﻿{"id":7122,"date":"2020-12-17T18:54:10","date_gmt":"2020-12-17T21:54:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=7122"},"modified":"2021-01-06T19:46:50","modified_gmt":"2021-01-06T22:46:50","slug":"cultura-do-estupro-85-das-vitimas-no-brasil-sao-mulheres-e-70-dos-casos-envolvem-criancas-ou-vulneraveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2020\/12\/17\/cultura-do-estupro-85-das-vitimas-no-brasil-sao-mulheres-e-70-dos-casos-envolvem-criancas-ou-vulneraveis\/","title":{"rendered":"Cultura do estupro: 85% das v\u00edtimas no Brasil s\u00e3o mulheres e 70% dos casos envolvem crian\u00e7as ou vulner\u00e1veis"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Relatos de v\u00edtimas de abuso sexual revelam um perfil comum: mulheres exploradas, objetificadas e violentadas desde o nascimento<\/span><\/i><b><i>; <\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400;\">a cada 8 minutos um estupro \u00e9 cometido no pa\u00eds.<\/span><\/i><\/p>\n<p><b>St\u00e9ffany Cuacoski<\/b><\/p>\n<p>No Brasil, um estupro \u00e9 registrado a cada 8 minutos; 85% das v\u00edtimas s\u00e3o mulheres; em 70% dos casos, <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2019\/10\/17\/abuso-infantil-o-pedofilo-dorme-ao-lado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>a v\u00edtima \u00e9 crian\u00e7a<\/strong><\/a> ou vulner\u00e1vel; quase 84% dos estupradores s\u00e3o conhecidos das v\u00edtimas. N\u00fameros tristes que sustentam uma &#8220;cultura do estupro&#8221; no pa\u00eds. E em cada n\u00famero, uma hist\u00f3ria. A v\u00edtima pode ser famosa ou an\u00f4nima, mas os enredos repetem marcas que perpassam os perfis de&nbsp;<span style=\"font-weight: 400;\">mulheres exploradas, objetificadas e violentadas desde o nascimento<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/i><\/p>\n<hr>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7130\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-1.png\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-1.png 1600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-1-300x203.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-1-768x518.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-1-1024x691.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<hr>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O caso da jovem Mariana Ferrer mobilizou as redes sociais e a m\u00eddia, ap\u00f3s a senten\u00e7a que absolveu seu estuprador, Andr\u00e9 de Camargo Aranha, que alegou n\u00e3o saber se havia ou n\u00e3o consentimento no ato sexual, caracterizando o crime como <a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2020\/11\/03\/influencer-mariana-ferrer-estupro-culposo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>&#8220;estupro culposo&#8221;<\/strong><\/a>.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isso poucas semanas depois da visibilidade do <a href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/esportes\/santos\/novos-audios-mostram-que-robinho-tentou-impedir-conversa-de-vitima-com-amigo,3b22748e6f444718c0ab36b22b25c73a15vqlmbu.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>caso Robinho<\/strong><\/a>. O jogador foi condenado em primeira inst\u00e2ncia a nove anos de pris\u00e3o pela justi\u00e7a italiana, acusado por um estupro coletivo contra uma mulher embriagada durante uma festa, em 2013. A sua contrata\u00e7\u00e3o pelo Santos Futebol Clube, mesmo diante da condena\u00e7\u00e3o, foi suficiente para reacender o debate sobre a cultura do estupro, j\u00e1 que o jogador, que&nbsp; ainda n\u00e3o foi punido pelo crime, seguiria na posi\u00e7\u00e3o de \u00eddolo do futebol, contratado por um dos maiores clubes brasileiros.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais recentemente, um jogador da equipe sub-20 do Sport Club Internacional, Matheus Monteiro, foi flagrado em um v\u00eddeo publicado nas redes sociais contando que <a href=\"https:\/\/odia.ig.com.br\/esporte\/2020\/12\/6037966-em-video-jogador-do-internacional-afirma-que-drogou-mulher-durante-festa.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>dopou uma mulher em uma festa<\/strong><\/a>, colocando droga em sua bebida. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1, em todos esses epis\u00f3dios, algo em comum, al\u00e9m da visibilidade percebida pela m\u00eddia: a culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima.&nbsp;&nbsp;<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Seja por estar b\u00eabada ou por qualquer outra conduta tida como moralmente conden\u00e1vel, a mulher deixa de ser vista como v\u00edtima e passa a ser r\u00e9 pela viol\u00eancia que sofreu, antes mesmo que quaisquer explica\u00e7\u00f5es sejam solicitadas aos seus estupradores. Mas, o que mais h\u00e1 em comum entre as v\u00edtimas de estupro? O que carregam as hist\u00f3rias n\u00e3o contadas de mulheres invis\u00edveis e silenciadas? O <strong>Humanista<\/strong> foi atr\u00e1s de repostas.<\/span><\/p>\n<hr>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-7123 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-2.png\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-2.png 1600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-2-300x203.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-2-768x518.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-2-1024x691.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<hr>\n<blockquote><p><b>\u201cEle amea\u00e7ava matar minha m\u00e3e se eu contasse qualquer coisa, e dizia que eu seria a culpada por isso\u201d<\/b><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde pequena acompanhava a viol\u00eancia de perto, na casa onde vivia com os pais e onde supostamente deveria se sentir mais segura e protegida. Isabel* (nome fict\u00edcio) \u00e9 filha de um pai alco\u00f3latra e cresceu em meio \u00e0s agress\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas sofridas pela m\u00e3e. Com ela, n\u00e3o foi muito diferente, por volta dos 6 anos de idade, ainda sem compreender do que se tratava, os abusos sexuais come\u00e7aram a acontecer. O pai, que frequentemente perdia o emprego por brigas e desentendimentos desencadeados pelo v\u00edcio, passava as tardes \u201ccuidando\u201d da filha, e aproveitava a sa\u00edda da esposa ao trabalho para ir at\u00e9 seu quarto. Isabel relembra que se escondia debaixo da cama quando ouvia a porta da frente bater e o sil\u00eancio que se fazia depois. De acordo com o <\/span><strong><a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Anuario-2019-FINAL_21.10.19.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2019<\/a><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">64% dos casos de estupro de vulner\u00e1veis acontecem no momento em que os pais ou respons\u00e1veis est\u00e3o no trabalho, durante o per\u00edodo da manh\u00e3 ou tarde.<\/span><\/p>\n<hr>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-7124 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-3.png\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-3.png 1600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-3-300x203.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-3-768x518.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-3-1024x691.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<hr>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A menina tentou contar \u00e0 m\u00e3e, que na \u00e9poca n\u00e3o acreditou e a mandou \u201cparar de inventar hist\u00f3rias\u201d. Sem ter a quem recorrer e acreditando ser culpada por todos os abusos que sofria, aos 10 anos passou a se vestir e andar como os meninos da escola, na tentativa de se parecer com um. Suas roupas eram largas e o cabelo curto. Afinal, quanto menos mostrasse seu corpo, mais despercebida e invis\u00edvel passaria por homens como o pai. Al\u00e9m dos abusos sexuais, apanhava diariamente, e foi torturada, amea\u00e7ada e queimada por cigarros durante toda a inf\u00e2ncia, \u201cele amea\u00e7ava matar minha m\u00e3e se eu contasse qualquer coisa, e dizia que eu seria a culpada por isso\u201d, conta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com 14 anos, Isabel lembra que os abusos foram se tornando mais raros, mas ainda temia pela irm\u00e3 ca\u00e7ula. Quando percebeu que a m\u00e3e era conivente com tudo o que acontecia ali, decidiu sair de casa, com a mochila nas costas e um emprego de dom\u00e9stica em uma casa de fam\u00edlia, que daria a ela a chance de recome\u00e7ar e de ter um lar longe de toda a viol\u00eancia onde cresceu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aos 16 anos engravidou do primeiro namorado, com quem vive at\u00e9 ent\u00e3o. Hoje, aos 39 anos, ainda se sente incomodada com o pr\u00f3prio corpo e evita ter rela\u00e7\u00f5es sexuais com o marido. \u201cNunca contei ao meu marido tudo o que passei l\u00e1 em casa. Ele sabe que tive uma inf\u00e2ncia dif\u00edcil, mas n\u00e3o faz ideia do que de fato j\u00e1 vivi e dos abusos daquele homem\u201d, desabafa, ao falar do pai que n\u00e3o v\u00ea h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Em mais de 84% dos casos, o estuprador \u00e9 algu\u00e9m de confian\u00e7a ou familiar da v\u00edtima, tamb\u00e9m segundo o&nbsp;<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2019.