﻿{"id":27350,"date":"2025-07-16T19:16:26","date_gmt":"2025-07-16T22:16:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=27350"},"modified":"2025-07-16T19:16:28","modified_gmt":"2025-07-16T22:16:28","slug":"rua-de-duas-quadras-homenageia-controverso-cientista-do-seculo-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/07\/16\/rua-de-duas-quadras-homenageia-controverso-cientista-do-seculo-19\/","title":{"rendered":"Rua de duas quadras homenageia controverso cientista do s\u00e9culo 19"},"content":{"rendered":"\n<p>Rua, substantivo feminino. Local de passagem, via p\u00fablica urbana cercada de pr\u00e9dios, muros e jardins. Espa\u00e7o de tr\u00e2nsito de ve\u00edculos. Para Leminski, poeta brasileiro, a rua \u00e9 a principal parte da cidade. A partir das ruas que nascem as cidades, os conglomerados urbanos. A rua \u00e9 parte essencial da hist\u00f3ria urbana. Em Porto Alegre, uma rua pacata e silenciosa de duas quadras no interior do bairro Rio Branco, nomeada no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 pelo primeiro prefeito da capital ga\u00facha, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jos%C3%A9_Montaury\">Jos\u00e9 Montaury<\/a>, leva o nome de um dos cientistas respons\u00e1veis por difundir teorias positivistas, consideradas ultrapassadas por especialistas do Direito Criminal.<a href=\"https:\/\/muhm.org.br\/biografiasmedicas\/biografia\/1655\"> C\u00e9sar Lombroso,<\/a> nascido no in\u00edcio do s\u00e9culo 19, na cidade de Verona, na It\u00e1lia, foi um m\u00e9dico psiquiatra e cientista criminal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador difundiu pelo mundo <strong>a ideia de que existia um tipo ideal de criminoso<\/strong>, o criminoso-nato, porque entendia que a conduta de cada pessoa era determinada por suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas, fisiol\u00f3gicas e mentais. Assim, indiv\u00edduos com determinadas caracter\u00edsticas f\u00edsicas, por exemplo, estavam mais prop\u00edcios a cometer crimes do que quem n\u00e3o as tivesse. A teoria \u00e9 criticada por vertentes progressistas, por ser considerada racista, pois julga as pessoas pelos seus fen\u00f3tipos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas ideias, atualmente, s\u00e3o consideradas pseudoci\u00eancias, teorias ultrapassadas que n\u00e3o t\u00eam nenhum tipo de uso corrente hoje em dia, mas que tiveram uma influ\u00eancia muito grande no s\u00e9culo XIX, como na origem do que hoje conhecemos como antropologia criminal. Para Paulo Almeida, diretor executivo do <a href=\"https:\/\/iqc.org.br\/\">Instituto Quest\u00e3o da Ci\u00eancia<\/a>, \u201ctrata-se de uma leitura completamente equivocada e absurda da teoria da evolu\u00e7\u00e3o de Darwin, mas que teve grande influ\u00eancia em v\u00e1rias correntes\u201d. Lombroso \u00e9 um dos bra\u00e7os dessa vertente que buscava julgar comportamentos com base em caracter\u00edsticas f\u00edsicas, ou seja, em fen\u00f3tipos, assim como na frenologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Almeida tamb\u00e9m explica que essas teorias tentavam criar um modo de segregar, isolar e, de fato, discriminar pessoas que, segundo suas cren\u00e7as preconceituosas, apresentavam caracter\u00edsticas que as predisporiam ao crime. \u201cIsso \u00e9 \u00e9 um completo absurdo do ponto de vista do sistema penal e dos direitos humanos\u201d, argumenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista-1-1024x683.jpg\" alt=\"Placa da rua C\u00e9sar Lombroso, Porto Alegre. Foto: Isabelle Rieger\/HUmanista\" class=\"wp-image-27352\" style=\"width:745px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista-1-1020x680.jpg 1020w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista-1.