﻿{"id":27884,"date":"2025-09-29T17:13:07","date_gmt":"2025-09-29T20:13:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=27884"},"modified":"2025-09-29T17:22:58","modified_gmt":"2025-09-29T20:22:58","slug":"morte-de-homem-pela-pm-apos-surto-expoe-falhas-do-sistema-policial-diz-especialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/09\/29\/morte-de-homem-pela-pm-apos-surto-expoe-falhas-do-sistema-policial-diz-especialista\/","title":{"rendered":"Morte de homem pela PM ap\u00f3s surto exp\u00f5e falhas do sistema policial, diz especialista"},"content":{"rendered":"\n<p>Era 15 de setembro quando um homem de 29 anos com esquizofrenia morreu ap\u00f3s ser <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rs\/rio-grande-do-sul\/noticia\/2025\/09\/15\/homem-morre-baleado-policia-porto-alegre.ghtml\">baleado<\/a> por policiais militares dentro de casa, no bairro Parque Santa F\u00e9, em Porto Alegre. A fam\u00edlia queria apenas apoio das for\u00e7as de seguran\u00e7a para conter a v\u00edtima, em surto no momento da ocorr\u00eancia.&nbsp; A m\u00e3e, que presenciou a morte, relata que havia chamado a pol\u00edcia em busca de atendimento m\u00e9dico. O caso ser\u00e1 investigado por meio de Inqu\u00e9rito Policial Militar.<\/p>\n\n\n\n<p>A ocorr\u00eancia reacendeu o debate sobre a forma <strong>como o Brasil lida com surtos psiqui\u00e1tricos em abordagens policiais<\/strong> e a necessidade de protocolos que articulem sa\u00fade mental e seguran\u00e7a p\u00fablica e levou<strong> <\/strong>o<strong> Humanista <\/strong>a conversar com <strong><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2796093882157423\">Alberto Kopittke<\/a><\/strong>, doutor em Pol\u00edticas P\u00fablicas, consultor na \u00e1rea de seguran\u00e7a e diretor do <strong><a href=\"https:\/\/institutocidadesegura.com.br\/\">Instituto Cidade Segura<\/a><\/strong>. Refer\u00eancia nacional em an\u00e1lise de pol\u00edticas de seguran\u00e7a, ele avalia os limites dos protocolos atuais, a import\u00e2ncia de programas de sa\u00fade mental para policiais e os desafios estruturais do sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica brasileiro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\"><strong>Em pauta<\/strong><\/pre>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Viol\u00eancia policial no Rio Grande do Sul\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_LeJZr8pnUg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u00a0Reportagem produzida na disciplina Telejornalismo III, da UFRGS, retrata casos de viol\u00eancia policial na periferia de Porto Alegre.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">O epis\u00f3dio recente tamb\u00e9m refor\u00e7a discuss\u00f5es sobre o modelo de trabalho da pol\u00edcia e as condi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas dos pr\u00f3prios agentes, que enfrentam situa\u00e7\u00f5es de estresse e risco diariamente. Durante a entrevista, Kopittke fala sobre os impactos da <strong>falta de preparo t\u00e9cnico em situa\u00e7\u00f5es de crise<\/strong>, explica por que a sa\u00fade mental dos policiais deve ser pauta central e reflete sobre as mudan\u00e7as necess\u00e1rias para reduzir a letalidade policial no Brasil. <strong>Confira!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"554\" height=\"554\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Imagem_-Arquivo-Pessoal.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-27885\" style=\"width:311px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Imagem_-Arquivo-Pessoal.jpg 554w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Imagem_-Arquivo-Pessoal-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Imagem_-Arquivo-Pessoal-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 554px) 100vw, 554px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Alberto Kopittke fala sobre sa\u00fade mental dos policiais e protocolos de abordagem | Imagem: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong>Existem protocolos oficiais espec\u00edficos para lidar com pessoas em surtos psiqui\u00e1tricos nas abordagens