<\/span><\/p>\n<hr>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-7125 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-4.png\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-4.png 1600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-4-300x203.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-4-768x518.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-4-1024x691.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<hr>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isabel admite que <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">quase n\u00e3o cuida de sua apar\u00eancia e, atualmente, diz ainda ter dificuldades de se olhar no espelho e gostar de si mesma. \u201cQuem \u00e9 abusada carrega isso para o resto da vida, essa sensa\u00e7\u00e3o de estar sempre suja, de nunca ser boa o bastante\u201d, lamenta.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><b>\u201cN\u00e3o lembro exatamente o qu\u00ea ou como aconteceu, apenas que eu n\u00e3o queria e pedia pra ele parar. No outro dia vi sangue na minha calcinha e nas roupas de cama\u201d<\/b><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mariana* (nome fict\u00edcio) \u00e9 filha \u00fanica. Nunca viu o pai levantar a voz para a m\u00e3e ou para ela. Teve uma inf\u00e2ncia feliz e segura, rodeada de amigos e do afeto dos av\u00f3s. Do lado de dentro dos altos muros que protegiam o condom\u00ednio onde morava, a \u00fanica viol\u00eancia que podia perceber se passava pela televis\u00e3o. Aos 14 anos, conheceu um jovem tr\u00eas anos mais velho. \u201cFoi a minha primeira paix\u00e3o, e meus pais achavam que, se eu tivesse um namorado, estaria mais segura, n\u00e3o sairia para festas, beberia ou me encontraria com pessoas estranhas, como minhas amigas na \u00e9poca\u201d, explica. Os dois come\u00e7aram a namorar em casa, passavam os finais de semana juntos, mas a adolescente ainda n\u00e3o se sentia segura para ter sua primeira rela\u00e7\u00e3o sexual, embora ele j\u00e1 tivesse a questionado a respeito algumas vezes.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em um s\u00e1bado \u00e0 noite, seus pais sa\u00edram para uma festa com os amigos e os deixaram sozinhos em casa. Depois de algumas doses da vodka que encontraram na geladeira, Mariana lembra que decidiu ir para o quarto, pois n\u00e3o se sentia bem. \u201cEu disse que queria dormir, que n\u00e3o estava bem, me senti tonta. Deitei e pouco tempo depois ele come\u00e7ou a me beijar, mesmo eu negando e pedindo pra ele parar. N\u00e3o lembro exatamente o qu\u00ea ou como aconteceu, apenas que eu n\u00e3o queria e pedia pra ele parar. No outro dia vi sangue na minha calcinha e nas roupas de cama\u201d, relembra a jovem, agora com 24 anos. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Mais de 70% dos casos de viol\u00eancia sexual registrados, de acordo com o <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Anu\u00e1rio, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">s\u00e3o de v\u00edtimas menores de 14 anos, pessoas alcoolizadas ou com alguma enfermidade que impe\u00e7a de oferecer resist\u00eancia ao abusador.&nbsp;<\/span><\/p>\n<hr>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7126\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-5.png\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-5.png 1600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-5-300x203.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-5-768x518.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-5-1024x691.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<hr>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A menina contou \u00e0 m\u00e3e, que de alguma maneira fez o at\u00e9 ent\u00e3o namorado da filha desaparecer dos olhos da fam\u00edlia e do seu c\u00edrculo de amigos. \u201cNunca mais nos vimos ou conversamos. Ele me bloqueou de todas as redes sociais, o que eu mesma teria feito, e at\u00e9 hoje n\u00e3o tive coragem de voltar a tocar no assunto com minha m\u00e3e e perguntar a ela como fez pra ele sumir assim\u201d. Mariana relembra que o pai nunca ficou sabendo, \u201ceu ainda tenho um pouco de dificuldade em falar sobre isso. Essa foi a minha primeira vez, contra minha vontade e com o cara que eu achava que me amava. At\u00e9 hoje ainda sinto dificuldade em confiar em outros homens e nunca mais namorei\u201d. Segundo dados de 2019, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">56% dos casos de estupros de mulheres ou jovens adultas ocorrem no per\u00edodo da noite ou da madrugada.