﻿{"id":28150,"date":"2025-10-28T14:57:49","date_gmt":"2025-10-28T17:57:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=28150"},"modified":"2025-10-29T14:01:22","modified_gmt":"2025-10-29T17:01:22","slug":"convivencia-da-lugar-a-condominios-de-luxo-e-a-especulacao-imobiliaria-no-urbanismo-de-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/10\/28\/convivencia-da-lugar-a-condominios-de-luxo-e-a-especulacao-imobiliaria-no-urbanismo-de-porto-alegre\/","title":{"rendered":"Conviv\u00eancia d\u00e1 lugar a condom\u00ednios de luxo e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria no urbanismo de Porto Alegre"},"content":{"rendered":"\n<p>Enquanto o d\u00e9ficit habitacional em Porto Alegre \u00e9 estimado em <a href=\"https:\/\/www.matinaljornalismo.com.br\/matinal\/reportagem-matinal\/porto-alegre-vai-iniciar-construcao-de-22-mil-moradias-populares-em-2025-7-da-demanda\/\"><strong>31.783 resid\u00eancias<\/strong><\/a>, segundo dados da <a href=\"https:\/\/fjp.mg.gov.br\/\"><strong>Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro<\/strong><\/a>, cresce o n\u00famero de empreendimentos de alto padr\u00e3o, localizados em bairros nobres da capital ga\u00facha. S\u00e3o torres residenciais e condom\u00ednios fechados que, com nomes em ingl\u00eas e grades imponentes, prometem conforto, exclusividade e seguran\u00e7a a seus moradores. Mais do que um fen\u00f4meno imobili\u00e1rio, essa tend\u00eancia expressa uma transforma\u00e7\u00e3o na forma como os porto-alegrenses vivem e se relacionam com o espa\u00e7o urbano.<\/p>\n\n\n\n<p>Percorrendo regi\u00f5es tradicionalmente hospitaleiras da cidade e hoje tomadas por arranha-c\u00e9us, o <strong>Humanista<\/strong> tenta compreender <strong>como os condom\u00ednios fechados de luxo refletem e refor\u00e7am um modelo de planejamento urbano espec\u00edfico<\/strong>. A reportagem conversou com os professores<strong> <a href=\"https:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do;jsessionid=91FC6203C724EB5991644CDB9C929082.buscatextual_0\">\u00c9ber Marzulo<\/a>, <a href=\"https:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4700454A6&amp;tokenCaptchar=0cAFcWeA4bhn-cyIoV1pndU-WBWr6uEBNHJEaDgDhFEQgSxFPNsCSUiAwYBDYPTeEBTcUmvdNWerFB9t3xoB-olvzVG6_ttY9lxFxSur7kQ43nF1_synDZeGXQV9otarQwTJuDZ8rlj2NgOI13MdRrs5kkc0k-JwZL1g5Jx4S1923FeWMNxU9dVnvn32B5hUO_sAe5XQTa6xfQT_hEGag97c-6kPmTFzUecDuP18yfmjGjhlhJKHhsKyVTYntp0qd_nx1JHbDw1U6g68qI3_lKKeWR43CHe13Qw_t33_trx_1q7J1GZ017eqAMX2jjOzYBy5OAO65uFYJSgCsG4QO2Mbl8iYLtKh6sSOoTIxW1EUYkivO6ENeIXCiRCu0CrwIq0E_6WfoB-5sYBbI8gP1Cc1YLFohLwarqBWKcLxv3nS6Xdy8wIQp85Ark12qnXM6ijaaompkQYaxxdlDmiheey8-XClGgzKB7Igp6aRXmz4wpxBCV3IGmbCzOTTc7iLLq7h3W-PzZRF2tr7v25PBoUZvZ51UV1nQpjJN22QC82wkF1kBCVD1lHnVqTK5F2LVhMdCkbuMT9mzA5Kg10ss7XDQwgaElfNK-n_qj98xzCL9bsXtwfMQXltLmF3-bYKJVLZK7gZFM1_aK1eCmAprKiluM3tuKnBLdcXBapShuvYc1eZWOzAyei_gvJNi8NRAXaiFc8YNpQuwSDOvCS88EL2zEfRjdSxYK1wBUg7TXSkqgv9qDhcujvH9GLyXqGBsx42HQ9VvQXrELPG_C76A57MzEi8cLtYaIt3y1m6KNPapWDLZydeim2jB_8vCjJQrq0cS62j4fr1jymo4KKlTrED6AEErH_rgp-v5II-9NQdMl_mIlXj0Nxi8\">Jos\u00e9 Carlos Lemos<\/a><\/strong> e <strong><a href=\"https:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do\">Fernando Freitas Fu\u00e3o<\/a>,<\/strong> da <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arquitetura\/\"><strong>Faculdade de Arquitetura<\/strong><\/a> da UFRGS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em comum, os especialistas analisam os processos de transforma\u00e7\u00e3o urbana da capital e o impacto subjetivo dos condom\u00ednios na forma como as pessoas percebem e habitam a cidade. Das discuss\u00f5es sobre o novo Plano Diretor \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, suas reflex\u00f5es ajudam a entender como Porto Alegre se tornou o palco de um embate entre o lucro e a vida comunit\u00e1ria, entre a cidade como mercadoria e a cidade como lugar de encontro. Esta \u00e9 a hist\u00f3ria de uma capital na encruzilhada, for\u00e7ada a enfrentar uma quest\u00e3o fundamental: <strong>para quem, exatamente, \u00e9 destinado o espa\u00e7o urbano?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O capital escreve a Lei<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Para entender a transforma\u00e7\u00e3o de Porto Alegre, primeiro \u00e9 preciso compreender o motor ideol\u00f3gico e econ\u00f4mico que a impulsiona. O recente desenvolvimento urbano da cidade, longe de ser uma cole\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria de projetos, traduz uma vis\u00e3o de mundo em que a produ\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria se dissocia das necessidades habitacionais da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma l\u00f3gica enraizada no lucro, na influ\u00eancia pol\u00edtica e em uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica de <a href=\"https:\/\/www.ensaiosfilosoficos.com.br\/Artigos\/Artigo26\/06_FUAO_REVISTA_ENSAIOS_FILOSOFICOS_VOLUME_XXVI.pdf\"><strong>domestica\u00e7\u00e3o colonial<\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cJ\u00e1 fazem s\u00e9culos que a sociedade global se entregou a uma \u00e9tica do lucro. Se a gente vai falar de uma \u00e9tica da vida, a gente n\u00e3o encontra respaldo de forma nenhuma.