﻿{"id":28392,"date":"2025-11-18T16:01:03","date_gmt":"2025-11-18T19:01:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=28392"},"modified":"2025-11-18T16:01:05","modified_gmt":"2025-11-18T19:01:05","slug":"fundador-da-maior-cozinha-solidaria-de-porto-alegre-alerta-para-piora-no-cenario-da-fome-na-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2025\/11\/18\/fundador-da-maior-cozinha-solidaria-de-porto-alegre-alerta-para-piora-no-cenario-da-fome-na-capital\/","title":{"rendered":"Fundador da maior cozinha solid\u00e1ria de Porto Alegre alerta para piora no cen\u00e1rio da fome na capital"},"content":{"rendered":"\n<p>Definida como um grupo populacional que tem em comum a pobreza extrema, os v\u00ednculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexist\u00eancia de moradia convencional regular, a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua tem aumentado significativamente no pa\u00eds. Para se ter uma ideia, em 2022, <strong>uma em cada mil pessoas no Brasil estava vivendo em situa\u00e7\u00e3o de rua<\/strong>. Quando se fala em n\u00e3o ter um teto, a falta de comida vira a principal inimiga para quem se encontra sozinho e sem recursos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o estudo, <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mdh\/pt-br\/navegue-por-temas\/populacao-em-situacao-de-rua\/publicacoes\/relat_pop_rua_digital.pdf\"><strong>Diagn\u00f3stico da Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua<\/strong><\/a>, realizado pelo Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC) em 2022, o <strong>n\u00famero de Pessoas em Situa\u00e7\u00e3o de Rua (PSR) no Rio Grande do Sul passava da marca de 10,8 mil<\/strong>. Quem caminha por Porto Alegre, principalmente pelo Centro Hist\u00f3rico, precisa desviar de dezenas de pessoas que t\u00eam como quarto a cal\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 iniciativa e ao trabalho das cozinhas solid\u00e1rias e de seus volunt\u00e1rios, a Capital ga\u00facha consegue contornar uma parcela de milhares de est\u00f4magos vazios que o poder p\u00fablico finge n\u00e3o ver. Contudo, <strong>desde dezembro de 2024, a luta contra a fome ficou ainda mais dif\u00edcil,<\/strong> por causa do <a href=\"https:\/\/www.camarapoa.rs.gov.br\/processos\/140561\"><strong>projeto de lei n\u00b0 403\/24<\/strong><\/a><strong>, de autoria da vereadora Comandante N\u00e1dia (PL)<\/strong>, que prev\u00ea a regulamenta\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o de alimentos para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua e de vulnerabilidade social em Porto Alegre. Entre as exig\u00eancias do projeto para a distribui\u00e7\u00e3o de refei\u00e7\u00f5es gratuitas est\u00e3o listadas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Cadastrar os <strong>locais<\/strong>, <strong>datas<\/strong> e <strong>hor\u00e1rios<\/strong> planejados para a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, que dever\u00e1 ocorrer em locais previamente definidos e autorizados pelo Munic\u00edpio;<\/li>\n\n\n\n<li>Portar crach\u00e1 de identifica\u00e7\u00e3o pessoal, emitido pela entidade registrada;<\/li>\n\n\n\n<li>Elaborar um plano de distribui\u00e7\u00e3o detalhado (log\u00edstica, locais, datas, hor\u00e1rios) e submet\u00ea-lo previamente ao \u00f3rg\u00e3o municipal designado para an\u00e1lise e autoriza\u00e7\u00e3o;<\/li>\n\n\n\n<li>Evitar aglomera\u00e7\u00f5es desordenadas e pr\u00e1ticas que comprometam a seguran\u00e7a ou a higiene do ambiente.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Caso a ONG, igreja, associa\u00e7\u00e3o, empresa ou indiv\u00edduo viole algum dos requisitos acima, precisar\u00e1 pagar uma multa administrativa de <strong>500 UFMs<\/strong>, que equivale a aproximadamente <strong>R$ 2,9 mil<\/strong>. Ou seja, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, que se mant\u00e9m atrav\u00e9s de doa\u00e7\u00f5es, corre o risco de acumular d\u00edvidas com o poder p\u00fablico ao fazer um servi\u00e7o que deveria ser de responsabilidade do pr\u00f3prio setor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, o projeto de lei est\u00e1 em tramita\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara Municipal de Porto