﻿{"id":27361,"date":"2025-07-23T12:12:16","date_gmt":"2025-07-23T15:12:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=27361"},"modified":"2025-07-23T12:33:03","modified_gmt":"2025-07-23T15:33:03","slug":"quase-dois-tercos-dos-municipios-gauchos-carecem-de-psiquiatras-do-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/07\/23\/quase-dois-tercos-dos-municipios-gauchos-carecem-de-psiquiatras-do-sus\/","title":{"rendered":"Quase dois ter\u00e7os dos munic\u00edpios ga\u00fachos carecem de psiquiatras do SUS"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"578\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/CAPS-Ivoti-1-1024x578.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-27370\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/CAPS-Ivoti-1-1024x578.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/CAPS-Ivoti-1-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/CAPS-Ivoti-1-768x434.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/CAPS-Ivoti-1-1536x867.png 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/CAPS-Ivoti-1-1500x847.png 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/CAPS-Ivoti-1.png 1596w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Os Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPs) s\u00e3o a frente mais conhecida dentro da rede de aten\u00e7\u00e3o psicossocial (RAPs) | Foto: Prefeitura de Ivoti\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Dados dispon\u00edveis no DataSUS indicam que 68% dos munic\u00edpios do Rio Grande do Sul n\u00e3o t\u00eam psiquiatras vinculados ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Com exce\u00e7\u00e3o dos grandes centros, a maior parte dos munic\u00edpios n\u00e3o tem mais de um profissional cadastrado oficialmente. Ao todo, o RS conta com 1.105 psiquiatras distribu\u00eddos em 155 munic\u00edpios. Deste grupo, 449 \u2013 cerca de 40% \u2013 est\u00e3o em Porto Alegre, ainda que a capital detenha apenas 12% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a promulga\u00e7\u00e3o da lei <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/leis_2001\/l10216.htm\">10216\/2001<\/a>, o Brasil passou pelo movimento que ficou conhecido como Reforma Psiqui\u00e1trica. T\u00e9cnicas terap\u00eauticas desumanas deixaram de ser aplicadas e os tratamentos psiqui\u00e1tricos foram reformulados, dando espa\u00e7o para a Rede de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (RAPS). Embora os Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPS), que fazem parte da estrutura voltada \u00e0 sa\u00fade mental, tenham se tornado mais comuns, no Rio Grande do Sul a distribui\u00e7\u00e3o de profissionais \u00e9 desproporcional.<\/p>\n\n\n\n<p>O <strong>Humanista<\/strong> ouviu especialistas, profissionais da sa\u00fade e quem busca atendimento atrav\u00e9s deste sistema, para compreender o que levou ao cen\u00e1rio atual.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela concep\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e mais difundida, a psicologia foca em compreender os processos mentais, emocionais e comportamentais humanos, construindo diagn\u00f3sticos somados a outros fatores presentes na vida do paciente. A psiquiatria, que \u00e9 uma especializa\u00e7\u00e3o da medicina, tamb\u00e9m deve monitorar esses padr\u00f5es, al\u00e9m de quest\u00f5es neurobiol\u00f3gicas para compreender a totalidade do cen\u00e1rio vivido por quem relata.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, essas defini\u00e7\u00f5es n\u00e3o condizem totalmente com a realidade. \u201c\u00c9 mais f\u00e1cil determinar a linha entre aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e aten\u00e7\u00e3o especializada, que o psic\u00f3logo est\u00e1 inclu\u00eddo, do que tratar desses limites\u201d, comenta Fernanda Baeza, psiquiatra do Hospital de Cl\u00ednicas de Porto Alegre e especialista em cobertura da sa\u00fade mental.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pela perspectiva da especialista, a avalia\u00e7\u00e3o de risco de exposi\u00e7\u00e3o, risco de suic\u00eddio ou de dano ao patrim\u00f4nio servem como bons indicadores para iniciar uma a\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica. \u201cA perda de autonomia, quando o indiv\u00edduo n\u00e3o pode se responsabilizar por si, tamb\u00e9m \u00e9 um bom limite\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Como era antes da reforma?