﻿{"id":4772,"date":"2019-10-31T09:56:23","date_gmt":"2019-10-31T12:56:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=4772"},"modified":"2019-11-18T21:30:53","modified_gmt":"2019-11-19T00:30:53","slug":"a-reescrita-como-a-associacao-que-atende-apenados-em-porto-alegre-esta-mudando-suas-vidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/10\/31\/a-reescrita-como-a-associacao-que-atende-apenados-em-porto-alegre-esta-mudando-suas-vidas\/","title":{"rendered":"A reescrita: como a associa\u00e7\u00e3o que atende apenados em Porto Alegre est\u00e1 mudando suas vidas"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Associa\u00e7\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o e Assist\u00eancia aos Condenados tem quase um ano de atua\u00e7\u00e3o ressocializando, na Capital, detentos que chegam de pres\u00eddios da regi\u00e3o.<\/span><\/i><\/p>\n<p><b>Andielli Silveira<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cVai passar\u201d, grita o seguran\u00e7a ao arrastar o port\u00e3o de ferro de cor azul-claro. No alto, l\u00ea-se: aqui entra o homem, o delito fica l\u00e1 fora. O grupo de visitas passou e subiu os degraus em que, <\/span><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/seguranca\/noticia\/2018\/12\/primeira-apac-do-rio-grande-do-sul-comeca-a-receber-apenados-em-24-de-dezembro-cjp8hknau0ie801rxuu45lnmy.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>h\u00e1 quase um ano<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, 30 presos subiram para se dirigirem aos dormit\u00f3rios da primeira <\/span><a href=\"https:\/\/www.apacpartenon.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>APAC<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> (Associa\u00e7\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o e Assist\u00eancia aos Condenados). O porteiro do segundo andar \u00e9 um dos presos, e recebe todos com abra\u00e7os e boas-vindas. A visita vai come\u00e7ar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Depois de atualizar, em <\/span><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/10\/24\/presidio-central-e-o-retrato-do-caos-do-sistema-carcerario-brasileiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>reportagem<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> produzida por <\/span><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?s=Karolaine+Le%C3%A3o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Karolaine Le\u00e3o<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> e <\/span><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?s=Tamires+Rodrigues\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Tamires Rodrigues<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias para a ressocializa\u00e7\u00e3o na Cadeia P\u00fablica de Porto Alegre (conhecida como Pres\u00eddio Central), o <\/span><b>Humanista<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> foi atr\u00e1s de alternativas para al\u00e9m da fal\u00eancia do sistema carcer\u00e1rio brasileiro. Descobriu na APAC hist\u00f3rias que provam que pol\u00edticas adequadas podem, sim, reintegrar pessoas que cometeram crimes.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Hist\u00f3rias como as de \u00c2ngelo* e Bruno*, os guias, que logo na chegada, nos dormit\u00f3rios, apresentam a rotina de quem vive na associa\u00e7\u00e3o. Eles mostram, orgulhosos, a organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. \u00c0 direita da entrada, uma estante cinza com compartimentos individuais, em que h\u00e1 itens como roupas e cal\u00e7ados, fotos da fam\u00edlia, ursos de pel\u00facia, livros e at\u00e9 uma caixa de chocolates da Cacau Show. As cinco beliches t\u00eam len\u00e7\u00f3is azuis e cobertores dobrados na ponta de cada colch\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA realidade do sistema prisional \u00e9 cr\u00edtica. Uma cela desse tamanho \u00e9 para no m\u00ednimo 40 homens, um por cima do outro. A verdadeira liberdade \u00e9 respeitar o espa\u00e7o do outro. \u00c9 muito mais do que uma grade ou um cadeado\u201d, explica Bruno. Ali, dormem 10 homens e a grade citada pelo detento est\u00e1 sempre aberta.