﻿{"id":5805,"date":"2020-01-23T18:42:57","date_gmt":"2020-01-23T21:42:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=5805"},"modified":"2020-05-06T14:10:59","modified_gmt":"2020-05-06T17:10:59","slug":"parece-que-passou-um-missil-as-vesperas-da-inauguracao-como-vivem-familias-impactadas-pela-nova-ponte-do-guaiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2020\/01\/23\/parece-que-passou-um-missil-as-vesperas-da-inauguracao-como-vivem-familias-impactadas-pela-nova-ponte-do-guaiba\/","title":{"rendered":"\u201cParece que passou um m\u00edssil&#8221;: \u00e0s v\u00e9speras da inaugura\u00e7\u00e3o, como vivem fam\u00edlias impactadas pela nova ponte do Gua\u00edba"},"content":{"rendered":"<p><em>Obra que mudou o cen\u00e1rio do bairro Arquip\u00e9lago de Porto Alegre impacta o dia a dia de mais de 500 fam\u00edlias que vivem na Ilha Grande dos Marinheiros.<\/em><\/p>\n<p><strong>Juliana Maciel<\/strong><\/p>\n<p>Ainda era 2019, uma\u00a0<span style=\"font-weight: 400;\">quinta-feira, quando o <strong>Humanista<\/strong> voltou ao bairro Arquip\u00e9lago de Porto Alegre para atualizar os impactos da nova ponte do Gua\u00edba sobre a comunidade local. O destino era novamente a Ilha Grande dos Marinheiros, um ano depois da <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/02\/14\/nova-ponte-do-guaiba-ameaca-cultura-do-arquipelago-de-porto-alegre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>primeira vista<\/strong><\/a>. E<\/span>m frente \u00e0 Escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil Marista Tia Jussara, Rudimar Dal\u2019Asta, conhecido como \u201cpadre Rudi\u201d, esperava pela conversa, marcada dias antes. Liane Farias, tamb\u00e9m moradora da ilha, chegaria logo em seguida.<\/p>\n<p>Com <a href=\"https:\/\/www.correiodopovo.com.br\/not%C3%ADcias\/geral\/dnit-projeta-inaugura%C3%A7%C3%A3o-parcial-da-nova-ponte-do-gua%C3%ADba-ainda-no-primeiro-semestre-1.392975\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>88% dos trabalhos conclu\u00eddos<\/strong><\/a> at\u00e9 o in\u00edcio de janeiro e previs\u00e3o de inaugura\u00e7\u00e3o parcial para o primeiro semestre de 2020, segundo o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), quem passa de autom\u00f3vel pela BR 290, a Freeway, chegando ou saindo da Capital, \u00e9 impactado pela opul\u00eancia visual da obra. Um cen\u00e1rio bem diferente, no entanto, daquele com o qual se depara quem atravessa o Gua\u00edba para conhecer o outro lado da ponte, onde padre Rudi aguardava a reportagem sentado em um banco de madeira sob a sombra das \u00e1rvores.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5810\" aria-describedby=\"caption-attachment-5810\" style=\"width: 790px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5810 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/ponte-do-gua\u00edba-2020-1024x575.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/ponte-do-gua\u00edba-2020-1024x575.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/ponte-do-gua\u00edba-2020-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/ponte-do-gua\u00edba-2020-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5810\" class=\"wp-caption-text\">Com 88% da obra conclu\u00edda, Dnit projeta inaugura\u00e7\u00e3o parcial para o primeiro semestre de 2020. Foto: Cons\u00f3rcio Ponte do Gua\u00edba.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Fora da \u00e1rea impactada pela obra, nos arredores da escola infantil os passarinhos cantavam quando chegou Liane, vindo direto do posto de sa\u00fade localizado a 100 metros dali, onde havia tomado uma vacina antitet\u00e2nica. Conforme acontecia o papo, ela e Rudi, amigos de longa data, \u201cpegavam no p\u00e9\u201d um do outro. Em dois momentos, Rudi esqueceu da vacina rec\u00e9m recebida e agarrou o bra\u00e7o de Liane. \u201c\u00d4u de novo!\u201d, reagia ela. \u201cAi, desculpa!\u201d (risos).