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O RS possui um contexto \u00e0 parte quando se trata dos movimentos voltados \u00e0 sa\u00fade mental. Com a <a href=\"https:\/\/www.al.rs.gov.br\/legis\/M010\/M0100099.ASP?Hid_IDNorma=15281\">lei estadual 9.716\/1992<\/a>, o Estado sancionou a primeira lei antimanicomial da Am\u00e9rica Latina, cerca de 10 anos antes do marco nacional que estabeleceu a reforma psiqui\u00e1trica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a regulamenta\u00e7\u00e3o, as mudan\u00e7as foram graduais e, por muitas vezes, lentas, como demonstrado pelo intervalo de 24 anos entre a altera\u00e7\u00e3o do regimento psiqui\u00e1trico e a <a href=\"https:\/\/www.correiodopovo.com.br\/not%C3%ADcias\/sa%C3%BAde\/%C3%BAltimo-paciente-deixa-o-hospital-psiqui%C3%A1trico-s%C3%A3o-pedro-em-porto-alegre-1.1618258\">sa\u00edda do \u00faltimo paciente-residente do S\u00e3o Pedro<\/a>. Ainda que seja um avan\u00e7o, a escolha dos hospitais como principal forma de tratamento psiqui\u00e1trico \u00e9 apenas um dos aspectos da reforma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que a priorizamos \u00e9 uma rede de servi\u00e7os aberta \u00e0 comunidade, sem a centralidade do interna\u00e7\u00e3o hospitalar, mas atrav\u00e9s da rede aten\u00e7\u00e3o psicossocial, desde a aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica at\u00e9 os CAPS\u201d, aponta a professora <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5885751757160728\">Vera Pasini<\/a>, do departamento de Psican\u00e1lise e Psicopatologia da UFRGS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Grande propor\u00e7\u00e3o dos psiquiatras da rede p\u00fablica atuam nos CAPS, os quais fazem parte da Rede de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial, que tamb\u00e9m oferecem servi\u00e7os nas Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBS), hospitais e servi\u00e7os de urg\u00eancia. Nem sempre esses equipamentos de sa\u00fade conseguem suprir as necessidades e alcan\u00e7ar toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na tentativa de ampliar essa oferta, a <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2011-2014\/2011\/decreto\/d7508.htm\">lei federal 7508\/2011<\/a> promoveu a cria\u00e7\u00e3o de sub-regi\u00f5es de sa\u00fade nos estados. A medida visava criar estruturas mais completas no interior, evitando que atendimentos mais complexos precisem ser repassados para as capitais e regi\u00f5es metropolitanas. No caso do RS, <a href=\"https:\/\/datawrapper.dwcdn.net\/K1ydL\/1\/\">s\u00e3o 30 divis\u00f5es<\/a>, mas elas n\u00e3o conseguiram avan\u00e7ar a ponto de terem autonomia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAqui no RS, isso ficou no papel. A maior parte dessas regi\u00f5es n\u00e3o t\u00eam capacidade m\u00ednima de resolver problemas de assist\u00eancia especializada e continuam encaminhando as demandas para a regi\u00e3o metropolitana\u201d, comenta o professor <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4836670181191443\">Alcides Miranda<\/a>, docente da UFRGS com especializa\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Coletiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O mapa da desaten\u00e7\u00e3o psicossocial<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<iframe title=\"[Psiquiatras por munic\u00edpio]\" aria-label=\"map\" id=\"datawrapper-chart-k36HE\" src=\"https:\/\/datawrapper.dwcdn.net\/k36HE\/3\/\" scrolling=\"no\" frameborder=\"0\" style=\"width: 0; min-width: 100% !important; border: none;\" height=\"766\" data-external=\"1\"><\/iframe><script type=\"text\/javascript\">!function(){\"use strict\";window.addEventListener(\"message\",function(a){if(void 0!==a.data[\"datawrapper-height\"]){var e=document.querySelectorAll(\"iframe\");for(var t in a.data[\"datawrapper-height\"])for(var r,i=0;r=e[i];i++)if(r.contentWindow===a.source){var d=a.data[\"datawrapper-height\"][t]+\"px\";r.style.height=d}}})}();<\/script>\n\n\n\n<p>Enquanto a capital ga\u00facha conta com 449 psiquiatras, quase metade dos 1.105 profissionais dispon\u00edveis na rede p\u00fablica, cerca de um ter\u00e7o dos munic\u00edpios do interior n\u00e3o tem profissionais diretamente vinculados. Mesmo p\u00f3los regionais como Pelotas, Caxias e Santa Maria contam com apenas um d\u00e9cimo do contingente de psiquiatras de Porto Alegre. Na Regi\u00e3o Metropolitana como um todo, que re\u00fane 4.167.025&nbsp; dos 11.229.915 de habitantes do Rio Grande do Sul, o n\u00famero total de m\u00e9dicos focados na aten\u00e7\u00e3o psicossocial \u00e9 de 642, ou aproximadamente 58% do total.