﻿{"id":6722,"date":"2020-11-02T19:25:22","date_gmt":"2020-11-02T22:25:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=6722"},"modified":"2020-11-06T19:43:10","modified_gmt":"2020-11-06T22:43:10","slug":"estupro-e-o-unico-crime-em-que-a-vitima-e-que-sente-vergonha-denuncia-jornalista-ana-paula-araujo-em-livro-sobre-o-tema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2020\/11\/02\/estupro-e-o-unico-crime-em-que-a-vitima-e-que-sente-vergonha-denuncia-jornalista-ana-paula-araujo-em-livro-sobre-o-tema\/","title":{"rendered":"\u201cEstupro \u00e9 o \u00fanico crime em que a vitima \u00e9 que sente vergonha\u201d, denuncia jornalista Ana Paula Araujo em livro sobre o tema"},"content":{"rendered":"<p><b>J\u00falia Vargas<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \/ #Cr\u00edticaHumanista<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo dados do <\/span><a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>FBSP (F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica)<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, a cada onze minutos, uma pessoa \u00e9 estuprada no Brasil. No come\u00e7o de outubro, o debate sobre viol\u00eancia sexual tomou as redes, quando o Santos FC anunciou a contrata\u00e7\u00e3o do jogador Robson de Souza, conhecido como Robinho, e <\/span><a href=\"https:\/\/www.gazetaesportiva.com\/times\/santos\/entenda-por-que-o-santos-apenas-suspendeu-contrato-de-robinho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>condenado em primeira inst\u00e2ncia na It\u00e1lia em 2017<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> pelo estupro coletivo de uma jovem albanesa realizado em janeiro de 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As cr\u00edticas ao time de futebol vieram de v\u00e1rios lados: desde jornalistas at\u00e9 patrocinadores do clube, que amea\u00e7aram quebra de contratos. No fim, temendo perder patroc\u00ednios, o Santos FC suspendeu o contrato com o jogador. Em nenhum momento, no entanto, mostrou qualquer arrependimento no compromisso com o jogador condenado, mesmo que tenham vindo a p\u00fablico <\/span><a href=\"https:\/\/globoesporte.globo.com\/sp\/santos-e-regiao\/futebol\/times\/santos\/noticia\/as-gravacoes-do-caso-robinho-na-justica-italiana-a-mulher-estava-completamente-bebada.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>\u00e1udios em que Robinho declara ter praticado sexo oral na v\u00edtima<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> completamente b\u00eabada.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por coincid\u00eancia, tamb\u00e9m no inicio de outubro, a jornalista Ana Paula Ara\u00fajo lan\u00e7ou seu primeiro livro: \u201cAbuso &#8211; a cultura do estupro no Brasil\u201d. A apresentadora do Bom Dia Brasil, na TV Globo, dedicou 4 anos de pesquisa e entrevistas para escrever a obra. O resultado s\u00e3o mais de 300 p\u00e1ginas de hist\u00f3rias brutais e dolorosas, que mostram como a viol\u00eancia sexual contra mulheres \u00e9 muito mais comum do que se imagina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No transporte p\u00fablico, na Universidade, dentro de casa, na creche, no baile funk. Ana Paula percorreu o Brasil, ouvindo v\u00edtimas, m\u00e9dicos, policiais, promotores, estupradores, militantes. Foi da ilha de Maraj\u00f3 at\u00e9 o extremo sul, para tentar compreender como essa estrutura de viol\u00eancia e abuso sexual virou cultura no pa\u00eds. Dessa forma, a jornalista construiu o livro visando mostrar como casos de estupro acontecem em todos os extratos da sociedade, independentemente de classe social e cor da pele da v\u00edtima ou do abusador.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em sua pesquisa, a jornalista descobriu que 71,8% dos 66.041 casos de estupro denunciados em 2018 foram contra crian\u00e7as e adolescentes com menos de dezoito anos. Segundo o <\/span><a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/atlasviolencia\/filtros-series\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Atlas da Viol\u00eancia<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, divulgado em 2019, as crian\u00e7as com at\u00e9 treze anos s\u00e3o os maiores alvos, configurando 53,6% do total de casos registrados de viol\u00eancia sexual naquele ano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os n\u00fameros assustam; por\u00e9m, eles correspondem apenas a cerca de um d\u00e9cimo da realidade, considerando a baixa incid\u00eancia de den\u00fancias. Isso acontece porque, apesar de n\u00e3o existir uma estat\u00edstica exata, grande parte dos estupradores s\u00e3o conhecidos das v\u00edtimas: pai, padrastro, tio, primo, vizinho, professor. Conforme Ana, denunciar maridos e namorados \u00e9 ainda mais dif\u00edcil, pois \u00e9 um tabu a agress\u00e3o sexual quando \u201co estuprador \u00e9 um homem para quem a mulher j\u00e1 disse sim em um relacionamento\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, apesar de j\u00e1 termos evolu\u00eddo bastante em termos de igualdade de g\u00eanero no Brasil, os homens ainda s\u00e3o, de modo geral, os respons\u00e1veis financeiros no sistema patriarcal, de modo que muitas mulheres aceitam os abusos pr\u00f3prios ou \u00e0s filhas para n\u00e3o perder a estabilidade financeira que possuem.