policiais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">N\u00e3o tenho conhecimento detalhado do protocolo atual. Sei que existe um conjunto de protocolos gerais para situa\u00e7\u00f5es de crise, al\u00e9m do protocolo de uso progressivo da for\u00e7a, que orienta a atua\u00e7\u00e3o do policial conforme o risco da situa\u00e7\u00e3o enfrentada. Eventualmente, pode haver a chamada do SAMU. Mas \u00e9 preciso avan\u00e7ar muito nesse campo, tanto no detalhamento do protocolo quanto no treinamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong>Como avalia que esse protocolo deveria ser, considerando a realidade de hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vejo tr\u00eas aspectos principais. Primeiro, a necessidade de melhorar <a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/atualidades\/estresse-e-pressao-no-trabalho-afetam-a-saude-mental-de-policiais-militares\">a sa\u00fade mental dos pr\u00f3prios policiais<\/a>. Em n\u00edvel internacional, isso \u00e9 conhecido como programas de redu\u00e7\u00e3o de estresse. S\u00e3o forma\u00e7\u00f5es permanentes que oferecem ferramentas para que o policial conhe\u00e7a sua sa\u00fade mental. Ele precisa ter um checklist de como est\u00e1 se sentindo: se dormiu mal, se teve uma briga em casa, se est\u00e1 endividado. Esse autoconhecimento ajuda a evitar que a situa\u00e7\u00e3o de rua seja um gatilho de estresse. Tamb\u00e9m \u00e9 importante trabalhar o p\u00f3s-situa\u00e7\u00e3o, com protocolos e forma\u00e7\u00f5es voltadas para lidar com os impactos emocionais das ocorr\u00eancias. Estudos mostram que esses programas podem reduzir em at\u00e9 50% o uso da for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo aspecto \u00e9 conhecer melhor as quest\u00f5es de sa\u00fade mental das pessoas abordadas. O policial precisa identificar se a pessoa est\u00e1 sob efeito de drogas, qual subst\u00e2ncia foi usada, ou se h\u00e1 um transtorno espec\u00edfico de sa\u00fade mental. Cada situa\u00e7\u00e3o exige uma forma de conten\u00e7\u00e3o diferente. Como os policiais s\u00e3o, muitas vezes, os primeiros profissionais a lidar com essas pessoas, precisam de uma forma\u00e7\u00e3o muito mais qualificada. Isso permite reduzir surtos, proteger o cidad\u00e3o e proteger a si mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um terceiro ponto \u00e9 o uso de armas de baixa letalidade. N\u00e3o conhe\u00e7o os detalhes da situa\u00e7\u00e3o recente em Porto Alegre, por isso n\u00e3o posso emitir um ju\u00edzo t\u00e9cnico. Mas considero fundamental que policiais e guardas disponham de armas progressivas e sejam bem preparados fisicamente para us\u00e1-las, como spray de pimenta, tonfa e armas de choque el\u00e9trico. Esses recursos podem evitar o uso da arma de fogo, que geralmente leva a um desfecho tr\u00e1gico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nesse caso, foi relatado que a arma de choque foi usada, mas n\u00e3o funcionou, e ent\u00e3o os policiais usaram arma de fogo. A m\u00e3e da v\u00edtima, que fez a den\u00fancia, disse que estava presente e que esperava por ajuda m\u00e9dica. Essa escalada faz sentido pensando na seguran\u00e7a p\u00fablica e tamb\u00e9m na seguran\u00e7a da m\u00e3e que estava no local?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o gosto de falar sobre o caso concreto, porque exigiria um estudo para ser justo e dar uma opini\u00e3o bem embasada. Enfim, mas sobre este assunto: hoje, l\u00e1 fora, o que a gente tem, Europa, Estados Unidos, \u00e9 o telefone de emerg\u00eancia fazendo uma triagem para saber se h\u00e1 problema de sa\u00fade mental naquela ocorr\u00eancia; ele direciona para as equipes de emerg\u00eancia de sa\u00fade. Ent\u00e3o \u00e9 uma equipe que inclusive tem capacidades de uso da for\u00e7a, treinamentos para conten\u00e7\u00e3o, porque isso \u00e9 usual.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea vai a um centro de sa\u00fade de pessoas com determinados graus de transtornos, muitas vezes s\u00e3o feitas conten\u00e7\u00f5es para aplicar o medicamento. Existem t\u00e9cnicas para isso que reduzem os riscos para a pessoa e para os profissionais. \u00c9 muito importante aprimorar essa filtragem.