﻿{"id":30257,"date":"2026-10-20T20:40:21","date_gmt":"2026-10-20T23:40:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=30257"},"modified":"2026-10-20T20:58:48","modified_gmt":"2026-10-20T23:58:48","slug":"cozinha-solidaria-do-mtst-oferece-refeicoes-e-acolhimento-em-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2026\/10\/20\/cozinha-solidaria-do-mtst-oferece-refeicoes-e-acolhimento-em-porto-alegre\/","title":{"rendered":"Cozinha solid\u00e1ria do MTST oferece refei\u00e7\u00f5es e acolhimento em Porto Alegre"},"content":{"rendered":"\n<p>Ao chegar no n\u00famero 608 da Avenida Azenha, em Porto Alegre, vejo uma casa vermelha com um port\u00e3o de garagem aberto entre diversos pr\u00e9dios comerciais. Ali, a&nbsp; fachada j\u00e1 mostra que n\u00e3o \u00e9 um estabelecimento comum, como uma assist\u00eancia t\u00e9cnica de carros ou uma loja de parafusos e ferramentas: entre os desenhos de um garfo e uma colher est\u00e1 escrito \u201cCozinha Solid\u00e1ria da Azenha\u201d. Al\u00e9m disso, h\u00e1 algumas mensagens escritas que me chamam aten\u00e7\u00e3o: \u201cAlmo\u00e7o Gr\u00e1tis\u201d e \u201cGente \u00e9 pra brilhar, n\u00e3o pra morrer de fome\u201d. Essa casa serve, na sua garagem, com ch\u00e3o de brita, marmitas de gra\u00e7a para quem estiver precisando e \u00e9 organizada pelo Movimento de Trabalhadores sem Teto (MTST). Al\u00e9m dela, outras tr\u00eas sedes est\u00e3o espalhadas pela capital ga\u00facha: duas mais para a Zona Norte, a Cozinha Solid\u00e1ria Maristas e a Cozinha Solid\u00e1ria Beer Fir; a outra na Zona Sul, a Cozinha Solid\u00e1ria do Lami. Entre essas quatro cozinhas solid\u00e1rias, cerca de 1.700 marmitas s\u00e3o servidas durante o hor\u00e1rio de almo\u00e7o entre segunda e sexta-feira. S\u00f3 na cozinha da Azenha, por exemplo, a equipe do MTST se organiza para preparar cerca de 600 refei\u00e7\u00f5es todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1, a cozinheira Lili, de 48 anos, chega \u00e0s sete da manh\u00e3 para come\u00e7ar a ajeitar as coisas: ela come\u00e7a preparando o caf\u00e9 que vai ser servido das nove da manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0s onze e meia; \u00e9 nesse momento que ela e os volunt\u00e1rios do movimento preparam o card\u00e1pio do dia, que varia de acordo com a disponibilidade dos alimentos na despensa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com o caf\u00e9 j\u00e1 passado e os p\u00e3es prontos para serem servidos, Lili come\u00e7a a recepcionar quem entra no espa\u00e7o: \u201ce a\u00ed, amiguinho, est\u00e1 com fome? Tem caf\u00e9 e p\u00e3o aqui para voc\u00ea<em>\u201d<\/em>. Lili \u00e9 baiana, mas trabalhou por muito tempo no MTST de Minas Gerais. Chegou no Rio Grande do Sul durante as enchentes que afetaram o estado durante 2024 \u00e0 convite de que estavam se mobilizando para ajudar as pessoas em maior vulnerabilidade. No meio disso, se apaixonou por um ga\u00facho e n\u00e3o voltou mais para as terras mineiras: \u201cme perguntavam quanto tempo eu ia ficar e eu sempre disse que n\u00e3o sei, talvez s\u00f3 mais uma semana \u2013 quando a pr\u00f3xima van for pra l\u00e1. Da\u00ed, eu fui aprendendo a gostar daqui\u2026<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-1024x683.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30258\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-1500x1000.jpeg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6-1020x680.jpeg 1020w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-6.jpeg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fundado em 1997, o Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST) tem\u00a0 car\u00e1ter social-pol\u00edtico-popular para defender o direito \u00e0 moradia nas cidades | Imagem: Gabriel Ximendes Ortega\/Humanista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Luiza e Bruno* est\u00e3o sentados juntos embaixo de um telhado de amianto se protegendo da chuva, em frente a uma arte que diz \u201cQuem n\u00e3o pode com a formiga, n\u00e3o ati\u00e7a o formigueiro!