemento \u00e9 a incerteza global.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha vis\u00e3o, a quest\u00e3o central \u00e9 conseguir manter um processo de crescimento sustent\u00e1vel. Acredito que um ajuste fiscal de longo prazo \u00e9 vi\u00e1vel de ser atingido. Agora, o dilema fundamental a meu ver n\u00e3o \u00e9 de natureza econ\u00f4mica. O problema que temos de fundo \u00e9 que o nosso contrato social enquanto sociedade est\u00e1 em disputa. O que eu quero dizer \u00e9 que na Constitui\u00e7\u00e3o de 88, n\u00f3s pensamos em um pa\u00eds com educa\u00e7\u00e3o universal, com sistema de sa\u00fade universal, com um conjunto de elementos estabelecidos por um contrato social. Nos \u00faltimos anos, de forma mais intensa, existe uma disputa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o desse contrato social. Um elemento importante do ajuste fiscal \u00e9 sim aumentar a arrecada\u00e7\u00e3o de impostos, principalmente reduzindo as desigualdades, tributando os mais ricos. Porque o nosso sistema tribut\u00e1rio \u00e9 muito regressivo. E isso \u00e9 uma medida que o governo colocou nesse pacote, corretamente na minha avalia\u00e7\u00e3o, mas que gerou bastante insatisfa\u00e7\u00e3o. Mas a quest\u00e3o mais substantiva \u00e9: que pa\u00eds a gente quer?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A economia brasileira tem crescido, os n\u00edveis de desemprego s\u00e3o os mais baixos dos \u00faltimos anos, mas a renda das fam\u00edlias n\u00e3o parece acompanhar essa melhora. A longo prazo, o que isso pode nos trazer enquanto pa\u00eds? Vamos ter que ficar sempre inflando o crescimento com o uso de verba p\u00fablica?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tem duas quest\u00f5es importantes: uma \u00e9 a qualidade desse crescimento e a outra \u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o. Em termos da qualidade, n\u00f3s temos um problema. O principal \u00e9 que n\u00f3s temos crescido mas n\u00e3o estamos aumentando a produtividade do trabalho, que \u00e9 quanto cada trabalhador produz. Comparando com pa\u00edses de renda mais alta, identificamos uma produtividade mais alta, o que n\u00e3o \u00e9 necessariamente trabalhar mais, mas sim produzir mais. Isso em geral est\u00e1 associado com uma atividade industrial mais produtiva e servi\u00e7os de alta complexidade. E a economia brasileira, pelo menos desde a d\u00e9cada de 90, est\u00e1 em um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o e reprimariza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o estamos trocando as atividades de alta produtividade por atividades de baixa produtividade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Onde temos alta produtividade? No agroneg\u00f3cio, especialmente na agropecu\u00e1ria, e na ind\u00fastria mineral extrativa. O problema \u00e9 que emprega pouco, n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o para empregar a nossa juventude nas grandes cidades. E essa juventude est\u00e1 indo para o setor de servi\u00e7os \u2013 os aplicativos de transporte e de entrega, que s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es de baixa produtividade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se tem uma s\u00e9rie de quest\u00f5es sobre projeto de pa\u00eds, capacidade de compor a tecnologia, inser\u00e7\u00e3o internacional. \u00c9 uma quest\u00e3o de longo prazo. O Brasil est\u00e1 em uma estagna\u00e7\u00e3o pelo menos desde os anos 80. No s\u00e9culo XX, entre 1950 e 1980, a China do mundo era o Brasil. Era o pa\u00eds que mais crescia, que fez uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural saindo de um pa\u00eds agr\u00e1rio para um pa\u00eds altamente tecnol\u00f3gico para os padr\u00f5es da \u00e9poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como a gente retoma esse crescimento? Isso \u00e9 um debate infinito, mas uma coisa \u00e9 certa: o neoliberalismo n\u00e3o nos entregou crescimento robusto, crescimento capaz de transformar a renda per capita. Para transformar o pa\u00eds precisamos crescer na faixa de 4-5% ao ano, e raramente conseguimos isso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cO neoliberalismo n\u00e3o nos entregou crescimento robusto, crescimento capaz de transformar a renda per capita\u201d.&nbsp;<\/p>\n<cite><strong><em>Alessandro Miebach, professor de economia da UFRGS<\/em><\/strong><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Outra coisa \u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o de renda. Nesse processo de expans\u00e3o at\u00e9 os anos 80 geramos uma grande desigualdade social. Ent\u00e3o, desenvolver e aumentar a produtividade n\u00e3o necessariamente leva a uma menor desigualdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anunciado pelo Ministro da Economia, Fernando Haddad, nos \u00faltimos dias de novembro, o pacote de corte de gastos gerou rebuli\u00e7o no mercado financeiro. Entre as medidas comunicadas est\u00e1 uma nova regra para o c\u00e1lculo do sal\u00e1rio m\u00ednimo, a revis\u00e3o dos benef\u00edcios sociais concedidos atrav\u00e9s de uma esp\u00e9cie de malha fina dos benefici\u00e1rios e corre\u00e7\u00f5es na &#8230; <a title=\"\u201cA estrat\u00e9gia do governo \u00e9 tentar reduzir o efeito agora e diluir o impacto fiscal ao longo do tempo\u201d, afirma economista sobre pacote de corte de gastos.\u00a0\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2024\/12\/16\/a-estrategia-do-governo-e-tentar-reduzir-o-efeito-agora-e-diluir-o-impacto-fiscal-ao-longo-do-tempo-afirma-economista-sobre-pacote-de-corte-de-gastos\/\" aria-label=\"More on \u201cA estrat\u00e9gia do governo \u00e9 tentar reduzir o efeito agora e diluir o impacto fiscal ao longo do tempo\u201d, afirma economista sobre pacote de corte de gastos.\u00a0\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":25943,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[224,32,243,49],"tags":[687,689,688,685,686],"class_list":["post-25937","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-humanistaentrevista","category-igualdade","category-mais-recentes","category-vida","tag-corte-de-gastos","tag-orcamento","tag-pacote-de-gastos","tag-pib","tag-salario-minimo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25937","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25937"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25937\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25962,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25937\/revisions\/25962"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25943"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25937"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25937"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25937"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}