<\/span><\/p>\n<h5><b>Rotina de \u201camor, disciplina e confian\u00e7a\u201d<\/b><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A rotina \u00e9 simples: todos acordam \u00e0s 6h e v\u00e3o dormir \u00e0s 22h, ningu\u00e9m fica na cela durante o dia. Pela manh\u00e3, os presos t\u00eam um ato socializador, um momento religioso, para pedir b\u00ean\u00e7\u00e3os e agradecer. Depois, cozinham e comem seu caf\u00e9 da manh\u00e3, assim como todas as outras refei\u00e7\u00f5es. Na sequ\u00eancia, s\u00e3o muitas atividades: yoga, atendimento psicol\u00f3gico, aulas de legisla\u00e7\u00e3o e alfabetiza\u00e7\u00e3o, artesanato. Todas as pr\u00e1ticas s\u00e3o oferecidas por volunt\u00e1rios que trabalham no local. O hor\u00e1rio de lazer para ver TV ou ler um livro \u00e9 das 18h \u00e0s 22h.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c2ngelo, que viveu 6 anos na <\/span><a href=\"http:\/\/www.susepe.rs.gov.br\/conteudo.php?cod_menu=203&amp;cod_conteudo=21\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Cadeia P\u00fablica de Porto Alegre<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> com outros 4.400 presos, conta que foi levado para Barrac\u00e3o, no Paran\u00e1, para conhecer a metodologia de ressocializa\u00e7\u00e3o APAC. Ao chegar a um ambiente limpo e acolhedor, perguntou se estavam no lugar certo. Ele foi um dos primeiros apenados a chegar na APAC de Porto Alegre, que come\u00e7ou a funcionar no dia 24 de dezembro de 2018.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAqui \u00e9 para as pessoas que querem uma mudan\u00e7a de vida. N\u00e3o tem como n\u00e3o mudar o cora\u00e7\u00e3o num sistema como esse\u201d, comemora o apenado, que, por coincid\u00eancia, ganhou uma nova vida como presente na v\u00e9spera de Natal. \u201cDiferente do Central, onde se eu olhasse para algu\u00e9m e ele n\u00e3o gostasse, eu j\u00e1 apanhava ou levava cassetada da Brigada ou da Susepe. Aqui todo mundo cuida e ajuda todo mundo.\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Seguindo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sala de aula, os corredores evidenciam os mandamentos e os elementos cruciais para a recupera\u00e7\u00e3o no m\u00e9todo APAC. Os tr\u00eas pilares: amor, disciplina e confian\u00e7a. Quando algu\u00e9m \u00e9 transferido para l\u00e1, tem aula tr\u00eas vezes na semana durante 90 dias sobre o funcionamento da ressocializa\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s esse per\u00edodo, a \u201caulinha do m\u00e9todo\u201d, como \u00e9 chamada, passa a ser dada uma vez na semana.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As fam\u00edlias dos recuperandos, os presos da APAC, tamb\u00e9m participam. Elas precisam concordar com o cumprimento da pena naquele ambiente e assistir a palestras a cada dois meses. A sala de aula \u00e9 a mesma sala de TV e tamb\u00e9m a biblioteca. Ali, a cartilha da APAC fora apresentada ao <\/span><b>Humanista<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> no dia da visita.<\/span><\/p>\n<h5><b>M\u00e9todo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O m\u00e9todo foi criado em 1972, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (SP), pelo advogado e jornalista <\/span><a href=\"http:\/\/www.fbac.org.br\/index.php\/pt\/marioottoboni-2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>M\u00e1rio Ottoboni<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, com o objetivo de evangelizar e apoiar os presos. Ao longo dos anos, o modelo foi se desenvolvendo atrav\u00e9s da humaniza\u00e7\u00e3o dos estabelecimentos penitenci\u00e1rios e da promo\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a restaurativa, sem deixar de lado a puni\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O prop\u00f3sito \u00e9 oferecer oportunidades para que o preso se recupere e retorne ao conv\u00edvio social, diminuindo a reincid\u00eancia dos crimes. A m\u00e9dia de retorno \u00e0 cadeia de egressos do sistema prisional ga\u00facho \u00e9 de 73%, enquanto a m\u00e9dia nacional das Associa\u00e7\u00f5es de Prote\u00e7\u00e3o e Assist\u00eancia aos Condenados n\u00e3o chega a 20%.