\u201d, observa o professor Jos\u00e9 Carlos. Para ele, o que acontece em Porto Alegre \u00e9 um reflexo do mundo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>\u201cTodo o esfor\u00e7o dessas fam\u00edlias e empresas, com a coniv\u00eancia do poder p\u00fablico local, v\u00eam moldando a cidade h\u00e1 d\u00e9cadas\u201d<\/strong><\/p>\n<cite>Jos\u00e9 Carlos Lemos, professor da Faculdade de Arquitetura da UFRGS<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esse modelo de desenvolvimento \u00e9 conduzido por uma rede coesa de fam\u00edlias e empresas influentes, cujo poder econ\u00f4mico se traduz diretamente em influ\u00eancia pol\u00edtica. Pesquisas que mapeiam os principais atores do planejamento urbano da capital ga\u00facha, como a realizada pelo historiador e soci\u00f3logo <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/644826-pesquisa-mostra-quem-sao-os-donos-de-porto-alegre-entrevista-com-marcelo-kunrath-silva\"><strong>Marcelo Kunrath<\/strong><\/a>, intitulada <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/389169828_Os_donos_de_Porto_Alegre\"><strong>\u201cOs \u2018donos\u2019 de Porto Alegre\u201d<\/strong><\/a>, revelam um grupo central que inclui as fam\u00edlias <strong>Gerdau<\/strong>, <strong>Ling<\/strong> e <strong>Goldsztein<\/strong>, al\u00e9m das gigantes da constru\u00e7\u00e3o civil<strong> <\/strong><a href=\"https:\/\/www.melnick.com.br\/\"><strong>Melnick<\/strong><\/a> e <a href=\"https:\/\/www.cyrela.com.br\/empreendimentos?utm_source=google&amp;utm_medium=cpc&amp;utm_term=rs_conversao-no-site_mensal-rs_google_search_produto_institucional_google_institucional_produto_empreendimento_texto_na_na&amp;utm_campaign=rs_conversao-no-site_mensal-rs_google_search_produto_institucional_google_institucional_produto_empreendimento_texto_na_na&amp;gad_source=1&amp;gad_campaignid=10097120302&amp;gbraid=0AAAAADotRCkCOyP2HL8CXekNmzOM6r88p&amp;gclid=CjwKCAjwu9fHBhAWEiwAzGRC_91qLXYZAyNSBKiWd2mNGY_HCVNcitAOQChadAKee9Za7RjSzGkPwhoC59EQAvD_BwE\"><strong>Cyrela<\/strong><\/a>. \u201cTodo o esfor\u00e7o dessas fam\u00edlias e empresas, com a coniv\u00eancia do poder p\u00fablico local, v\u00eam moldando a cidade h\u00e1 d\u00e9cadas\u201d, afirma Jos\u00e9 Carlos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas entidades n\u00e3o s\u00e3o meros participantes do mercado; s\u00e3o atores pol\u00edticos. Seu apoio financeiro a pol\u00edticos importantes, principalmente ao atual prefeito <strong>Sebasti\u00e3o Melo (MDB)<\/strong>, \u00e9 <a href=\"https:\/\/sul21.com.br\/especiais\/como-um-restrito-grupo-de-empresarios-mudou-a-logica-do-planejamento-urbano-de-porto-alegre\/\"><strong>bem documentado<\/strong><\/a>. Durante suas campanhas de 2020 e 2024, Melo <strong>recebeu doa\u00e7\u00f5es significativas de membros dos grupos Goldsztein, Cyrela e Gerdau<\/strong>, criando um claro alinhamento de interesses entre o poder executivo da cidade e seus mais poderosos incorporadores imobili\u00e1rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um papel estrat\u00e9gico nessa engrenagem \u00e9 desempenhado pelo <strong>Sindicato das Ind\u00fastrias da Constru\u00e7\u00e3o Civil do Rio Grande do Sul <\/strong>(<a href=\"https:\/\/sinduscon-rs.com.br\/\"><strong>Sinduscon-RS<\/strong><\/a>), que h\u00e1 mais de sete d\u00e9cadas articula os interesses do empresariado da constru\u00e7\u00e3o junto ao poder p\u00fablico. Trata-se de uma <strong>organiza\u00e7\u00e3o sindical que atua explicitamente na defesa dos interesses corporativos de seus associados<\/strong>, ou seja, das empresas e grupos que comp\u00f5em o setor imobili\u00e1rio ga\u00facho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O sindicato <strong>exerce influ\u00eancia direta na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas urbanas<\/strong> por meio de <strong>consultores e dirigentes<\/strong> que mant\u00eam <strong>di\u00e1logo constante com o Executivo municipal<\/strong> e participam ativamente da <strong>revis\u00e3o de leis estrat\u00e9gicas<\/strong>, como o<strong> Plano Diretor<\/strong> e a<strong> Lei de Uso e Ocupa\u00e7\u00e3o do Solo<\/strong>, que definem par\u00e2metros de <strong>zoneamento, densidade e altura<\/strong> para as casas e edif\u00edcios da cidade. Essa influ\u00eancia \u00e9 sustentada pelo <strong>poder econ\u00f4mico das empresas que representa<\/strong>, capazes de <strong>financiar campanhas pol\u00edticas<\/strong> e <strong>ocupar posi\u00e7\u00f5es de prest\u00edgio em conselhos e f\u00f3runs de decis\u00e3o.