﻿{"id":3248,"date":"2019-06-18T19:30:03","date_gmt":"2019-06-18T22:30:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=3248"},"modified":"2019-07-16T21:34:57","modified_gmt":"2019-07-17T00:34:57","slug":"fim-do-departamento-de-hiv-aids-evidencia-epidemia-como-problema-social-e-politico-avalia-presidente-do-gapa-rs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/06\/18\/fim-do-departamento-de-hiv-aids-evidencia-epidemia-como-problema-social-e-politico-avalia-presidente-do-gapa-rs\/","title":{"rendered":"Fim do Departamento de HIV\/Aids evidencia epidemia como problema social e pol\u00edtico, avalia presidente do Gapa\/RS"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Carla Almeida explica como a falta de investimento p\u00fablico influencia no aumento da doen\u00e7a entre jovens; tend\u00eancia com fim do departamento \u00e9 preocupante.<\/span><\/i><\/p>\n<p><strong>Camila Souza<\/strong> \/ #EntevistaHumanista<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A retirada da palavra Aids do nome oficial do Departamento que responde pelo tema no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade &#8211; agora denominado Departamento de Doen\u00e7as de Condi\u00e7\u00f5es Cr\u00f4nicas e Infec\u00e7\u00f5es Sexualmente Transmiss\u00edveis &#8211; reflete muito mais do que apenas uma <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/fichadetramitacao?idProposicao=2202352\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>reforma administrativa<\/strong><\/a>, como defende o Governo Bolsonaro: sinaliza que as pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea saem de pauta e passam a ser secund\u00e1rias. \u00c9 a avalia\u00e7\u00e3o que resulta da conversa com a\u00a0Presidente do Gapa (Grupo de Apoio \u00e0 Preven\u00e7\u00e3o da Aids) no Rio Grande do Sul, Carla Almeida. A cientista social reflete tamb\u00e9m sobre outras consequ\u00eancias da medida nesta edi\u00e7\u00e3o do #EntrevistaHumanista.\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de haver queda progressiva nos \u00edndices de detec\u00e7\u00e3o &#8211; passaram, <\/span><strong><a href=\"http:\/\/www.aids.gov.br\/pt-br\/pub\/2018\/boletim-epidemiologico-hivaids-2018\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/a><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, de 21,7\/100.000 habitantes (2012) para 18,3\/100.000 habitantes (2017) -, cresceu significativamente o n\u00famero de casos de jovens entre 15 e 24 anos com a doen\u00e7a. No per\u00edodo de 2007 a 2017, <\/span><strong><a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/saude\/o-que-esta-por-tras-da-explosao-de-casos-de-hiv-entre-jovens-23459399\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">houve um aumento de 700%<\/a><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>,<\/strong> o que \u00e9 classificado por diversos especialistas como uma nova epidemia. O cen\u00e1rio, ao contr\u00e1rio do que tem sido realizado, exige a\u00e7\u00f5es conjuntas e capazes de enfrentar essa problem\u00e1tica social e de sa\u00fade p\u00fablica. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As medidas que t\u00eam sido propostas desde que Jair Bolsonaro (PSL) assumiu a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica est\u00e3o, na verdade, amea\u00e7ando a pol\u00edtica de resposta \u00e0 Aids e ao HIV no pa\u00eds, como a transfer\u00eancia de responsabilidade da resposta da epidemia a estados e munic\u00edpios, j\u00e1 que a situa\u00e7\u00e3o de fal\u00eancia \u00e9 uma realidade e o SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade) est\u00e1 cada vez mais fragilizado. Al\u00e9m disso, <\/span><strong><a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2019\/decreto\/D9761.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o decreto n\u00famero 9.761<\/a><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, assinado em 11 de abril de 2019, estabelece uma nova pol\u00edtica nacional de drogas que foca na abstin\u00eancia em vez da redu\u00e7\u00e3o de danos, medida reconhecida por sua efetividade no enfrentamento ao HIV e \u00e0 AIDS entre usu\u00e1rios de drogas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diante do cen\u00e1rio obscuro, Carla Almeida defende que \u00e9 necess\u00e1rio repensar a forma de tratar a doen\u00e7a, que envolve, principalmente, quest\u00f5es culturais e de sexualidade, estigmatizadas por setores conservadores. Afinal, em que espa\u00e7os se discutem, de fato, o racismo, o machismo, a sexualidade e a desigualdade? Para a presidente do \u00f3rg\u00e3o que promove a preven\u00e7\u00e3o universal, as medidas de conten\u00e7\u00e3o devem contemplar todos esses assuntos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong>Carla, o que representa o t\u00e9rmino do Departamento de HIV\/AIDS?<\/strong><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Existe uma epidemia de Aids. O Rio Grande do Sul, por exemplo, <\/span><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/saude\/noticia\/2018\/11\/porto-alegre-esta-no-topo-do-ranking-dos-casos-de-aids-cjozyfz0i0gzo01pi6c8f5uur.html\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00e9 o estado com uma das capitais de maior incid\u00eancia no Brasil<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. N\u00e3o ter um Departamento de HIV\/AIDS \u00e9 um gesto simb\u00f3lico.Fomos reconhecidos mundialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas de interven\u00e7\u00e3o. Com o fim do Departamento, as pol\u00edticas p\u00fablicas passam a perder sua relev\u00e2ncia, minimizando o que ainda \u00e9 um problema de sa\u00fade muito grande. Estima-se que haver\u00e1 menos financiamento, sem que haja a possibilidade de se promoverem debates sobre sexualidade. O pa\u00eds perder\u00e1 seu papel de refer\u00eancia. A Aids, assim, ganha uma coordena\u00e7\u00e3o espec\u00edfica em outro Departamento, mas isso provavelmente incentivar\u00e1 a retirada dos \u00f3rg\u00e3os estatais que tratam especificamente da doen\u00e7a, de modo que ir\u00e3o integralizar outros setores, pois as gest\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o fragilizadas e v\u00eam perdendo relev\u00e2ncia. N\u00e3o se sabe qual ser\u00e1 a nova estrutura e a din\u00e2mica no dia a dia. O congelamento por 20 anos nos gastos na sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 outra preocupa\u00e7\u00e3o, pois o SUS \u00e9 imprescind\u00edvel no controle da epidemia. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Houve uma mudan\u00e7a de percep\u00e7\u00e3o sobre a Aids?<\/strong> <\/span><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde a \u00faltima d\u00e9cada, a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 focalizada na medicaliza\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. \u00c9 muito importante compreender as novas tecnologias e utiliz\u00e1-las; por\u00e9m, a abordagem m\u00e9dica n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica estrat\u00e9gia de interven\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso trabalhar conjuntamente o comportamento, a partir da compreens\u00e3o de quem s\u00e3o os sujeitos em vulnerabilidade e quais os contextos em que se encontram. Falar da epidemia \u00e9 tamb\u00e9m discutir racismo, sexualidade, machismo, pobreza e desigualdade. H\u00e1, tamb\u00e9m, a ideia err\u00f4nea de que a Aids j\u00e1 est\u00e1 controlada e, assim, os investimentos s\u00e3o desnecess\u00e1rios. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong>Como foi a experi\u00eancia de trabalho no Gapa\/RS? <\/strong><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Comecei a voluntariar no local em 1998, devido a um projeto acad\u00eamico. Passei a coordenar setores que auxiliavam popula\u00e7\u00f5es trans e de mulheres, atrav\u00e9s da elabora\u00e7\u00e3o de diversas a\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 interven\u00e7\u00e3o e ao campo social. Por falta de financiamento, o Gapa\/RS foi fechado judicialmente em 2017. Continuamos nossas atividades de forma limitada, focando o trabalho para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social, como profissionais do sexo, moradores de rua e usu\u00e1rios de drogas. A presen\u00e7a externa tamb\u00e9m se tornou fundamental, por meio da participa\u00e7\u00e3o em congressos e palestras que discutam tem\u00e1ticas relacionadas ao HIV e \u00e0 Aids. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong>O que explica o elevado n\u00famero de jovens com Aids?<\/strong><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m da falta de financiamento, isso acontece porque n\u00e3o existem pol\u00edticas educacionais que discutam quest\u00f5es como g\u00eanero e sexo. A maior parte dos jovens n\u00e3o sabe que h\u00e1 avan\u00e7os como a PrEP (Profilaxia Pr\u00e9-Exposi\u00e7\u00e3o). A gera\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o conviveu com a AIDS, \u00e9poca em que havia v\u00e1rias campanhas preventivas e de conscientiza\u00e7\u00e3o. As ONGs (Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o-Governamentais) ocupavam um papel de destaque, elaborando iniciativas culturalmente adequadas a cada faixa et\u00e1ria e que promoviam amplamente a import\u00e2ncia da preven\u00e7\u00e3o. Com a falta de recurso, as a\u00e7\u00f5es preventivas minguaram. Em que espa\u00e7os ouvimos falar de Aids? Quais os espa\u00e7os em que se debate a epidemia no cotidiano das cidades? Que prioridades as gest\u00f5es municipal e estadual atribuem a essa pauta? \u00a0Por muito tempo, o Gapa &#8211; que j\u00e1 completa 30 anos &#8211; foi uma institui\u00e7\u00e3o de acolhimento. Hoje, faltam espa\u00e7os comunit\u00e1rios capazes de auxiliar no diagn\u00f3stico e tratamento. Existe uma desarticula\u00e7\u00e3o enorme e isso faz com que a doen\u00e7a n\u00e3o tenha visibilidade na m\u00eddia e, por conseguinte, perde poss\u00edveis investimentos. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong>Apesar de sermos bombardeados por muitas informa\u00e7\u00f5es, h\u00e1 mais desconhecimento atualmente?<\/strong><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o sei se desconhecimento, mas n\u00e3o h\u00e1 legitimidade e locais em que as pessoas possam falar sobre HIV, formas de cont\u00e1gio e as novas tecnologias que auxiliam no tratamento. Por isso, levanto as seguintes perguntas: as mulheres entendem o que \u00e9 um preservativo feminino? Os jovens t\u00eam conhecimento da PrEP? Existe diferen\u00e7a entre indetect\u00e1vel e intransmiss\u00edvel? Como essas informa\u00e7\u00f5es circulam nessa sociedade? \u00c9 primordial refletir acerca da forma que tratamos a epidemia, pois a Aids \u00e9 responsabilidade de todos n\u00f3s. Essas quest\u00f5es ilustram o problema por tr\u00e1s do fim do Departamento. A gera\u00e7\u00e3o atual \u00e9 extremamente diferente se comparada \u00e0 de 20 anos atr\u00e1s. Os aplicativos, inclusive, trouxeram novas din\u00e2micas de relacionamento. H\u00e1 uma s\u00e9rie de fatores culturais que n\u00e3o recebem a devida aten\u00e7\u00e3o. A epidemia entre os jovens se origina na falta de campanhas e de uma proposta efetiva de dialogar de modo construtivo e consistente com esse p\u00fablico. A Aids n\u00e3o tem uma resposta programada: enquanto for estigmatizada, haver\u00e1 novas infec\u00e7\u00f5es diariamente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>FOTO DE CAPA: <em>T\u00e2nia Rego\/Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carla Almeida explica como a falta de investimento p\u00fablico influencia no aumento da doen\u00e7a entre jovens; tend\u00eancia com fim do departamento \u00e9 preocupante. 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