﻿{"id":29246,"date":"2026-05-18T12:41:22","date_gmt":"2026-05-18T15:41:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=29246"},"modified":"2026-06-10T17:25:05","modified_gmt":"2026-06-10T20:25:05","slug":"palco-giratorio-completa-28-anos-como-o-maior-circuito-de-artes-cenicas-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2026\/05\/18\/palco-giratorio-completa-28-anos-como-o-maior-circuito-de-artes-cenicas-do-brasil\/","title":{"rendered":"Palco Girat\u00f3rio completa 28 anos como o maior circuito de artes c\u00eanicas do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Porto Alegre recebe entre 19 de maio e 3 de junho a 20\u00aa edi\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.sesc-rs.com.br\/palcogiratorio\/\">Festival Palco Girat\u00f3rio<\/a>, o maior circuito de artes c\u00eanicas do Brasil. Em 2026, o projeto do <a href=\"https:\/\/www.sesc.com.br\/\">Servi\u00e7o Social do Com\u00e9rcio<\/a> (Sesc) alcan\u00e7a 113 cidades, movimenta 16 grupos e 106 artistas e t\u00e9cnicos. Na capital ga\u00facha, s\u00e3o 62 sess\u00f5es distribu\u00eddas em 17 espa\u00e7os. No Rio Grande do Sul, treze cidades do interior tamb\u00e9m recebem espet\u00e1culos ao longo do ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os dias 14 e 17 de abril, Porto Alegre sediou pela primeira vez a programa\u00e7\u00e3o de lan\u00e7amento do circuito nacional, com apresenta\u00e7\u00f5es gratuitas em teatros e espa\u00e7os p\u00fablicos da cidade. Quatro espet\u00e1culos do circuito nacional foram apresentados ao p\u00fablico: os ga\u00fachos <em>Frankinh@ \u2013 Uma Hist\u00f3ria em Pedacinhos<\/em> e <em>Bando<\/em>, o paraense <em>Corpos de Tambor<\/em> e o baiano <em>Infinito<\/em>. A mostra incluiu ainda as montagens convidadas <em>Maria Pe\u00e7onha<\/em> e <em>Encruzilhada<\/em>, de companhias teatrais do estado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"819\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Laura-Caporal-1-1024x819.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-29251\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Laura-Caporal-1-1024x819.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Laura-Caporal-1-300x240.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Laura-Caporal-1-768x614.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Laura-Caporal-1-1536x1229.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Laura-Caporal-1-2048x1639.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Laura-Caporal-1-1500x1200.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Maria Pe\u00e7onha, da Cia Gente Falante (RS), integrou a programa\u00e7\u00e3o de lan\u00e7amento da 28\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Palco Girat\u00f3rio em Porto Alegre, em abril de 2026 | Foto: Laura Caporal <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o da cultura no Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2023, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica publicou os dados mais recentes do <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/educacao\/9290-sistema-de-informacoes-e-indicadores-culturais.html\">Sistema de Informa\u00e7\u00f5es e Indicadores Culturais<\/a>. O que eles mostram \u00e9 um retrato inc\u00f4modo, no qual apenas 23,3% dos munic\u00edpios brasileiros t\u00eam teatro ou casa de espet\u00e1culos. Tr\u00eas em cada dez brasileiros vivem em cidades onde n\u00e3o h\u00e1 nenhum. O gasto federal com cultura caiu um ter\u00e7o entre 2012 e 2022. No total, as tr\u00eas esferas de governo destinam \u00e0 cultura menos de 0,4% do or\u00e7amento p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, no <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao.htm#art215\">artigo 215<\/a>, garante que &#8220;o Estado garantir\u00e1 a todos o pleno exerc\u00edcio dos direitos culturais e acesso \u00e0s fontes da cultura nacional.