<\/strong> Representantes do Sinduscon j\u00e1 apresentaram contribui\u00e7\u00f5es formais em audi\u00eancias p\u00fablicas,<strong> <\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/live\/-FMgU50q7oo?si=Bz4fbVjy8c7a9eXU&amp;t=570\"><strong>elogiaram<\/strong><\/a> o secret\u00e1rio de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade e presidente do Conselho do Plano Diretor, Germano Bremm, e definiram as mudan\u00e7as recentes na gest\u00e3o urbana como <strong>\u201chist\u00f3ricas\u201d para o setor<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O empres\u00e1rio <strong>Daniel Goldsztein<\/strong>, s\u00f3cio-administrador da incorporadora<strong> <\/strong><a href=\"http:\/\/www.goldsztein.com.br\/\"><strong>Goldsztein<\/strong><\/a><strong> <\/strong>e figura central em cerca de <a href=\"https:\/\/advdinamico.com.br\/socios\/daniel-goldsztein-ac9745ed?utm_source=\"><strong>30 sociedades<\/strong><\/a> no RS, atualmente ocupa a <strong>vice-presid\u00eancia do Sinduscon-RS<\/strong>. O sindicato integra a rede dos chamados \u201cdonos de Porto Alegre\u201d, ao lado das fam\u00edlias <strong>Ling<\/strong> e <strong>Zaffari<\/strong>, assim como de todas j\u00e1 citadas. O sindicato tamb\u00e9m participa do <a href=\"https:\/\/www.estado.rs.gov.br\/upload\/arquivos\/202406\/conselheiros-plano-rs-junho2024.pdf\"><strong>Conselho do Plano Rio Grande<\/strong><\/a>, voltado \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o p\u00f3s-enchentes, refor\u00e7ando sua presen\u00e7a nas inst\u00e2ncias de formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Mais do que representar o setor, o Sinduscon funciona, na pr\u00e1tica, como um <strong>canal institucionalizado de press\u00e3o<\/strong>, que <strong>conecta interesses empresariais \u00e0s decis\u00f5es pol\u00edticas<\/strong> sobre o futuro urbano da capital.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Plano Diretor<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Previsto por lei como o principal instrumento de planejamento urbano, o <a href=\"https:\/\/prefeitura.poa.br\/sites\/default\/files\/usu_doc\/%5BNOVO%5D%20Plano%20Diretor%202023\/Audiencia%20Publica%20Plano%20Diretor%202025\/Revisao%20do%20Plano%20Diretor%20de%20Porto%20Alegre_Relatorio%20Final%202025_compressed.pdf\"><strong>Plano Diretor de Porto Alegre<\/strong><\/a><strong> <\/strong>deveria orientar o desenvolvimento da cidade de forma participativa. No entanto, reportagens investigativas, como a s\u00e9rie <strong>\u201c<\/strong><a href=\"https:\/\/sul21.com.br\/donos-da-cidade\/\"><strong>Donos da Cidade<\/strong><\/a><strong>\u201d<\/strong>, do <em>Sul21, <\/em>revelam como esse processo tem sido sistematicamente driblado por uma sucess\u00e3o de administra\u00e7\u00f5es municipais que mant\u00eam estreita alian\u00e7a com o setor imobili\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma figura-chave nesse processo \u00e9 <a href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/politica\/2024\/12\/quem-e-germano-bremm-o-responsavel-pelos-mais-de-r-800-milhoes-destinados-a-reconstrucao-de-porto-alegre\/\"><strong>Germano Bremm<\/strong><\/a>. Em 2020, na gest\u00e3o de <strong>Nelson Marchezan J\u00fanior<\/strong>, a prefeitura, que tinha em Bremm a figura de secret\u00e1rio do Meio Ambiente e da Sustentabilidade, aprovou o <a href=\"https:\/\/leismunicipais.com.br\/a\/rs\/p\/porto-alegre\/decreto\/2020\/2065\/20655\/decreto-n-20655-2020-dispoe-sobre-o-licenciamento-urbanistico-e-ambiental-de-projetos-prioritarios-para-a-retomada-economica-no-municipio-em-razao-da-pandemia-do-novo-coronavirus-covid-19-cria-o-comite-especial-de-monitoramento-de-projetos-prioritarios-cempp\"><strong>Decreto 20.655<\/strong><\/a><strong>,<\/strong> que criava uma <a href=\"https:\/\/public.flourish.studio\/visualisation\/15551274\/\"><strong>lista de \u201cprojetos priorit\u00e1rios\u201d<\/strong><\/a> cujas <strong>aprova\u00e7\u00f5es seriam aceleradas pelo poder p\u00fablico<\/strong> em nome de uma recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mais pr\u00f3spera no p\u00f3s-pandemia. Dos projetos agilizados, <strong>a grande maioria pertencia \u00e0s duas maiores incorporadoras da cidade<\/strong>, Melnick e Cyrela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse mecanismo permitiu que um <strong>grupo privado definisse a agenda de desenvolvimento da cidade<\/strong>, contornando o debate p\u00fablico. \u201cEssa revis\u00e3o do Plano \u00e9 para abrir as portas do inferno\u201d, exclama Jos\u00e9 Carlos. \u201cSe prepararam durante 20 anos e n\u00e3o conseguiram o que eles queriam, porque eles n\u00e3o tinham todas as leis ao lado deles. Est\u00e3o conseguindo fazer isso agora.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O professor Fernando Fu\u00e3o associa a captura do planejamento urbano pelo setor privado a uma l\u00f3gica econ\u00f4mica e ideol\u00f3gica mais ampla, que se intensificou a partir da segunda metade do s\u00e9culo 20. \u201cA gente tem que colocar em quest\u00e3o o tempo: desde a d\u00e9cada de 1980 come\u00e7ou essa onda, que \u00e9 fascista. O neoliberalismo sempre antecede o fascismo\u201d, afirma. \u201cCome\u00e7ou a\u00ed a pol\u00edtica das PPPs [Parcerias P\u00fablico-Privadas]. \u00c9 uma demanda do poder econ\u00f4mico, que n\u00e3o est\u00e1 na m\u00e3o do Estado, mas da burguesia e da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria\u201d, considera.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"512\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/2_Foto_-Alex-Rocha_PMPA-1024x512.