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, temos um problema: voc\u00ea liga para o SAMU, o SAMU diz que n\u00e3o pode atender porque n\u00e3o tem capacidade e manda ligar para a pol\u00edcia militar. E a\u00ed, tamb\u00e9m, ou n\u00e3o est\u00e1 com todas essas capacidades bem treinadas, ou talvez nem seja o mais adequado em algumas situa\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea precisaria ter um novo tipo de atendimento de emerg\u00eancia para essas situa\u00e7\u00f5es, e a pol\u00edcia fica numa retaguarda, onde eventualmente pode sim acabar acontecendo alguma quest\u00e3o de uso da for\u00e7a mais grave, mas a\u00ed voc\u00ea conseguiu fazer todo o percurso com profissionais da sa\u00fade treinados para esse tipo de situa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o que n\u00e3o temos hoje no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental dos policiais, existem protocolos hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eles t\u00eam. Em geral, as pol\u00edcias est\u00e3o come\u00e7ando a melhorar seus programas de atendimento psicol\u00f3gico, mas isso \u00e9 quando precisa. Acho que vem se quebrando tabus sobre isso. Hoje morre mais policial por suic\u00eddio do que por situa\u00e7\u00f5es de uso da for\u00e7a, v\u00edtimas de homic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que sempre pode ser melhorado. A grande quest\u00e3o \u00e9 o grande volume de situa\u00e7\u00f5es em que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 enfrentando aquela famosa situa\u00e7\u00e3o de um bandido com arma de fogo.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed ter mais treinamento permanente sobre a sa\u00fade mental e sobre esse tipo de situa\u00e7\u00e3o. As evid\u00eancias mostram que, em geral, os policiais t\u00eam 90% do treinamento ligado a situa\u00e7\u00f5es de estresse e muito pouco treinamento pr\u00e1tico para outros tipos de situa\u00e7\u00e3o e de sa\u00fade mental. A\u00ed voc\u00ea tem nem 10% no mundo, em geral. O que precisamos \u00e9 meio a meio.Precisamos continuar fazendo esses treinamentos de tiro, mas complementar com mais horas para a sa\u00fade mental do policial e para conhecer essas situa\u00e7\u00f5es. Hoje, um dos programas mais discutidos sobre sa\u00fade mental \u00e9 treinar os colegas para identificarem que o outro colega est\u00e1 com algum problema. Uma prote\u00e7\u00e3o, porque a pol\u00edcia tem grupos muito coesos, mas precisamos superar o tabu da sa\u00fade mental. O colega saber identificar melhor e saber o que fazer com essa informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Falar isso para o pr\u00f3prio colega e, eventualmente, para um setor de sa\u00fade mental n\u00e3o \u00e9 prejudicar o colega. Porque, hoje, o problema de sa\u00fade mental \u00e9 entendido muitas vezes como algo que vai impedir a carreira, ent\u00e3o n\u00e3o se fala sobre isso. O que n\u00e3o \u00e9 verdade. A pessoa pode estar passando por um momento de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico, que \u00e9 muito comum, e vai poder tratar e se curar, seguindo normalmente a carreira. Desde que a gente tenha essa outra vis\u00e3o. Hoje \u00e9 8 ou 80: ou finge que n\u00e3o v\u00ea, n\u00e3o fala nada, ou ele \u00e9 \u201cdoente mental\u201d, um policial que n\u00e3o pode mais progredir na carreira, uma vis\u00e3o mais antiga.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esses casos de viol\u00eancia policial representam falhas individuais ou estruturais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu realmente acho que, em geral, esses casos t\u00eam que nos levar para uma reflex\u00e3o estrutural. Claro que o caso individual tem que ter o seu julgamento administrativo, militar, l\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 grave, mas o grande problema n\u00e3o se resolve com um caso, como em todo tipo de uso abusivo da for\u00e7a. Muitas vezes as pol\u00edcias falam: afastamos, julgamos, condenou ou n\u00e3o, resolveu este caso, assunto resolvido. N\u00e3o. Este caso tem que servir para a gente olhar o todo. Os americanos