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rua C\u00e9sar Lombroso, no bairro Rio Branco, tem duas quadras e maioria de endere\u00e7os residenciais. Foto: Isabelle Rieger\/Humanista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c0 \u00e9poca da denomina\u00e7\u00e3o da rua, estava em voga a corrente de pensamento positivista, que defendia o conhecimento cient\u00edfico como a \u00fanica forma de conhecimento v\u00e1lido, al\u00e9m de ditar&nbsp; que a sociedade deveria ser organizada com base em princ\u00edpios cient\u00edficos e racionais. Para a ci\u00eancia, o positivismo significava que a religi\u00e3o deixava de ser ouvida, para que o conhecimento cient\u00edfico pudesse ser pensado apenas em termos da racionalidade, explica Jo\u00e3o Ribeiro, ex-professor no Instituto de Artes e Comunica\u00e7\u00f5es da PUCCAMP, em seu <a href=\"https:\/\/d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net\/48468007\/O_Que_e_Positivismo_-_Joao_Ribeiro-libre.pdf?1472651553=&amp;response-content-disposition=inline%3B+filename%3DO_Que_e_Positivismo_Joao_Ribeiro.pdf&amp;Expires=1751955119&amp;Signature=OGgZraFP5mFeseCKMgy~vRUziqTy30A5MiLgl-3JM3CfSH~8kHPh3PycUAAZimb5FWn9z6HsrzcwfDiSWUoOIpY5BNBiylwVJEBrH3V2jgdsIpBnrTm8W9vtlmZpxu1S9yDSc-Dt~swV6dt7VY8RvozJudVYpIW6CXNIvMZ4lW0bL0uKvK61QxF4YYdyNsRogotgfyOOfBQB9V2~zqrb~Tm34Bt9PTarp1O8feepriEZrmafiR7qEAL1KFiAsa349folH2aE6k7aoGWIzHjD7zp2h7C~bJNVpC1h3o6yQQzfYwgFsjn1tsEfzpLxldKAyAgBdg38DEvrBvp5GpkozQ__&amp;Key-Pair-Id=APKAJLOHF5GGSLRBV4ZA\">livro <em>O que \u00e9 positivismo<\/em><\/a>. O precursor desta virada cient\u00edfica e filos\u00f3fica foi Augusto Comte. Em Porto Alegre, <a href=\"https:\/\/templopositivista.org.br\/\">a corrente cient\u00edfica teve terreno f\u00e9rtil, tendo at\u00e9 um templo positivista erguido em homenagem<\/a>, na Avenida Jo\u00e3o Pessoa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta mesma \u00e9poca, explica a co-presidenta do Instituto dos Arquitetos do Brasil J\u00e9ssica Neves, o racismo cient\u00edfico tamb\u00e9m estava no auge e, nas cidades, o que se via no per\u00edodo era uma forte tend\u00eancia ao higienismo. A pesquisadora explica que esse movimento propunha a reformula\u00e7\u00e3o das ruas, o deslocamento de pessoas, especialmente a retirada da popula\u00e7\u00e3o pobre das \u00e1reas centrais, e sua transfer\u00eancia para as periferias. Tamb\u00e9m envolvia a abertura de grandes avenidas, com aquele ideal de ostenta\u00e7\u00e3o. Eram os chamados planos de embelezamento, que ainda n\u00e3o eram os planos diretores, mas tinham essa fun\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e simb\u00f3lica. Por isso, de acordo com ela, faz sentido que esse nome tenha vindo \u00e0 superf\u00edcie na \u00e9poca de Montaury.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora explica que o higienismo, apesar de vinculado a quest\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica, tamb\u00e9m carregava forte preconceito social, associando pobreza a doen\u00e7as. No per\u00edodo p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, essa l\u00f3gica atingia especialmente a popula\u00e7\u00e3o negra.\u201cQuando trazemos isso para a quest\u00e3o \u00e9tnica, vemos como isso se aproxima do racismo\u201d, explica Neves.