﻿{"id":53,"date":"2017-11-15T12:54:17","date_gmt":"2017-11-15T14:54:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=53"},"modified":"2019-06-04T10:27:20","modified_gmt":"2019-06-04T13:27:20","slug":"cinco-anos-depois-moradores-da-vila-tronco-ainda-convivem-com-legado-de-incertezas-da-copa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2017\/11\/15\/cinco-anos-depois-moradores-da-vila-tronco-ainda-convivem-com-legado-de-incertezas-da-copa\/","title":{"rendered":"Cinco anos depois, moradores da Vila Tronco ainda convivem com legado de incertezas da Copa"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"subtitle\">Falta de perspectivas sobre moradia, saneamento e seguran\u00e7a, atrasos nos pagamentos de aluguel social e aus\u00eancia de respostas da prefeitura angustiam moradores do local<\/h2>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por Ana Carolina Lersch Eidam<\/p>\n<p>Sexta-feira e a Associa\u00e7\u00e3o dos Moradores e Amigos da Vila Tronco Neves e Arredores, em Porto Alegre, estava em polvorosa. Alguns minutos l\u00e1 dentro e j\u00e1 foi poss\u00edvel saber o motivo da agita\u00e7\u00e3o: o prefeito estava vindo para uma visita no s\u00e1bado. Trata-se do projeto \u201c<a href=\"http:\/\/www2.portoalegre.rs.gov.br\/smgl\/default.php?p_noticia=999190537&amp;PROGRAMA+PREFEITURA+NOS+BAIRROS+SERA+LANCADO+NA+SEGUNDA-FEIRA\">Prefeitura nos Bairros<\/a>\u201d ou \u201cfazer bonito para pobre ver\u201d, como disse uma moradora que trabalhava no lugar. No dia seguinte, ela conta, eles teriam at\u00e9 m\u00e9dico no posto de sa\u00fade. Mutir\u00e3o para confec\u00e7\u00e3o de carteira de identidade, vacina\u00e7\u00e3o e atividades de educa\u00e7\u00e3o ambiental tamb\u00e9m figuravam entre outras atra\u00e7\u00f5es em um evento que \u00e9 raro naquela regi\u00e3o: a presen\u00e7a do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o da Grande Cruzeiro, onde se localiza a <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/entidadesocialamavtron\">Amavtron<\/a>, \u00e9 cen\u00e1rio de um impasse urban\u00edstico e social desde o per\u00edodo da Copa do Mundo, cuja resolu\u00e7\u00e3o ainda parece distante. A duplica\u00e7\u00e3o da Avenida Moab Caldas, conhecida por Tronco, que seria uma solu\u00e7\u00e3o vi\u00e1ria para a cidade e uma oportunidade de moradia digna para mais de mil fam\u00edlias, ainda n\u00e3o foi conclu\u00edda. Al\u00e9m do cen\u00e1rio de destro\u00e7os e problemas de saneamento que deixou para tr\u00e1s, irregularidades no pagamento do aluguel social, congelamento no repasse de indeniza\u00e7\u00f5es e na constru\u00e7\u00e3o das unidades habitacionais geram inseguran\u00e7a na popula\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o reconhece mais o lugar como seu lar.<\/p>\n<p>O projeto parecia muito bom: tirar do papel a amplia\u00e7\u00e3o de uma via que estava prevista no plano diretor da cidade desde 1954 e ainda promover o reassentamento de grupos familiares que viviam em \u00e1reas p\u00fablicas. Para isso, mais de 200 reuni\u00f5es foram realizadas com a popula\u00e7\u00e3o para explicar como a transi\u00e7\u00e3o iria ocorrer. Michael Santos, morador do bairro, delegado do Or\u00e7amento Participativo e coordenador da Comiss\u00e3o de Habita\u00e7\u00e3o da Grande Cruzeiro desde o in\u00edcio do projeto, conta os benef\u00edcios do plano tra\u00e7ado:<\/p>\n<p>&#8211; A gente tinha situa\u00e7\u00f5es aqui em que uma casa possu\u00eda oito fam\u00edlias constitu\u00eddas, com mais de 40 pessoas morando dentro. Cada um desses grupos passou a ter direito de aluguel social para aguardar as unidades habitacionais ou de b\u00f4nus moradia para comprar im\u00f3vel em outro lugar. N\u00f3s conseguimos desempilhar essas fam\u00edlias, cada uma no seu tempo, conforme sua escolha &#8211; explica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_85\" aria-describedby=\"caption-attachment-85\" style=\"width: 3958px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-85\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/tronco2.jpg\" alt=\"\" width=\"3968\" height=\"2976\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-85\" class=\"wp-caption-text\">Obras come\u00e7adas se integram \u00e0 paisagem de abandono que predomina na regi\u00e3o. Foto: Ana Eidam<\/figcaption><\/figure>\n<p>Cinco anos depois, no entanto, esse sonho nunca saiu do papel. Ap\u00f3s impasses com moradores que resistiam a sair de suas casas sem a certeza de um lugar para morar, com a morosidade da prefeitura para iniciar a constru\u00e7\u00e3o dos apartamentos que iriam receber as fam\u00edlias, a obra foi retirada do PAC de melhorias para a Copa e est\u00e1 estagnada desde ent\u00e3o. A popula\u00e7\u00e3o convive hoje com um cen\u00e1rio de casas demolidas, esgoto a c\u00e9u aberto, infesta\u00e7\u00f5es de ratos e outros animais, enquanto as lideran\u00e7as da comunidade tentam resolver as situa\u00e7\u00f5es mais urgentes com a prefeitura.<\/p>\n<p><strong>Legado da Copa<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Michael, antes mesmo de serem tra\u00e7adas as diretrizes para Porto Alegre sediar a Copa do Mundo, os delegados do Or\u00e7amento Participativo, em conjunto com a prefeitura, j\u00e1 discutiam sobre quais as prioridades da popula\u00e7\u00e3o a serem atendidas com o alto volume de investimento que seriam destinados \u00e0 cidade. O Projeto Tronco, conforme consta <a href=\"http:\/\/www2.portoalegre.rs.gov.br\/demhab\/default.php?p_secao=130\">no site da prefeitura<\/a>, consistiria na duplica\u00e7\u00e3o de 3,4 quil\u00f4metros da via que liga trechos das avenidas Icara\u00ed, Teres\u00f3polis e Gast\u00e3o Mazzeron, apontada como uma das mais importantes solu\u00e7\u00f5es para mobilidade urbana na capital. Estariam inclu\u00eddas, ainda, a constru\u00e7\u00e3o de uma ciclovia, um corredor de \u00f4nibus e tratamento paisag\u00edstico.<\/p>\n<figure id=\"attachment_65\" aria-describedby=\"caption-attachment-65\" style=\"width: 792px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-65 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/mapatronco1.jpg\" alt=\"\" width=\"802\" height=\"497\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-65\" class=\"wp-caption-text\">Tra\u00e7ado da duplica\u00e7\u00e3o da Avenida Moab Caldas. Fonte: http:\/\/lproweb.procempa.com.br\/pmpa\/prefpoa\/transparencia\/usu_doc\/coparelatimpactosocial6_1.pdf<\/figcaption><\/figure>\n<p>A obra acarretaria no deslocamento de cerca de 1600 fam\u00edlias que residiam no tra\u00e7ado original da via, segundo um cadastro socioecon\u00f4mico realizado pelo Departamento Municipal de Habita\u00e7\u00e3o em 2011. Regi\u00e3o que re\u00fane pelo menos cinco bairros da cidade, entre eles a Vila Tronco, a Grande Cruzeiro nasceu do \u00eaxodo rural e muitos moradores ocupavam \u00e1reas sem escritura. A propriedade, portanto, se atribui \u00e0s edifica\u00e7\u00f5es que ocupam esses terrenos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_66\" aria-describedby=\"caption-attachment-66\" style=\"width: 950px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-66\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/mapatronco2.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"720\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-66\" class=\"wp-caption-text\">Mapa da \u00e1rea que atinge a Vila Tronco. Fonte: http:\/\/lproweb.procempa.com.br\/pmpa\/prefpoa\/transparencia\/usu_doc\/coparelatimpactosocial6_1.pdf<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para a realiza\u00e7\u00e3o das remo\u00e7\u00f5es, foram apresentadas tr\u00eas op\u00e7\u00f5es para a popula\u00e7\u00e3o: pagamento do aluguel social, no valor de R$500,00, enquanto as unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Vida seriam constru\u00eddas; b\u00f4nus moradia, no valor de R$ 52.340, que poderia ser utilizado para comprar im\u00f3vel em qualquer parte do pa\u00eds; ou indeniza\u00e7\u00f5es para im\u00f3veis avaliados acima do valor do b\u00f4nus.