&#8221; Para <a href=\"https:\/\/www.escavador.com\/sobre\/4561577\/antonio-albino-canelas-rubim\">Albino Rubim<\/a>, professor em\u00e9rito da Universidade Federal da Bahia e um dos maiores pesquisadores de pol\u00edtica cultural do pa\u00eds, o problema \u00e9 anterior \u00e0s pol\u00edticas culturais em si. A aus\u00eancia de equipamentos em tr\u00eas quartos dos munic\u00edpios brasileiros reflete desigualdades muito mais profundas \u2014 de renda, de aten\u00e7\u00e3o do Estado, de concentra\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de recursos nas grandes cidades. Super\u00e1-la exigiria, na sua avalia\u00e7\u00e3o, uma democratiza\u00e7\u00e3o mais ampla da pr\u00f3pria sociedade brasileira, com&nbsp; mais distribui\u00e7\u00e3o de renda, mais investimento em cidades m\u00e9dias e pequenas, mais territorializa\u00e7\u00e3o da cultura. Pol\u00edticas culturais bem desenhadas fazem parte disso, mas n\u00e3o resolvem o problema sozinhas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nessa lacuna&nbsp; que o Servi\u00e7o Social do Com\u00e9rcio (Sesc) opera. Fundado em 1946, pelo Decreto-Lei 9.853 do presidente Eurico Gaspar Dutra, o Sesc \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o privada de fins p\u00fablicos, parte do chamado <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2020-09\/agencia-brasil-explica-o-que-e-o-sistema-s\">Sistema S<\/a>. Financiado por uma al\u00edquota compuls\u00f3ria sobre a folha de pagamento das empresas do com\u00e9rcio de bens, servi\u00e7os e turismo, a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende de editais, da Lei Rouanet ou da vontade pol\u00edtica de cada gest\u00e3o. O Sesc mant\u00e9m hoje 119 espa\u00e7os teatrais espalhados pelo Brasil, sendo nove deles no Rio Grande do Sul.<\/p>\n\n\n\n<iframe title=\"Teatros do SESC no Rio Grande do Sul\" aria-label=\"Locator map\" id=\"datawrapper-chart-1rFeR\" src=\"https:\/\/datawrapper.dwcdn.net\/1rFeR\/1\/\" scrolling=\"no\" frameborder=\"0\" style=\"width: 0; min-width: 100% !important; border: none;\" height=\"521\" data-external=\"1\"><\/iframe><script type=\"text\/javascript\">window.addEventListener(\"message\",function(a){if(void 0!==a.data[\"datawrapper-height\"]){var e=document.querySelectorAll(\"iframe\");for(var t in a.data[\"datawrapper-height\"])for(var r,i=0;r=e[i];i++)if(r.contentWindow===a.source){var d=a.data[\"datawrapper-height\"][t]+\"px\";r.style.height=d}}});<\/script>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>De circuito a festival<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O Palco Girat\u00f3rio n\u00e3o nasceu como festival, mas como projeto de circula\u00e7\u00e3o, em que grupos selecionados viajavam pelo interior dos estados, levando teatro, dan\u00e7a e circo a cidades que raramente recebiam essas linguagens art\u00edsticas. O Rio Grande do Sul participa do circuito nacional desde o in\u00edcio, com espet\u00e1culos ga\u00fachos viajando pelo pa\u00eds e companhias de outros estados passando pelo seu interior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de reunir nas capitais,todos os espet\u00e1culos selecionados em um \u00fanico per\u00edodo veio depois. Porto Alegre foi uma das pioneiras na ado\u00e7\u00e3o do formato. &#8220;Criamos o festival a partir da percep\u00e7\u00e3o de que o p\u00fablico pudesse conferir essa sele\u00e7\u00e3o como um todo, e n\u00e3o especificamente quando um ou outro espet\u00e1culo passasse pela cidade&#8221;, explica <a href=\"https:\/\/br.linkedin.com\/in\/jane-schoninger-91b701a2\">Jane Schoninger<\/a>, coordenadora de Artes C\u00eanicas do Sesc\/RS e curadora do circuito nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo racioc\u00ednio orienta a estrutura atual. Al\u00e9m do festival em Porto Alegre \u2013 que em 2026 ocorre entre 19 de maio e 3 de junho, com 62 sess\u00f5es distribu\u00eddas em 17 espa\u00e7os da cidade \u2013, alguns espet\u00e1culos retornam ao longo do ano para