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-28152\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/2_Foto_-Alex-Rocha_PMPA-1024x512.webp 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/2_Foto_-Alex-Rocha_PMPA-300x150.webp 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/2_Foto_-Alex-Rocha_PMPA-768x384.webp 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/2_Foto_-Alex-Rocha_PMPA.webp 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Audi\u00eancia p\u00fablica ocorreu no dia 9 de agosto, no Audit\u00f3rio Ara\u00fajo Viana, em Porto Alegre | Foto: Alex Rocha\/PMPA<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Embora documentos oficiais, como o <a href=\"https:\/\/prefeitura.poa.br\/sites\/default\/files\/usu_doc\/%5BNOVO%5D%20Plano%20Diretor%202023\/CAMARA%20MUNICIPAL\/10.%20Relatorio%20Audiencia%20Publica%202025.pdf\"><strong>Relat\u00f3rio da Audi\u00eancia P\u00fablica de 2025<\/strong><\/a>, definam as audi\u00eancias p\u00fablicas como \u201cfundamentais\u201d para garantir transpar\u00eancia e legitimidade \u00e0s decis\u00f5es que concernem ao bem comum, a realidade escancara uma hist\u00f3ria diferente. A <a href=\"https:\/\/www.observatoriodasmetropoles.net.br\/cronica-sobre-uma-bizarra-audiencia-publica-do-plano-diretor-em-porto-alegre\/\"><strong>pequena participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica em debates<\/strong> <\/a>recentes sobre planejamento urbano revelam um processo dominado por <strong>interesses da ind\u00fastria, e n\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma palavra, \u00c9ber Marzulo define o texto do novo Plano Diretor como \u201dhorror\u201d. \u201cN\u00e3o trata nada sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, sobre estruturas de defesa, sobre para onde as pessoas devem ir no caso de novos eventos extremos. \u00c9 feito sob medida para o capital financeiro e imobili\u00e1rio\u201d, afirma o urbanista.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele explica que o documento ainda abre brechas legais para <a href=\"https:\/\/www.mprs.mp.br\/noticias\/urbanistico\/63497\/\"><strong>flexibilizar o zoneamento<\/strong><\/a> da cidade. \u201cEle tira da lei do plano o padr\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o e coloca isso em uma lei externa. Assim, fica mais f\u00e1cil mexer depois, via instru\u00e7\u00f5es normativas. \u00c9 uma manobra jur\u00eddica para favorecer interesses privados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao falar da hist\u00f3ria recente de Porto Alegre, Jos\u00e9 Carlos resgata o contraste com a cidade que j\u00e1 foi refer\u00eancia mundial em participa\u00e7\u00e3o popular. \u201cEla viveu v\u00e1rios anos de uma experi\u00eancia muito rica de participa\u00e7\u00e3o popular. N\u00f3s vivemos os F\u00f3runs Sociais Mundiais, que culminaram em um processo de gest\u00e3o participativa na cidade. Mas isso era catastr\u00f3fico para determinados grupos de cidad\u00e3os\u201d, recorda. Esses grupos \u2013 o empresariado da constru\u00e7\u00e3o civil, o capital imobili\u00e1rio e os agentes pol\u00edticos que os orbitam \u2013 formam hoje a engrenagem que define o rumo da cidade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O abismo habitacional<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">Segundo levantamento da <strong>Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro (2021)<\/strong>, mais de <strong>dez mil fam\u00edlias vivem em coabita\u00e7\u00e3o<\/strong> e quase <strong>49 mil comprometem parte excessiva da renda com aluguel<\/strong> em Porto Alegre. Em mar\u00e7o de 2024, cerca de <strong>25 mil fam\u00edlias<\/strong> estavam inscritas no Cadastro \u00danico para Programas Sociais (Cad\u00danico), \u00e0 espera de pol\u00edticas p\u00fablicas de habita\u00e7\u00e3o que raramente saem do papel.<br><br>Enquanto milhares aguardam um teto, a cidade abriga mais de <strong>100 mil domic\u00edlios vagos<\/strong> e <strong>27 mil de uso ocasional<\/strong>, segundo o <a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/rs\/porto-alegre\/pesquisa\/10102\/122229\"><strong>Censo de 2022<\/strong><\/a> do IBGE. Na Regi\u00e3o Metropolitana, o n\u00famero sobe para <strong>223 mil im\u00f3veis desocupados<\/strong> \u2013 moradias que permanecem ociosas, esperando valoriza\u00e7\u00e3o no mercado. Embora existam instrumentos legais para destinar im\u00f3veis abandonados a fins sociais, as disputas jur\u00eddicas travam o processo.<br><br>O investimento p\u00fablico segue impulsionando a valoriza\u00e7\u00e3o de certas regi\u00f5es apenas para que o <strong>capital privado as reocupe<\/strong>. O processo de <a href=\"http:\/\/portal.iphan.gov.br\/dicionarioPatrimonioCultural\/detalhes\/78\/gentrificacao\"><strong>gentrifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a> se intensifica, empurrando moradores de baixa renda para cada vez mais longe do centro. Atualmente, <strong>mais de tr\u00eas mil fam\u00edlias<\/strong> <strong>enfrentam amea\u00e7as de despejo<\/strong>, segundo o <a href=\"https:\/\/mapa.despejozero.org.br\/?modo=panorama&amp;recorteTerritorial=mr&amp;localizacao%5B%5D=porto-alegre-rs&amp;status_conflito%5B%5D=ameaca&amp;causa_do_conflito%5B%5D=impacto-de-obras-publicas-projetos-de-urbanizacao&amp;causa_do_conflito%5B%5D=reintegracao-de-posse-violacao-da-posse-ou-propriedade-do-autor-do-processo\"><strong>Mapeamento Nacional de Conflitos pela Terra e Moradia<\/strong><\/a>, seja por reintegra\u00e7\u00f5es de posse ou por obras p\u00fablicas. Pelo menos um ter\u00e7o vive justamente no <strong>Centro<\/strong> e no <strong>4\u00ba Distrito<\/strong>, \u00e1reas que concentram projetos de \u201crevitaliza\u00e7\u00e3o\u201d urbana em Porto Alegre.