﻿{"id":3801,"date":"2019-07-18T16:54:35","date_gmt":"2019-07-18T19:54:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=3801"},"modified":"2019-08-06T13:14:09","modified_gmt":"2019-08-06T16:14:09","slug":"lagrimas-medo-e-socorro-24-horas-no-plantao-da-delegacia-da-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/07\/18\/lagrimas-medo-e-socorro-24-horas-no-plantao-da-delegacia-da-mulher\/","title":{"rendered":"L\u00e1grimas, medo e socorro: 24 horas no plant\u00e3o da Delegacia da Mulher"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Humanista acompanhou um dia inteiro de trabalho na Delegacia Especializada no Atendimento \u00e0 Mulher em Porto Alegre; hist\u00f3rias v\u00e3o de amea\u00e7as, vazamento de v\u00eddeos \u00edntimos, a agress\u00f5es f\u00edsicas.<\/span><\/i><\/p>\n<p><strong>Laura Berrutti<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As diferentes texturas de pele e as cores dos fios de cabelos no ch\u00e3o n\u00e3o deixam d\u00favidas: a viol\u00eancia contra a mulher atinge todas as etnias e idades. Eram 9 horas da manh\u00e3 de um s\u00e1bado de outono e os raios de sol iluminavam a sala de entrada da DEAM (Delegacia Especializada no Atendimento \u00e0 Mulher), no Pal\u00e1cio da Pol\u00edcia, em Porto Alegre. As cadeiras vazias, o espa\u00e7o de recrea\u00e7\u00e3o bem organizando, revelando que crian\u00e7as ainda n\u00e3o passaram por ali, policiais em ritmo de prepara\u00e7\u00e3o, guardando energias para resistir a mais um fim de semana de trabalho&#8230; Nada que permitisse imaginar que o dia seria intenso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em uma das paredes brancas da sala de espera, fotografias da exposi\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/ssp.rs.gov.br\/exposicao-fotografica-retratos-da-penha-e-inaugurada-na-delegacia-da-mulher-em-porto-alegre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Retratos da Penha<\/strong><\/a>, que retrata v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica que denunciaram os seus agressores e conseguiram reestruturar as suas vidas. Elas foram resgatadas por meio do programa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brigadamilitar.rs.gov.br\/Servicos\/MariaPenha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Patrulha da Penha<\/strong><\/a>, da BM (Brigada Militar), que fiscaliza o cumprimento das medidas protetivas. Al\u00e9m disso, cartazes espalhados com frases de incentivo, como \u201cAmo a mulher que eu me tornei porque eu me lutei para ser ela\u201d ou \u201cSeja sua pr\u00f3pria hero\u00edna\u201d.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<figure style=\"width: 862px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/sxOeOtjLJW2B-oaEnGj5Kxop9a5rzxM4EI8u6KJRqJlji6p3gRphnwGuViLB8kbOafLbWnqtmZFA84eRx2BjnoW18oVKXPJk4yV6h4qzJrKxpCGS5x844rGlFaSZtvDYEOziCupC\" alt=\"\" width=\"872\" height=\"645\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Fonte: DEAM<\/figcaption><\/figure>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O cen\u00e1rio com o qual o portal <strong>Humanista<\/strong>\u00a0se deparou nas primeiras das 24 horas de acompanhamento do cotidiano da delegacia n\u00e3o justificaria o n\u00famero assustador de mulheres que pedem socorro diariamente \u00e0 DEAM:\u00a0s\u00f3 em 2018, mais de 9 mil foram atendidas; em mais de 6 mil casos foram encaminhados pedidos de medidas protetivas \u00e0 justi\u00e7a, nem todos concedidos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O tempo passava, no entanto, e aquele ambiente que parecia naturalmente acolhedor ia ficando tenso. Quando a madrugada chegou, j\u00e1 lembrava uma loca\u00e7\u00e3o para as filmagens de filme policial, com tristes diferen\u00e7as: personagens reais e um final que n\u00e3o poderia ser feliz.\u00a0<\/span>A reportagem conversou com mulheres que denunciavam agress\u00f5es e foi atr\u00e1s de informa\u00e7\u00f5es que contribuam para que o cen\u00e1rio daquelas primeiras horas da manh\u00e3 de s\u00e1bado vire rotina, e a tens\u00e3o \u00e9 que passe a ser a exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diariamente, a delegacia \u00e9 palco para clamores por uma vida mais digna. Durante as 24 horas, 21 v\u00edtimas decidiram dar um basta \u00e0 sua ang\u00fastia e procuraram a ajuda da pol\u00edcia. Destas, apenas uma n\u00e3o encaminhou um pedido de medida protetiva ao judici\u00e1rio.