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das moradias, cerca de 120 atividades comerciais tamb\u00e9m seriam atingidas. Para estas, a proposta era a constru\u00e7\u00e3o de um centro popular de compras e servi\u00e7os com recursos p\u00fablicos, cuja utiliza\u00e7\u00e3o se daria mediante um valor que custeasse a manuten\u00e7\u00e3o e limpeza do local. Segundo Michael, o compromisso com a constru\u00e7\u00e3o do centro est\u00e1 gravado em audi\u00eancias p\u00fablicas com a prefeitura:<\/p>\n<p>&#8211; Essa era a fonte de renda consolidada para muitas fam\u00edlias. Assim como quer\u00edamos o direito \u00e0 moradia assegurado, tamb\u00e9m quer\u00edamos garantir o direito de as pessoas continuarem com seu sustento.<\/p>\n<p>Foram indicados, segundo Michael, 12 terrenos na regi\u00e3o para constru\u00e7\u00e3o dos apartamentos populares, dos quais oito foram desapropriados e destinados para este fim. A preocupa\u00e7\u00e3o era que as pessoas tivessem a oportunidade de permanecer na regi\u00e3o, mantendo v\u00ednculo escolar dos filhos, com o posto de sa\u00fade, com trabalho. \u201cA prefeitura, nessa lerdeza natural do poder p\u00fablico, quer fazer grandes obras, mas a prepara\u00e7\u00e3o para receb\u00ea-las n\u00e3o \u00e9 feita de forma adequada\u201d, afirma o l\u00edder comunit\u00e1rio.<\/p>\n<figure id=\"attachment_86\" aria-describedby=\"caption-attachment-86\" style=\"width: 1219px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-86\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/plano-de-reassentamento.jpg\" alt=\"\" width=\"1229\" height=\"827\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-86\" class=\"wp-caption-text\">Plano de reassentamento previsto para a regi\u00e3o. Fonte:<br \/>http:\/\/lproweb.procempa.com.br\/pmpa\/prefpoa\/transparencia\/usu_doc\/coparelatimpactosocial6_1.pdf<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em reportagem realizada no ano de 2013, a um ano do grande evento, constatou-se que apenas 30% do projeto inicial havia sido conclu\u00eddo e que havia sido retirado da lista de obras da Copa do Mundo. Na \u00e9poca, a ent\u00e3o assessora da Secretaria de Gest\u00e3o, afirmava que aquela era uma obra sonhada pela comunidade. \u201cVer toda aquela \u00e1rea urbanizada \u00e9 o que todos querem, porque a avenida vai ficar linda quando for conclu\u00edda\u201d, afirmou, complementando: \u201cEsta \u00e9 a obra do cora\u00e7\u00e3o do prefeito (na \u00e9poca, Jos\u00e9 Fortunatti), \u00e9 um sonho para ele ver tudo isso pronto tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>A Prefeitura afirmava, ent\u00e3o, que, como a responsabilidade pela resolu\u00e7\u00e3o de d\u00e9ficit habitacional \u00e9 do Governo Federal, os apartamentos, que seriam constru\u00eddos por meio do programa \u201cMinha Casa, Minha Vida\u201d n\u00e3o puderam ser projetados antes do in\u00edcio das obras da avenida. O diretor adjunto do Demhab na \u00e9poca, Marcos Botelho, atribu\u00eda a demora \u00e0 burocracia imposta pela Caixa Econ\u00f4mica Federal, que, segundo ele, n\u00e3o era esperada.