<br><br>Paralelamente, o mercado de loca\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis vive um <strong>ciclo de valoriza\u00e7\u00e3o sem precedentes<\/strong>. Em mar\u00e7o de 2025, o valor m\u00e9dio dos alugu\u00e9is residenciais subiu <strong>17,9% em um ano<\/strong>, o maior aumento em 13 anos, de acordo com o <a href=\"https:\/\/www.secovirsagademi.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=083154&amp;SecaoID=494829&amp;SubsecaoID=629122&amp;Template=..\/artigosnoticias\/user_exibir.asp&amp;ID=715482\"><strong>Sindicato da Habita\u00e7\u00e3o do RS<\/strong><\/a>.\u00a0<\/pre>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1_Grafico-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-28153\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1_Grafico-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1_Grafico-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1_Grafico-768x432.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1_Grafico-1536x864.png 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1_Grafico-1500x844.png 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1_Grafico.png 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Secovi-RS | Gr\u00e1fico: Jo\u00e3o V\u00edtor Debiasi<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">Nos bairros nobres da capital, o salto foi ainda mais expressivo: <strong>Ch\u00e1cara das Pedras<\/strong> registrou aumento de <strong>66%<\/strong>, seguido por <strong>Moinhos de Vento<\/strong> (+48%) e <strong>Tr\u00eas Figueiras<\/strong> (+35%). Este \u00faltimo, inclusive, det\u00e9m o t\u00edtulo de aluguel mais caro da cidade. O pre\u00e7o m\u00e9dio praticado no bairro \u00e9 de <strong>R$ 9,8 mil<\/strong>.<br><br>Para Fu\u00e3o, o aumento dos valores est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 <strong>concentra\u00e7\u00e3o e especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria<\/strong>. \u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o poder das construtoras. As imobili\u00e1rias est\u00e3o nas m\u00e3os das mesmas pessoas, e elas v\u00e3o aumentando o valor dos im\u00f3veis porque t\u00eam muitos deles\u201d, observa.<br><br>O professor explica que quem vive de aluguel geralmente paga o lucro de quem tem mais de um im\u00f3vel. \u201cQuem coloca um im\u00f3vel para alugar \u00e9 porque j\u00e1 tem outro sobrando. Isso \u00e9 especula\u00e7\u00e3o: a pessoa n\u00e3o faz nada, absolutamente nada. A imobili\u00e1ria faz, especula, e ele [o locador] ganha f\u00e1cil\u201d.<br><br>Segundo ele, <strong>quanto maior a concentra\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis, maior o poder de definir pre\u00e7os <\/strong>e menor a chance de democratizar o acesso \u00e0 moradia. \u201cAt\u00e9 quando n\u00f3s vamos ter que ter alugu\u00e9is t\u00e3o caros?\u201d, questiona.<\/pre>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os muros do \u201cpara\u00edso\u201d<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Muros, cancelas, sensores, c\u00e2meras. A cidade contempor\u00e2nea \u00e9 vigiada, compartimentada, cercada. Os condom\u00ednios fechados de luxo s\u00e3o o \u00e1pice dessa nova l\u00f3gica urbana, que <strong>transforma a inseguran\u00e7a em valor de mercado.<\/strong> Mais do que edif\u00edcios, s\u00e3o m\u00e1quinas para produzir um novo tipo de espa\u00e7o social e psicol\u00f3gico, definido pelo medo do mundo exterior e pela promessa de um \u201cpara\u00edso\u201d controlado e exclusivo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"826\" height=\"551\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/3_Foto.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-28154\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/3_Foto.png 826w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/3_Foto-300x200.