﻿{"id":28245,"date":"2025-11-05T15:54:25","date_gmt":"2025-11-05T18:54:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=28245"},"modified":"2025-11-05T16:38:40","modified_gmt":"2025-11-05T19:38:40","slug":"a-politica-do-sangue-falhou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/11\/05\/a-politica-do-sangue-falhou\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica do sangue falhou"},"content":{"rendered":"\n<p>As imagens que marcaram a semana n\u00e3o vieram de coletivas nem de relat\u00f3rios oficiais. Vieram da pra\u00e7a da Penha, no Rio de Janeiro, onde fam\u00edlias alinharam os corpos que o Estado deixou na mata. O fot\u00f3grafo Bruno Itan descreveu o <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cyv8nrlll0yo\"><strong>\u201ccheiro da morte\u201d e corpos mutilados<\/strong><\/a>, uma cena incompat\u00edvel com o discurso de \u201csucesso\u201d proclamado pelo governador do Rio de Janeiro, Cl\u00e1udio Castro (PL).<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong><a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/noticia\/2025\/11\/04\/megaoperacao-investigacao-comecou-com-denuncia-anonima-de-reuniao-dos-chefes-do-cv-sobre-guerra-expansionista.ghtml\">megaopera\u00e7\u00e3o<\/a> <\/strong>que mobilizou 2.500 agentes deixou pelo menos 121 mortos, tornando-se a mais letal da hist\u00f3ria do pa\u00eds e superando o massacre do Carandiru. O objetivo declarado era capturar a c\u00fapula do Comando Vermelho, mas nenhum l\u00edder foi preso. Doca, o \u201cn\u00famero dois\u201d da fac\u00e7\u00e3o, segue foragido. Foram apreendidos menos de cem fuzis diante dos cerca de dois mil estimados nas comunidades. A cidade parou. Escolas e postos de sa\u00fade fecharam, linhas de \u00f4nibus foram suspensas e moradores ficaram sitiados. Um retrato de uma opera\u00e7\u00e3o mal planejada.<\/p>\n\n\n\n<p>O epis\u00f3dio exp\u00f5e a l\u00f3gica falida da seguran\u00e7a p\u00fablica brasileira, que confunde for\u00e7a com efic\u00e1cia e transforma o confronto em rotina. Quando o Estado mata, destr\u00f3i a pr\u00f3pria capacidade de investiga\u00e7\u00e3o. Mortos n\u00e3o falam. Ao eliminar os executores do tr\u00e1fico \u2014 a base pobre e substitu\u00edvel da engrenagem \u2014, o poder p\u00fablico apaga as informa\u00e7\u00f5es que poderiam desarticular as redes que financiam e sustentam o crime. E, ao mesmo tempo, incentiva a escalada da viol\u00eancia. Se o criminoso sabe que ser\u00e1 morto, n\u00e3o se entrega. O resultado \u00e9 previs\u00edvel: mais tiroteios, mais v\u00edtimas e nenhuma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2022\/07\/22\/com-castro-rj-tem-3-das-5-chacinas-policiais-mais-letais-da-historia.htm\">Tr\u00eas das cinco maiores chacinas policiais<\/a> <\/strong>do Rio ocorreram sob o atual governo. Em baixa popularidade e de olho nas elei\u00e7\u00f5es de 2026, Cl\u00e1udio Castro repete a velha estrat\u00e9gia de transformar sangue em capital pol\u00edtico. O espet\u00e1culo da viol\u00eancia serve como demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a para uma base conservadora que aplaude o \u201ccombate ao crime\u201d, mesmo quando o combate \u00e9 contra o pr\u00f3prio povo. O Estado, assim, abdica da justi\u00e7a e se torna c\u00famplice da barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria mostra o quanto essa pol\u00edtica \u00e9 autodestrutiva. Cada opera\u00e7\u00e3o desse tipo oferece ao tr\u00e1fico novos argumentos para se apresentar como resist\u00eancia \u00e0 brutalidade policial e recrutar mais jovens. A chamada \u201c<a href=\"https:\/\/www.politize.com.br\/guerra-as-drogas\/\"><strong>guerra \u00e0s drogas<\/strong><\/a>\u201d, sustentada h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, nunca enfraqueceu as fac\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio, tornou-as mais organizadas e mais ricas. O verdadeiro poder do crime n\u00e3o est\u00e1 nos morros, mas nos fluxos financeiros e nas conex\u00f5es pol\u00edticas que o Estado evita enfrentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s dessa estrat\u00e9gia h\u00e1 tamb\u00e9m um componente estrutural: o racismo. As <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/direitos-humanos\/noticia\/2024-11\/quase-90-dos-mortos-por-policiais-em-2023-eram-negros-diz-estudo\"><strong>v\u00edtimas da viol\u00eancia policial no Brasil<\/strong><\/a> t\u00eam cor e endere\u00e7o. S\u00e3o, em sua maioria, pessoas negras, pobres e perif\u00e9ricas. O que se chama de \u201cguerra ao tr\u00e1fico\u201d \u00e9, na ess\u00eancia, uma guerra ao povo preto \u2014 um genoc\u00eddio naturalizado e televisionado.