&nbsp;<\/span><\/p>\n<hr>\n<h5><strong>Um livro brutal, mas necess\u00e1rio<\/strong><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O momento mais brutal e doloroso do livro, para mim, acontece em seu terceiro cap\u00edtulo, quando Ana Paula relata casos de estupro coletivo que ficaram famosos no Brasil e parte de entrevistas que realizou com as v\u00edtimas. Uma delas, Suzana, de 24 anos, pediu que a jornalista aguardasse com ela na cal\u00e7ada at\u00e9 o primo chegar para busc\u00e1-la depois da entrevista. O abuso sofrido acontecera dois anos antes, em um baile funk, e \u201cela ainda n\u00e3o se sentia segura para ficar sozinha, ainda que fosse por alguns minutos, em uma cal\u00e7ada movimentada de um dos bairros menos inseguros do Rio de Janeiro, \u00e0s tr\u00eas horas da tarde\u201d.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse pedido de Suzana &#8211; que parece t\u00e3o simples &#8211; esconde uma dura realidade enfrentada pelas v\u00edtimas de estupro: os traumas psicol\u00f3gicos deixados pela viol\u00eancia. De acordo com dados do <\/span><b><a href=\"http:\/\/portalsinan.saude.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sinan (Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o)<\/a>,<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, em 23,3% dos casos, as v\u00edtimas desenvolvem transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico (TEPT), condi\u00e7\u00e3o marcada pelo nervosismo exagerado depois de uma experi\u00eancia negativa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">(&#8230;) &#8220;ela ainda n\u00e3o se sentia segura para ficar sozinha, ainda que fosse por alguns minutos, em uma cal\u00e7ada movimentada de um dos bairros menos inseguros do Rio de Janeiro, \u00e0s tr\u00eas horas da tarde&#8221;.<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m de transtornos como depress\u00e3o, fobia e ansiedade &#8211; partes do quadro de TEPT -, a v\u00edtima torna-se mais suscet\u00edvel a abusar de drogas e tentar suic\u00eddio. A realidade mostra que, uma vez abusada, o estigma segue com a v\u00edtima at\u00e9 o fim da vida. Ana relata a dificuldade de as mulheres relatarem seus casos para ela, por sentirem vergonha de j\u00e1 terem enfrentado situa\u00e7\u00f5es de tamanha magnitude. Para ela, \u201co estupro \u00e9 o \u00fanico crime em que a vitima \u00e9 que sente vergonha\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O livro retrata, tamb\u00e9m, a forma traum\u00e1tica como ocorre a den\u00fancia de abuso sexual. Al\u00e9m de ter que relatar para algum familiar ou amigo, a v\u00edtima precisa reviver sua hist\u00f3ria para o delegado, para o investigador, para a equipe m\u00e9dica respons\u00e1vel pelo exame legal e, em casos de gravidez por estupro, tamb\u00e9m para conseguir que algum hospital realize seu aborto &#8211; direito previsto por lei.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Recentemente, em agosto de 2020, <\/span><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-08-16\/menina-de-10-anos-violentada-fara-aborto-legal-sob-alarde-de-conservadores-a-porta-do-hospital.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>uma menina de 10 anos<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> precisou entrar na Justi\u00e7a e viajar para outro estado a fim de conseguir realizar um aborto, ap\u00f3s ter sido violentada pelo tio, no interior do Esp\u00edrito Santo. Na companhia da av\u00f3, teve que se deslocar at\u00e9 Recife para ter seu direito respeitado.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O aborto em caso de estupro de vulner\u00e1vel <\/span><strong><a href=\"https:\/\/mapaabortolegal.org\/perguntas-frequentes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">est\u00e1 previsto no C\u00f3digo Penal Brasileiro h\u00e1 80 anos<\/a><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, e a <\/span><a href=\"https:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/saudelegis\/gm\/2005\/prt1508_01_09_2005.html\"><b>Portaria n\u00ba 1.508 do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> estabelece que a v\u00edtima precisa apenas procurar o atendimento p\u00fablico de sa\u00fade e fazer um relato do acontecido perante dois profissionais de sa\u00fade, contando lugar, dia e hora aproximada e descrevendo a viol\u00eancia sofrida. Tal processo, que j\u00e1 \u00e9 visivelmente invasivo e doloroso para a v\u00edtima, deveria ser suficiente para que o procedimento fosse realizado.