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Den\u00fancias variadas: algumas suplicavam pelo fim das amea\u00e7as ou agress\u00f5es de seus companheiros, outras eram irm\u00e3s e m\u00e3es que estavam cansadas de serem violentadas; algumas mulheres chegavam sozinhas, outras apareciam acompanhadas de amigos e familiares. Nos casos mais emergenciais, v\u00edtimas acionaram a BM, que as conduziu nas viaturas at\u00e9 o local. Algumas mulheres na companhia dos filhos, \u00e0s vezes testemunhas das agress\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>As hist\u00f3rias presenciadas ao longo das 24 horas est\u00e3o reportadas em tr\u00eas cap\u00edtulos, com refer\u00eancia nos tr\u00eas turnos do dia, respectivamente: manh\u00e3; tarde; e noite.<\/p>\n<h5><strong>24 horas na Delegacia da Mulher<\/strong><\/h5>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/07\/18\/so-o-comeco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>S\u00f3 o come\u00e7o<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/07\/18\/tarde-tumultuada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Tarde tumultuada<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/07\/18\/madrugada-sem-fim\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Madrugada sem fim<\/strong><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p>[slideshow_deploy id=&#8217;3841&#8217;&#093;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><b>Da den\u00fancia \u00e0 medida protetiva\u00a0<\/b><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00f3 em 2018, 9.374 mulheres fizeram boletim de ocorr\u00eancia na DEAM (Delegacia Especializada no Atendimento \u00e0 Mulher) de Porto Alegre. Nesse mesmo ano, de acordo com a SSP (Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica), 4.200 mulheres sofreram amea\u00e7as, 3.816 les\u00e3o corporal, 266 estupro e 70 foram v\u00edtimas de tentativa de feminic\u00eddio na Capital.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A\u00a0DEAM de Porto Alegre surgiu em 1988, mas s\u00f3 em 2007 passou a facilitar a aplica\u00e7\u00e3o da <\/span><a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2019\/lei\/L13827.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Lei Maria da Penha<\/strong><\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, reconhecida pela ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas) como a <\/span><strong><a href=\"https:\/\/ibdfam.jusbrasil.com.br\/noticias\/2110644\/para-onu-lei-maria-da-penha-e-uma-das-mais-avancadas-do-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">terceira melhor legisla\u00e7\u00e3o do mundo<\/a>\u00a0<\/strong>quando o assunto \u00e9 prote\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher<span style=\"font-weight: 400;\">. Hoje, s\u00e3o 21 delegacias especializadas no Rio Grande do Sul.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A den\u00fancia \u00e9 o primeiro passo para o Estado ter ci\u00eancia dos casos em que a mulher sofre viol\u00eancia dom\u00e9stica. Quando uma v\u00edtima procura a delegacia, al\u00e9m de ser aberto um inqu\u00e9rito policial, tamb\u00e9m poder\u00e1 ser encaminhada ao juizado uma solicita\u00e7\u00e3o de medidas protetivas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A investiga\u00e7\u00e3o policial costuma levar de um a dois anos para ser conclu\u00edda. J\u00e1 as medidas protetivas podem ser concedidas em at\u00e9 96 horas: 48 horas para a pol\u00edcia encaminhar ao juizado e mais 48 para o juizado deferir o resultado. Mas se voc\u00ea vive uma situa\u00e7\u00e3o de agress\u00e3o f\u00edsica ou psicol\u00f3gica que demanda prote\u00e7\u00e3o, o alento \u00e9 que o processo costuma ser mais r\u00e1pido. Quando a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada grave, o MP (Minist\u00e9rio P\u00fablico) poder\u00e1 solicitar a pris\u00e3o preventiva do agressor ao Judici\u00e1rio.