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/3_Foto-768x512.png 768w\" sizes=\"(max-width: 826px) 100vw, 826px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Parais\u00f3polis e condom\u00ednio de luxo separados por um muro, em S\u00e3o Paulo. A imagem registrada por Tuca Vieira tornou-se \u00edcone mundial das contradi\u00e7\u00f5es urbanas e da segrega\u00e7\u00e3o social no Brasil | Foto: Tuca Vieira<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Esses enclaves n\u00e3o s\u00e3o apenas uma resposta aos problemas urbanos, mas <strong>uma estrat\u00e9gia para lucrar com eles. <\/strong>Nascem da degrada\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, mas tamb\u00e9m a alimentam, ao privatizar o conv\u00edvio e esvaziar a rua. O resultado \u00e9 o que o professor Jos\u00e9 Carlos chama de <strong>\u201cilhas de fausto\u201d <\/strong>ou <strong>\u201cguetos de bem-estar\u201d<\/strong>. Espa\u00e7os que funcionam na contram\u00e3o da heterogeneidade, da mistura e do encontro \u2013 caracter\u00edsticas que definem a pr\u00f3pria ess\u00eancia da vida urbana. Essa din\u00e2mica \u00e9 retratada no document\u00e1rio independente<strong> \u201c<\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=RrUW_-5lZvA\"><strong>Alphaville: do lado de dentro do muro<\/strong><\/a><strong>\u201d<\/strong> (2008), dirigido por <strong>Luiza Campos<\/strong>, que investiga o cotidiano dos moradores de um condom\u00ednio fechado em S\u00e3o Paulo e revela como o medo e o desejo de exclusividade moldam n\u00e3o apenas o espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es sociais que nele se constroem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe um condom\u00ednio tem um circuito de c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia, por exemplo, o que ele est\u00e1 fazendo? Ele est\u00e1 negando a cidade\u201d, diz Jos\u00e9 Carlos. \u201cEle est\u00e1 filmando o que est\u00e1 l\u00e1 fora, criando uma situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, e n\u00e3o quer nem conviver com o que est\u00e1 l\u00e1\u201d, para o professor \u00e9 isso que <strong>constitui a \u00e9tica urbana contempor\u00e2nea.<\/strong> \u201cUma \u00e9tica do medo, uma \u00e9tica do muro, uma \u00e9tica que nega a pobreza, que nega a sujeira ou, pelo menos, pensa que desfavorecidos s\u00e3o sujos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Essa \u201c\u00e9tica do muro\u201d produz tamb\u00e9m uma est\u00e9tica.<\/strong> Comumente, em condom\u00ednios de luxo, tr\u00eas ou quatro port\u00f5es separam o interior da rua. Como observa Fu\u00e3o, essa arquitetura \u00e9 movida pelo <strong>\u201cmodelo paran\u00f3ico americano\u201d<\/strong>, que <strong>naturaliza a ideia de que o medo \u00e9 o principal organizador da vida urbana.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cidade se converte num espa\u00e7o de controle difuso, onde a vigil\u00e2ncia \u00e9 privatizada e o poder se manifesta n\u00e3o mais pela coer\u00e7\u00e3o direta, mas por uma <a href=\"https:\/\/colunastortas.com.br\/o-espaco-a-cidade-e-o-meio-no-biopoder-michel-foucault\/\"><strong>gest\u00e3o de fluxos e comportamentos<\/strong><\/a>. <strong>Michel Foucault <\/strong>descreveu esse mecanismo como uma das faces do poder moderno, aquele que n\u00e3o apenas pune, mas <a href=\"https:\/\/periodicos.ufmg.br\/index.php\/revice\/article\/view\/e42142\"><strong>molda, disciplina e antecipa o desvio<\/strong><\/a><strong>.<\/strong> O condom\u00ednio, nesse sentido, \u00e9 uma esp\u00e9cie de <a href=\"https:\/\/colunastortas.com.br\/o-panoptico-e-o-panoptismo-michel-foucault\/\"><strong>pan\u00f3ptico<\/strong><\/a>: uma estrutura que produz subjetividades d\u00f3ceis e espacialmente segregadas, mantendo o medo como fundamento da ordem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4_Foto-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28155\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4_Foto-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4_Foto-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4_Foto-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4_Foto-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4_Foto-1500x844.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4_Foto.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Michel Foucault (1926\u20131984), fil\u00f3sofo franc\u00eas, desenvolveu o conceito de \u201cpanoptismo\u201d para explicar as formas de vigil\u00e2ncia e controle que moldam o comportamento social nas sociedades modernas | Foto: Michelle Bancilhon<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas o medo n\u00e3o surge do nada, ele \u00e9 cultivado, projetado e comercializado. O <strong>mercado imobili\u00e1rio<\/strong> aprendeu a <strong>transformar o sentimento de inseguran\u00e7a em produto, vendendo prote\u00e7\u00e3o sob a forma de luxo.<\/strong> Assim, o medo se converte em <strong>motor econ\u00f4mico<\/strong>, e a cidade em <strong>vitrine de oportunidades para quem pode pagar por isolamento.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A genealogia desse tipo de espa\u00e7o \u00e9 antiga. A pr\u00f3pria palavra <strong>\u201cpara\u00edso\u201d vem do persa \u201cpairidaeza\u201d, que significa \u201c\u00e1rea murada\u201d<\/strong>. O primeiro para\u00edso era um jardim fechado, protegido do exterior selvagem. O condom\u00ednio de luxo \u00e9, de certo modo, seu herdeiro. O soci\u00f3logo <strong>Tony Hara<\/strong> chama isso de <a href=\"https:\/\/revistas.ufpr.br\/historia\/article\/view\/80391\"><strong>\u201cparadoxo do para\u00edso moderno\u201d<\/strong><\/a>: quanto mais buscamos seguran\u00e7a, mais nos separamos do que \u00e9 p\u00fablico e, nesse processo, <strong>minamos o pr\u00f3prio sentido de cidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O medo \u00e9, portanto, tanto sintoma quanto produto<\/strong>. \u00c9 sintoma de uma cidade desigual, que falha em garantir o b\u00e1sico, e produto de uma <strong>cultura urbana que transforma essa desigualdade em justificativa para a segrega\u00e7\u00e3o.