apresenta\u00e7\u00f5es em outras treze cidades ga\u00fachas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-left\"><strong>Curadoria sem edital<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O Palco Girat\u00f3rio n\u00e3o tem inscri\u00e7\u00e3o aberta. A curadoria \u00e9 feita por um grupo de profissionais \u2013 um representante por estado \u2013 que se re\u00fane ao longo do ano para observar a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica brasileira e decidir coletivamente o que vai circular. Quando a programa\u00e7\u00e3o de 2026 est\u00e1 sendo finalizada, esse grupo j\u00e1 est\u00e1 com o olhar voltado para o que poder\u00e1 compor a de 2027.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Rubim, o modelo aponta para algo que as pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura raramente conseguem oferecer: diversidade nos mecanismos de apoio. Os editais foram um avan\u00e7o importante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 chamada pol\u00edtica de balc\u00e3o \u2013 em que s\u00f3 os pr\u00f3ximos dos governantes recebiam recursos \u2013, mas t\u00eam limita\u00e7\u00f5es reais, especialmente para grupos sem dom\u00ednio t\u00e9cnico de como elaborar projetos e prestar contas. &#8220;O modelo de financiamento \u00e0 cultura deve ser t\u00e3o complexo quanto \u00e9 o campo cultural&#8221;, defende o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, os crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o do Palco Girat\u00f3rio v\u00e3o al\u00e9m da qualidade t\u00e9cnica de cada espet\u00e1culo. O hist\u00f3rico do coletivo importa, assim como a continuidade da pesquisa art\u00edstica e o que o grupo prop\u00f5e fazer al\u00e9m da apresenta\u00e7\u00e3o em si, como debates, ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os n\u00e3o convencionais e trocas com artistas locais. &#8220;A defini\u00e7\u00e3o curatorial leva tempo&#8221;, ressalta Schoninger. &#8220;N\u00e3o \u00e9 como uma sele\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos de um edital, que sempre \u00e9 pontual. O curador \u00e9 um profissional que est\u00e1 atento a uma produ\u00e7\u00e3o viva, em di\u00e1logo com artistas e com p\u00fablicos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o <a href=\"https:\/\/www.sesc.com.br\/institucional\/departamento-nacional\/\">Departamento Nacional do Sesc<\/a>, a circula\u00e7\u00e3o \u00e9 pensada n\u00e3o como deslocamento de espet\u00e1culos, mas como estrat\u00e9gia de interc\u00e2mbio, forma\u00e7\u00e3o e fortalecimento das rela\u00e7\u00f5es entre artistas, p\u00fablicos e territ\u00f3rios. Em 2026, o teatro de formas animadas ganha destaque, com montagens como <em>Re Te Tei<\/em> (Tropa do Balacobaco\/PE) e <em>Caixa Ninho<\/em> (Coletivo Eranos C\u00edrculo de Arte\/SC) \u2013 linguagem que tamb\u00e9m explica a escolha do grupo homenageado desta edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sobrevento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"http:\/\/www.sobrevento.com.br\/\">Grupo Sobrevento<\/a> existe desde 1986. J\u00e1 s\u00e3o quarenta anos de teatro, com sede no Belenzinho \u2013 bairro da zona leste de S\u00e3o Paulo, na divisa com o Br\u00e1s \u2013, onde a companhia mant\u00e9m o Espa\u00e7o Sobrevento e uma rela\u00e7\u00e3o visceral com a comunidade ao redor. <a href=\"http:\/\/www.sobrevento.com.br\/bio_sandra.htm\">Sandra Vargas<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.sobrevento.com.br\/bio_luizandre.htm\">Luiz Andr\u00e9 Cherubini<\/a>, os fundadores, fazem as contas com uma precis\u00e3o que impressiona: um dia a cada tr\u00eas dos \u00faltimos quarenta anos, eles estiveram em cima de um palco. &#8220;A nossa vida inteira a gente deu ao teatro&#8221;, diz Cherubini.