\u00a0<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-3828 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Laura-5-410x1024.png\" alt=\"\" width=\"410\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Laura-5-410x1024.png 410w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Laura-5-120x300.png 120w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Laura-5-768x1920.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Laura-5.png 800w\" sizes=\"(max-width: 410px) 100vw, 410px\" \/><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A medida protetiva garante o afastamento do agressor do lar, a suspens\u00e3o de porte de armas, caso o tenha, e a fixa\u00e7\u00e3o de um limite m\u00ednimo de dist\u00e2ncia. O homem tamb\u00e9m poder\u00e1 ser proibido de entrar em contato com a v\u00edtima e seus familiares, al\u00e9m de obedecer \u00e0 restri\u00e7\u00e3o ou suspens\u00e3o de visitas aos dependentes menores. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5367954669328395\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Vanessa Chiari Gon\u00e7alves<\/strong><\/a>, professora de Criminologia e Direito Penal da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e especialista no tema, avalia que essas medidas s\u00e3o fundamentais para garantir a integridade f\u00edsica das mulheres.\u201cAs medidas protetivas de urg\u00eancia s\u00e3o extremamente importantes e uma grande conquista do movimento feminista no Brasil na defesa e na prote\u00e7\u00e3o da integridade f\u00edsica e da vida das mulheres.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para a delegada respons\u00e1vel pela DEAM, Tatiana Bastos, as medidas protetivas foram uma das maiores inova\u00e7\u00f5es da Lei Maria da Penha. \u201cElas t\u00eam sido extremamente efetivas na preven\u00e7\u00e3o de nova viol\u00eancia contra a mulher e principalmente contra os feminic\u00eddios&#8221;, argumenta. &#8220;O que a gente percebe \u00e9 que o sil\u00eancio tem sido o maior c\u00famplice dessa viol\u00eancia. A grande maioria das mulheres que procura ajuda tem conseguido se libertar das situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia que est\u00e1 inserida.\u201d Tatiana ainda ressalta a import\u00e2ncia do <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rs\/rio-grande-do-sul\/noticia\/2019\/01\/30\/delegacia-do-rs-usa-questionario-para-analisar-situacao-de-risco-de-mulheres-que-sofrem-violencia.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Question\u00e1rio de Avalia\u00e7\u00e3o de Risco<\/strong><\/a>, que \u00e9 entregue \u00e0s mulheres que chegam na DEAM de Porto Alegre desde 2018, para ajudar o Estado a compreender o hist\u00f3rico de cada v\u00edtima e fornecer mais elementos ao Judici\u00e1rio na hora de conceder as medidas protetivas.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dados da SSP (Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica) revelam que, em 2012, oito mulheres morreram v\u00edtimas de feminic\u00eddio na Capital ga\u00facha. Em 2018, 22 foram assassinadas por viol\u00eancia dom\u00e9stica. Para Vanessa Gon\u00e7alves, esses casos poderiam ter sido evitados se essas mulheres tivessem denunciado seus agressores. \u201cEstamos percebendo um aparente aumento dos casos de feminic\u00eddio no Brasil porque em muitas situa\u00e7\u00f5es uma mulher n\u00e3o chega a procurar uma delegacia de pol\u00edcia. Ent\u00e3o, voc\u00ea vai ver o hist\u00f3rico do casal e, embora fosse violento, jamais houve um registro de ocorr\u00eancia. Essas mulheres n\u00e3o conseguiram quebrar a barreira do sil\u00eancio\u201d, lamenta a professora.<\/span><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.mpsp.mp.br\/portal\/page\/portal\/Nucleo_de_Genero\/Feminicidio\/2018%20-%20RAIOX%20do%20FEMINICIDIO%20pdf.