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o de psiquiatras na rede p\u00fablica ganha destaque na regi\u00e3o da Fronteira Oeste. Com munic\u00edpios extensos em \u00e1rea, <strong>a sub-regi\u00e3o possui popula\u00e7\u00e3o aproximada de 443.822 mil habitantes, mas tem apenas 8 profissionais fixos cadastrados.<\/strong> Em Uruguaiana, s\u00e3o dois psiquiatras fixos atendendo no CAPs da cidade, que fica junto ao Posto de Sa\u00fade, no segundo andar do pr\u00e9dio.<br><br>O analista de redes Jureci Ara\u00fajo \u00e9 uruguaianense e demorou tr\u00eas meses para conseguir uma consulta para a m\u00e3e no CAPs local, diagnosticada recentemente com Alzheimer. A idosa, por ter problemas de mobilidade, n\u00e3o consegue acessar o segundo andar do posto de sa\u00fade, o que motivou Jureci a solicitar uma consulta domiciliar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA minha m\u00e3e est\u00e1 num estado meio debilitado, precisando de um atendimento emergencial. Eu n\u00e3o consigo levar ela, j\u00e1 que n\u00e3o tem acessibilidade para entrar dentro da sala do CAPS. Eu fico praticamente de m\u00e3os atadas\u201d, comenta Jureci.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"461\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Jureci-Araujo-Arquivo-Pessoal-1024x461.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-27363\" style=\"width:745px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Jureci-Araujo-Arquivo-Pessoal-1024x461.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Jureci-Araujo-Arquivo-Pessoal-300x135.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Jureci-Araujo-Arquivo-Pessoal-768x346.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Jureci-Araujo-Arquivo-Pessoal.jpeg 1032w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Neuraci Romeiro dos Santos, chamada de \u201cNora\u201d, e o filho Jureci Ara\u00fajo, que auxilia no tratamento da m\u00e3e. | Foto: Jureci Ara\u00fajo\/Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A idosa sofreu um AVC isqu\u00eamico no in\u00edcio da pandemia de Covid-19, o que motivou o uso de medicamentos cont\u00ednuos para conter as sequelas, mas que n\u00e3o consideravam os sintomas do Alzheimer, que surgiu anos depois. Ap\u00f3s reiteradas tentativas, o filho conseguiu uma nova receita com as dosagens adequadas para o quadro vivido pela m\u00e3e.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><strong>Fragilidades do sistema de informa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h1>\n\n\n\n<p>A unidade do CAPS de Uruguaiana tem dois psiquiatras que aparecem nos registros do DataSus, por\u00e9m, o munic\u00edpio conta com mais profissionais. \u201cN\u00f3s temos, pelo menos, 4 psiquiatras que prestam atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e que residem na cidade. Tamb\u00e9m temos um psiquiatra infantil que vem 1 vez ao m\u00eas prestar atendimento no munic\u00edpio via SUS e particular\u201d, indicou Elisa Rosa, coordenadora da sa\u00fade mental de Uruguaiana. Os tr\u00eas profissionais que n\u00e3o constam nos dados e s\u00e3o citados por Elisa n\u00e3o possuem contrata\u00e7\u00e3o definitiva pelo munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme indicado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, existem duas formas de mapear a presen\u00e7a de profissionais de sa\u00fade atrav\u00e9s do DataSus. O mapa acima utiliza a distribui\u00e7\u00e3o de \u201cIndiv\u00edduos\u201d, que contabiliza a quantidade de profissionais \u00fanicos, identificados por CPF, independentemente do n\u00famero de v\u00ednculos que mant\u00eam no sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro tipo de sele\u00e7\u00e3o, classificado como \u201cOcupa\u00e7\u00f5es\u201d, considera o total de v\u00ednculos registrados para determinada atividade. Neste cen\u00e1rio, um mesmo psiquiatra com tr\u00eas v\u00ednculos distintos, sendo contabilizado uma vez como indiv\u00edduo e tr\u00eas vezes nas ocupa\u00e7\u00f5es, caso esteja executando atividades em tr\u00eas locais diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio pode parecer mais otimista, j\u00e1 que o RS conta com 2908 ocupa\u00e7\u00f5es de psiquiatria, mas os dados tamb\u00e9m enganam. A regulamenta\u00e7\u00e3o