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As duas quadras da rua C\u00e9sar Lombroso s\u00e3o compostas por pr\u00e9dios baixos e casas. O com\u00e9rcio \u00e9 local, n\u00e3o tendo grandes filiais de estabelecimentos. Os carros que por l\u00e1 passam fazem o trajeto como forma de escape do tr\u00e2nsito da avenida Osvaldo Aranha e da rua Ramiro Barcelos, que se conectam \u00e0 rua. No momento em que a reportagem do <strong>Humanista<\/strong> visitou a C\u00e9sar Lombroso, o sil\u00eancio reinava entres fachadas dos apartamentos pintadas por cores pastel ou levemente desbotadas e as \u00e1rvores que circundam as cal\u00e7adas. Pessoas caminhando com cachorros, poucos transeuntes de fones de ouvido circulando e praticamente nenhum barulho pr\u00f3ximo ao hor\u00e1rio de pico s\u00e3o caracter\u00edsticas encontradas no espa\u00e7o. Ao lado do bairro Bom Fim, conhecido por ser historicamente alinhado a ideias progressistas, o nome da rua contrasta com as caracter\u00edsticas do espa\u00e7o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sara Alberti, s\u00f3cia-propriet\u00e1ria do estabelecimento Baunilha Cupcakes, loja de doces entre as ruas Francisco Ferrer e C\u00e9sar Lombroso, disse n\u00e3o ter pensado sobre o nome da rua at\u00e9 o questionamento feito pela reportagem. Alberti tem seu estabelecimento h\u00e1 15 anos e mora na rua Jo\u00e3o Telles, nomeada ap\u00f3s um militar de alta patente que teve papel pol\u00edtico de destaque na proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, no bairro Bom Fim, mas confessa que tamb\u00e9m nunca procurou a origem do nome de sua rua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A propriet\u00e1ria do estabelecimento, ent\u00e3o, passa seus dias pisando em ruas cuja hist\u00f3ria desconhece. Na sua cidade natal, no entanto, o nome das ruas tem um som diferente. O pai de Sara, <a href=\"https:\/\/maps.app.goo.gl\/tN7fNYfbsSK1B7Zn9\">Claudio Henrique Alberti, deu nome a uma rua em Os\u00f3rio (RS)<\/a>, pr\u00f3ximo \u00e0 Estrada do Mar. \u201cMeu pai foi um engenheiro no interior, a rua tem o nome dele porque ele criou esse loteamento\u201d, comenta.Para a lojista, o nome da personalidade n\u00e3o importa tanto quanto o uso que as pessoas fazem da rua. Assim, a nomenclatura do espa\u00e7o \u00e9 ressignificada \u00e0 medida em que outras pessoas ocupam o espa\u00e7o urbano. Sobre isso, Neves explica que nomear as ruas significa fazer parte da mem\u00f3ria coletiva na cidade. \u201cQuando a gente d\u00e1 nome a alguma coisa, \u00e9 uma forma de refer\u00eancia aquele lugar na espacialidade. Dar nome \u00e0s coisas \u00e9 se apropriar delas\u201d, comenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O vendedor Ari Trindade Boteleiro, que trabalha aqui h\u00e1 oito anos em uma loja de molduras, n\u00e3o corrobora com esta opini\u00e3o. A loja em que Boteleiro trabalha tem fachada marrom claro e apresenta diversas molduras na entrada. Ela \u00e9 um estabelecimento comercial que funciona em uma constru\u00e7\u00e3o de casa. O morador da Lomba do Pinheiro diz que n\u00e3o se incomoda com o nome da rua. Para ele, \u201cn\u00e3o faz nenhuma diferen\u00e7a o nome da rua em que eu estou\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 compartilhada com a costureira Vera Mar, que trabalha h\u00e1 15 anos tamb\u00e9m na rua, em uma casa com fachada azul e grade branca, onde \u00e9 poss\u00edvel fazer a manufatura com a porta aberta para a rua. Quem passa por l\u00e1 encontra Mar sentada em um banco com a m\u00e1quina de costura na frente. Ela n\u00e3o faz ideia de quem foi C\u00e9sar Lombroso e, se depender de sua vontade, tamb\u00e9m n\u00e3o saber\u00e1. J\u00e1 Jos\u00e9 Gon\u00e7alves, morador da rua h\u00e1 50 anos e vizinho de Vera, tem uma vaga lembran\u00e7a de quem foi o cientista, mas n\u00e3o conseguia lembrar o que ele defendia. Para ele, o nome da rua n\u00e3o faz diferen\u00e7a em sua vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A rua C\u00e9sar Lombroso tamb\u00e9m faz esquina com a rua Giordano Bruno, um cientista condenado pela inquisi\u00e7\u00e3o por defender que o Sol \u00e9 uma estrela. A uni\u00e3o dos dois cientistas, ent\u00e3o, tamb\u00e9m faz parte dos cruzamentos do bairro. Para Almeida, a uni\u00e3o das ruas \u00e9 c\u00f4mica. \u201cEsse fen\u00f4meno \u00e9 provavelmente aleat\u00f3rio, mas \u00e9 curioso ver os dois cientistas fazendo esquinas\u201d, ri.