<\/p>\n<p>A responsabilidade pelo encaminhamento das solicita\u00e7\u00f5es de resid\u00eancias populares, no entanto, \u00e9 da prefeitura, assim como a contrapartida para sua constru\u00e7\u00e3o. Depois de indicar os terrenos, a administra\u00e7\u00e3o municipal se responsabiliza pela parte de infraestrutura, saneamento, escoamento, em forma de doa\u00e7\u00e3o para o Minist\u00e9rio das Cidades, que desconta do valor repassado para as empreiteiras respons\u00e1veis. Em 2013, a previs\u00e3o para in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios era janeiro de 2014. At\u00e9 hoje, nenhuma obra, de moradia ou com\u00e9rcio, como no caso do centro popular de compras, foi iniciada nos locais destinados.<\/p>\n\n<p>A gest\u00e3o da \u00e9poca, sob o prefeito Jos\u00e9 Fortunatti, n\u00e3o conseguiu alcan\u00e7ar seus planos de urbaniza\u00e7\u00e3o, ou sequer encaminhar a quest\u00e3o das moradias populares na regi\u00e3o. A coordena\u00e7\u00e3o atual, cujo respons\u00e1vel \u00e9 o prefeito Nelson Marchezan Jr., tampouco tem encontrado solu\u00e7\u00f5es mais eficientes e sujeita a popula\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade, suspendendo o pagamento do aluguel social e deixando sem respostas quem busca indeniza\u00e7\u00e3o ou b\u00f4nus moradia.<\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/www2.portoalegre.rs.gov.br\/smpeo\/default.php?p_noticia=999191854&amp;PROPOSTA+DE+REVISAO+CONTRATUAL+GARANTE+CONCLUSAO+DE+OBRAS+DA+COPA\">not\u00edcia mais recente sobre o tema no site da prefeitura<\/a>, datada de 7 de agosto, \u00e9 do encaminhamento por parte do prefeito Nelson Marchezan de uma proposta de revis\u00e3o do financiamento das Obras da Copa junto \u00e0 Caixa Econ\u00f4mica Federal. A informa\u00e7\u00e3o, no entanto, diz respeito apenas ao andamento da obra, sem tocar no tema da moradia.<\/p>\n<p><strong>Sem respostas e sem perspectivas<\/strong><\/p>\n<p>Paulo Adriano Fernandes \u00e9 morador da regi\u00e3o e aceitou o aluguel social h\u00e1 cinco anos. Desde ent\u00e3o, aguarda o apartamento que nunca viu come\u00e7ar a ser constru\u00eddo. \u00a0Saiu da sua casa no Bairro Cristal com a promessa de que em pouco tempo teria moradia pr\u00f3pria e hoje luta para receber o aluguel que \u00e9 seu direito e cujo valor sequer foi reajustado ao longo desse tempo.<\/p>\n<p>Michael explica que, com a troca de governo, a prefeitura colocou sob suspeita todos os pagamentos de aluguel social de Porto Alegre. Alega, no entanto, que para destinar o aluguel para as fam\u00edlias da Tronco, foi realizado um levantamento com participa\u00e7\u00e3o dos fiscais da prefeitura e da comunidade, sob supervis\u00e3o de uma empresa contratada, e que este processo est\u00e1 todo registrado no Demhab. Desde janeiro, grande parte das fam\u00edlias n\u00e3o est\u00e1 recebendo o benef\u00edcio.<\/p>\n<p>&#8211; Estou tirando dinheiro do meu bolso. Tento falar com eles e ningu\u00e9m nunca pode, sempre est\u00e3o indispon\u00edveis para tentar resolver. Na hora de me tirar de l\u00e1 \u00e0s pressas por causa da Copa foi f\u00e1cil &#8211; critica Adriano, que relata ser essa a terceira vez em que o pagamento \u00e9 interrompido.<\/p>\n<p>O valor repassado \u00e0s fam\u00edlias que optaram por sair de suas casas tamb\u00e9m nunca foi reajustado: R$500. Fazendo uma busca r\u00e1pida por im\u00f3veis na regi\u00e3o, \u00e9 raro encontrar apartamentos com aluguel por esse valor, sendo que os existentes s\u00e3o de um dormit\u00f3rio, sem incluir condom\u00ednio e outras taxas. \u00a0\u201cEsse tamb\u00e9m \u00e9 o sustento da dona Clenir, que aluga pra mim\u201d, lembra o morador, salientando que j\u00e1 solicitou o reajuste do valor diversas vezes, mas nunca foi ouvido.<\/p>\n<p>O \u00fanico contrato a que Adriano j\u00e1 teve acesso foi o de loca\u00e7\u00e3o da sua casa. Segundo ele, o registro do seu direito a uma nova moradia encontra-se no Demhab. Ele relata ter ido in\u00fameras vezes ao escrit\u00f3rio do departamento localizado dentro da vila, mas nunca recebeu um atendimento adequado. \u201cEles dizem que t\u00e3o vendo, que t\u00e3o fazendo reuni\u00f5es, que tenho que esperar. Mas reuni\u00f5es pra que? Onde que eu vou morar?