\u201d. Bruna frequenta\u00a0 a cozinha solid\u00e1ria desde janeiro de 2026 e come\u00e7ou a almo\u00e7ar ali por uma indica\u00e7\u00e3o de uma colega do Albergue Dias da Cruz. Lucas, por outro lado, conheceu o espa\u00e7o mais recentemente,\u00a0 em setembro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cConheci atrav\u00e9s de um outro peregrino, n\u00e9? \u00c9 que eu ficava l\u00e1 para o lado do Centro, da\u00ed,\u00a0 quando comecei a ir pra Zona Leste, comecei a vir pra esse lado, da\u00ed o cara me perguntou se eu n\u00e3o queria ir para o albergue. Agora, eu nem des\u00e7o mais para o bandej\u00e3o, fico uns dias ali e almo\u00e7o aqui&#8221;<br><\/em><strong><em>Bruno, 32 anos<br>Frequentador da cozinha solid\u00e1ria<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Luiza j\u00e1 usou outros servi\u00e7os prestados pela cozinha al\u00e9m do almo\u00e7o: \u201cvenho aqui direto para tomar um caf\u00e9 com p\u00e3o e j\u00e1 peguei umas roupas no brech\u00f3 deles, tamb\u00e9m.\u201d Al\u00e9m de servir comida, na Azenha, os volunt\u00e1rios da cozinha solid\u00e1ria e do MTST trabalham com um brech\u00f3 caridoso, onde as pessoas n\u00e3o precisam pagar nada pelas roupas. Tamb\u00e9m possuem parceria com o <a href=\"https:\/\/prefeitura.poa.br\/carta-de-servicos\/consultorio-na-rua\">Consult\u00f3rios na Rua<\/a>, programa do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) para atendimentos de sa\u00fade voltados a pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. A coopera\u00e7\u00e3o garante o tratamento contra a tuberculose, <a href=\"https:\/\/prefeitura.poa.br\/sms\/noticias\/tuberculose-atinge-maior-numero-de-casos-da-serie-historica-em-porto-alegre\">doen\u00e7a infecciosa que teve 1.252 novos diagn\u00f3sticos em 2025 na Capital, o maior n\u00famero da s\u00e9rie hist\u00f3rica<\/a>. H\u00e1 ainda a a\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DbBqVjliUpG\/?img_index=1\">Redu\u00e7\u00f5es de Danos<\/a> e Alimenta\u00e7\u00e3o, com oficinas para fortalecer o cuidado \u00e0 sa\u00fade e os direitos \u00e0 moradia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que <a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/geral\/noticia\/2025\/10\/mais-de-17-milhao-de-gauchos-nao-tem-certeza-do-que-vao-comer-na-proxima-refeicao-aponta-ibge-cmgk2q0h601tf015e9d7nf3l4.html\">o n\u00famero de ga\u00fachos em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar tenha ca\u00eddo em 22%<\/a> entre 2023 e 2024, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE),, a fome ainda persiste na popula\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul: s\u00e3o 1,7 milh\u00e3o de pessoas, ou 15,13% da popula\u00e7\u00e3o do estado, que n\u00e3o t\u00eam certeza do que v\u00e3o conseguir comer na pr\u00f3xima refei\u00e7\u00e3o. Com isso, <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mds\/pt-br\/acoes-e-programas\/acesso-a-alimentos-e-a-agua\/programa-cozinha-solidaria\">o trabalho de cozinhas solid\u00e1rias tem por objetivo fornecer alimenta\u00e7\u00e3o gratuita e de qualidade \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, preferencialmente \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e risco social, inclu\u00edda a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua e em inseguran\u00e7a alimentar e nutricional<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Magnun Bernardes \u00e9 enfermeiro, cozinheiro e respons\u00e1vel pela presta\u00e7\u00e3o de contas das Cozinhas Solid\u00e1rias do MTST no Rio Grande do Sul para o MDS (Minist\u00e9rio de Desenvolvimento Social). Segundo ele, o trabalho do Movimento de Trabalhadores Sem Teto \u00e9 importante para a transforma\u00e7\u00e3o das estruturas que causam a fome, a falta de moradia e ataques aos direitos humanos, indo al\u00e9m da distribui\u00e7\u00e3o de comida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right is-style-default\"><em>\u201cNo movimento social, a gente entrega comida e faz um servi\u00e7o que \u00e9 assistencial. Por\u00e9m, tamb\u00e9m temos, em paralelo, a luta para mudar essas estruturas que colocam as pessoas nessa condi\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o de fazer a comida. \u00c9\u00a0 fazer a comida e lutar para que\u00a0 n\u00f3s n\u00e3o sejamos mais necess\u00e1rios. Essa \u00e9 a nossa luta, a nossa luta como movimento social: modificar a realidade\u201d<br><\/em><strong><em>Magnun Bernardes, 37 anos<br>Ativista do Movimento de Trabalhadores Sem Teto no RS<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7-1024x683.