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor-executivo mora em S\u00e3o Paulo, a 500 metros da rua <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/C%C3%A2ndido_Mota_Filho\">C\u00e2ndido Motta Filho<\/a>, um jurista brasileiro e respons\u00e1vel por difundir as ideias lombrosianas no Brasil. Embora Almeida n\u00e3o concorde com as teorias representadas, ainda sente o al\u00edvio em saber que existe uma representa\u00e7\u00e3o de cientistas colocadas em placas de rua. \u201cA representa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de cientistas \u00e9 uma realidade t\u00e3o pequena no Brasil, que eu n\u00e3o sei nem se d\u00e1 para achar t\u00e3o ruim assim\u201d, desabafa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-27353\" style=\"width:745px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista1-1020x680.jpg 1020w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista1.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A Rua C\u00e9sar Lombroso tem predomin\u00e2ncia de pr\u00e9dios baixos e casas residenciais. Ela tamb\u00e9m serve como ponto de escoamento de tr\u00e2nsito das ruas movimentadas que a circundam. Foto: Isabelle Rieger\/Humanista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Denomina\u00e7\u00f5es dos logradouros em Porto Alegre s\u00e3o atribu\u00eddos por projetos de lei, em sua maioria<\/h3>\n\n\n\n<p>De maneira geral, o Brasil possui uma vasta quantidade de vias p\u00fablicas: s\u00e3o mais de 13,8 milh\u00f5es de logradouros, entre ruas, avenidas, pra\u00e7as e outros espa\u00e7os. Segundo o <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/40393-noticia-cnefe\">Censo de 2022, cerca de 2,7 milh\u00f5es dessas vias ainda n\u00e3o possuem nome<\/a>. A mesma pesquisa tamb\u00e9m apontou a exist\u00eancia de 106,8 milh\u00f5es de endere\u00e7os em todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os nomes mais frequentes para ruas, destacam-se &#8220;Rua Dois&#8221; e &#8220;Rua Tr\u00eas&#8221;, seguidos por designa\u00e7\u00f5es religiosas como &#8220;S\u00e3o Jos\u00e9&#8221; e &#8220;Santo Ant\u00f4nio&#8221;. O Censo tamb\u00e9m revelou que cerca de 24,3 milh\u00f5es de endere\u00e7os est\u00e3o localizados em vias sem n\u00famero. Al\u00e9m de nomes de pessoas e santos, \u00e9 comum encontrar ruas que homenageiam datas comemorativas ou personalidades hist\u00f3ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Porto Alegre, h\u00e1 aproximadamente 10 mil logradouros, entre ruas, avenidas, pra\u00e7as e largos, muitos dos quais homenageiam figuras relevantes da pol\u00edtica, religi\u00e3o, ci\u00eancia e cultura, como Get\u00falio Vargas, Irm\u00e3o Jos\u00e9 Ot\u00e3o, Castro Alves, Padre Landell de Moura e Elis Regina. Tamb\u00e9m s\u00e3o comuns nomes que remetem a marcos hist\u00f3ricos (como Sete de Setembro, Quinze de Novembro e Vinte e Quatro de Maio) ou a eventos e locais simb\u00f3licos, como o Parque Farroupilha, conhecido como Parque da Reden\u00e7\u00e3o e o Largo Zumbi dos Palmares.