<\/p>\n\n\n\n<p>A ilegalidade \u00e9 evidente. A opera\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/artigos\/adpf-635-e-o-colapso-da-seguranca-publica-no-rio-de-janeiro\"><strong>desrespeitou a decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal<\/strong><\/a> na Argui\u00e7\u00e3o de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, que, quando observada, reduziu a letalidade policial em 34% e provocou tamb\u00e9m uma queda nos crimes contra a vida e o patrim\u00f4nio. A li\u00e7\u00e3o foi ignorada e o Estado voltou a medir efici\u00eancia pelo n\u00famero de corpos. Mas a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deixa enganar. Pesquisa Datafolha mostra que <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/11\/01\/datafolha-77-consideram-que-investigacao-de-crimes-e-mais-importante-do-que-matar-criminosos\/\"><strong>77% dos moradores do Rio consideram a investiga\u00e7\u00e3o mais importante do que matar criminosos<\/strong><\/a>, e 73% discordam da ideia de que quem morre em opera\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre bandido.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 alternativas. A <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pi\/piaui\/noticia\/2025\/11\/05\/operacao-carbono-oculto-piaui.ghtml\"><strong>Opera\u00e7\u00e3o Carbono Oculto<\/strong><\/a>, da Pol\u00edcia Federal, desarticulou a estrutura financeira do PCC sem disparar um tiro. Seguindo o dinheiro e bloqueando ativos, atingiu o cora\u00e7\u00e3o do crime \u2014 o lucro. As fac\u00e7\u00f5es funcionam como empresas, e combat\u00ea-las exige intelig\u00eancia. O exemplo mostra que rastrear recursos e enfraquecer redes financeiras \u00e9 muito mais eficaz do que invadir favelas com blindados. A seguran\u00e7a p\u00fablica precisa de menos caveir\u00f5es e mais investiga\u00e7\u00e3o. De menos ret\u00f3rica e mais presen\u00e7a do Estado onde ele falta: nas escolas, nos postos de sa\u00fade, nas pol\u00edticas de moradia e cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>O massacre no Rio n\u00e3o foi exce\u00e7\u00e3o. Foi o retrato de uma pol\u00edtica de morte que fracassa desde sempre. O desafio \u00e9 romper o ciclo e construir outra l\u00f3gica, uma que n\u00e3o veja cidad\u00e3os como inimigos e n\u00e3o use o medo como ferramenta de poder. A democracia n\u00e3o resiste quando o Estado transforma a favela em alvo. E nenhum pa\u00eds sobrevive ao h\u00e1bito de chamar a morte de seus cidad\u00e3os de \u201csucesso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O <strong>Humanista<\/strong> reafirma que <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2024\/04\/22\/criminalizacao-drogas-seguranca-seguranca-publica\/\"><strong>seguran\u00e7a p\u00fablica e democracia n\u00e3o s\u00e3o for\u00e7as opostas<\/strong><\/a>. Uma s\u00f3 existe plenamente quando a outra \u00e9 garantida. \u00c9 dever do Estado proteger vidas, n\u00e3o contabiliz\u00e1-las. O pa\u00eds precisa abandonar a pol\u00edtica do sangue e reconstruir, com intelig\u00eancia e humanidade, o sentido de seguran\u00e7a que ainda pode caber numa democracia. Seguimos vigilantes, na expectativa de contribuir com esse prop\u00f3sito ao produzir conhecimento sobre os acontecimentos p\u00fablicos e suas repercuss\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As imagens que marcaram a semana n\u00e3o vieram de coletivas nem de relat\u00f3rios oficiais. Vieram da pra\u00e7a da Penha, no Rio de Janeiro, onde fam\u00edlias alinharam os corpos que o Estado deixou na mata. O fot\u00f3grafo Bruno Itan descreveu o \u201ccheiro da morte\u201d e corpos mutilados, uma cena incompat\u00edvel com o discurso de \u201csucesso\u201d proclamado &#8230; <a title=\"A pol\u00edtica do sangue falhou\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/11\/05\/a-politica-do-sangue-falhou\/\" aria-label=\"More on A pol\u00edtica do sangue falhou\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":28246,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[227],"tags":[911,329,913,912],"class_list":["post-28245","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-editorial","tag-megaoperacao","tag-politica","tag-rio-de-janeiro","tag-violencia-policial"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28245","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28245"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28245\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28252,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28245\/revisions\/28252"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28246"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28245"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28245"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28245"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}