indica que <a href=\"https:\/\/portalsinan.saude.gov.br\/images\/documentos\/Legislacoes\/Portaria_Consolidacao_1_28_SETEMBRO_2017.pdf\">mesmo os terceirizados devem ser cadastrados<\/a>, ficando sob a responsabilidade dos estabelecimentos de sa\u00fade adicionar os novos profissionais e desvincular os antigos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse modelo de v\u00ednculo \u00e9 comum no interior do estado, principalmente em cidades pequenas. \u201cOs munic\u00edpios que tem l\u00e1 seus 6 mil habitantes e querem contratar algu\u00e9m para a \u00e1rea de sa\u00fade mental, querem ter um psiquiatra. V\u00e3o contratar um? N\u00e3o v\u00e3o. Eles v\u00e3o buscar o servi\u00e7o de uma cooperativa m\u00e9dica, que vai fornecer esse profissional, pagando X por hora ou X por paciente atendido\u201d, comentou a Dra. Fernanda Baeza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de suprir a necessidade da popula\u00e7\u00e3o naquele momento, essa modalidade n\u00e3o garante estabilidade do profissional. No caso da RAPs, a psiquiatria n\u00e3o consegue proporcionar o devido acompanhamento aos pacientes. \u201cUm dia cheguei l\u00e1 com o meu colega e recebemos a not\u00edcia de que a prefeitura tinha trocado a cooperativa. E a\u00ed, tinha outro trabalhando em nosso lugar\u201d, comentou a psiquiatra, que j\u00e1 atuou no SUS atrav\u00e9s deste tipo de contrata\u00e7\u00e3o em alguns munic\u00edpios ga\u00fachos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVoc\u00ea acha que as cooperativas ou cons\u00f3rcios que v\u00e3o trocar os profissionais frequentemente v\u00e3o fazer todas mudan\u00e7as cadastros? N\u00e3o v\u00e3o. Corre risco daquele profissional estar ocupando aquela vaga e aparecer em outras que n\u00e3o est\u00e3o mais\u201d, completou.<br><br>Essa din\u00e2mica n\u00e3o est\u00e1 restrita \u00e0 RAPs. A divis\u00e3o de sub-regi\u00f5es de sa\u00fade, que deveria capacitar o interior a gerenciar as pr\u00f3prias demandas de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e especializada, acaba ficando na teoria. \u201cA maior parte do valor \u00e9 custeio, que \u00e9 pagar o que j\u00e1 est\u00e1 funcionando, sendo que deveria ser dirigido para inova\u00e7\u00f5es, criando servi\u00e7os, a partir de uma an\u00e1lise sobre necessidades sociais e sa\u00fade\u201d, comenta o professor Alcides Miranda.<br><br>O docente critica a forma como as emendas parlamentares, individuais ou coletivas, acabam direcionando as verbas de sa\u00fade de forma incoerente. &#8220;Muitas vezes o parlamentar faz uma emenda para um projeto sem entender no que aquilo afeta a longo prazo. Dever\u00edamos pensar sobre: \u2018<em>De que as pessoas est\u00e3o morrendo? De que as pessoas est\u00e3o adoecendo? Quais s\u00e3o as principais necessidades em termos de servi\u00e7os?<\/em>\u2019, falta a compreens\u00e3o de que quando um servi\u00e7o \u00e9 criado, \u00e9 um investimento, mas depois vira custeio\u201d, apontou. Entre as consequ\u00eancias deste tipo de gerenciamento, tamb\u00e9m estariam as crises c\u00edclicas que afligem a capital e outros grandes centros do estado.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><strong>Erros de c\u00e1lculo<\/strong><\/h1>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio deste ano, uma investiga\u00e7\u00e3o realizada pela RBS TV verificou uma irregularidade na aplica\u00e7\u00e3o de verba na sa\u00fade do RS, de responsabilidade do governo do estado. A constitui\u00e7\u00e3o fixa que 12% dos repasses feitos pela uni\u00e3o devem ser aplicados na sa\u00fade por ano, por\u00e9m, <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rs\/rio-grande-do-sul\/noticia\/2025\/01\/15\/governo-do-rs-teria-deixado-de-investir-cerca-de-r-13-bilhao-em-saude-diz-tribunal-de-contas-do-estado.ghtml\">o RS estava incluindo despesas indevidas neste c\u00e1lculo (aposentadorias, por exemplo)<\/a>. Na pr\u00e1tica, algo pr\u00f3ximo de 9% estava sendo investido anualmente, numa pr\u00e1tica que j\u00e1 ocorre h\u00e1 algumas gest\u00f5es do executivo.<br><br>Com o intuito de evitar penaliza\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico (MP), o estado prepara um acordo para ajustar em um per\u00edodo de 15 anos o investimento para que atinja os 12% previstos. \u201cCom essa verba, \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7ar a dotar as regi\u00f5es para resolver as quest\u00f5es dentro dos pr\u00f3prios territ\u00f3rios\u201d, comentou o professor Alcides Miranda.