\u201d. A \u00faltima atualiza\u00e7\u00e3o que recebeu sobre o seu processo foi em julho, quando renovou seu contrato.<\/p>\n<p>Os moradores Fabiane Maciel e Jo\u00e3o Togni, donos de uma serralheria, tamb\u00e9m reclamam do mau atendimento no escrit\u00f3rio e da falta de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Desde o in\u00edcio, toda a semana n\u00f3s \u00edamos ali, agora eu n\u00e3o vou mais, porque eu me sinto uma palha\u00e7a. Vou ali, as pessoas me enrolam, n\u00e3o definem nada, eles nos fazem perder a raz\u00e3o, perder a paci\u00eancia. E antes que eu perca a paci\u00eancia, eu prefiro n\u00e3o ir &#8211; afirma Fabiane.<\/p>\n<figure id=\"attachment_87\" aria-describedby=\"caption-attachment-87\" style=\"width: 4150px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-87\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/C\u00f3pia-de-IMG_20171004_144851.jpg\" alt=\"\" width=\"4160\" height=\"3120\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-87\" class=\"wp-caption-text\">Fabiane e Jo\u00e3o aguardam um novo terreno continuar com seu neg\u00f3cio. Foto: Ana Eidam<\/figcaption><\/figure>\n<p>O casal aguarda pela indeniza\u00e7\u00e3o da sua resid\u00eancia e por uma sobra de terreno prometido pela prefeitura para a serralheria. Segundo Jo\u00e3o, foi prometido que os empreendimentos maiores, como o seu, ganhariam nesgas de terreno a, no m\u00e1ximo, 2 quil\u00f4metros do seu local original. Hoje, afirma Fabiane, a prefeitura nega que esse acordo tenha sido firmado atrav\u00e9s de algum documento assinado pela \u00a0gest\u00e3o anterior. \u201cA desculpa \u00e9 que n\u00e3o tem documentado, assinado. V\u00eddeos ou coisas que algu\u00e9m gravou deve haver\u201d, comenta. <a href=\"http:\/\/lproweb.procempa.com.br\/pmpa\/prefpoa\/transparencia\/usu_doc\/coparelatimpactosocial6_1.pdf\">Em documento disponibilizado no site da Prefeitura<\/a>, est\u00e1 indicada a possibilidade de instala\u00e7\u00e3o de com\u00e9rcios nas nesgas de terrenos ao longo da via:<\/p>\n<figure id=\"attachment_73\" aria-describedby=\"caption-attachment-73\" style=\"width: 950px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-73\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/coparelatimpactosocial6_1.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"720\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-73\" class=\"wp-caption-text\">Proposta para reassentamento dispon\u00edvel no site da prefeitura. Fonte: http:\/\/lproweb.procempa.com.br\/pmpa\/prefpoa\/transparencia\/usu_doc\/coparelatimpactosocial6_1.pdf<\/figcaption><\/figure>\n<p>Enquanto aguarda a defini\u00e7\u00e3o, seu Jo\u00e3o segue com seu neg\u00f3cio. Mudou parte de seu material para uma \u00e1rea pela qual o pai j\u00e1 recebeu indeniza\u00e7\u00e3o. Sua casa, no entanto, fica no andar de cima e a situa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o foi resolvida. \u201cQuerem demolir aqui, mas como v\u00e3o desmanchar se eu moro em cima? A\u00ed eu estou ocupando aqui tamb\u00e9m\u201d, explica. Segundo o serralheiro, ganhando o terreno em troca da \u00e1rea de sua serralheria e o valor pela indeniza\u00e7\u00e3o da casa, ele consegue construir outra e continuar suas atividades, sem preju\u00edzo.<\/p>\n<p>&#8211; Minha clientela est\u00e1 toda aqui no Menino Deus, Teres\u00f3polis, Parc\u00e3o, como eu vou sair daqui? Meu irm\u00e3o \u00e9 serralheiro tamb\u00e9m e se mudou para um s\u00edtiona Lomba do Pinheiro, a\u00ed toda vez que tem servi\u00e7o ele precisa que sair de l\u00e1 do meio do mato para atender. Isso a\u00ed eu n\u00e3o quero &#8211; afirma.