<\/p>\n<figure id=\"attachment_5814\" aria-describedby=\"caption-attachment-5814\" style=\"width: 790px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-5814\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Liane-e-Rudi-3-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Liane-e-Rudi-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Liane-e-Rudi-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Liane-e-Rudi-3-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5814\" class=\"wp-caption-text\">Padre Rui e Liane cultivam amizade constru\u00edda na Ilha Grande dos Marinheiros.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar do bom humor e da temperatura amena, compondo um ambiente aconchegante para a conversa, o clima na comunidade era de tristeza e de resili\u00eancia. Desde 2018, quando os primeiros moradores come\u00e7aram a deixar a ilha e as casas vazias come\u00e7aram a ser demolidas, Liane reconhece menos o espa\u00e7o por onde passa: \u201cantes a gente conhecia todo mundo, casa por casa. Agora, a gente caminha num mundo estranho.\u201d <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ela conta que ficou a beira da depress\u00e3o e que, assim como ela, outros moradores tamb\u00e9m ficaram doentes ao longo do processo. Como sua casa fica fora da \u00e1rea afetada pelas obras, Liane n\u00e3o precisar\u00e1 deix\u00e1-la. Enquanto caminha pelas ruas estranhas, lamenta a falta do movimento: \u201cj\u00e1 me d\u00e1 uma tristeza s\u00f3 de pensar nas pessoas que a gente passava se abanando\u201d.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><iframe title=\"&quot;Aqui era tudo casa&quot;.\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3PeEme5-seY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<h5><strong>&#8220;N\u00e3o somos contra a ponte, somos contra o descaso com as fam\u00edlias&#8221;<\/strong><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na parte norte da Ilha Grande dos Marinheiros, por onde passa a nova ponte, vivem cerca de 515 fam\u00edlias, segundo o informe de julho\/2019 do <a href=\"http:\/\/pontedoguaiba.com.br\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Cons\u00f3rcio Ponte do Gua\u00edba<\/strong><\/a> \u2014 ou viviam. A essa altura, conforme relata padre Rudi, quase todas elas j\u00e1 haviam sa\u00eddo dali. O principal destino foi Eldorado do Sul, a mais ou menos a nove quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Mas, inicialmente, n\u00e3o era isso que queriam, e tamb\u00e9m n\u00e3o era isso que havia sido proposto a elas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cImagina que voc\u00ea tem uma vida em que est\u00e1 acostumada a olhar para frente da sua casa e ver um vizinho. Voc\u00ea se d\u00e1 bem com ele. Olha pro lado e tem outro vizinho que voc\u00ea tamb\u00e9m se d\u00e1 bem. E a\u00ed, de repente, esses vizinhos foram embora, e a gente fica \u2018e a\u00ed, e agora?\u2019&#8221;,\u00a0ilustra a ge\u00f3grafa <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4255550529129912\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Amanda Bahi de Souza<\/strong><\/a>, que escreveu sua <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/111846\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>disserta\u00e7\u00e3o de mestrado<\/strong><\/a> sobre os modos de vida nas ilhas do Delta do Jacu\u00ed. &#8220;Ent\u00e3o, s\u00e3o muitas rela\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo destru\u00eddas. \u00c9 um sentido de comunidade que est\u00e1 sendo rasgado, arrancado.\u201d<\/span><\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.google.com\/maps\/d\/embed?mid=1Cq2Yu9jYGZQ2lDE0Ocj2j9fIEH3uI4fK\" width=\"640\" height=\"480\"><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2014, o Dnit disponibilizou para os moradores das \u00e1reas atingidas um programa de reassentamento. Eram oferecidas tr\u00eas solu\u00e7\u00f5es para a quest\u00e3o da moradia: Unidade Habitacional, Indeniza\u00e7\u00e3o e Compra Assistida.