﻿{"id":3260,"date":"2019-06-19T15:56:33","date_gmt":"2019-06-19T18:56:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=3260"},"modified":"2019-07-03T13:55:38","modified_gmt":"2019-07-03T16:55:38","slug":"dia-do-cinema-brasileiro-tinta-bruta-torna-a-producao-nacional-mais-colorida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/06\/19\/dia-do-cinema-brasileiro-tinta-bruta-torna-a-producao-nacional-mais-colorida\/","title":{"rendered":"Tinta Bruta torna a produ\u00e7\u00e3o nacional mais colorida"},"content":{"rendered":"<p><em>No <a href=\"https:\/\/brasilescola.uol.com.br\/datas-comemorativas\/dia-do-cinema-brasileiro.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Dia do Cinema Brasileiro<\/strong><\/a> estreia o #Cr\u00edticaHumanista, espa\u00e7o criado para a reflex\u00e3o sobre produ\u00e7\u00f5es culturais que promovem os direitos humanos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Yuri Correa*\u00a0<\/strong>\/ #Cr\u00edticaHumanista<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando estreou em 2015, o <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/filmes\/beira-mar-vai-alem-de-rotulos-desconstroi-filme-gay-17962433\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>longa-metragem ga\u00facho<\/strong> <strong>Beira-Mar<\/strong><\/a> me chamou a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 pelo olhar delicado com que abordou a paix\u00e3o embrion\u00e1ria entre os meninos Tomaz e Martin, mas principalmente pela naturalidade com que o filme constru\u00eda essa rela\u00e7\u00e3o. Enquanto a maior parte das produ\u00e7\u00f5es focadas na tem\u00e1tica LGBT ainda se debate para contar as velhas (e necess\u00e1rias) hist\u00f3rias sobre preconceito, bullying, aceita\u00e7\u00e3o e a luta por direitos, o projeto de estreia dos diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon atua em outra frente: naturalizar as rela\u00e7\u00f5es LGBT.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No m\u00eas que marca o dia do Orgulho LGBT, o STF (Superior Tribunal Federal) decidiu pela maioria de votos <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-47206924\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>criminalizar a homofobia<\/strong><\/a>. Um passo atrasado e, ainda assim, importante na jornada de conquistas dessa chamada \u201cminoria social\u201d, a medida do STF n\u00e3o \u00e9 para ser comemorada. Se ela se fez necess\u00e1ria \u00e9 porque, anualmente, pesquisas feitas por ONGs como o GGB (Grupo Gay da Bahia) apontam que centenas de LGBTs s\u00e3o assassinados todos os anos no Brasil. Segundo dados do CGB, foram <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/02\/08\/relatorio-registra-420-vitimas-fatais-de-discriminacao-contra-lgbts-no-brasil-em-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>420 casos apenas em 2018<\/strong><\/a> &#8211; e existe mais uma parcela preocupante do n\u00famero de suic\u00eddios no pa\u00eds que est\u00e1 ligada \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o sexual das v\u00edtimas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Portanto, fica \u00f3bvia a necessidade das m\u00eddias continuarem abordando as tem\u00e1ticas LGBTs em forma de den\u00fancia \u00e0 viol\u00eancia sofrida por esses grupos. Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 de um vanguardismo bem-vindo retratar a l\u00e9sbica, o gay, os bissexuais e os transexuais fora desses cen\u00e1rios clich\u00eas, trazendo-os para ocupar espa\u00e7os normalmente reservados aos heterossexuais e cisg\u00eaneros. Atrav\u00e9s da sua curta e impressionante carreira at\u00e9 aqui, Filipe e Marcio t\u00eam demonstrado interesse particular nesse recorte. Desde que lan\u00e7aram Beira-Mar, trouxeram olhares semelhantes de sensibilidade no curta <em>O \u00daltimo Dia antes de Zanzibar<\/em> (2016), na miniss\u00e9rie <em>O Ninho<\/em> (2016) e, agora, no recente e <a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/cultura-e-lazer\/cinema\/noticia\/2018\/02\/filme-gaucho-tinta-bruta-conquista-dois-premios-no-festival-de-berlim-cje34r94j002o01qonob8ervi.