<\/strong> \u201cO medo da cidade\u201d, explica Jos\u00e9 Carlos, \u201crevela uma busca intensa por seguran\u00e7a e essa busca diz muito sobre nossa rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o p\u00fablico. Temos medo de viver na cidade porque n\u00e3o estamos fazendo o nosso dever de casa.\u201d<br><br>O professor afirma que parte do problema tamb\u00e9m est\u00e1 na pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o da arquitetura. \u201cA tradi\u00e7\u00e3o do ensino arquitet\u00f4nico \u00e9 ser dirigida a uma produ\u00e7\u00e3o de arquitetura de classe m\u00e9dia e alta. Essa \u00e9 a grande quest\u00e3o. \u00c9 uma profiss\u00e3o que tem a sua origem nas classes dominantes, a servi\u00e7o da classe dominante. T\u00e1 na ess\u00eancia desse \u2018escorpi\u00e3o arquiteto\u2019 servir aos soberanos\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, defende que <strong>o arquiteto deve ter um compromisso \u00e9tico com o territ\u00f3rio e com as pessoas.<\/strong> \u201cNingu\u00e9m entra na arquitetura para ser popstar, n\u00e9?\u201d, provoca. \u201cA gente entra para resolver problemas, para, enquanto cidad\u00e3os maduros, sermos capazes de enfrentar os desafios que vivemos nos lugares em que vivemos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse olhar exige, segundo ele, que o profissional volte-se para seu pr\u00f3prio entorno. \u201cFicar admirando a arquitetura da It\u00e1lia ou dos Estados Unidos \u00e9 muito bom, mas n\u00f3s temos que ter a responsabilidade de olhar para o nosso quintal. Esse direcionamento ao of\u00edcio de escrit\u00f3rio, simplesmente voltado \u00e0 arquitetura de m\u00e9dio e alto padr\u00e3o, n\u00e3o tem sentido nenhum diante da realidade brasileira\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5_Foto-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28156\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5_Foto-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5_Foto-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5_Foto-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5_Foto-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5_Foto-2048x1152.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5_Foto-1500x844.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Depois de mais de 3 anos em obras, megacondom\u00ednio da Cyrela est\u00e1 em fase final de constru\u00e7\u00e3o no bairro Rio Branco | Foto: Jo\u00e3o V\u00edtor Debiasi<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A cidade do muro \u00e9 tamb\u00e9m a cidade da abdica\u00e7\u00e3o<\/strong>. Ao buscar uma<strong> solu\u00e7\u00e3o individual<\/strong> para um<strong> problema coletivo<\/strong>, criamos microcidades privadas e artificiais. <strong>Abdicamos do espa\u00e7o p\u00fablico<\/strong> e das responsabilidades que v\u00eam com ele. <strong>Viramos as costas para a cidade real.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o existe lugar para o discernimento de bom desenvolvimento da cidade mediante super empreendimentos\u201d, afirma Jos\u00e9 Carlos. \u201cEles <strong>s\u00e3o s\u00edmbolos de desigualdade social.<\/strong> Por si s\u00f3, ofendem a ordem da cidade, porque alijam de seus espa\u00e7os as pessoas da periferia. E a gente n\u00e3o pode permitir algo desse tipo, porque desenvolvimento n\u00e3o \u00e9 encher a cidade de gente, nem de pr\u00e9dio. Se tu perguntares se eles [condom\u00ednios de luxo] respondem ao que o planejamento urbano de uma cidade deve ter, <strong>a resposta \u00e9 muito dura: n\u00e3o<\/strong>. Porque eles s\u00e3o dirigidos a um tipo de pessoa s\u00f3\u201d, conclui o professor.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O bal\u00e9 das cal\u00e7adas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Esse modelo de seguran\u00e7a por meio da segrega\u00e7\u00e3o se op\u00f5e diretamente \u00e0 filosofia da grande urbanista <strong>Jane Jacobs<\/strong>, citada por Jos\u00e9 Carlos e Fu\u00e3o. Em sua obra seminal, \u201cMorte e vida de grandes cidades\u201d (1961), Jacobs argumenta que a seguran\u00e7a urbana genu\u00edna n\u00e3o parte de muros, port\u00f5es ou for\u00e7as privadas. Ela surge organicamente de uma <strong>vida p\u00fablica vibrante, complexa e densa<\/strong>, do intrincado <strong>\u201cbal\u00e9 da cal\u00e7ada\u201d<\/strong>, feito de encontros casuais e da conviv\u00eancia cotidiana entre vizinhos, lojistas e transeuntes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Jacobs, <strong>os \u201colhos na rua\u201d s\u00e3o a base da seguran\u00e7a e da vitalidade urbana<\/strong>. A presen\u00e7a de diferentes <strong>n\u00e3o \u00e9 amea\u00e7a, mas condi\u00e7\u00e3o de civilidade.<\/strong> A confian\u00e7a e o contato constante em espa\u00e7os compartilhados produzem uma forma de cuidado coletivo que nenhuma c\u00e2mera \u00e9 capaz de substituir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O modelo de enclave \u00e9 a ant\u00edtese dessa vis\u00e3o.