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta edi\u00e7\u00e3o, o Sobrevento \u00e9 o grupo homenageado do Palco Girat\u00f3rio. A homenagem se d\u00e1 pela trajet\u00f3ria, pela continuidade de pesquisa e por ser refer\u00eancia consolidada no teatro de formas animadas e no teatro de objetos. O grupo circular\u00e1 por dez das 113 cidades \u2013 o espet\u00e1culo <a href=\"http:\/\/www.sobrevento.com.br\/espet_pm.htm\"><em>Para Mariela<\/em><\/a>, de grande porte e sem a configura\u00e7\u00e3o convencional \u00e0 italiana, imp\u00f5e esse limite log\u00edstico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"684\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros--1024x684.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-29250\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros--1024x684.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros--300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros--768x513.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros--1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros--2048x1367.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros--1500x1001.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros--1020x680.jpg 1020w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Grupo Sobrevento em cena: fundado em 1986, o coletivo \u00e9 refer\u00eancia no teatro de formas animadas e homenageado da edi\u00e7\u00e3o 2026 | Foto: Lauro Medeiros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o do Sobrevento com o Palco Girat\u00f3rio come\u00e7a na primeira edi\u00e7\u00e3o do projeto,&nbsp; em 1998. &#8220;Fazer parte do circuito foi um fator muito importante de consolida\u00e7\u00e3o do nosso grupo&#8221;, diz Cherubini. &#8220;Imagine voc\u00ea, um projeto de circula\u00e7\u00e3o nacional ao qual os grupos n\u00e3o tinham acesso. A gente passava \u00e0s vezes tr\u00eas meses sem voltar para casa\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>O circuito foi tamb\u00e9m escola. &#8220;Quando a gente viaja, a gente reconhece tanto as possibilidades quanto as limita\u00e7\u00f5es do nosso projeto art\u00edstico&#8221;, reflete o diretor. \u201c\u00c9 mais f\u00e1cil viajar para Portugal ou para a Espanha do que chegar ao Maranh\u00e3o ou ao Rio Grande do Norte. \u00c9 terr\u00edvel. \u00c9 triste. Mas \u00e9 essa a realidade que a gente vivencia. Ent\u00e3o, o Palco Girat\u00f3rio para n\u00f3s \u00e9 mesmo um presente\u201d, completa o diretor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A homenagem, quando veio, chegou como emo\u00e7\u00e3o partilhada. &#8220;Foi um choro, um pranto comum&#8221;, conta Sandra. &#8220;De n\u00f3s e dos programadores do Sesc.&#8221; Para um grupo que sempre trabalhou para fortalecer o nome coletivo, e n\u00e3o o dos artistas individualmente, ser reconhecido dessa forma, por profissionais que entendem o teatro como processo e n\u00e3o como produto, tem peso particular.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma garrafa de \u00e1gua Minalba<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O espet\u00e1culo que o Sobrevento traz para o Palco Girat\u00f3rio 2026, <em>Para Mariela<\/em>, nasce de uma metodologia que a companhia vem desenvolvendo h\u00e1 anos, o Teatro de Objetos Documental. O processo come\u00e7a com uma pergunta simples \u2013 &#8220;me conta a hist\u00f3ria de um objeto especial para voc\u00ea?&#8221; \u2013 e o que emerge raramente \u00e9 o que se espera.<\/p>\n\n\n\n<p>No bairro onde o Sobrevento est\u00e1 sediado, a maioria dos moradores s\u00e3o imigrantes bolivianos que vivem em condi\u00e7\u00f5es de extrema vulnerabilidade. As crian\u00e7as do bairro frequentam o teatro do grupo, \u00e0s vezes sem serem chamadas. Elas batem na porta e entram, como se o espa\u00e7o fosse delas \u2013 porque, de certa forma, \u00e9. Foi com essas crian\u00e7as que o grupo fez o terceiro de seus &#8220;museus de objetos&#8221;: uma coleta de hist\u00f3rias nas escolas, nos centros de integra\u00e7\u00e3o do migrante e nas institui\u00e7\u00f5es de acolhimento do entorno.