﻿{"id":28282,"date":"2025-11-10T15:38:28","date_gmt":"2025-11-10T18:38:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=28282"},"modified":"2025-11-10T15:38:30","modified_gmt":"2025-11-10T18:38:30","slug":"entre-o-cuidado-e-a-resistencia-kasa-branca-amplia-o-olhar-sobre-o-cinema-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/11\/10\/entre-o-cuidado-e-a-resistencia-kasa-branca-amplia-o-olhar-sobre-o-cinema-negro\/","title":{"rendered":"Entre o cuidado e a resist\u00eancia, Kasa Branca amplia o olhar sobre o cinema negro"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando se fala em representa\u00e7\u00f5es sobre juventude negra em contexto de periferia, o cinema costuma oscilar entre viol\u00eancia e clich\u00ea. Entretanto, <strong>Kasa Branca \u00e9 o tipo de filme que quebra esse estere\u00f3tipo e escolhe outro caminho: o do afeto como sobreviv\u00eancia.<\/strong> O longa relata a hist\u00f3ria de D\u00e9 (Big Jaum), um jovem que tem sua adolesc\u00eancia interrompida para cuidar da av\u00f3, Dona Almerinda (Teca Pereira), que se encontra em est\u00e1gio terminal de Alzheimer. Apesar das dificuldades que atravessam a rotina do protagonista, o que sustenta sua caminhada \u00e9 a presen\u00e7a de seus amigos, Adrianim (Diego Francisco) e Martins (Ramon Francisco), v\u00ednculos que n\u00e3o romantizam a realidade, mas mostram que o cuidado, na periferia, muitas vezes \u00e9 coletivo antes de ser institucional. <strong>H\u00e1 dor, h\u00e1 limites, mas tamb\u00e9m h\u00e1 riso, m\u00fasica e respiros.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O diretor, Luciano Vidigal, escolhe tratar um tema sens\u00edvel com delicadeza e dignidade. Ao inv\u00e9s de explorar o sofrimento como espet\u00e1culo, ele constr\u00f3i o filme com um olhar que encontra beleza no cotidiano e leveza nos pequenos gestos de afeto. O resultado \u00e9 uma narrativa que emociona sem pesar, e que reafirma a pot\u00eancia da vida mesmo quando a doen\u00e7a tenta apag\u00e1-la.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Exibido no \u00faltimo dia do <a href=\"https:\/\/www.cinematecapauloamorim.com.br\/noticias\/tag\/Festival%20Cinema%20Negro%20em%20A%C3%A7%C3%A3o\"><strong>6\u00ba Festival Cinema Negro em A\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a>, na Casa de Cultura M\u00e1rio Quintana, Kasa Branca ganhou novas camadas diante do p\u00fablico presente, especialmente pela participa\u00e7\u00e3o do diretor Luciano Vidigal, que compartilhou o impacto de revisitar o filme em um evento constru\u00eddo por e para o cinema negro. Para ele, ocupar esse tipo de mostra vai al\u00e9m da exibi\u00e7\u00e3o, \u00e9 reafirmar pertencimento e construir mem\u00f3ria coletiva. <strong>\u201cVoltar a assistir ao filme aqui, com voc\u00eas, foi simb\u00f3lico. O Cinema Negro em A\u00e7\u00e3o \u00e9 um lugar de afeto, de troca e de resist\u00eancia. \u00c9 como um palco onde o cinema negro pode existir sem pedir licen\u00e7a, pode revelar, compartilhar e ser celebrado\u201d<\/strong>, afirmou Vidigal, destacando que o festival representa um Brasil que ainda n\u00e3o cabe nas telas comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor tamb\u00e9m ressaltou que a escolha por uma narrativa guiada pelo cuidado n\u00e3o nasceu por acaso, mas como gesto pol\u00edtico. <strong>\u201cEu decidi que n\u00e3o haveria arma, n\u00e3o haveria viol\u00eancia como espet\u00e1culo. Quis mostrar que a juventude preta tamb\u00e9m se abra\u00e7a, tamb\u00e9m cuida e que isso \u00e9 pot\u00eancia. Contar essa hist\u00f3ria com delicadeza \u00e9 uma forma de repara\u00e7\u00e3o, porque nossos corpos sempre foram retratados pela dor\u201d<\/strong>, completou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/FOTO02-1-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28284\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/FOTO02-1-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/FOTO02-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/FOTO02-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/FOTO02-1-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/FOTO02-1-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/FOTO02-1-1500x1125.