<\/p>\n<p>Eles deram in\u00edcio ao processo em 2012 e, segundo Fabiane, estavam entre os primeiros a solicitarem indeniza\u00e7\u00e3o. Moradora do bairro desde a adolesc\u00eancia, hoje ela diz s\u00f3 querer sair dali. A situa\u00e7\u00e3o, que parece sem resolu\u00e7\u00e3o, a levou a tomar antidepressivos.<\/p>\n<p>&#8211; A minha m\u00e3e est\u00e1 tomando antidepressivo tamb\u00e9m. Precisa sair, ent\u00e3o n\u00f3s achamos uma casa, negociamos, chegamos no Demhab eles d\u00e3o desculpas, demoram e nada \u00e9 feito. A\u00ed eles v\u00e3o para m\u00eddia dizer que os moradores est\u00e3o dificultando a sa\u00edda, \u00e9 mentira. \u00c9 o Demhab que dificulta. V\u00e1rios conhecidos daqui arrumam casas, negociam com os moradores e eles dificultam, mas quem quer vender n\u00e3o espera. Isso \u00e9 o que mais me incomoda.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93\" aria-describedby=\"caption-attachment-93\" style=\"width: 4150px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-93\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/C\u00f3pia-de-IMG_20171004_150437.jpg\" alt=\"\" width=\"4160\" height=\"3120\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93\" class=\"wp-caption-text\">Cen\u00e1rio \u00e9 de destrui\u00e7\u00e3o e abandono nas ruas da regi\u00e3o. Foto: Ana Eidam<\/figcaption><\/figure>\n<p>Somado \u00e0 incerteza da moradia, a vila agora enfrenta problemas de saneamento. Jo\u00e3o relata a entrada de ratos e outros animais na sua casa em fun\u00e7\u00e3o dos terrenos que n\u00e3o s\u00e3o limpos ap\u00f3s as demoli\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, a passagem das m\u00e1quinas para demoli\u00e7\u00e3o causou vazamento de \u00e1gua em diferentes locais:<\/p>\n<p>&#8211; Uma vez ficou acho que uns tr\u00eas ou quatro dias jorrando \u00e1gua, s\u00f3 parou quando eu e a vizinha fomos ali e conseguimos arrumar. A\u00ed eles tiraram a casa do lado aqui, deixaram tamb\u00e9m, passou os carros por cima ali, vazando \u00e1gua. Fomos eu e meu vizinho aqui, ele levou alicate, eu peguei o pic\u00e3o a\u00ed cavamos e conseguimos fechar, mas t\u00e1 muito abandonado.<\/p>\n<p>Outra dificuldade enfrentada pela popula\u00e7\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o da seguran\u00e7a. Jo\u00e3o relata que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel trabalhar com as grades fechadas e que s\u00e3o comuns troca de tiros entre fac\u00e7\u00f5es um pouco mais adiante do seu estabelecimento.<\/p>\n<p>O desencontro de informa\u00e7\u00f5es desestabilizou a comunidade. Em 2013, boatos de que o dinheiro da obra havia sido desviado, de que as pessoas estavam sendo coagidas a sa\u00edrem de suas casas, de que o dinheiro para o b\u00f4nus moradia havia acabado eram comuns entre os moradores. Hoje, fala-se que as pessoas em aluguel social perderam seu direito \u00e0s moradias populares, que as obras n\u00e3o ser\u00e3o retomadas, que o escrit\u00f3rio do Demhab dentro da vila est\u00e1 fechando.<\/p>\n<p>Enquanto isso, as pessoas seguem esperando, seja pelo aluguel social, seja pelas indeniza\u00e7\u00f5es ou por uma simples resposta e o pior dos cen\u00e1rios previstos por todos os grupos envolvidos no processo vai se concretizando: o abandono da popula\u00e7\u00e3o pelo poder p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falta de perspectivas sobre moradia, saneamento e seguran\u00e7a, atrasos nos pagamentos de aluguel social e aus\u00eancia de respostas da prefeitura angustiam moradores do local<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[51,243],"tags":[29,19,30,17,20,16,18],"class_list":["post-53","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-habitacao","category-mais-recentes","tag-aluguel-social","tag-copa-2014","tag-desapropriacao","tag-habitacao","tag-prefeitura","tag-urbanismo","tag-vila-tronco"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}