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A constru\u00e7\u00e3o de uma Unidade Habitacional dentro da ilha, na parte sul, era a op\u00e7\u00e3o desejada pela maioria dos moradores: o \u00f3rg\u00e3o faria a implanta\u00e7\u00e3o de loteamentos e casas atrav\u00e9s do <a href=\"http:\/\/www.caixa.gov.br\/voce\/habitacao\/minha-casa-minha-vida\/Paginas\/default.aspx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Programa Minha, Casa Minha Vida<\/strong><\/a> para receber as fam\u00edlias. No segundo caso, o valor da Indeniza\u00e7\u00e3o seria determinado a partir de uma avalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do im\u00f3vel. E, na terceira, a de Compra Assistida, o morador identificaria um im\u00f3vel em outra regi\u00e3o que, se aprovado, seria adquirido pelo Dnit e transferido para o nome dos respons\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O cadastramento dos moradores foi feito conforme essas possibilidades em 2014. Na, lembra Liane, o n\u00famero de fam\u00edlias que gostariam de aderir \u00e0 Compra Assistida era de n\u00e3o mais de cinco. No entanto, em 2017, quando foram retomadas as assembleias e as plen\u00e1rias, a prefeitura de Porto Alegre j\u00e1 era outra: Nelson Marchezan J\u00fanior (PSDB) havia assumido. O tempo avan\u00e7ava, a press\u00e3o para a conclus\u00e3o da obra aumentava e a prefeitura, ent\u00e3o, suspende a an\u00e1lise do processo de reassentamento na ilha \u2014 que deveria passar por uma Licen\u00e7a Pr\u00e9via (LI), por um Estudo de Viabilidade Urban\u00edstica (EVU) e pela aprova\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os competentes.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><iframe title=\"&quot;A maioria se iludiu, da\u00ed a minoria ficou fraca&quot;.\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3zM8uz-f11k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A atitude foi considerada ilegal pelo MPF (Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal), que acabou protocolando uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, em novembro de 2018, tendo a Prefeitura de Porto Alegre e o Dnit como r\u00e9us. Al\u00e9m disso, segundo o MPF, o \u00f3rg\u00e3o j\u00e1 havia investido mais de R$ 12 milh\u00f5es em desapropria\u00e7\u00f5es para o reassentamento dentro da Ilha Grande dos Marinheiros, antes do processo ser interrompido. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Conforme <a href=\"http:\/\/www.mpf.mp.br\/rs\/sala-de-imprensa\/noticias-rs\/mpf-e-dpu-buscam-na-justica-garantia-de-reassentamento-de-familias-atingidas-pela-nova-ponte-do-guaiba\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>publica\u00e7\u00e3o do MPF<\/strong><\/a>, \u201co direito de escolha entre as solu\u00e7\u00f5es habitacionais apresentadas por cada fam\u00edlia sempre foi assegurado pelo DNIT durante a discuss\u00e3o do processo de reassentamento, em especial o direito de perman\u00eancia na Ilha, o que est\u00e1 em total conson\u00e2ncia com o direito fundamental \u00e0 moradia e os demais direitos a ele relacionados, tais como trabalho e gera\u00e7\u00e3o de renda, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, entre outros\u201d. Ali, os moradores t\u00eam os filhos na creche ou na escola com refei\u00e7\u00f5es inclu\u00eddas, conhecem os profissionais do posto de sa\u00fade e t\u00eam uma fonte de renda \u2014 ainda que baixa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, com o tempo, a nova administra\u00e7\u00e3o municipal foi direcionando o reassentamento para a modalidade de Compra Assistida. Ainda que o processo jur\u00eddico siga em andamento, o fato \u00e9 que quase todas as fam\u00edlias acabaram aderindo \u00e0 modalidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5806\" aria-describedby=\"caption-attachment-5806\" style=\"width: 790px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-5806 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Jonas-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Jonas-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Jonas-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Jonas-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5806\" class=\"wp-caption-text\">Seu Jonas, 64 anos, n\u00e3o estava na ilha em 2014, quando o cadastramento das fam\u00edlias foi feito. A casa 82, onde mora, n\u00e3o consta na lista de reassentamento e ele acabou n\u00e3o participando de audi\u00eancias para o remanejo. Sem ter para onde correr, ele pede ajuda ao padre Rudi antes que chegue a ordem de despejo: \u201cn\u00e3o tenho para onde ir, n\u00e3o quero sair daqui.