﻿{"id":26322,"date":"2025-04-02T19:19:32","date_gmt":"2025-04-02T22:19:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=26322"},"modified":"2025-04-07T18:05:36","modified_gmt":"2025-04-07T21:05:36","slug":"cenario-climatico-economico-e-de-degradacao-do-pampa-temas-de-destaque-do-fima-apontam-para-impactos-diretos-na-agropecuaria-gaucha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/04\/02\/cenario-climatico-economico-e-de-degradacao-do-pampa-temas-de-destaque-do-fima-apontam-para-impactos-diretos-na-agropecuaria-gaucha\/","title":{"rendered":"Cen\u00e1rio clim\u00e1tico, econ\u00f4mico e de degrada\u00e7\u00e3o do Pampa: temas de destaque do Fima apontam para impactos diretos na agropecu\u00e1ria ga\u00facha"},"content":{"rendered":"\n<p>Com caracter\u00edsticas de clima subtropical, esta\u00e7\u00f5es bem definidas, e regimes de chuva distribu\u00eddos ao longo dos meses, o Pampa v\u00eam lidando com uma s\u00e9rie de altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas at\u00edpicas e intensas nos \u00faltimos anos, como a eleva\u00e7\u00e3o da temperatura, o aumento da frequ\u00eancia de estiagens, tempestades severas e ocorr\u00eancia de granizo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensando em trazer o debate sobre o tema para a popula\u00e7\u00e3o, a Associa\u00e7\u00e3o Riograndense de Imprensa (ARI) promoveu nos dias 26 e 27 de mar\u00e7o, o 13\u00ba F\u00f3rum Internacional de Meio Ambiente (Fima), que nesta edi\u00e7\u00e3o discutiu o \u201cBioma Pampa: Clima, conserva\u00e7\u00e3o e atividades econ\u00f4micas\u201d. Reunindo diversos atores envolvidos e interessados na quest\u00e3o, o encontro serviu como palco para lan\u00e7ar luz sobre a situa\u00e7\u00e3o do Pampa, que \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/02\/18\/pampa-e-o-bioma-mais-degradado-do-brasil-em-valores-proporcionais\/\">bioma mais degradado do Brasil em valores proporcionais.<\/a> O <strong>Humanista<\/strong> ouviu o climatologista e professor de Geografia da UFRGS <a href=\"https:\/\/www.centropolar.com\/team\/francisco-eliseu-aquino\">Franscisco Aquino<\/a> para aprofundar o tema.<\/p>\n\n\n\n<p>As mudan\u00e7as se estendem pelo territ\u00f3rio argentino, uruguaio e brasileiro, influenciando as condi\u00e7\u00f5es ambientais nessas regi\u00f5es, gerando reflexos no cen\u00e1rio produtivo do agroneg\u00f3cio e em diversos setores na economia ga\u00facha. Aspecto destacado por Aquino. \u201cO clima do Pampa mudou. O Pampa est\u00e1 mais quente, tem mais eventos extremos e o impacto \u00e9 no ambiente, na cultura, na economia, na sociedade, em todos os setores\u201d, diz o climatologista.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquino, que tamb\u00e9m atua no Centro Polar e Clim\u00e1tico da UFRGS,&nbsp; foi respons\u00e1vel pela fala de abertura do evento promovido pela ARI. Ao longo do discurso, elencou as conex\u00f5es destes eventos extremos com fatores naturais e n\u00e3o naturais, a partir da metodologia do estudo de atribui\u00e7\u00e3o, que identifica as causas relacionadas \u00e0 mudan\u00e7a do clima.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o climatologista, as caracter\u00edsticas e condi\u00e7\u00f5es&nbsp; geogr\u00e1ficas, atmosf\u00e9ricas e meteorol\u00f3gicas \u2013 como a agita\u00e7\u00e3o mar\u00edtima, as frentes frias e a forma\u00e7\u00e3o de ciclones, entre outras \u2013 se juntam aos efeitos da atividade humana e potencializam os eventos clim\u00e1ticos adversos. \u201cEntendemos, pelas teses, que essas variabilidades est\u00e3o se somando, ent\u00e3o conseguimos dizer que, se n\u00e3o \u00e9 a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, estes eventos extremos seriam menos intensos, estariam mais suavizados. Ent\u00e3o, o estudo cient\u00edfico de atribui\u00e7\u00e3o, ele est\u00e1 respondendo que sim, a atividade humana \u00e9 respons\u00e1vel pelo extremo registrado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Impactos das atividades agr\u00edcolas<\/h3>\n\n\n\n<p>A agricultura em terras ga\u00fachas tem enfrentado desafios relacionados ao clima. Em um ano que prev\u00ea safras recordes da cultura da soja para o Brasil, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=IsB8RBk_f_I\">o Rio Grande do Sul, terceiro maior produtor nacional do gr\u00e3o, estima uma redu\u00e7\u00e3o de 20% na produtividade<\/a> em rela\u00e7\u00e3o ao ano de 2024. Este cen\u00e1rio est\u00e1 diretamente relacionado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas enfrentadas pelo Estado, que tamb\u00e9m afetam culturas de milho, arroz e trigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Num efeito domin\u00f3 c\u00edclico, a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola est\u00e1 entre as principais atividades humanas associadas \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, em uma escalada que come\u00e7a pela perda da vegeta\u00e7\u00e3o natural. A cultura da soja \u00e9 a que mais se destaca nesta quest\u00e3o, j\u00e1 que o avan\u00e7o acelerado da produ\u00e7\u00e3o do RS vem substituindo \u00e1reas nativas do Pampa, muitas vezes sem a devida cautela.