Alegre e aguarda vota\u00e7\u00e3o em Plen\u00e1rio. Durante a reuni\u00e3o mais recente entre entidades,<strong> <\/strong>que ocorreu no \u00faltimo dia 11 de novembro, <strong>o idealizador do projeto Cozinheiros do Bem, J\u00falio Ritta, <\/strong><a href=\"https:\/\/www.camarapoa.rs.gov.br\/noticias\/cosmam-debate-projeto-de-lei-que-regulamenta-distribuicao-de-marmitas\"><strong>pediu<\/strong><\/a><strong> que o poder p\u00fablico abandone ou reformule completamente o texto<\/strong>. \u201cA fome e a mis\u00e9ria s\u00e3o produtos. A comida jogada fora no planeta \u00e9 mais que suficiente para alimentar quem passa fome. A nossa cidade tem 7 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. N\u00f3s estamos h\u00e1 mais de dez anos ajudando e agora querem nos obrigar a usar um crach\u00e1 da Prefeitura para poder ajudar o meu povo? Eu pe\u00e7o por favor para riscarem essa lei e chamarem quem ajuda o povo para reescrever\u201d, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DQ66XAcDh70\/\"><strong>afirmou<\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda h\u00e1 esperan\u00e7a de que a proposta mude e deixe de ser mais um degrau na luta contra os direitos humanos, visto que, durante o \u00faltimo encontro, a proponente do projeto <a href=\"https:\/\/www.camarapoa.rs.gov.br\/noticias\/cosmam-debate-projeto-de-lei-que-regulamenta-distribuicao-de-marmitas\"><strong>afirmou<\/strong><\/a> que <strong>a pauta deixou de ser prioridade na C\u00e2mara, para poder debater melhor antes de avan\u00e7ar<\/strong>. Confira a linha do tempo com cada uma das etapas da proposta:<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Linha do tempo do projeto de lei 403\/24<\/h3>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>11 de dezembro de 2024:\u00a0 O PL 403\/24 \u00e9 protocolado pela vereadora Comandante N\u00e1dia. O texto prop\u00f5e estabelecer normas para a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos a pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua e vulnerabilidade social em Porto Alegre, como: cadastramento de volunt\u00e1rios, de entidades, de locais de distribui\u00e7\u00e3o, exig\u00eancia de autoriza\u00e7\u00e3o, hor\u00e1rios, identifica\u00e7\u00e3o e limpeza dos locais.<\/li>\n\n\n\n<li>4 de novembro de 2025: Movimentos sociais, cozinhas solid\u00e1rias e entidades do campo da seguran\u00e7a alimentar entregam mo\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio ao projeto de lei, argumentando que ele burocratiza a solidariedade e restringe a\u00e7\u00f5es de apoio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel.<\/li>\n\n\n\n<li>5 de novembro: O Conselho Regional de Nutri\u00e7\u00e3o da 2\u00aa Regi\u00e3o (CRN-2) entrega um manifesto na C\u00e2mara contra o projeto de lei, defendendo que a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos n\u00e3o deve ser tratada com medidas punitivas, mas com orienta\u00e7\u00e3o e pr\u00e1ticas de higiene.<\/li>\n\n\n\n<li>11 de novembro: A Comiss\u00e3o de Sa\u00fade e Meio Ambiente (Cosmam) da C\u00e2mara de Vereadores debate o projeto e define que ele deve sofrer uma pausa para uma reformula\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Diante da situa\u00e7\u00e3o, o <em>Humanista<\/em> conversou com o cozinheiro <strong>Julio Ritta<\/strong> para entender o impacto do projeto em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho das ONGs.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"731\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Foto-2-Conteudo-731x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28394\" style=\"width:563px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Foto-2-Conteudo-731x1024.jpeg 731w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Foto-2-Conteudo-214x300.jpeg 214w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Foto-2-Conteudo-768x1076.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Foto-2-Conteudo-1096x1536.jpeg 1096w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Foto-2-Conteudo.jpeg 1142w\" sizes=\"(max-width: 731px) 100vw, 731px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Julio Ritta toca o projeto social Cozinheiros do Bem h\u00e1 10 anos, em Porto Alegre | Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Como e com quem come\u00e7ou o projeto?