falam: n\u00e3o \u00e9 a laranja, \u00e9 o cesto. \u00c9 esse tipo de reflex\u00e3o, de remodelagem. Outro assunto que funciona muito para aprimoramento \u00e9 o controle externo das for\u00e7as de seguran\u00e7a. Nos Estados Unidos, falo de Nova York, da Inglaterra; n\u00e3o estou falando de Cuba nem da China; Nova York tem um conselho de cidad\u00e3os. \u00c9 uma institui\u00e7\u00e3o com cerca de 350 servidores municipais que recebem as den\u00fancias da popula\u00e7\u00e3o sobre uso abusivo. Eles t\u00eam alguns poderes de fazer procedimentos administrativos. N\u00e3o s\u00e3o um \u00f3rg\u00e3o de corre\u00e7\u00e3o, mas podem requisitar informa\u00e7\u00f5es que a pol\u00edcia \u00e9 obrigada a fornecer. Eles fazem um procedimento e, ao final, \u00e9 feita uma recomenda\u00e7\u00e3o para a pol\u00edcia sobre aquele caso e, de tempos em tempos, sobre mudan\u00e7as de protocolo e aprimoramentos estruturais. Se a pol\u00edcia n\u00e3o quer implementar, tem que dizer por qu\u00ea. A pol\u00edcia tem que justificar por que o conselho est\u00e1 errado. Ent\u00e3o, precisamos desse outro tipo de controle, j\u00e1 falado no Brasil como ouvidoria, mas uma ouvidoria muito mais estruturada. Muito diferente de uma pessoa sozinha; \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o permanente, estruturado, e isso ajuda a pol\u00edcia. Tamb\u00e9m temos que sair da vis\u00e3o de que isso atrapalha a pol\u00edcia. Hoje sabemos, por evid\u00eancias, que quanto mais legitimidade a pol\u00edcia tem com todos os grupos sociais, melhor para reduzir a viol\u00eancia. Quanto mais vamos melhorando ou reduzindo situa\u00e7\u00f5es de uso abusivo e erros, mais a popula\u00e7\u00e3o, por exemplo, de periferia, negros, vai melhorando a legitimidade com a pol\u00edcia, e isso \u00e9 muito bom para o enfrentamento ao crime.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que a c\u00e2mera corporal traz de mensagem pra sociedade tanto do pr\u00f3prio \u00f3rg\u00e3o quanto do que a pol\u00edcia diz sobre si mesmo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que a <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/vigilancia-e-violencia-quando-o-uniforme-se-torna-protagonista\">c\u00e2mera<\/a> de corpo \u00e9 a maior conquista para a pol\u00edcia e para a sociedade, talvez desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. A c\u00e2mera vem se mostrando muito \u00fatil para redu\u00e7\u00e3o do uso abusivo da for\u00e7a. E, ao mesmo tempo, protege o policial de situa\u00e7\u00f5es que, quando filmadas de fora, tendem a ser negativas para a pol\u00edcia. Algumas vezes \u00e9 muito importante filmar; outras, voc\u00ea precisa ter a vis\u00e3o do policial. Pela primeira vez, voc\u00ea tem a perspectiva do policial tamb\u00e9m na mesa. Ent\u00e3o, ela \u00e9 uma ferramenta. Ela aprimora muito o treinamento policial, porque, se voc\u00ea faz bom uso, pode recortar situa\u00e7\u00f5es para mostrar em treinamento os erros cometidos, melhorar procedimentos e forma\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para punir. Por exemplo, no caso de viol\u00eancia contra a mulher, tanto o experimento de Santa Catarina quanto o de S\u00e3o Paulo, e a an\u00e1lise de dados de S\u00e3o Paulo, mostraram que o registro de viol\u00eancia contra a mulher aumentou 100%. Isso nos garante que as situa\u00e7\u00f5es v\u00e3o ser registradas. Temos dados na Inglaterra de que a condena\u00e7\u00e3o de homens agressores cresce em mais de 100% quando o policial usa c\u00e2mera de corpo, porque voc\u00ea v\u00ea a situa\u00e7\u00e3o daquela mulher; possivelmente o agressor j\u00e1 saiu, mas voc\u00ea v\u00ea o agressor ou a situa\u00e7\u00e3o da mulher que, pelo ciclo da viol\u00eancia, n\u00e3o conta tudo. A c\u00e2mera \u00e9 um ganha-ganha para todo mundo. Acho que, aos poucos, ela est\u00e1 saindo da esfera ideol\u00f3gica de \u201ccoisa de esquerda\u201d e passando a ser vista como ferramenta de trabalho indispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Recentemente, o Simers realizou um <\/strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/09\/11\/quando-fecha-a-porta-de-uma-emergencia-psiquiatrica-alarga-a-porta-do-cemiterio-alerta-diretor-do-simers-sobre-fechamento-de-unidades\"><strong>ato contra o fechamento das emerg\u00eancias psiqui\u00e1tricas<\/strong><\/a><strong> em Porto Alegre. Qual a import\u00e2ncia desses espa\u00e7os, tamb\u00e9m para a seguran\u00e7a p\u00fablica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, no Brasil e no mundo, temos um grande d\u00e9ficit de sa\u00fade mental, de atendimento e assist\u00eancia m\u00e9dica e psicol\u00f3gica, desde as escolas. Agora, algumas cidades est\u00e3o come\u00e7ando a adotar psic\u00f3logos e educa\u00e7\u00e3o socioemocional. Desde a escola, passando por toda a juventude, precisamos de pol\u00edticas p\u00fablicas para a sa\u00fade mental, da preven\u00e7\u00e3o ao atendimento de casos graves. \u00c9 muito importante n\u00e3o termos a vis\u00e3o de que \u201ctudo \u00e9 a pol\u00edcia que vai resolver\u201d, como nos casos de usu\u00e1rios graves de droga. Por outro lado, temos que dar uma solu\u00e7\u00e3o no campo da sa\u00fade mental. Tamb\u00e9m n\u00e3o adianta dizer que n\u00e3o \u00e9 problema da pol\u00edcia se n\u00e3o estruturarmos uma pol\u00edtica p\u00fablica eficaz. Faltam pol\u00edticas p\u00fablicas estruturais de grande porte adequadas, que n\u00e3o sejam o modelo antigo. E, geralmente, as pessoas sentem medo e os governos respondem com mais pol\u00edcia, o que aumenta o n\u00famero de presos. O pres\u00eddio, embora necess\u00e1rio, s\u00f3 aumenta problemas de sa\u00fade mental: cria em quem n\u00e3o tem ou piora em quem tem. Ficamos numa espiral, quando precisamos estruturar boas pol\u00edticas de sa\u00fade mental. Avan\u00e7amos, mas falta muito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual a sua perspectiva de futuro para o Brasil nesse tema?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Temos um grande problema no Brasil: a ideologiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica. E n\u00e3o uma discuss\u00e3o mais t\u00e9cnica. Acho que precisamos ter capacidade de estruturar pol\u00edticas de melhor qualidade, para reduzir a necessidade de as pol\u00edcias fazerem esse n\u00edvel de uso da for\u00e7a, que \u00e9 alto no Brasil. Ent\u00e3o, precisamos ter uma boa pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica, de redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia com boas estrat\u00e9gias, combinada com uma boa pol\u00edtica de sa\u00fade mental. Essas \u00e1reas t\u00eam que dialogar, para desaguar o que \u00e9 problema de sa\u00fade mental e a sa\u00fade dar uma resposta. Ao mesmo tempo, o sistema de justi\u00e7a tem que se aprimorar; o tratamento penal tem que ser aprimorado no Brasil. Os policiais t\u00eam raz\u00e3o quando dizem: \u201cPrendi esse cara 30 vezes\u201d \u201cAh, mas ele s\u00f3 faz furto \u00e0 resid\u00eancia\u201d. O que \u00e9 furto \u00e0 resid\u00eancia? Quem mora em casa e j\u00e1 sofreu sabe que \u00e9 grave. Ent\u00e3o, qual \u00e9 a pol\u00edtica? Ele n\u00e3o tem problema de sa\u00fade mental. Tudo bem. Qual o tratamento para reduzir a reincid\u00eancia? Se n\u00e3o \u00e9 pres\u00eddio, \u00e9 o qu\u00ea? Acho que n\u00e3o pode ser pres\u00eddio todas as vezes, mas precisamos criar melhor uma pol\u00edtica. Para isso, precisamos desideologizar a seguran\u00e7a p\u00fablica. Hoje ela \u00e9 muito baseada em discurso e joga os policiais numa press\u00e3o terr\u00edvel, que fez aumentar a letalidade policial no Brasil e o n\u00famero de policiais mortos em servi\u00e7o e de suic\u00eddios. Porque \u00e9 muito a vis\u00e3o da guerra, do policial como um grande her\u00f3i que vai salvar a humanidade, e ele acaba sofrendo as consequ\u00eancias. Sabemos que isso n\u00e3o \u00e9 a vis\u00e3o que vai nos levar a reduzir a viol\u00eancia, esse \u00e9 o grande desafio. <strong>S\u00f3 isso.<\/strong>&nbsp;<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era 15 de setembro quando um homem de 29 anos com esquizofrenia morreu ap\u00f3s ser baleado por policiais militares dentro de casa, no bairro Parque Santa F\u00e9, em Porto Alegre. 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