&nbsp;<\/span><\/p>\n<hr>\n<h5><strong>A escrita potente de Ana Paula Ara\u00fajo<\/strong><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Durante a leitura do livro, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar em como Ana Paula Ara\u00fajo, uma mulher de 48 anos, m\u00e3e de outra mulher, conseguiu se manter neutra durante as entrevistas. A jornalista relata ao fim do livro que n\u00e3o foi tarefa f\u00e1cil. Precisou segurar as l\u00e1grimas e a raiva em muitos momentos, mas um, em especial, foi bastante marcante para ela.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi na ilha de Maraj\u00f3,<\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/opiniao\/a-exploracao-e-abuso-sexual-de-criancas-e-jovens-na-ilha-do-marajo-pa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b> um dos lugares com maior \u00edndice de explora\u00e7\u00e3o sexual do pa\u00eds<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, investigando o caso de um homem denunciado pelo estupro sistem\u00e1tico de duas filhas adolescentes. Tratava-se de uma fam\u00edlia muito pobre, que vivia em uma \u00e1rea de dif\u00edcil acesso, feito apenas de barco pelo rio Par\u00e1. O homem j\u00e1 havia sido preso, e exames realizados nas meninas comprovavam o estupro, mas na primeira audi\u00eancia elas negaram que tivessem sido abusadas.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao chegarem \u00e0 casa da fam\u00edlia &#8211; Ana, Marcos (seu parceiro de pesquisa), o delegado e a irm\u00e3 Maria Henriqueta, freira que atua no enfrentamento da viol\u00eancia sexual no Norte do pa\u00eds-, ouviram o relato da m\u00e3e e das adolescentes sobre os abusos sofridos. Ao mesmo tempo, fora da casa, o pai negava todas as den\u00fancias ao delegado, tornando aquela visita in\u00fatil. Por\u00e9m, a den\u00fancia das tr\u00eas mulheres foi suficiente para tir\u00e1-las daquela casa.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ana relata que nunca, em seus mais de 20 anos como jornalista, passou por uma experi\u00eancia como aquela, em que interveio na hist\u00f3ria que apurava de forma t\u00e3o direta. Ela ajudou as tr\u00eas mulheres a recolher seus pertences e conduziu-as at\u00e9 a casa de um familiar.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em outro momento da obra, a escritora conta sobre seus pr\u00f3prios medos e experi\u00eancias de ass\u00e9dio no transporte p\u00fablico, quando estudava jornalismo na UFF (Universidade Federal Fluminense) e era estagi\u00e1ria da R\u00e1dio Globo. Aos 18 anos, ela precisava atravessar uma pra\u00e7a escura e deserta \u00e0 noite e sempre tinha medo de n\u00e3o chegar viva em casa.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Viver com medo de caminhar sozinha na rua \u00e9 a realidade de grande parte das mulheres no Brasil. Segundo pesquisa realizada pelo <\/span><a href=\"https:\/\/www.ilocomotiva.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Instituto Locomotiva<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, 8 em cada dez mulheres t\u00eam medo de andar sozinha \u00e0 noite na rua. O \u00edndice cai para 5 em cada dez em se tratando de homens. Para eles, o medo \u00e9 de assalto; para n\u00f3s, \u00e9 a amea\u00e7a de ter nossos corpos violados.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por mais doloroso que seja ler \u201cAbuso &#8211; a cultura do estupro no Brasil\u201d, a escrita de Ana Paula Ara\u00fajo se faz mais do que necess\u00e1ria. Ana Paula, para mim, virou um grande sin\u00f4nimo de pot\u00eancia jornal\u00edstica e feminina. \u00c9 preciso muita coragem e for\u00e7a para ouvir tantos relatos chocantes e escrever sobre eles. Mas \u00e9 exatamente dessa coragem que precisamos para modificar uma cultura t\u00e3o arraigada. O primeiro passo j\u00e1 foi dado por Ana: ouvir e acolher melhor quem sofreu com abusos sexuais. O segundo passo, assim como o primeiro, cabe a todos n\u00f3s: denunciar esses abusos e conscientizar as mulheres sobre os seus direitos, para que a legisla\u00e7\u00e3o seja cumprida e o n\u00famero de v\u00edtimas de estupro diminua no pa\u00eds.&nbsp;<\/span><\/p>\n<hr>\n<p>FOTO DE CAPA: divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falia Vargas \/ #Cr\u00edticaHumanista Segundo dados do FBSP (F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica), a cada onze minutos, uma pessoa \u00e9 estuprada no Brasil. 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