﻿{"id":6532,"date":"2020-10-26T18:38:05","date_gmt":"2020-10-26T21:38:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=6532"},"modified":"2021-09-18T22:07:32","modified_gmt":"2021-09-19T01:07:32","slug":"construindo-cidades-isoladas-a-pandemia-no-olhar-de-quem-nao-conheceu-o-isolamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2020\/10\/26\/construindo-cidades-isoladas-a-pandemia-no-olhar-de-quem-nao-conheceu-o-isolamento\/","title":{"rendered":"Construindo cidades isoladas: a pandemia no olhar de quem n\u00e3o conheceu o isolamento"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">\u201cTrabalho com isso desde que me conhe\u00e7o por gente.&#8221; \u00c9 assim que o pedreiro Marcelo (cuja identidade verdadeira foi preservada), 52 anos, define sua trajet\u00f3ria no ramo da constru\u00e7\u00e3o civil. Natural de S\u00e3o Sep\u00e9, na regi\u00e3o Central do Rio Grande do Sul, mudou-se para Porto Alegre antes mesmo de completar a maioridade &#8211; seguindo os passos das irm\u00e3s, que tamb\u00e9m optaram por tentar a vida para os lados da Capital.<\/p>\n\n\n\n<p>No Dia do Trabalhador da Constru\u00e7\u00e3o Civil, celebrado em 26 de outubro, o <strong>Humanista<\/strong> conta um pouco da rotina de Marcelo, representando milh\u00f5es de brasileiros que, como ele, continuam a erguer as cidades brasileiras mesmo durante a pandemia de Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje \u00e9, no munic\u00edpio de Novo Hamburgo, na Regi\u00e3o Metropolitana de Porto Alegre, que Marcelo estabelece seu lar. Ao longo dos 35 anos vividos para c\u00e1 da ponte do Gua\u00edba, foi nos canteiros de obras que, construindo alicerces e levantando paredes, encontrou a possibilidade de construir tamb\u00e9m sua pr\u00f3pria vida. N\u00e3o poderia imaginar, naquela \u00e9poca, que viveria para dizer que constru\u00eda casas enquanto o que mais se ouvia era \u201cfique em casa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Avan\u00e7o da pandemia impactou a rotina nos canteiros<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo dados da <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/index.php\/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=72421\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>PNAD Cont\u00ednua<\/strong><\/a> (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio Cont\u00ednua), no segundo trimestre de 2020, 5 milh\u00f5es e 323 mil brasileiros encontravam-se ocupados na ind\u00fastria da Constru\u00e7\u00e3o Civil. O segmento contempla, ao menos, 12% da empregabilidade no pa\u00eds. Na capital ga\u00facha, parte destes trabalhadores interromperam seus trabalhos em 25 de mar\u00e7o, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de um <strong><a href=\"http:\/\/dopaonlineupload.procempa.com.br\/dopaonlineupload\/3294_ce_286048_1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">decreto<\/a><\/strong> que ordenou a paralisa\u00e7\u00e3o das atividades do setor. Em 22 de abril, pouco menos de um m\u00eas depois, <strong><a href=\"http:\/\/dopaonlineupload.procempa.com.br\/dopaonlineupload\/3340_ce_288405_1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a decis\u00e3o foi revogada<\/a><\/strong>, ficando permitido o funcionamento dos canteiros de obras com restri\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rios \u2013 das 9h \u00e0s 16h \u2013 e mediante ado\u00e7\u00e3o de medidas de seguran\u00e7a. Atualmente, as atividades da constru\u00e7\u00e3o civil v\u00eam funcionando sem restri\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rios na Capital \u2013 desde a publica\u00e7\u00e3o do <strong><a href=\"http:\/\/dopaonlineupload.procempa.com.br\/dopaonlineupload\/3447_ce_292720_1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">decreto n\u00ba 20. 623, de 20 de junho<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cidade vizinha de Novo Hamburgo, onde Marcelo mora e trabalha, mesmo diante do avan\u00e7o da pandemia, as atividades do setor n\u00e3o pararam \u2013 causando inseguran\u00e7a aos trabalhadores e familiares de quem <strong><a href=\"https:\/\/www.jornalvs.com.br\/noticias\/especial_coronavirus\/2020\/03\/23\/trabalhadores-da-construcao-civil-continuam-nos-canteiros-de-obra-em-novo-hamburgo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">continuou a atuar nos canteiros de obras<\/a><\/strong> que se espalham pelo munic\u00edpio da Regi\u00e3o Metropolitana de Porto Alegre. Segundo Marcelo, apesar de nenhum decreto ordenando a paralisa\u00e7\u00e3o das atividades ter sido emitido pela prefeitura municipal, a empresa na qual trabalha chegou a suspender as obras por uma semana, ainda no in\u00edcio da pandemia no Rio Grande do Sul. Contudo, desde meados de abril, ele vem atuando de segunda a s\u00e1bado nas constru\u00e7\u00f5es. \u201cA pandemia afetou muito a nossa \u00e1rea. Mas, aqui em Novo Hamburgo, n\u00e3o mudou muita coisa. Meu encarregado at\u00e9 pegou o corona. Ele continuou trabalhando porque nem sabia que tinha pego, os sintomas vieram diferentes. Esse v\u00edrus d\u00e1 v\u00e1rios sintomas, \u00e9 desarranjo, \u00e9 dor de barriga, \u00e9 dor de cabe\u00e7a. Quando ele foi no m\u00e9dico, o doutor disse que pegou t\u00e3o fraco que at\u00e9 passou. S\u00f3 que a esposa e as filhas dele tamb\u00e9m pegaram. Gra\u00e7as a Deus n\u00e3o afetou a gente no servi\u00e7o\u201d, relembra o pedreiro.