\u201d Ao lado da casa, p\u00eandulos enormes se arrastam pelos ares. O barulho e o tremor produzido pelas m\u00e1quinas no ch\u00e3o anunciam o progresso e tamb\u00e9m a incerteza sobre seu futuro.<\/figcaption><\/figure>\n<hr \/>\n<h5><b>Os arrependidos<\/b><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Caminhando na dire\u00e7\u00e3o norte da ilha com Liane e com o padre Rudi, logo aparece um grupo de mulheres conversando. \u201c\u00c9 a hora do caf\u00e9\u201d, anuncia Liane. Esse ritual se repete diariamente entre 9 e 10 horas pelas trabalhadoras do galp\u00e3o da unidade de triagem de res\u00edduos s\u00f3lidos que ainda resiste na ilha. Sobre a sombra das \u00e1rvores, elas armam a mesinha que apoia o caf\u00e9, o saco de a\u00e7\u00facar, copos pl\u00e1sticos e uma sacola com p\u00e3o cacetinho. \u201cQuando tem mistura a gente bota, quando n\u00e3o tem, vai sem\u201d, conta Andressa Rodrigues, 31 anos.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5815\" aria-describedby=\"caption-attachment-5815\" style=\"width: 790px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5815 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Andressa-2-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Andressa-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Andressa-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Andressa-2-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5815\" class=\"wp-caption-text\">Andressa \u00e9 uma das trabalhadoras que participa do caf\u00e9 coletivo.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Andressa \u00e9 uma das chefes de fam\u00edlia que, h\u00e1 sete meses, se mudou para Eldorado do Sul em raz\u00e3o da Compra Assistida. Por\u00e9m, diariamente ela retorna \u00e0 Ilha Grande dos Marinheiros para trabalhar na unidade de triagem: \u201cEu achei que indo embora daqui eu ia arrumar um servi\u00e7o e isso n\u00e3o aconteceu.\u201d Com tr\u00eas filhos pra criar e mais o marido pra sustentar, os R$10 mil que ela recebeu para reconstruir a vida no outro munic\u00edpio se esgotaram em 2 meses. Ela conseguiu colocar as meninas na escola, mas o menino ainda espera para retornar \u00e0 creche que l\u00e1 \u00e9 privada. \u201cTeve gente que foi embora daqui e que agora junta pl\u00e1stico de carrinho de beb\u00ea\u201d, conta Andressa. Luciana Santos, que integra o grupo do caf\u00e9, n\u00e3o dosa as palavras: \u201cFala a real, t\u00e3o passando fome\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O drama n\u00e3o para por a\u00ed. O galp\u00e3o de reciclagem onde Andressa trabalha tamb\u00e9m est\u00e1 prestes a ser demolido. A propriet\u00e1ria est\u00e1 levantando os documentos para conseguir uma Indeniza\u00e7\u00e3o. Enquanto n\u00e3o se conclui o processo, o trabalho no galp\u00e3o e as pausas para o caf\u00e9 seguem normalmente. \u201cS\u00f3 briga quem tem dinheiro. Quem n\u00e3o tem, tem que ficar quietinho\u201d, constata Luciana.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5816\" aria-describedby=\"caption-attachment-5816\" style=\"width: 790px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5816 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Galp\u00e3o-3-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Galp\u00e3o-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Galp\u00e3o-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Galp\u00e3o-3-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5816\" class=\"wp-caption-text\">Galp\u00e3o de reciclagem seguia em funcionamento at\u00e9 o final de 2019.