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para o promotor Gilmar Bortolotto, representante do Minist\u00e9rio P\u00fablico no processo de implanta\u00e7\u00e3o da APAC no Estado, o modelo n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m do cumprimento correto da <\/span><a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l7210.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>LEP (Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal)<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> e n\u00e3o pode ser considerado solu\u00e7\u00e3o definitiva para o problema carcer\u00e1rio do Brasil.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cCom a baixa reincid\u00eancia, acaba ajudando na superlota\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 o objetivo\u201d, explica. \u201cEssa \u00e9 uma das in\u00fameras medidas que precisam ser tomadas, porque o modelo APAC acaba atingindo apenas uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria.\u201d Isso porque cada uma das 52 APACs em funcionamento no pa\u00eds s\u00f3 recebe, no m\u00e1ximo, 200 apenados. Outras 78 unidades est\u00e3o em processo de implanta\u00e7\u00e3o &#8211; 12 s\u00f3 no Rio Grande do Sul.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Chegando na cozinha, Bruno mostra quatro fac\u00f5es: \u201cOportunidade para fazer o mal a gente tem, mas a gente n\u00e3o quer\u201d. De fato, nesses 10 meses, n\u00e3o houve nenhum incidente. Dos 30 recuperandos, apenas um n\u00e3o se adaptou ao m\u00e9todo e voltou para o Central. Outro foi libertado e conseguiu um emprego como marceneiro, atividade que desenvolvia l\u00e1 dentro. A APAC o ajudou a conseguir uma casa para morar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bruno conta que na associa\u00e7\u00e3o os detentos t\u00eam dignidade, \u201ca gente come bem, com garfo e faca, n\u00e3o \u00e9 dentro de uma garrafa PET cortada ao meio\u201d. O cheiro no ar era de \u201cbolinho de chuva\u201d, enquanto um j\u00e1 cortava uma cebola para o jantar. \u201cNo Central tinha muito desperd\u00edcio, aqui a gente aproveita tudo. \u00c9 por isso que a gente custa a metade aqui do que l\u00e1\u201d, diz um dos cozinheiros. A administra\u00e7\u00e3o recebe do Estado R$ 1.300,00 por detento para todas as despesas da unidade, at\u00e9 mesmo pagamento dos funcion\u00e1rios; no Pres\u00eddio Central, cada preso custa R$ 3.000,00.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No quarto destinado \u00e0 visita \u00edntima, h\u00e1 uma cama de casal com colcha bord\u00f4, um arm\u00e1rio e um aparelho de som. Os homens podem receber suas esposas a cada 15 dias, mediante requerimento, e elas passam a noite l\u00e1, das 19h \u00e0s 7h. Bruno conta que foi na APAC que aprendeu a respeitar sua fam\u00edlia e sua mulher. \u201cNos outros lugares, a gente s\u00f3 quer ter rela\u00e7\u00e3o sexual, quer que elas venham e deu, independentemente de elas estarem bem ou n\u00e3o, se t\u00e3o doente ou com problema. N\u00e3o tinha um momento para conversar e aqui a gente escuta o que elas passam.\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao chegar para uma visita de domingo, o filho de um dos apenados come\u00e7ou a tirar a roupa na frente da APAC, como lembra Bruno. A crian\u00e7a estava acostumada a visitar o pai no Pres\u00eddio Central e a passar por revistas \u00edntimas. Na unidade, n\u00e3o h\u00e1 revistas e o almo\u00e7o \u00e9 ofertado pela associa\u00e7\u00e3o. A fam\u00edlia pode levar um prato de doce, se quiser, e o encontro \u00e9 uma grande socializa\u00e7\u00e3o entre presos e seus parentes. A presen\u00e7a da fam\u00edlia \u00e9 essencial para o sucesso do m\u00e9todo. \u00c2ngelo comenta que n\u00e3o via sua m\u00e3e h\u00e1 6 anos, mas a APAC foi atr\u00e1s dela e eles se reencontraram. \u201cAqui \u00e9 bem mais dif\u00edcil que puxar cadeia normal, tem muitas regras. Eu j\u00e1 pensei em desistir, mas fa\u00e7o pela minha fam\u00edlia tamb\u00e9m, pra eles n\u00e3o sofrerem tanto\u201d, desabafa.