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>mundialmente premiado Tinta Bruta<\/strong><\/a> (2018).<\/span><\/p>\n<p><iframe title=\"TINTA BRUTA | Trailer Oficial\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zM9Q36ZKJqY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No centro da trama desse \u00faltimo projeto est\u00e1 Pedro (Shico Menegat), um jovem introspectivo com certa fobia de aparecer em p\u00fablico, a n\u00e3o ser, claro, quando est\u00e1 performando como o Garoto Neon. Utilizando tintas fluorescentes, Pedro dan\u00e7a e pinta o pr\u00f3prio corpo sob a luz negra em frente \u00e0 c\u00e2mera de seu laptop para espectadores an\u00f4nimos na internet &#8211; e alguns, inclusive, pagam por shows particulares. Entretanto, seu ganha-p\u00e3o fica em risco quando ele descobre que outro homem est\u00e1 copiando a sua performance, o que o leva a confrontar e conhecer Leo (Bruno Fernandes).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa abordagem, o trabalho de Shico Menegat \u00e9 essencial quando comp\u00f5e o protagonista como algu\u00e9m cuja postura j\u00e1 denuncia sua personalidade fechada. Os bra\u00e7os colados ao corpo, a cabe\u00e7a inclinada e os ombros curvados para frente se combinam aos cabelos que, normalmente quando em p\u00fablico, protegem que o rosto e, principalmente, os olhos de Pedro encontrem os dos demais transeuntes. Filipe e Marcio potencializam essa ang\u00fastia do personagem e a transmitem ao espectador atrav\u00e9s de planos subjetivos que mostram pessoas encarando-o e, presumivelmente, julgando sua apar\u00eancia introvertida e um tanto arisca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por\u00e9m, os m\u00e9ritos narrativos de <em>Tinta Bruta<\/em> v\u00e3o ainda al\u00e9m. Os diretores (que tamb\u00e9m s\u00e3o os roteiristas de seus projetos) constroem uma metr\u00f3pole que consegue a proeza de ser sufocante e abarrotada de olhares hostis, ainda que tamb\u00e9m soe vazia e desesperadoramente solit\u00e1ria. Mais de uma vez, Filipe e Marcio enfocam as muralhas de pr\u00e9dios que cercam Pedro pelas ruas, com suas janelas que exibem apenas as silhuetas de moradores observando as ruas abaixo, como num pesadelo Kafkiano onde todos s\u00e3o testemunhas de um problema que n\u00e3o est\u00e3o dispostos a resolver.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E solid\u00e3o \u00e9 uma palavra-chave para conseguir entender a ess\u00eancia desse longa-metragem. Enquanto tenta adquirir alguma identidade sob \u00e0s tintas luminosas de sua persona art\u00edstica, Pedro tamb\u00e9m tem que lidar com um processo judicial que o expulsou de uma faculdade, depois que o jovem reagiu impulsiva e violentamente a uma provoca\u00e7\u00e3o. Sob a pele tingida de neon, o protagonista guarda n\u00e3o apenas a melancolia da solid\u00e3o (para piorar, ao come\u00e7o do filme, a irm\u00e3 Luiza se muda, deixando-o para morar sozinho), mas uma revolta eruptiva cuja for\u00e7a se somou, como fica muito bem insinuado, de anos de repress\u00e3o e pequenas provoca\u00e7\u00f5es (que n\u00e3o deixam de ser viol\u00eancias) como aquela que o levou ao ato pelo qual est\u00e1 sendo julgado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por isso se faz t\u00e3o adequada a atmosfera concebida por Filipe e Marcio, pois assim como em <em>O Processo<\/em> ou <em>A Metamorfose<\/em>, de Kafka, o protagonista parece estar sendo constantemente julgado por um sistema e pessoas que nem ele consegue compreender, e em que os pr\u00f3prios s\u00e3o tamb\u00e9m parte do suposto crime cometido. Afinal, qual a viol\u00eancia mais brutal, aquela que se desfere num golpe s\u00f3 ou aquela que, por anos, penetra na pele e deixa uma enorme cicatriz, como a ponta de uma chave de metal rasgando o rosto de algu\u00e9m?