<br><br>Esse investimento, mesmo quando proposto para outras especialidades, tamb\u00e9m \u00e9 visto como um ganho para a rede de assist\u00eancia psicossocial. \u201cUma aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria forte \u00e9 mais importante para a sa\u00fade mental dos sujeitos do que a presen\u00e7a de psiquiatras em cada local\u201d, indicou a psiquiatra Fernanda Baeza.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a coordenadora Elisa Rosa, al\u00e9m do atendimento voltado \u00e0 aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, o interior \u00e9 pouco atrativo para a perman\u00eancia de m\u00e9dicos. \u201cIsso envolve melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, remunera\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com a realidade de mercado, possibilidades de educa\u00e7\u00e3o continuada e supervis\u00e3o cl\u00ednica e estruturas de cuidado mais integradas\u201d.<br><br>A psic\u00f3loga e docente Vera Pasini frisa a necessidade de ampliar as possibilidades oferecidas. \u201cPrecisamos fortalecer a rede para que seja um cuidado em equipe multiprofissional, com diversas \u00e1reas da sa\u00fade prim\u00e1ria. N\u00e3o podemos lidar como se a medica\u00e7\u00e3o ou interna\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica fossem as \u00fanicas respostas\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, pondera: \u201cAqui, tentamos seguir dando espa\u00e7o para a conviv\u00eancia com a loucura\u201d.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\"><strong>NOTA DO MINIST\u00c9RIO DA SA\u00daDE SOBRE A\u00c7\u00d5ES NO RAPS<\/strong><br><br>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade desenvolve a\u00e7\u00f5es estruturantes para ampliar e qualificar o cuidado em sa\u00fade mental na rede p\u00fablica. Entre elas, destaca-se a Rede de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (RAPS), que tem como objetivo oferecer cuidado integral a pessoas com transtornos mentais e com problemas decorrentes do uso de \u00e1lcool e outras drogas, al\u00e9m de apoio \u00e0s suas fam\u00edlias.  Tamb\u00e9m s\u00e3o promovidas estrat\u00e9gias de educa\u00e7\u00e3o permanente e teleconsultoria para apoiar os profissionais da aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e especializada, ampliando a cobertura e qualificando o atendimento, mesmo em locais com escassez de especialistas como psiquiatras. Outra iniciativa da pasta \u00e9 o projeto N\u00f3s na Rede, lan\u00e7ado em parceria com a Fiocruz Bras\u00edlia. O projeto, em fase de implementa\u00e7\u00e3o, visa qualificar cerca de 42 mil profissionais da RAPS, por meio de um curso de 120 horas. O foco \u00e9 fortalecer o acolhimento, capacitar equipes em territ\u00f3rio e promover pr\u00e1ticas inovadoras com redu\u00e7\u00e3o de danos.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dados dispon\u00edveis no DataSUS indicam que 68% dos munic\u00edpios do Rio Grande do Sul n\u00e3o t\u00eam psiquiatras vinculados ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Com exce\u00e7\u00e3o dos grandes centros, a maior parte dos munic\u00edpios n\u00e3o tem mais de um profissional cadastrado oficialmente. Ao todo, o RS conta com 1.105 psiquiatras distribu\u00eddos em 155 munic\u00edpios. Deste &#8230; <a title=\"Quase dois ter\u00e7os dos munic\u00edpios ga\u00fachos carecem de psiquiatras do SUS\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/07\/23\/quase-dois-tercos-dos-municipios-gauchos-carecem-de-psiquiatras-do-sus\/\" aria-label=\"More on Quase dois ter\u00e7os dos munic\u00edpios ga\u00fachos carecem de psiquiatras do SUS\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":27362,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[50,49],"tags":[106,810,812,23,813,130,94,811],"class_list":["post-27361","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude","category-vida","tag-caps","tag-datasus","tag-ministerio-da-saude","tag-porto-alegre","tag-rede-de-atencao-psicossocial","tag-rio-grande-do-sul","tag-saude-mental","tag-uruguaiana"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27361"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27361\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27371,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27361\/revisions\/27371"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}