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha dos nomes das ruas \u00e9 uma atribui\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara Municipal. Em Porto Alegre, a Lei Org\u00e2nica estabelece que cabe ao Munic\u00edpio criar, organizar e extinguir distritos e bairros, mediante consulta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e em conformidade com a legisla\u00e7\u00e3o vigente. A denomina\u00e7\u00e3o de vias, logradouros e equipamentos p\u00fablicos deve ser definida por lei, com iniciativa do prefeito ou dos vereadores, e pode abranger categorias como estrada, avenida, rua, pra\u00e7a, largo, r\u00f3tula, travessa, servid\u00e3o, parque, esplanada, espa\u00e7o ou mirante.<\/p>\n\n\n\n<p>Logradouros e espa\u00e7os p\u00fablicos em Porto Alegre podem receber nomes de pessoas, datas, fatos hist\u00f3ricos ou refer\u00eancias geogr\u00e1ficas reconhecidas pela comunidade. Quando se trata de homenagens a pessoas, \u00e9 necess\u00e1rio observar uma propor\u00e7\u00e3o entre os sexos com no m\u00ednimo 30% e no m\u00e1ximo 70% para cada g\u00eanero, e \u00e9 vedada a repeti\u00e7\u00e3o de nomes ou a homenagem a pessoas vivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta parte da lei ecoa uma observa\u00e7\u00e3o de J\u00e9ssica Neves, co-presidenta do IAB-RS, que observa que, em Porto Alegre, existem \u201cpouqu\u00edssimas ruas que homenageiam mulheres, e a maioria delas presta homenagem a figuras ligadas a partes opressoras da sociedade\u201d. A pesquisadora complementa dizendo que: \u201cmuitos dos homenageados foram antigos escravocratas ou militares que exerceram pap\u00e9is cru\u00e9is na hist\u00f3ria. Ou seja, homenageia-se muito pouco o lado que foi oprimido ao longo do tempo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, cidad\u00e3os tamb\u00e9m podem sugerir nomes para ruas, indicando personalidades que tenham relev\u00e2ncia para determinada comunidade. As propostas devem ser encaminhadas ao Legislativo, que pode transform\u00e1-las em projetos de lei para oficializar a nova denomina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Rua C\u00e9sar Lombroso, no entanto, n\u00e3o teve sua nomea\u00e7\u00e3o aprovada por um projeto de lei, mas sim por um decreto assinado pelo primeiro prefeito de Porto Alegre, o intendente Montaury. At\u00e9 agora, n\u00e3o h\u00e1 projetos de lei que tentem mudar o nome da rua, ou qualquer press\u00e3o popular para isso. De acordo com o advogado e vereador de Porto Alegre Pedro Ruas (PSOL), \u201c\u00e9 ruim para Porto Alegre ter o nome do C\u00e9sar Lombroso, mundialmente conhecido como algu\u00e9m que tem uma teoria absurda, que foi aceita no s\u00e9culo XIX por parte da comunidade jur\u00eddico-penal\u201d. Ruas se refere \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o do tipo ideal do criminoso, o homem lombrosiano, nomenclatura que j\u00e1 foi at\u00e9 <a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/politica\/2022\/9\/6\/video-roberto-jefferson-chama-xando-de-sujeito-lombrosiano-desafia-bolsonaro-enfrenta-lo-122794.html\">mote de rixa pol\u00edtica entre Roberto Jefferson e o ministro Alexandre de Moraes<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"689\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista2-1024x689.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-27354\" style=\"width:745px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista2-1024x689.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista2-300x202.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista2-768x517.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Foto_-Isabelle-Rieger_Humanista2.