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O papel de <em>Tinta Bruta<\/em> \u00e9 somar \u00e0s vozes que t\u00eam falado cada vez mais alto sobre as reivindica\u00e7\u00f5es da comunidade LGBT. H\u00e1 pouco mais de dois anos, um filme com essa tem\u00e1tica e protagonizado e produzido por pessoas negras <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/02\/26\/cultura\/1488135116_854485.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>venceu o Oscar de Melhor Filme<\/strong><\/a>, e ainda no ano passado, outra levou outro desses trof\u00e9us da Academia para casa (<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/17\/cultura\/1516227848_567076.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Me Chame pelo Seu Nome<\/strong><\/a>). <em>Tinta Bruta<\/em> trilhou um caminho admir\u00e1vel, no Festival de Berlim 2018, um dos maiores e mais tradicionais do mundo, venceu o Teddy de Melhor Filme, trof\u00e9u dedicado \u00e0s produ\u00e7\u00f5es LGBT. Devido ao reconhecimento, Filipe e Marcio fizeram parte do j\u00fari da Queer Palm na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do Festival do Cannes &#8211; a mostra tamb\u00e9m \u00e9 dedicada ao cinema com essas tem\u00e1ticas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talentos comprovados como o da dupla de realizadores ga\u00fachos demonstram n\u00e3o s\u00f3 a pluralidade e a compet\u00eancia do cinema nacional (t\u00e3o questionada pela opini\u00e3o p\u00fablica), como tamb\u00e9m acrescentam \u00e0 produ\u00e7\u00e3o mundial de narrativas que contribuem para a conscientiza\u00e7\u00e3o e para a naturaliza\u00e7\u00e3o de \u201cminorias\u201d. <em>Tinta Bruta<\/em> \u00e9 apenas o exemplo mais recente e mais pr\u00f3ximo que temos em m\u00e3os. Nesse caso, o Orgulho n\u00e3o se refere apenas \u00e1 sigla LGBT, e se estende para os nossos conterr\u00e2neos e o trabalho de ponta que v\u00eam realizando.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p>*<strong>Yuri Correa<\/strong>\u00a0\u00e9 rep\u00f3rter do <strong>Humanista<\/strong> e cr\u00edtico de cinema com forma\u00e7\u00e3o em produ\u00e7\u00e3o audiovisual pela PUCRS.<\/p>\n<p>FOTO: <em>reprodu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Dia do Cinema Brasileiro estreia o #Cr\u00edticaHumanista, espa\u00e7o criado para a reflex\u00e3o sobre produ\u00e7\u00f5es culturais que promovem os direitos humanos.\u00a0 Yuri Correa*\u00a0\/ #Cr\u00edticaHumanista Quando estreou em 2015, o longa-metragem ga\u00facho Beira-Mar me chamou a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 pelo olhar delicado com que abordou a paix\u00e3o embrion\u00e1ria entre os meninos Tomaz e Martin, mas principalmente &#8230; <a title=\"Tinta Bruta torna a produ\u00e7\u00e3o nacional mais colorida\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/06\/19\/dia-do-cinema-brasileiro-tinta-bruta-torna-a-producao-nacional-mais-colorida\/\" aria-label=\"More on Tinta Bruta torna a produ\u00e7\u00e3o nacional mais colorida\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":3263,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[246,55],"tags":[],"class_list":["post-3260","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-criticahumanista","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3260"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3260\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3263"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}