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Na sess\u00e3o, o olhar de Vidigal traduz a emo\u00e7\u00e3o de ver o cinema negro existir em seus pr\u00f3prios termos | Foto: Maria Laura Su\u00f1e<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Embora Kasa Branca aposte no afeto como for\u00e7a de resist\u00eancia, o cen\u00e1rio fora da tela ainda revela o quanto a narrativa permanece como exce\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a de pessoas negras na dire\u00e7\u00e3o e na constru\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias sens\u00edveis sobre suas pr\u00f3prias comunidades ainda n\u00e3o se traduz em acesso equitativo aos recursos, financiamento e circula\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um levantamento da Cinemateca Negra mostra que <a href=\"https:\/\/almapreta.com.br\/sessao\/cultura\/pesquisa-83-dos-filmes-dirigidos-por-negros-no-brasil-surgiram-de-2010-a-2020\/\"><strong>83% dos filmes dirigidos por realizadores negros no Brasil foram produzidos entre 2010 e 2020<\/strong><\/a>, um avan\u00e7o num\u00e9rico consider\u00e1vel, mas que n\u00e3o significa, necessariamente, apoio institucional cont\u00ednuo. Em 2018, por exemplo, a<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/palmares\/pt-br\/assuntos\/noticias\/editais-incentivam-presenca-negra-no-audiovisual-brasileiro\"> <strong>Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares anunciou 11 editais voltados \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a negra no audiovisual<\/strong><\/a>, com investimento estimado em <strong>R$ 80 milh\u00f5es para at\u00e9 250 projetos<\/strong>, uma iniciativa importante, mas ainda insuficiente frente \u00e0 desigualdade hist\u00f3rica no setor.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunista\/quilombo-do-audiovisual-negro\/2024\/10\/09\/cinema-negro-e-cinema-brasileiro-mas-dados-de-participacao-economica-insistem-em-dizer-o-contrario\/\"><strong>\u00a0A participa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dessas produ\u00e7\u00f5es segue restrita<\/strong><\/a>, expondo o descompasso entre crescimento criativo e investimento p\u00fablico. Em outras palavras, a presen\u00e7a no cat\u00e1logo n\u00e3o garante perman\u00eancia nas pol\u00edticas culturais, nem condi\u00e7\u00f5es materiais para que obras como Kasa Branca cheguem ao p\u00fablico com a mesma for\u00e7a que filmes produzidos sob a l\u00f3gica hegem\u00f4nica do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que os n\u00fameros avancem e novos editais sinalizem um esfor\u00e7o de repara\u00e7\u00e3o, <strong>o cinema negro brasileiro continua a existir, em grande parte, \u00e0 revelia das estruturas que deveriam sustent\u00e1-lo<\/strong>. O que mant\u00e9m essas produ\u00e7\u00f5es vivas \u00e9 a insist\u00eancia de artistas, coletivos e comunidades que criam mesmo quando o sistema n\u00e3o os enxerga.<strong> Kasa Branca, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas um filme, \u00e9 um gesto de perman\u00eancia.<\/strong> Reivindicando um outro modo de narrar e de existir na tela, em que a humanidade negra n\u00e3o precisa ser traduzida pela dor, mas pode ser contada em seus pr\u00f3prios tons, sil\u00eancios e afetos. <strong>Porque se o cinema \u00e9 tamb\u00e9m espelho de um pa\u00eds, o que se reflete em Kasa Branca \u00e9 um Brasil que ainda luta para se ver inteiro.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando se fala em representa\u00e7\u00f5es sobre juventude negra em contexto de periferia, o cinema costuma oscilar entre viol\u00eancia e clich\u00ea. Entretanto, Kasa Branca \u00e9 o tipo de filme que quebra esse estere\u00f3tipo e escolhe outro caminho: o do afeto como sobreviv\u00eancia. 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