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30259\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7-1500x1000.jpeg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7-1020x680.jpeg 1020w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-7.jpeg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Al\u00e9m de servir comida, na Azenha, os volunt\u00e1rios da Cozinha Solid\u00e1ria e do MTST trabalham em outras frentes | Imagem: Gabriel Ximendes Ortega\/Humanista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Segundo Juliano Ferreira de S\u00e1, doutorando&nbsp; em Pol\u00edticas P\u00fablicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e ex-presidente do Conselho Estadual de Seguran\u00e7a Alimentar Nutricional (Consea) do Rio Grande do Sul, as hist\u00f3rias das Cozinhas Solid\u00e1rias podem ser divididas entre dois momentos: o antes e o depois da pandemia de Covid-19, que come\u00e7ou no in\u00edcio do ano de 2020. O pesquisador e ativista afirma que foi \u201ca partir desse marco simb\u00f3lico que a sociedade civil brasileira deu uma resposta para a aus\u00eancia do poder p\u00fablico&#8221;: \u201cFoi a partir desse momento que podemos dizer que tivemos um <em>boom<\/em> de cozinhas solid\u00e1rias. De forma emergente, essas cozinhas come\u00e7aram a ser a resposta da sociedade civil que, juntamente com diversos movimentos, como os sociais e dos agricultores familiares, doaram para essas cozinhas comunit\u00e1rias e acabaram protagonizando uma grande corrente de solidariedade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>&#8220;Enquanto a gente via o agroneg\u00f3cio n\u00e3o se mexendo no que se refere \u00e0 quest\u00e3o de promover solidariedade para aqueles e aquelas que tamb\u00e9m estavam sofrendo com a crise da Covid-19, agricultores familiares passaram a doar o pouco que tinham sem receber nada em troca. Tudo isso acabou fazendo com que as cozinhas solid\u00e1rias tivessem uma import\u00e2ncia enorme. Mesmo com a retomada das pol\u00edticas p\u00fablicas, a partir de 2023, esses lugares continuaram sendo territ\u00f3rios que organizam muita gente: desde as pessoas que organizam o espa\u00e7o, at\u00e9 as comunidades que ficam na volta, criando uma rede de solidariedade que vai muito al\u00e9m de um prato de comida&#8221;<br><\/em><strong><em>Juliano Ferreira de S\u00e1, 47 anos<br>Doutorando em Pol\u00edticas P\u00fablicas pela UFRGS<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para Juliano, uma de suas maiores vit\u00f3rias enquanto estava \u00e0 frente do Consea foi a garantia de pautar um projeto de lei apresentado pelo ent\u00e3o deputado federal Guilherme Boulos para fortalecer as cozinhas solid\u00e1rias. Al\u00e9m do projeto , o Conselho Estadual de Seguran\u00e7a Alimentar Nutricional redigiu uma proposta de&nbsp; pol\u00edtica p\u00fablica para o governo do Rio Grande do Sul,que foi aceita e tornou-se uma pol\u00edtica p\u00fablica estadual. Com isso, o governador Eduardo Leite emitiu um decreto instituindo a <a href=\"https:\/\/leisestaduais.com.br\/rs\/decreto-n-57791-2024-rio-grande-do-sul-institui-no-ambito-do-sistema-estadual-de-seguranca-alimentar-e-nutricional-sustentavel-a-estrategia-estadual-de-fomento-dos-pontos-populares-de-soberania-e-seguranca-alimentar-e-nutricional\">Estrat\u00e9gia Estadual de Fomento dos Pontos Populares de Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (PPSSAN)<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar da trajet\u00f3ria de Juliano frente ao Consea sem falar dos desafios: passar pela pandemia de Covid-19 foi um deles, mas o maior foi <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2019\/01\/03\/bolsonaro-muda-regras-e-retira-atribuicoes-do-conselho-de-seguranca-alimentar.ghtml\">a extin\u00e7\u00e3o do conselho presidido por ele, <\/a>a partir de uma medida provis\u00f3ria ent\u00e3o presidente Jair&nbsp; Bolsonaro, em seu primeiro dia de mandato. <a href=\"https:\/\/cfn.org.br\/governo-federal-recria-o-conselho-nacional-de-seguranca-alimentar-e-nutricional\/\">No entanto, desde 2023, com a elei\u00e7\u00e3o de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, o org\u00e3o federal foi restitu\u00eddo<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Fundado em 1997 e com car\u00e1ter social-pol\u00edtico-popular para defender o direito \u00e0 moradia nas cidades, o MTST se iniciou no Rio Grande do Sul em 6 de novembro de 2015. &nbsp; Naquela noite, cerca de cem fam\u00edlias e ativistas ocuparam um terreno&nbsp; localizado aos p\u00e9s do Morro Santana, na Zona Leste da capital ga\u00facha. Desde ent\u00e3o, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto esteve presente ajudando a popula\u00e7\u00e3o ga\u00facha em momentos cr\u00edticos, como a pandemia e as enchentes que assolaram o Estado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Criada em 2021, durante a pandemia, a Cozinha Solid\u00e1ria da Azenha foi a primeira entre as quatro que existem hoje em dia, em Porto Alegre. Durante as enchentes, cerca de quatro mil marmitas foram entregues para a popula\u00e7\u00e3o afetada com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas extremas. <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/29\/cozinha-do-mtst-que-ja-entregou-84-mil-refeicoes-no-rs-recebe-comitiva-de-ministros\/\">Foram fornecidas&nbsp; ao menos 84 mil refei\u00e7\u00f5es nas regi\u00f5es mais impactadas pelas enchentes<\/a>. Al\u00e9m dos alimentos, foram oferecidos materiais de higiene, limpeza e roupas, que foram arrecadados em S\u00e3o Paulo pelo MTST paulista.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estava sentado dentro da cozinha onde o almo\u00e7o estava sendo preparado. L\u00e1, eu escutava as conversas entre os frequentadores e os ativistas do MTST.&nbsp; Falavam sobre as mais diversas quest\u00f5es acerca do estado atual do Brasil: desde a fun\u00e7\u00e3o e a efic\u00e1cia de aux\u00edlios \u00e0 popula\u00e7\u00e3o at\u00e9 a viol\u00eancia policial em Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois irm\u00e3os, J\u00falio e Andr\u00e9, foram entrando pela garagem at\u00e9 chegar onde estavam&nbsp; sendo servidos os p\u00e3es e o caf\u00e9-da-manh\u00e3. Andr\u00e9 estava com o l\u00e1bio inferior da boca bastante inchado e o bra\u00e7o enfaixado; J\u00falio mancava pelo ch\u00e3o de brita: \u201ca\u00ed, tia, me v\u00ea um caf\u00e9zinho? Mas me v\u00ea pouco, eu estou com a boca toda costurada e n\u00e3o vou poder tomar o caf\u00e9 quente.\u201d Lili saiu do lado da panela industrial onde preparava cerca de 50 quilos de arroz para servir o caf\u00e9 ao mo\u00e7o. Enquanto isso,&nbsp; Andr\u00e9 chegava mais lentamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Lili olhou para J\u00falio e lhe entregou a bebida e um peda\u00e7o de p\u00e3o cacetinho. \u201cLevou pau da pol\u00edcia, foi?\u201d, questionou. Ambos acenaram para a pergunta da cozinheira. Estavam um tanto envergonhados, pareciam n\u00e3o querer falar sobre o assunto: \u201c\u00e9, tia. Estavam batendo no mano, aqui, e me perguntaram \u2018quer ver que eu n\u00e3o te quebro inteirinho, tamb\u00e9m?\u2019. Eu n\u00e3o estava pra brincadeira, mas disse que queria ver\u2026 da\u00ed, eu vi. Quase quebraram minha perna.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s se alimentar com os p\u00e3es, Andr\u00e9 ainda esperava o seu caf\u00e9 esfriar.