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pesquisa<\/a><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"> realizada pelo MP paulista, em 2018, prova que as medidas protetivas realmente podem salvar vidas. Dos 364 casos de feminic\u00eddio no Estado de S\u00e3o Paulo inclu\u00eddas no relat\u00f3rio, apenas 3% das v\u00edtimas as obtiveram e somente 4% havia registrado boletim de ocorr\u00eancia. Ou seja, a maioria das mulheres que foram assassinadas por condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero n\u00e3o denunciou o seu agressor em outras ocasi\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A promotora Ivana Battaglin, da Promotoria de Viol\u00eancia Dom\u00e9stica de Porto Alegre, acredita que a efic\u00e1cia das medidas protetivas est\u00e1 no temor dos agressores de serem presos. Desde abril de 2018, o seu descumprimento \u00e9 considerado crime. Durante anos, o STJ (Superior Tribunal de Justi\u00e7a) entendeu como desobedi\u00eancia civil e permitiu que os agressores pegos em flagrante no descumprimento da medida pudessem responder em liberdade. Desde o ano passado, no entanto, quem for preso em flagrante poder\u00e1 passar de tr\u00eas meses a dois anos preso, sem direito a fian\u00e7a.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m em 2018, o Juizado de Viol\u00eancia Dom\u00e9stica e Familiar contra a Mulher de Porto Alegre concedeu 15.295 medidas protetivas. Esse \u00e9 o primeiro passo para iniciar um processo judicial pela Lei Maria da Penha. Entre 10 e 15 dias ap\u00f3s a emiss\u00e3o das medidas, o judici\u00e1rio dever\u00e1 marcar uma audi\u00eancia para discutir a situa\u00e7\u00e3o com a v\u00edtima e o agressor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ocorre que<\/span>, segundo Ivana Battaglin, muitas mulheres desistem do processo\u00a0nessa etapa porque j\u00e1 reataram as rela\u00e7\u00f5es com o agressor ou porque as resolu\u00e7\u00f5es dos encontros foram suficientes para reestruturar a vida delas. \u201cProcessar criminalmente esse agressor n\u00e3o resolve a vida dela, o que resolve \u00e9 aquilo dali &#091;medida protetiva]. As mulheres n\u00e3o querem a condena\u00e7\u00e3o do agressor, elas querem o fim da viol\u00eancia. E o fim da viol\u00eancia, muitas vezes, se d\u00e1 com a medida protetiva\u201d, explica a promotora.<\/p>\n<hr \/>\n<p><iframe title=\"A promotora Ivana Battaglin fala sobre medidas protetivas\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0-t3ev72y2A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Muitas mulheres, mesmo ap\u00f3s os ataques, voltam a se relacionar com os\u00a0 parceiros. A <a href=\"https:\/\/amenteemaravilhosa.com.br\/ciclo-da-violencia-lenore-walker\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>teoria do ciclo de viol\u00eancia<\/strong><\/a>, concebida pela psic\u00f3loga estadunidense Leonor Walker, mostra que a primeira fase de um relacionamento violento \u00e9 a \u201cLua de Mel\u201d, em que a mulher acredita que o parceiro \u00e9 um \u201cpr\u00edncipe\u201d, como nos contos de fada. Na segunda fase, o homem come\u00e7a a adotar atitudes explosivas e de ci\u00fames. J\u00e1 a terceira \u00e9 quando ele come\u00e7a a agredir fisicamente a companheira. Na quarta, se arrepende e promete que ir\u00e1 mudar, at\u00e9 come\u00e7ar a ter atitudes possessivas \u2013 e todo o cen\u00e1rio \u00e9 configurado novamente.\u00a0<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-3826\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Laura_3-1024x768.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Laura_3.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Laura_3-300x225.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Laura_3-768x576.png 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong>Pris\u00f5es<\/strong><\/h5>\n<figure id=\"attachment_3823\" aria-describedby=\"caption-attachment-3823\" style=\"width: 790px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-3823\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_8907-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_8907-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_8907-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_8907-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3823\" class=\"wp-caption-text\">Na sala de espera, est\u00e3o penduradas fotografias da exposi\u00e7\u00e3o Retratos da Penha, que mostra v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica que conseguiram reestruturar as suas vidas.