\u00a0<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p>[slideshow_deploy id=&#8217;4777&#8217;&#93;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Grande parte da recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada \u00e0 espiritualidade, independentemente da religi\u00e3o. Chegando \u00e0 capela, uma sala com cadeiras de pl\u00e1stico dispostas em c\u00edrculo, h\u00e1 um grande quadro de Jesus Cristo no centro e, ao lado, v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es da B\u00edblia Sagrada. O \u00fanico livro diferente era \u201cNada a perder\u201d, do bispo Edir Macedo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cL\u00e1 (no Central) tu n\u00e3o tem a oportunidade de ler a B\u00edblia ou pegar um livro. Quando tu n\u00e3o t\u00e1 bem, tu pega droga, um celular, tudo que n\u00e3o pode\u201d, revela \u00c2ngelo. \u201cDo jeito que eles s\u00e3o tratados, v\u00e3o ficando cada vez com mais raiva. Foi assim comigo. Quando dizem que preso bom \u00e9 preso morto, \u00e9 mentira. Eu cometi um erro, mas todo mundo erra.\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bebidas, drogas ou telefones n\u00e3o entram. Um quadro disciplinar est\u00e1 pendurado na frente da entrada da capela. Ali, os apenados recebem pontos caso cometam faltas, como n\u00e3o arrumar a cama, por exemplo. As faltas podem ser de 1, 3 ou 10 pontos. A puni\u00e7\u00e3o leve \u00e9 n\u00e3o poder participar das atividades e, caso atinjam 10 pontos ou cometam uma falta grave, como ser pego com um cigarro ou brigar com algu\u00e9m, voltam direto para o sistema convencional. Exemplos bons tamb\u00e9m s\u00e3o recompensados, como o trof\u00e9u para a cela mais organizada ou o t\u00edtulo de \u201cRecuperando do M\u00eas\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na sala de artesanato, cerca de 10 presos est\u00e3o produzindo arte. Eles recortam, colam, desenham, montam objetos e criam obras. \u201c\u00c9 um sentimento muito bom saber que essas m\u00e3os que j\u00e1 fizeram o mal, podem fazer coisas bonitas tamb\u00e9m\u201d, conta um deles. Qualquer preso, independentemente do delito, pode ir para a APAC. Um dos volunt\u00e1rios que os atendem conta que n\u00e3o h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o com os crimes, mas sim, com o cumprimento da pena. Quem trabalha l\u00e1, geralmente n\u00e3o sabe quais foram as infra\u00e7\u00f5es, nem tem interesse em saber. Os presos tamb\u00e9m n\u00e3o conversam sobre o assunto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O \u00faltimo ambiente visitado pelo <\/span><b>Humanista<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> foi o p\u00e1tio. L\u00e1 \u201cDo amor ningu\u00e9m foge\u201d, diz uma pintura gigantesca em uma das paredes. Os apenados se apresentam, tocando viol\u00e3o e cantando <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=q3nYBnZIt04\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Eu preciso de um milagre<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, da cantora gospel Aline Barros. Assim, se inicia a confraterniza\u00e7\u00e3o. Uma ora\u00e7\u00e3o antes do caf\u00e9 e dos \u201cbolinhos de chuva\u201d serem servidos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEu sinto vergonha de ter feito o mal e receber tanto amor aqui. Isso \u00e9 arrependimento. Eu mostrei meu pior pra sociedade e ela tamb\u00e9m mostrou o seu pior, atrav\u00e9s da pris\u00e3o\u201d, diz Fernando*, puxando papo. Ent\u00e3o, ele come\u00e7a a contar sobre os seus cinco anos no Central e de tudo o que viu, como \u201cgente que entra ladr\u00e3o de galinha e sai um dos maiores traficantes do Rio Grande do Sul\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cTu entra l\u00e1 sem nada e o pessoal te oferece um colch\u00e3o, um papel higi\u00eanico, porque ele t\u00e1 de olho na tua liberdade, sabe que tu vai sair logo. Em troca, ele te manda traficar pra ele l\u00e1 fora, tu j\u00e1 entra devendo\u201d, lembra Fernando. \u201cNo Central, eu vi morte, selvageria, policiais corruptos e recrutamento pro crime.\u201d Hist\u00f3rias como a de Fernando, de Bruno e \u00c2ngelo s\u00e3o apenas tr\u00eas das 800 mil hist\u00f3rias de presos no Brasil. Hist\u00f3rias que eles defendem que podem ser reescritas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os apenados come\u00e7am a se dispersar, conversando entre eles e com as visitas. No alto da parede, a janela mostra o come\u00e7o da chuva mansa l\u00e1 fora, justificando o \u201cbolinho de chuva\u201d que compunha o card\u00e1pio do dia. \u00c9 hora de ir embora. \u201cVai sair\u201d, gritou o seguran\u00e7a. E o port\u00e3o de ferro se fecha mais uma vez.