<\/strong> Ele destr\u00f3i sistematicamente as condi\u00e7\u00f5es para que o bal\u00e9 das cal\u00e7adas aconte\u00e7a, ao privatizar o espa\u00e7o p\u00fablico, segregar usos e esvaziar as ruas. \u201cApropria\u00e7\u00e3o urbana \u00e9 um lugar onde naturalmente as pessoas se apossam, usam, n\u00e9? E se tu tens um lugar com uma fun\u00e7\u00e3o s\u00f3, tu n\u00e3o tem gente na rua. Se tu tens uma rua com servi\u00e7os, com com\u00e9rcio e com habita\u00e7\u00e3o, todas mescladas no gr\u00e3o humano, a\u00ed tu tens gente na rua. Tu tens o que chamamos de seguran\u00e7a natural. Tu n\u00e3o precisa de pol\u00edcia, n\u00e3o precisa de grade\u201d, assegura Jos\u00e9 Carlos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele reconhece, por\u00e9m, um dilema. Depois de termos chegado ao patamar de criminalidade atual, <strong>\u00e9 muito dif\u00edcil derrubar todos os muros<\/strong>. Mas, segundo o pesquisador, temos que come\u00e7ar por outro lado: pela <strong>educa\u00e7\u00e3o<\/strong>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Fernando Fu\u00e3o, a crise urbana vai mais al\u00e9m. \u201cNossa concep\u00e7\u00e3o de moradia \u00e9 muito restrita\u201d, observa. \u201cA gente olha o morar como apenas a casa, n\u00e9? Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso.<strong> As pessoas moram no trabalho, moram no transporte. A casa est\u00e1 ligada a uma s\u00e9rie de fatores.<\/strong>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Essa fragmenta\u00e7\u00e3o do cotidiano \u2013 <strong>morar mal, trabalhar longe, viver isolado<\/strong> \u2013 rompe o elo comunit\u00e1rio que sustenta esse bal\u00e9 das cal\u00e7adas. \u201cQue pol\u00edtica \u00e9 essa que uma pessoa tem que se deslocar uma hora e meia ou duas horas para ir trabalhar e depois retornar, e no dia seguinte repetir isso?\u201d, questiona Fu\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/6_Foto_-Marcelo-Pires-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28157\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/6_Foto_-Marcelo-Pires-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/6_Foto_-Marcelo-Pires-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/6_Foto_-Marcelo-Pires-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/6_Foto_-Marcelo-Pires-1020x680.jpg 1020w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/6_Foto_-Marcelo-Pires.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">As marcas do abandono urbano exp\u00f5em a contradi\u00e7\u00e3o entre uma cidade que ergue condom\u00ednios de luxo e outra que resiste nas ruas esquecidas | Foto: Marcelo Pires<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O caminho atual leva a uma cidade fragmentada por muros, governada por decretos privados e fora de sintonia com seu ambiente natural. As enchentes de 2024 n\u00e3o inundaram apenas as ruas; elas levaram embora a confort\u00e1vel ilus\u00e3o de que esse modelo de desenvolvimento poderia ser sustentado sem consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Jos\u00e9 Carlos, a escolha agora \u00e9 reivindicar o direito a um futuro urbano diferente \u2013 diversificado, equitativo e resiliente. Isso requer, como observa o professor,<strong> romper com a \u201c\u00e9tica do lucro\u201d e reconstruir uma \u201c\u00e9tica da vida\u201d<\/strong>, capaz de <strong>abarcar toda a cidade e todos os seus habitantes<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto o d\u00e9ficit habitacional em Porto Alegre \u00e9 estimado em 31.783 resid\u00eancias, segundo dados da Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro, cresce o n\u00famero de empreendimentos de alto padr\u00e3o, localizados em bairros nobres da capital ga\u00facha. S\u00e3o torres residenciais e condom\u00ednios fechados que, com nomes em ingl\u00eas e grades imponentes, prometem conforto, exclusividade e seguran\u00e7a a seus moradores. &#8230; <a title=\"Conviv\u00eancia d\u00e1 lugar a condom\u00ednios de luxo e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria no urbanismo de Porto Alegre\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/10\/28\/convivencia-da-lugar-a-condominios-de-luxo-e-a-especulacao-imobiliaria-no-urbanismo-de-porto-alegre\/\" aria-label=\"More on Conviv\u00eancia d\u00e1 lugar a condom\u00ednios de luxo e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria no urbanismo de Porto Alegre\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":28151,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[43,49],"tags":[903,902,22,23],"class_list":["post-28150","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-propriedade","category-vida","tag-condominios-de-luxo","tag-especulacao-imobiliaria","tag-moradia","tag-porto-alegre"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28150"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28150\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28170,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28150\/revisions\/28170"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28151"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}