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/brasil.mapbiomas.org\/2024\/12\/06\/pastagem-soja-e-cana-ocupam-77-da-area-de-agropecuaria-no-brasil\/?utm_source=chatgpt.com\">Segundo dados do MapBiomas<\/a>, cerca de 4 milh\u00f5es de hectares do Pampa (de um total de 5,6 milh\u00f5es reservados para atividade agr\u00edcola), estavam destinados ao cultivo de soja em 2023, o que representa 21% do bioma, evidenciando a progress\u00e3o da agricultura sobre os campos nativos, o que gera reflexos para al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o, como destaca Aquino.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAl\u00e9m do impacto econ\u00f4mico, social e cultural, \u00e0 medida que a gente incrementa a supress\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o natural do bioma pampa, que a gente tem alterado, por exemplo, em algumas das culturas, como a soja, a gente amplifica muito os contrastes. Um deles \u00e9 perder a no\u00e7\u00e3o de que a gente tinha ali um pampa, o segundo \u00e9 voc\u00ea ter o d\u00e9ficit h\u00eddrico, o terceiro \u00e9 voc\u00ea ter o evento de temperatura e o quarto \u00e9 a tempestade severa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem a prote\u00e7\u00e3o da flora nativa, h\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o da capacidade de regula\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica, gerando um aumento da temperatura local e diminui\u00e7\u00e3o da umidade do solo. Como resultado, ocorrem chuvas mais espa\u00e7adas e secas intensas, que prejudicam a qualidade do solo e a condi\u00e7\u00e3o h\u00eddrica, interferindo tamb\u00e9m nos resultados das planta\u00e7\u00f5es, como explica o professor Aquino. \u201cA vegeta\u00e7\u00e3o natural do pampa estando protegida, ajuda a guardar mais \u00e1gua, ent\u00e3o ela evita que voc\u00ea tenha escassez h\u00eddrica,&nbsp; estresse de temperatura e, por consequ\u00eancia, desemboque na onda de calor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Impactos da pecu\u00e1ria<\/h3>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o da pecu\u00e1ria com os campos do Pampa \u00e9 tamanha, que do cruzamento das ra\u00e7as Angus e Hereford nasce uma esp\u00e9cie que leva o nome do bioma. O gado Pampa \u00e9 um dos exemplos&nbsp; de bovinos criados em terras ga\u00fachas que se adaptam bem \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de clima ameno, relevo plano e fertilidade dos solos ga\u00fachos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, a intensa mudan\u00e7a clim\u00e1tica tem alterado esses indicadores e colocado dificuldades severas para a cria\u00e7\u00e3o de animais de corte e de leite. Seja do ponto de vista nutricional, gen\u00e9tico, de manejo ou sa\u00fade animal, a ocorr\u00eancia de eventos extremos tem tido reflexos pesados sobre a pecu\u00e1ria. \u201cNo caso da pecu\u00e1ria, a gente tem onda de calor e crise h\u00eddrica. Assim, se voc\u00ea suprime a vegeta\u00e7\u00e3o natural, voc\u00ea condena a pecu\u00e1ria. Ent\u00e3o ela est\u00e1 sendo mais custosa e&nbsp; condenada em termos de qualidade, produtividade, desenvolvimento, etc, porque esse impacto \u00e9 direto\u201d, pontua o professor Aquino.<\/p>\n\n\n\n<p>As altas temperaturas tamb\u00e9m favorecem a incid\u00eancia de parasitas como carrapatos e vermes, os quais desafiam a adaptabilidade dos rebanhos e afetam a produ\u00e7\u00e3o de leite e a reprodu\u00e7\u00e3o dos animais, uma vez que interferem nas quest\u00f5es hormonais. De acordo com Mariana Le\u00e3o, bolsista de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do N\u00facleo de Estudos em Sistemas de Produ\u00e7\u00e3o de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva da UFRGS, o produtor precisa buscar por solu\u00e7\u00f5es frente \u00e0s adversidades que envolvem os regimes de seca e os volumes expressivos de chuva. &#8220;Com as adversidades clim\u00e1ticas, o pecuarista deve ter um plano B para se adequar e achar alternativas alimentares em per\u00edodos onde a disponibilidade e qualidade das pastagens s\u00e3o insuficientes. A partir disso, se torna pertinente selecionar uma gen\u00e9tica mais adaptada, realizar um