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O <strong>Humanista<\/strong> acompanhou dois casos de pris\u00e3o nas 24 horas em que esteve na DEAM.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"> \u201cDesculpa te incomodar de novo\u201d, dizia uma mulher, com uma pinta marcante no rosto, ao entrar na DEAM \u00e0s 2 horas da manh\u00e3, para uma das policiais. Ela vestia uma cal\u00e7a laranja e uma blusa de on\u00e7a, as mesmas roupas que usava horas atr\u00e1s, na primeira vez em que pisara no local naquele plant\u00e3o. Por\u00e9m, desta vez, foi a BM que a encaminhou ap\u00f3s a emerg\u00eancia ser acionada. O marido havia tentado agredir ela, um de seus filhos de outro relacionamento e uma das filhas, que est\u00e1 gr\u00e1vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Durante a tarde, a mulher de 47 anos j\u00e1 havia encaminhado um pedido de medida protetiva. Quando ela voltou para casa, o marido estava agitado e queria brigar com toda a fam\u00edlia. E foi durante o jantar que o homem se descontrolou. \u201cEle \u00e9 uma pessoa muito boa do cora\u00e7\u00e3o, o problema \u00e9 que quando ele bebe se torna outro. Todo o dinheiro dele vai para drogas e bebidas\u201d, reclama a v\u00edtima. Na noite anterior, o agressor disse que iria \u201cmatar todo mundo\u201d. Essa era a primeira vez que a m\u00e3e da v\u00edtima, que a acompanhava, escutara uma amea\u00e7a e parecia muito abalada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A justi\u00e7a j\u00e1 havia concedido medidas protetivas para ela em 2015, mas o documento n\u00e3o fora renovado. Na \u00e9poca, o homem a agredia f\u00edsica e verbalmente. Ap\u00f3s os quatro meses de validade do documento, a v\u00edtima continuava recorrendo ao documento de prote\u00e7\u00e3o para se defender, e ele a respeitava. \u201cEle tinha medo da medida\u201d, relembra. Dois meses depois, o agressor voltou a morar com ela e com os filhos, mas como \u201camigo\u201d, por quest\u00f5es financeiras. Menos de um ano depois, o casal volta a se relacionar, com as agress\u00f5es suspensas &#8211; n\u00e3o por muito tempo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEu n\u00e3o quero me arrepender de n\u00e3o ter feito nada. Eu n\u00e3o consigo nem mais chorar. Eu s\u00f3 quero que ele saia de casa. Eu n\u00e3o aguento mais ter que dormir com ele\u201d, desabafa a v\u00edtima. Enquanto o delegado da DPPA (Delegacia Policial de Pronto Atendimento) explicava \u00e0 ela que o caso havia configurado um flagrante na sala de espera da DEAM e perguntava se ela queria que o parceiro fosse preso, o agressor estava sentado no ch\u00e3o, encostado na parede, no outro lado do Pal\u00e1cio da Pol\u00edcia. Ele vestia um blus\u00e3o cinza com mangas e capuz azuis. Olhava para todos os lados, atento. Um dos brigadianos fazia algumas provoca\u00e7\u00f5es verbais, e ele mantinha uma fei\u00e7\u00e3o risonha.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A segunda pris\u00e3o do plant\u00e3o se configuraria \u00e0s 4 horas, mas o pesadelo da v\u00edtima havia come\u00e7ado antes, \u00e0s 21 horas de s\u00e1bado, quando o marido chegou em casa. Ela estava voltando do mercado e estranhou as luzes apagadas, sabendo que ele j\u00e1 havia retornado \u00e0 resid\u00eancia. Ao entrar, encontrou o homem com uma bebida na m\u00e3o, a olhando fixamente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Era quase meia-noite quando a mulher de 34 anos foi \u00e0 cama. Duas horas depois, no entanto, acordou com o marido em cima dela com uma faca em punho, gritando: \u201cEu vou furar os teus olhos, sua vagabunda\u201d. Ao tentar se desvencilhar, ela foi agredida na cabe\u00e7a com a garrafa de bebida que estava na outra m\u00e3o. A mulher gritava, mas os vizinhos n\u00e3o a ouviam &#8211; ou preferiam n\u00e3o ouvi-la. A v\u00edtima conseguiu fugir, pegou os dois filhos e ligou para a emerg\u00eancia. O menino ficou com uma vizinha e a menina foi com a m\u00e3e \u00e0 delegacia. \u201cA minha fam\u00edlia n\u00e3o aguenta mais, porque eu ajudo ele. Eles j\u00e1 se distanciaram de mim.