\u00a0<\/span><\/p>\n<h5><b>Quem tem direito a ressocializa\u00e7\u00e3o<\/b><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os \u00fanicos crit\u00e9rios para ser transferido do Pres\u00eddio Central &#8211; que deveria garantir o direito \u00e0 ressocializa\u00e7\u00e3o a todos os detentos &#8211; \u00e9 ter condena\u00e7\u00e3o definitiva e ser residente da regi\u00e3o, pela necessidade da presen\u00e7a da fam\u00edlia. Quando os familiares est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, a APAC presta aux\u00edlio e encaminha para o <\/span><a href=\"https:\/\/alfa.portoalegre.rs.gov.br\/sites\/default\/files\/usu_doc\/cartadeservicos\/Endere%C3%A7os%20dos%20CRAS_6.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>CRAS<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> (Centro de refer\u00eancia de Assist\u00eancia Social).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O promotor Gilmar Bortolotto explica que, em locais onde a APAC j\u00e1 est\u00e1 consolidada, h\u00e1 uma lista aberta de pedidos de transfer\u00eancia, que s\u00e3o julgados pelo poder judici\u00e1rio. No Rio Grande do Sul, como ainda est\u00e1 em fase de\u00a0 implanta\u00e7\u00e3o do projeto-piloto, houve uma busca ativa nos pres\u00eddios atrav\u00e9s de entrevistas com quem tivesse interesse no modelo; agora, j\u00e1 h\u00e1 lista de espera.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de n\u00e3o haver distin\u00e7\u00e3o de perfis, foram priorizados presos com penas mais altas, para que tivessem mais tempo de aprender e multiplicar a metodologia. Somente presos ativamente ligados a fac\u00e7\u00f5es e sem interesse de desligamento n\u00e3o s\u00e3o aceitos. Um dos recuperandos conta que, em 2018, logo depois da cria\u00e7\u00e3o da unidade, disse para Bortolotto que queria ir para l\u00e1. O promotor perguntou como ele sabia da APAC: \u201cTive que ser honesto, contei que foi pela internet, porque na cadeia t\u00e1 cheio de celular. Eu usava drogas e fiquei seis meses limpo para conseguir vir pra c\u00e1\u201d, admite.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O contato com a Associa\u00e7\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o e Assist\u00eancia aos Condenados de Porto Alegre pode ser feito pelo telefone (51) 3737-5839 ou pelo e-mail apacpartenon@gmail.com. A entidade fica na rua Capit\u00e3o Andr\u00e9 Lago P\u00e1ris, S\/N, Vila Jo\u00e3o Pessoa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">*Os nomes foram alterados para manter a privacidade e a seguran\u00e7a dos recuperandos.<\/span><\/i><\/p>\n<hr \/>\n<p>FOTO DE CAPA: Roque Reckziegel\/APAC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Associa\u00e7\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o e Assist\u00eancia aos Condenados tem quase um ano de atua\u00e7\u00e3o ressocializando, na Capital, detentos que chegam de pres\u00eddios da regi\u00e3o. Andielli Silveira \u201cVai passar\u201d, grita o seguran\u00e7a ao arrastar o port\u00e3o de ferro de cor azul-claro. No alto, l\u00ea-se: aqui entra o homem, o delito fica l\u00e1 fora. O grupo de visitas &#8230; <a title=\"A reescrita: como a associa\u00e7\u00e3o que atende apenados em Porto Alegre est\u00e1 mudando suas vidas\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/10\/31\/a-reescrita-como-a-associacao-que-atende-apenados-em-porto-alegre-esta-mudando-suas-vidas\/\" aria-label=\"More on A reescrita: como a associa\u00e7\u00e3o que atende apenados em Porto Alegre est\u00e1 mudando suas vidas\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":4788,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[225,32,243,49],"tags":[],"class_list":["post-4772","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-igualdade","category-mais-recentes","category-vida"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4772","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4772"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4772\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4788"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}