planejamento nutricional e reprodutivo de acordo com a disponibilidade de pasto e conforto t\u00e9rmico e manter a sanidade sob controle. \u00c9 importante lembrar: fazer an\u00e1lises de solo, regular a carga animal de acordo com a \u00e1rea e evitar o pastejo excessivo s\u00e3o algumas pr\u00e1ticas b\u00e1sicas que, quando aliadas, tornam poss\u00edvel preservar e produzir ao mesmo tempo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Para resguardar o pampa, a economia e o clima<\/h3>\n\n\n\n<p>O Pampa possui um ecossistema com uma biodiversidade t\u00e3o grande quanto seu potencial produtivo. A rela\u00e7\u00e3o entre esses fatores, por\u00e9m, n\u00e3o tem equilibrado a preserva\u00e7\u00e3o do bioma com o uso das terras para o agroneg\u00f3cio. Para o professor Francisco Aquino, a capacidade do pampa em suportar as mudan\u00e7as e se regenerar tem sido testada, e encontra-se em um estado cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu estou interpretando que a gente j\u00e1 passou dos limites naturais do bioma Pampa. O Pampa tem resili\u00eancia para temperaturas elevadas no per\u00edodo quente e temperaturas abaixo de zero na esta\u00e7\u00e3o fria. Mas ele tamb\u00e9m tem uma resili\u00eancia e n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande para a quest\u00e3o do regime h\u00eddrico. E quanto ao regime h\u00eddrico, as estiagens est\u00e3o bem mais prolongadas,&nbsp; levando ao limite&nbsp; de esgotamento no qual ainda \u00e9 poss\u00edvel de se reconstruir o bioma\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, uma das alternativas que se destacam tanto pela perspectiva de plantio e produ\u00e7\u00e3o quanto de sustentabilidade \u00e9 a Integra\u00e7\u00e3o Lavoura-Pecu\u00e1ria-Floresta (ILPF). Op\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica de monocultura, que representa o plantio de uma \u00fanica cultura agr\u00edcola e gera um maior desgaste do solo e o esgotamento de nutrientes, a ILPF, consiste na combina\u00e7\u00e3o das atividades de lavoura, cria\u00e7\u00e3o de animais e plantio de \u00e1rvores para extra\u00e7\u00e3o de madeira em uma mesma \u00e1rea. Dessa forma, o sistema de ILPF ajuda a otimizar o uso da terra e contribui para evitar processos de eros\u00e3o do solo, mitigar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e preservar a biodiversidade, al\u00e9m de diversificar a renda e aumentar a produtividade por hectare.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEssa possibilidade de combina\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente ben\u00e9fica e ela atende, primeiro, o ecossistema, a natureza, a biodiversidade, e, ao mesmo tempo, permite a cultura e a tradi\u00e7\u00e3o. As melhores pr\u00e1ticas combinadas nesse projeto t\u00eam resultado efetivo para o lado do clima, que tem resultado efetivo para a quest\u00e3o do bioma e da produ\u00e7\u00e3o.\u201d, pontua.<\/p>\n\n\n\n<p>Somado a isso, ele defende a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a conserva\u00e7\u00e3o do bioma, a partir de um plano de a\u00e7\u00e3o conjunto entre Brasil, Uruguai e Argentina. \u201cA gente tem um bioma que necessita de prote\u00e7\u00e3o urgente, mas essa gest\u00e3o n\u00e3o pode ser s\u00f3 brasileira, eu preciso preservar o Pampa como um todo. Ent\u00e3o, essa negocia\u00e7\u00e3o&nbsp; \u00e9, do meu ponto de vista, muito mais \u00e1gil se for proposta e encaminhada pelo parlamento do Mercosul\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquino aponta que atrav\u00e9s da ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas ecol\u00f3gicas e pol\u00edticas ambientais que garantam a preserva\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de nascentes, de margens e de intensa biodiversidade, ser\u00e1 poss\u00edvel reduzir os impactos no Pampa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsso vai repercutir numa chance de arrefecer os extremos de temperatura, a intensidade das ondas de calor, ou os extremos de precipita\u00e7\u00e3o, para que a gente consiga associar as atividades produtivas e econ\u00f4micas com a cultura e o bioma\u201d, complementa.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com caracter\u00edsticas de clima subtropical, esta\u00e7\u00f5es bem definidas, e regimes de chuva distribu\u00eddos ao longo dos meses, o Pampa v\u00eam lidando com uma s\u00e9rie de altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas at\u00edpicas e intensas nos \u00faltimos anos, como a eleva\u00e7\u00e3o da temperatura, o aumento da frequ\u00eancia de estiagens, tempestades severas e ocorr\u00eancia de granizo. 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