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ficha catalogr\u00e1fica na biblioteca da C\u00e2mara Municipal de Vereadores de Porto Alegre que indica que o nome da rua foi criado por meio de decreto do prefeito da \u00e9poca e n\u00e3o por projeto de lei. Foto: Isabelle Rieger\/Humanista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ruas tamb\u00e9m entende que, mesmo discordando completamente das ideias de Lombroso, e definindo que Porto Alegre passa a ser um \u201cvexame mundial\u201d por permitir que esse nome seja veiculado como de rua, tamb\u00e9m afirma que, na cidade, h\u00e1 nomes de ruas piores. O vereador traz o exemplo da antiga Avenida da Legalidade e da Democracia, atual Avenida Castelo Branco, que <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rs\/rio-grande-do-sul\/noticia\/justica-considera-lei-invalida-e-avenida-da-legalidade-volta-a-se-chamar-castelo-branco-em-porto-alegre.ghtml\">teve seu projeto de lei&nbsp; de mudan\u00e7a de nome indeferido pela Justi\u00e7a em 2018<\/a>. A deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) tamb\u00e9m redigiu o documento.&nbsp; Para o vereador, \u00e9 inadmiss\u00edvel que existam tantos nomes vinculados \u00e0 ditadura como espa\u00e7os p\u00fablicos de Porto Alegre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ruas exerce tamb\u00e9m sua atividade pol\u00edtica a partir da participa\u00e7\u00e3o no movimento de desmonumentaliza\u00e7\u00e3o, que tenta retirar dos espa\u00e7os p\u00fablicis os nomes de pessoas que agiram contra direitos humanos, ou defenderam o apartheid, ou foram racistas. No entanto, sua consci\u00eancia do momento \u00e9 clara: a pauta da mudan\u00e7a de nomes de ruas, neste momento, n\u00e3o \u00e9 prioridade no seu mandato. Isso acontece por causa da composi\u00e7\u00e3o do corpo de vereadores da C\u00e2mara, que t\u00eam um alinhamento maior para o espectro pol\u00edtico oposto de Ruas, o que, para ele, poderia reverter justamente no efeito contr\u00e1rio: mais nomes de ruas de \u00eddolos da extrema-direita.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rua, substantivo feminino. Local de passagem, via p\u00fablica urbana cercada de pr\u00e9dios, muros e jardins. Espa\u00e7o de tr\u00e2nsito de ve\u00edculos. Para Leminski, poeta brasileiro, a rua \u00e9 a principal parte da cidade. A partir das ruas que nascem as cidades, os conglomerados urbanos. A rua \u00e9 parte essencial da hist\u00f3ria urbana. Em Porto Alegre, uma &#8230; <a title=\"Rua de duas quadras homenageia controverso cientista do s\u00e9culo 19\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/07\/16\/rua-de-duas-quadras-homenageia-controverso-cientista-do-seculo-19\/\" aria-label=\"More on Rua de duas quadras homenageia controverso cientista do s\u00e9culo 19\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":27352,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[55,746],"tags":[193,298,329,23,115],"class_list":["post-27350","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-memoria","tag-ciencia","tag-cultura","tag-politica","tag-porto-alegre","tag-racismo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27350","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27350"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27350\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27359,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27350\/revisions\/27359"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27352"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27350"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27350"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27350"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}