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma menina trouxe uma garrafa de \u00e1gua Minalba. Os artistas acharam que ela havia esquecido o objeto e pego o que tinha na mochila. Mas a hist\u00f3ria que ela contou desmontou esse pressuposto. &#8220;Eu sempre quis ter essa garrafa de \u00e1gua, mas l\u00e1 em casa a gente s\u00f3 compra as coisas de que precisa. Um dia eu pedi para o meu pai comprar essa garrafa para mim, ele comprou e me deu&#8221;, relatou a crian\u00e7a ao grupo. Uma garrafa de \u00e1gua. Para uma crian\u00e7a que passa os dias fechada em um quarto sem janela, tomando conta da irm\u00e3 mais nova enquanto os pais trabalham na costura, ter um objeto que n\u00e3o \u00e9 de necessidade \u2013 um objeto de desejo \u2013 \u00e9 uma forma de dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra hist\u00f3ria, recolhida por Cherubini: uma crian\u00e7a que, na hora do recreio, ficava deitada no meio do p\u00e1tio com o corpo todo esticado, recusando-se a voltar para a sala quando a professora a chamava. Tudo que ela queria era sentir o sol. O sol que n\u00e3o entrava no quarto onde passava o dia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente n\u00e3o sabe nada&#8221;, diz Cherubini. &#8220;E a\u00ed a gente se arroga uma sabedoria que a gente n\u00e3o tem.&#8221; <em>Para Mariela<\/em> \u00e9 constru\u00eddo a partir dessa postura de escuta \u2013 e de uma recusa deliberada ao panfleto f\u00e1cil. &#8220;\u00c9 f\u00e1cil fazer um espet\u00e1culo que \u00e9 uma bandeira de den\u00fancia da situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o em que vivem nossos vizinhos. Voc\u00ea faz isso sem sair do pedestal. Isso n\u00e3o pode ser assim&#8221;, afirma o diretor.<\/p>\n\n\n\n<p>O espet\u00e1culo \u00e9 festivo. Um ter\u00e7o do p\u00fablico que assiste ao Para Mariela em S\u00e3o Paulo, \u00e0s 21h, \u00e9 de crian\u00e7as. S\u00e3o as mesmas crian\u00e7as do bairro que, segundo Sandra Vargas, em nenhum momento relataram a vida delas como uma vida triste. \u201cElas sempre olham pelo momento bom\u201d, comenta. Destemidas, como a companhia as chama. Crian\u00e7as que se apropriam do teatro como quem se apropria de um direito.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"684\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros-1-1024x684.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-29249\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros-1-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros-1-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros-1-1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros-1-2048x1367.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros-1-1500x1001.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Lauro-Medeiros-1-1020x680.jpg 1020w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">  Sandra Vargas em Para Mariela, espet\u00e1culo que recolhe hist\u00f3rias de crian\u00e7as bolivianas do bairro do Belenzinho, em S\u00e3o Paulo | Foto: Lauro Medeiros <br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que o Sesc entrega que o Estado n\u00e3o consegue<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Sandra Vargas assina a dramaturgia de <em>Para Mariela<\/em> e divide a dire\u00e7\u00e3o com Cherubini \u2013 uma parceria que dura quatro d\u00e9cadas e produziu mais de vinte espet\u00e1culos. Em 2013, o Sobrevento fez uma turn\u00ea nacional apoiada em editais p\u00fablicos, usando teatros de prefeituras. O resultado mudou o grupo para sempre. &#8220;Cheg\u00e1vamos e n\u00e3o tinha p\u00fablico. Eles n\u00e3o se moviam em nada, n\u00e3o sabiam nem que p\u00fablico frequentava aquele lugar&#8221;, relata Vargas. A partir dali, a companhia adotou uma regra: nunca mais confiar o processo a um gestor p\u00fablico. &#8220;Passamos a dar prefer\u00eancia a grupos que tinham espa\u00e7o, e coloc\u00e1vamos na verba do edital uma verba para o produtor local \u2013 de prefer\u00eancia um artista de grupo, porque a\u00ed tudo ia ser diferente: a responsabilidade, o compromisso. Nossas turn\u00eas mudaram radicalmente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica \u00e9 estrutural. &#8220;A cultura acaba sendo o lugar onde voc\u00ea vai colocar a pessoa menos capacitada, porque parece que qualquer um pode fazer gest\u00e3o cultural&#8221;, diz Vargas. O que o Sesc oferece, na vis\u00e3o do Sobrevento, \u00e9 exatamente o oposto, com programadores que assistem teatro, que vibram com o que veem, que entendem o projeto art\u00edstico de cada grupo. &#8220;N\u00e3o numa postura de se sentir com certo poder, mas s\u00e3o pessoas que realmente est\u00e3o ali como espectadores tamb\u00e9m.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O Departamento Nacional do Sesc reconhece a dimens\u00e3o estrutural dessa escolha. Para al\u00e9m da realiza\u00e7\u00e3o de programa\u00e7\u00f5es, o que sustenta o projeto ao longo dos anos \u00e9 a capacidade de produzir acesso, forma\u00e7\u00e3o, interc\u00e2mbio e fortalecimento da vida cultural nos territ\u00f3rios. Mas h\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o para que tudo isso funcione, e Jane Schoninger a nomeia com precis\u00e3o: a continuidade. &#8220;O projeto acaba sendo um programa de cultura, realizado sem interrup\u00e7\u00e3o durante todos esses anos. E isso faz toda a diferen\u00e7a, porque fomenta o que \u00e9 o &#8216;n\u00e3o visto&#8217;: manuten\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os culturais abertos, continuidade de obras art\u00edsticas porque est\u00e3o circulando, sensibiliza\u00e7\u00e3o de novas plateias.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Rubim, no entanto, o bom desempenho do Sesc em cultura n\u00e3o deve ser lido como substituto da atua\u00e7\u00e3o do Estado. &#8220;O Sesc e o Sistema S t\u00eam um papel muito diferenciado a depender de seus dirigentes e de seus locais de atua\u00e7\u00e3o&#8221;, observa o pesquisador. &#8220;Onde atuam bem, \u00e9 \u00f3timo para a cultura. Mas n\u00e3o substituem o Estado \u2013 devem ter uma atua\u00e7\u00e3o complementar.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Alegre recebe entre 19 de maio e 3 de junho a 20\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Palco Girat\u00f3rio, o maior circuito de artes c\u00eanicas do Brasil. Em 2026, o projeto do Servi\u00e7o Social do Com\u00e9rcio (Sesc) alcan\u00e7a 113 cidades, movimenta 16 grupos e 106 artistas e t\u00e9cnicos. Na capital ga\u00facha, s\u00e3o 62 sess\u00f5es distribu\u00eddas em &#8230; <a title=\"Palco Girat\u00f3rio completa 28 anos como o maior circuito de artes c\u00eanicas do Brasil\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2026\/05\/18\/palco-giratorio-completa-28-anos-como-o-maior-circuito-de-artes-cenicas-do-brasil\/\" aria-label=\"More on Palco Girat\u00f3rio completa 28 anos como o maior circuito de artes c\u00eanicas do Brasil\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":38,"featured_media":29248,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1032,55],"tags":[303,298],"class_list":["post-29246","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagem-humanista","category-cultura","tag-arte","tag-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29246","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/38"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29246"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29246\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29427,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29246\/revisions\/29427"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29248"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29246"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29246"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29246"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}