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O projeto come\u00e7ou em setembro de 2015 comigo, Julio Ritta. Na \u00e9poca eu estava participando de um Rally de Solo, fui convidado para participar e eu fiz uma a\u00e7\u00e3o e foi assim que nasceu o Cozinheiros do Bem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que criar essa iniciativa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu criei a iniciativa porque eu sou cozinheiro. \u00c9 uma maneira de ajudar a sociedade fazendo o que eu fa\u00e7o, que \u00e9 cozinhar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como funciona o projeto? Quantas pessoas s\u00e3o volunt\u00e1rias aqui? sempre s\u00e3o as mesmas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os Cozinheiros do Bem conta com mais de 300 volunt\u00e1rios ativos, cada um colaborando da sua forma, participando de pelo menos duas a\u00e7\u00f5es no m\u00eas e, enfim, a gente tem uma m\u00e9dia de tr\u00eas a\u00e7\u00f5es semanais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quantas refei\u00e7\u00f5es voc\u00eas j\u00e1 entregaram durante esses 10 anos de projeto?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os Cozinheiros do Bem \u00e9 um coletivo independente que mais ajuda pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua no Brasil, j\u00e1 tendo entregue mais de 8 milh\u00f5es de marmitas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que tu achas que o Cozinheiros do Bem ainda est\u00e1 de p\u00e9 e durou essa d\u00e9cada toda?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os Cozinheiros do Bem seguem em p\u00e9 porque, enquanto existia uma pessoa esperando por n\u00f3s na fila, a gente acredita que tendo uma a\u00e7\u00e3o nossa nenhum ser humano precisa meter a m\u00e3o numa lata de lixo para comer. Essa \u00e9 a nossa vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que faz voc\u00ea continuar com a iniciativa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que me faz continuar com a iniciativa \u00e9 acreditar no fim da fome. A fome e a mis\u00e9ria s\u00e3o produtos e \u00e9 essa a nossa maneira de combater a nossa revolta, com o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como fundador do projeto e ativista contra a fome em Porto Alegre, o que acha e como o projeto de lei da comandante Nadja pode afetar a a\u00e7\u00e3o de voc\u00eas aqui e as cozinhas comunit\u00e1rias da regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cria\u00e7\u00e3o desse projeto \u00e9 uma afronta a&nbsp; todo ser humano que de alguma maneira busca amenizar o sofrimento das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade extrema, j\u00e1 que hoje 16 milh\u00f5es de pessoas no Brasil n\u00e3o sabem qual que vai ser a sua pr\u00f3xima refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se o projeto for aprovado, qual ser\u00e1 o impacto nos moradores de rua que dependem de iniciativas como a de voc\u00eas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se a lei fosse aprovada da maneira que ela tinha sido criada no in\u00edcio, com certeza atingiria drasticamente as pessoas que mais sentem fome. Porto Alegre conta hoje com mais de 7 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. Quando os Cozinheiros do Bem come\u00e7ou, n\u00e3o existia comida que n\u00e3o fosse sopa para a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua e nos orgulha muito saber que muitos dos projetos que tem foram inspirados na nossa luta. Os Cozinheiros do Bem seguem firmes e fortes, sendo porta-vozes daqueles que n\u00e3o tem voz dentro dessa luta e colocando-se \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para que projetos que n\u00e3o tem experi\u00eancia ou pessoas que queiram come\u00e7ar a fazer esse trabalho tenham o nosso suporte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Definida como um grupo populacional que tem em comum a pobreza extrema, os v\u00ednculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexist\u00eancia de moradia convencional regular, a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua tem aumentado significativamente no pa\u00eds. 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