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por outro lado, nem todas as fam\u00edlias ficaram decepcionadas com a nova moradia. Liane, ao passo que teme pelos que se foram, reconhece que, para seu filho, foi bom deixar a ilha: \u201cele morava bem no meio do tr\u00e1fico\u201d, explica ela. Al\u00e9m disso, ele e a mulher est\u00e3o empregados, o que deu estabilidade \u00e0 mudan\u00e7a.\u00a0<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h5><b>De um lado para o outro<\/b><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim como seus vizinhos se v\u00e3o, h\u00e1 41 anos, Liane Farias foi \u201cjogada\u201d pela prefeitura de Porto Alegre na Ilha Grande dos Marinheiros. \u201cEu morava no bairro Navegantes, na Rua Teodora. Um dia cheguei em casa depois de levar minha filha na escola e tinham 10 caminh\u00f5es encostados e um monte de viaturas. Me deram 2 horas pra buscar a menina e ir embora.\u201d<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><iframe title=\"&quot;Era s\u00f3 mato.&quot;\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0o5mib1LDWY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa \u00e9poca, o Brasil estava sob o regime militar, Liane tinha 18 anos, tr\u00eas filhos e rec\u00e9m havia se separado do marido. Como possibilidades, ela podia escolher ir para a Restinga ou para a Ilha Grande dos Marinheiros. Sem tempo para grandes pondera\u00e7\u00f5es, ela optou pela segunda op\u00e7\u00e3o. Chegou com os filhos em um lugar sem nada. \u201cEra s\u00f3 mato e a gente tinha que tomar a \u00e1gua do rio\u201d. Sem casa, sem luz e sem assist\u00eancia institucional para recome\u00e7ar a vida, Liane contou com o apoio de alguns moradores que j\u00e1 viviam ali. Assim como ela, outras 10 fam\u00edlias deixaram o Navegantes e foram morar na ilha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ela acabou se adaptando \u00e0 vida pr\u00f3xima \u00e0s \u00e1guas do Delta do Jacu\u00ed, \u00e0 brisa, ao cheiro e \u00e0 vizinhan\u00e7a. \u201cFaz uns anos, um dos meus filhos foi atropelado e eu decidi sair daqui. Fiquei fora tr\u00eas meses, mas senti falta e voltei.\u201d H\u00e1 quase 30 anos, Liane \u00e9 conselheira do Or\u00e7amento Participativo na regi\u00e3o. Acompanhou a luta por \u00e1gua encanada que veio, por fim, em 2008, quando a regi\u00e3o recebeu o abastecimento pelo Departamento Municipal de \u00c1gua e Esgoto (Dmae). Hoje, o b\u00e1sico existe e o que n\u00e3o existe a comunidade improvisa. Quase toda energia el\u00e9trica das pequenas casas de madeira vem de pr\u00e1ticas irregulares. Sistema de esgoto n\u00e3o tem. Quando v\u00e3o implantar? \u201cN\u00e3o se sabe\u201d.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h5><b>Entre pol\u00edticas e direitos<\/b><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 1976, dois anos antes de Liane e de outras pessoas serem jogadas na ilha por motivos de remo\u00e7\u00e3o \u2014 e muito tempo depois de v\u00e1rias fam\u00edlias se estabelecerem ali e desenvolverem um modo de vida \u2014 foi criado o <a href=\"https:\/\/www.sema.rs.gov.br\/parque-estadual-delta-do-jacui\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Parque Estadual do Delta do Jacu\u00ed<\/strong><\/a>. Parques Estaduais s\u00e3o \u00e1reas que tem o prop\u00f3sito de preservar ecossistemas naturais ecologicamente relevantes. Quando se cria uma \u00e1rea assim, em seguida \u00e9 feito um Plano de Manejo para regular o uso do espa\u00e7o conforme os objetivos de conserva\u00e7\u00e3o da natureza.