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ap\u00f3s entrevistar o agressor, o delegado da DPPA foi \u00e0 DEAM conversar com a v\u00edtima. Ele e a outra policial tentavam entender o que havia acontecido. Na sala, a v\u00edtima contava com detalhes o hist\u00f3rico da rela\u00e7\u00e3o e recebia instru\u00e7\u00f5es sobre a pris\u00e3o e sobre as medidas protetivas. \u201cEu s\u00f3 quero ter sossego, ter uma vida normal\u201d, suplicava a v\u00edtima.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_3838\" aria-describedby=\"caption-attachment-3838\" style=\"width: 790px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-3838\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_20190526_043653-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_20190526_043653-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_20190526_043653-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_20190526_043653-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3838\" class=\"wp-caption-text\">No IML, as v\u00edtimas s\u00e3o atendidas pelos m\u00e9dicos que realizam exames de corpo de delito.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como ela havia sido agredida e precisava fazer o exame de corpo de delito, dirigiu-se ao IML. A reportagem a acompanhou. Com a filha mais nova no colo, visivelmente assustada com a situa\u00e7\u00e3o, a mulher seguia todos os procedimentos burocr\u00e1ticos. Na volta, ao passar em frente \u00e0 DPPA, ela olhava para o local tentando entender o que estava acontecendo com o homem magro, de cal\u00e7as vermelhas e blus\u00e3o cinza, com quem h\u00e1 oito anos dividia a cama. Como todas as mulheres que entraram na delegacia naquele dia, queria um recome\u00e7o, uma nova hist\u00f3ria: passou reto e n\u00e3o olhou para tr\u00e1s. Pelo menos n\u00e3o naquela noite.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Ju\u00edza-corregedora Gioconda Piti alerta, viol\u00eancia contra a mulher se aprende em casa:<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><iframe title=\"Ju\u00edza-corregedora Gioconda Piti alerta: viol\u00eancia contra a mulher se aprende em casa.\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FVpL8EZPbw8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>E explica porque algumas v\u00edtimas desistem da medida protetiva na audi\u00eancia com o agressor:<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><iframe title=\"Ju\u00edza Gioconda Piti explica porque v\u00edtimas desistem da medida protetiva na audi\u00eancia com agressor.\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VFahNIywylU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<p>FOTOS:<em> Laura Berrutti\/Humanista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Humanista acompanhou um dia inteiro de trabalho na Delegacia Especializada no Atendimento \u00e0 Mulher em Porto Alegre; hist\u00f3rias v\u00e3o de amea\u00e7as, vazamento de v\u00eddeos \u00edntimos, a agress\u00f5es f\u00edsicas. Laura Berrutti As diferentes texturas de pele e as cores dos fios de cabelos no ch\u00e3o n\u00e3o deixam d\u00favidas: a viol\u00eancia contra a mulher atinge todas as &#8230; <a title=\"L\u00e1grimas, medo e socorro: 24 horas no plant\u00e3o da Delegacia da Mulher\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/07\/18\/lagrimas-medo-e-socorro-24-horas-no-plantao-da-delegacia-da-mulher\/\" aria-label=\"More on L\u00e1grimas, medo e socorro: 24 horas no plant\u00e3o da Delegacia da Mulher\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":3829,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[33,249],"tags":[],"class_list":["post-3801","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-seguranca","category-violencia-contra-a-mulher"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3801","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3801"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3801\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3829"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3801"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3801"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3801"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}