&nbsp; Ele e o irm\u00e3o foram se sentar perto de uma outra mulher, Marina. Os tr\u00eas pareciam ser um pouco mais velhos do que eu: no m\u00ednimo, uns 25 e, no m\u00e1ximo, uns 35 anos. Toda vez que algu\u00e9m chegava para tomar o caf\u00e9-da-manh\u00e3, perguntava para Andr\u00e9 sobre seu bra\u00e7o e sua boca e, ent\u00e3o, as respostas come\u00e7aram a variar: \u201cisso que tu n\u00e3o viste como eu deixei o outro colega\u2026 foi uma briga de rua, sabe como \u00e9? A pol\u00edcia chegou mais tarde e bateu no J\u00falio, s\u00f3. Eu levei pau de um outro por a\u00ed.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto mais pessoas chegavam, o papo ia mudando aos poucos. Em certo momento, se falou sobre <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2026\/09\/17\/governo-anuncia-reajuste-de-15percent-para-o-bolsa-familia-piso-sobe-de-r-600-para-r-691.ghtml\">o aumento do aux\u00edlio do Bolsa Fam\u00edlia<\/a>. Um dos apoiadores da cozinha virou e come\u00e7ou a conversar com outras pessoas: \u201ctinha que aumentar mais! O povo precisa disso pra sobreviver.\u201d Uma frequentadora que j\u00e1 estava na fila esperando o almo\u00e7o escutou e indagou a fala do ativista: \u201ceu cansei de aux\u00edlio, queria um emprego.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, senti (e continuo sentindo) algo complexo: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desmerecer o anseio dela. <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2026\/08\/27\/desemprego-pnad-julho.ghtml\">Mesmo que a quantidade de desempregados tenha ca\u00eddo de 9 milh\u00f5es, entre fevereiro e abril de 2023, para 5,8 milh\u00f5es, entre maio e julho de 2026<\/a>, ainda h\u00e1 muito a ser feito e ser melhorado: muitas vezes, s\u00e3o empregos com um alto n\u00edvel de precariza\u00e7\u00e3o, como quest\u00f5es de informalidade, alta rotatividade e sal\u00e1rios insuficientes.<\/p>\n\n\n\n<p>O ativista olhou para ela atrav\u00e9s da divis\u00e3o do espa\u00e7o da cozinha e da fila para pegar sua marmita e disse: \u201cpois vamos conseguir!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Os nomes das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua foram alterados para proteg\u00ea-las.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao chegar no n\u00famero 608 da Avenida Azenha, em Porto Alegre, vejo uma casa vermelha com um port\u00e3o de garagem aberto entre diversos pr\u00e9dios comerciais. Ali, a&nbsp; fachada j\u00e1 mostra que n\u00e3o \u00e9 um estabelecimento comum, como uma assist\u00eancia t\u00e9cnica de carros ou uma loja de parafusos e ferramentas: entre os desenhos de um garfo &#8230; <a title=\"Cozinha solid\u00e1ria do MTST oferece refei\u00e7\u00f5es e acolhimento em Porto Alegre\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2026\/10\/20\/cozinha-solidaria-do-mtst-oferece-refeicoes-e-acolhimento-em-porto-alegre\/\" aria-label=\"More on Cozinha solid\u00e1ria do MTST oferece refei\u00e7\u00f5es e acolhimento em Porto Alegre\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":42,"featured_media":30260,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1032,1184],"tags":[391,183,928,1069,23,130,1185],"class_list":["post-30257","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagem-humanista","category-protecao-social","tag-acolhimento","tag-alimentacao","tag-cozinha-solidaria","tag-mtst","tag-porto-alegre","tag-rio-grande-do-sul","tag-seguranca-alimentar"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30257","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30257"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30257\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30271,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30257\/revisions\/30271"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/30260"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30257"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30257"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30257"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}