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Marcelo, as medidas adotadas t\u00eam sido r\u00edgidas: m\u00e1scaras, luvas, \u00e1lcool em gel usado constantemente e distanciamento entre os trabalhadores, que atuam, no m\u00e1ximo, de dois em dois no mesmo espa\u00e7o. \u00c9 a isto que ele atribui o fato de, mesmo com um dos trabalhadores tendo testado positivo para a Covid-19, nenhum outro ter manifestado os sintomas da doen\u00e7a. \u201cTodo mundo coopera, porque essa doen\u00e7a t\u00e1 matando gente que nem louco. N\u00e3o podemos abusar disso da\u00ed\u201d, comenta Marcelo, apesar de relatar que, mesmo ap\u00f3s a confirma\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico do colega, n\u00e3o houve testagem dos trabalhadores da obra.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Alternativas para enfrentar a pandemia<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Na quarta semana de setembro de 2020, <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/29181-desemprego-atinge-14-milhoes-de-pessoas-na-quarta-semana-de-setembro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>o n\u00famero de brasileiros desempregados bateu na casa dos 14 milh\u00f5es<\/strong><\/a> \u2013 s\u00e9rie hist\u00f3rica desde o in\u00edcio da pandemia, de acordo com os resultados obtidos na s\u00e9rie especial alusiva aos dados da pandemia da PNAD Covid-19 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio). O resultado foi sentido tamb\u00e9m na ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil, visto que o n\u00famero de ocupa\u00e7\u00f5es neste setor, no segundo trimestre, caiu quase um milh\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro trimestre deste ano. Para Marcelo, o caminho, por\u00e9m, foi inverso: trabalhando de maneira informal no in\u00edcio da pandemia, ele conquistou a carteira assinada pela empresa na qual vinha atuando como \u201cfrio\u201d \u2013 termo designado aos trabalhadores que atuam nos canteiros de obra \u201cpor empreitada\u201d, sem v\u00ednculo empregat\u00edcio formal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFaz acho que dois meses que t\u00f4 de carteira assinada na firma, mas tamb\u00e9m fa\u00e7o churrasquinho pra vender. Tava apavorado, porque essa pandemia deixou todo mundo mal. A\u00ed pensei: bah, vou meter um churrasquinho para ver\u201d, conta Marcelo. Mantendo as duas atividades, ap\u00f3s a chegada do trabalho no canteiro de obras, ele j\u00e1 se prepara para a venda dos petiscos, feita em frente \u00e0 sua resid\u00eancia. Quanto aos cuidados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus, garante respeitar todas as medidas, seja na obra ou \u00e0 frente da mini churrasqueira \u2013 at\u00e9 porque, como diz, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais guri. Contudo, conta que, na comunidade onde vive, no bairro Boa Sa\u00fade, em Novo Hamburgo, a postura adotada pela vizinhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 das mais recomendadas: \u201cO pessoal n\u00e3o est\u00e1 muito respeitador. Tem mercados que exigem o uso de m\u00e1scara, outros tu entra e t\u00e1 todo mundo sem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o pedreiro empreendedor, o medo devastador sentido no in\u00edcio da pandemia j\u00e1 deu certa tr\u00e9gua, pois as medidas de seguran\u00e7a passaram a fazer parte do seu dia a dia. Ainda assim, diz n\u00e3o confiar que a situa\u00e7\u00e3o esteja melhor e n\u00e3o se sentir totalmente seguro \u2013 por\u00e9m, do mesmo modo, as contas n\u00e3o deixar\u00e3o de chegar em sua resid\u00eancia ao final de cada m\u00eas. Na express\u00e3o da sabedoria de quem j\u00e1 viu de quase tudo nesta vida, como orgulha-se de dizer, o caminho, para ele, est\u00e1 em cada um fazer a sua parte: \u201cMorre gente todo dia, mas nunca morreu gente de \u2018penca\u2019 do jeito que est\u00e1 morrendo agora. Creio que isso vai passar, mas ainda t\u00e1 matando gente. Ent\u00e3o n\u00e3o adianta ficar nessa de achar que em mim nada pega, porque pega sim. Temos \u00e9 que nos cuidar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTrabalho com isso desde que me conhe\u00e7o por gente.&#8221; \u00c9 assim que o pedreiro Marcelo (cuja identidade verdadeira foi preservada), 52 anos, define sua trajet\u00f3ria no ramo da constru\u00e7\u00e3o civil. 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