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO problema \u00e9 que, quando criaram o Parque, se deram conta de que j\u00e1 tinham pessoas morando ali. Ent\u00e3o, n\u00e3o podia ser um Parque. A\u00ed decidiram que ia virar uma APA, uma \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental\u201d, explica a ge\u00f3grafa Amanda Bahi de Souza. Ela diz ainda que, em uma APA, \u00e9 poss\u00edvel que existam pessoas morando, desde que os impactos \u00e0 Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o sejam m\u00ednimos. \u201cO que \u00e9 bem dif\u00edcil de acontecer tamb\u00e9m, n\u00e9. Porque onde tem ser humano, tem devasta\u00e7\u00e3o acontecendo.\u201d Por outro lado, esse tipo de estrat\u00e9gia acaba sendo compat\u00edvel com a realidade brasileira, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 recursos financeiros para a desapropria\u00e7\u00e3o de terras e para a consolida\u00e7\u00e3o de outros programas de conserva\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A decis\u00e3o de transformar a \u00e1rea em uma APA foi motivo de protestos por entidades ambientalistas. Assim, no ano seguinte, em 2005, ficou decidido que o Parque seria uma Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o Mista. Ou seja, conteria uma \u00e1rea de uso sustent\u00e1vel (APA) e outra de prote\u00e7\u00e3o integral (Parque). Mas como fazer o \u201cuso sustent\u00e1vel\u201d da \u00e1rea sem sistema de esgoto, por exemplo? E como instalar a tubula\u00e7\u00e3o sem interferir excessivamente no espa\u00e7o? Esses dilemas foram trazidos \u00e0 tona e ainda ecoam nas discuss\u00f5es que tangem a qualidade de vida e a infra-estrutura na Ilha Grande dos Marinheiros. Afinal, o saneamento b\u00e1sico e a moradia s\u00e3o direitos assegurados pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro agravante, que retarda as decis\u00f5es, \u00e9 o fato de que existem tr\u00eas esferas de poder envolvidas na administra\u00e7\u00e3o da \u00e1rea: a por\u00e7\u00e3o de terras pertencente ao bairro Arquip\u00e9lago \u00e9 de dom\u00ednio municipal; a responsabilidade por definir o uso e a ocupa\u00e7\u00e3o das margens e das \u00e1guas do Delta do Jacu\u00ed \u00e9 do poder federal; e os crit\u00e9rios para a gest\u00e3o do solo urbano fica tanto na al\u00e7ada estadual, quanto na municipal. Enquanto os poderes se entendem, na vida pr\u00e1tica do dia a dia, o improviso \u00e9 a estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h5><strong>Galeria de imagens<\/strong><\/h5>\n<p>[slideshow_deploy id=&#8217;5817&#8217;&#093;<\/p>\n<hr \/>\n<p>FOTOS: Sthefania Castillo\/Humanista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Obra que mudou o cen\u00e1rio do bairro Arquip\u00e9lago de Porto Alegre impacta o dia a dia de mais de 500 fam\u00edlias que vivem na Ilha Grande dos Marinheiros. Juliana Maciel Ainda era 2019, uma\u00a0quinta-feira, quando o Humanista voltou ao bairro Arquip\u00e9lago de Porto Alegre para atualizar os impactos da nova ponte do Gua\u00edba sobre a &#8230; <a title=\"\u201cParece que passou um m\u00edssil&#8221;: \u00e0s v\u00e9speras da inaugura\u00e7\u00e3o, como vivem fam\u00edlias impactadas pela nova ponte do Gua\u00edba\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2020\/01\/23\/parece-que-passou-um-missil-as-vesperas-da-inauguracao-como-vivem-familias-impactadas-pela-nova-ponte-do-guaiba\/\" aria-label=\"More on \u201cParece que passou um m\u00edssil&#8221;: \u00e0s v\u00e9speras da inaugura\u00e7\u00e3o, como vivem fam\u00edlias impactadas pela nova ponte do Gua\u00edba\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":5808,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[55,51,243],"tags":[],"class_list":["post-5805","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-habitacao","category-mais-recentes"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5805","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5805"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5805\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5808"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5805"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5805"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5805"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}