<\/span><\/p>\n<hr>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7127\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-6.png\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-6.png 1600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-6-300x203.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-6-768x518.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-6-1024x691.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<hr>\n<blockquote><p><b>\u201cAchava que n\u00e3o merecia ser feliz e que ningu\u00e9m podia gostar de mim &#8211; n\u00e3o se soubesse de toda a minha hist\u00f3ria\u201d<\/b><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aos 8 anos, Paula* (nome fict\u00edcio) perdeu o pai e foi morar com a m\u00e3e, usu\u00e1ria de drogas. Na nova casa, foi abusada pela primeira vez. Os abusos, nesse caso, n\u00e3o eram praticados apenas por uma pessoa, mas por v\u00e1rios tios. Nessa idade, a menina ainda n\u00e3o entendia o que estava acontecendo, mas sabia que havia algo de errado nos toques e car\u00edcias que recebia daqueles homens que frequentavam sua casa. Aos 10 anos foi violentada pelo namorado da m\u00e3e, que mais tarde se tornou seu padrasto. Diferente dos outros, era atencioso, levava doces e brinquedos, e pela primeira vez sentiu-se amada desde a morte do pai. Paula relembra como ele se esfor\u00e7ava para ficar sozinho com ela, \u201cmeus irm\u00e3os podiam brincar na rua, mas eu n\u00e3o, eu tinha que ficar com ele. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Me tocava, tirava a minha roupa, e eu ficava completamente parada, sem qualquer rea\u00e7\u00e3o, s\u00f3 com medo e raiva\u201d, relembra, com a voz embargada.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Mais de <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">18% das v\u00edtimas t\u00eam entre cinco e nove anos de idade e 11,2% s\u00e3o beb\u00eas de zero a quatro anos (dados do <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2019).<\/span><\/p>\n<hr>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7128\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-7.png\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-7.png 1600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-7-300x203.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-7-768x518.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-7-1024x691.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<hr>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando tudo terminava, a crian\u00e7a passava horas no banho tentando se limpar. O padrasto, vestia-se r\u00e1pido e ia para o trabalho, \u201ce assim foi por mais ou menos tr\u00eas anos, aos 14 isso parou de vez\u201d, desabafa. Apesar de tantos anos sendo violada frequentemente, a menina nunca contou a algu\u00e9m o que estava acontecendo, nem mesmo \u00e0 professora, que havia notado sua mudan\u00e7a de comportamento. \u201cDeixei de ser a crian\u00e7a feliz e simp\u00e1tica que era, pra me tornar uma adolescente rebelde e revoltada. Sentia uma culpa t\u00e3o grande e n\u00e3o conseguia fazer nada, a \u00fanica alternativa que encontrei foi renegar a mim mesma, me mutilando e mutilando meu corpo\u201d, lamentou.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com a autoestima em peda\u00e7os, come\u00e7ou a se anular e se afastar de todos que tentassem se aproximar, evitando qualquer rela\u00e7\u00e3o que pudesse machuc\u00e1-la outra vez. O sentimento de culpa lhe tirou a capacidade de confiar e acreditar em algu\u00e9m. Apenas muitos anos depois dos abusos, Paula entendeu que n\u00e3o passava de uma v\u00edtima de todas aquelas hist\u00f3rias. Hoje, com 43 anos, conta que faz terapia e uso de antidepressivos, parte, por conta do passado, que ainda est\u00e1 aprendendo a encarar. \u201cVivi muito tempo da minha vida atormentada, infeliz e sem perspectiva nenhuma de futuro. Achava que n\u00e3o merecia ser feliz e que ningu\u00e9m podia gostar de mim &#8211; n\u00e3o se soubesse de toda a minha hist\u00f3ria\u201d, desabafa, ap\u00f3s lembrar dos dois filhos e do marido, que hoje s\u00e3o o motivo de sua felicidade, apesar dos traumas deixados pela inf\u00e2ncia.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As hist\u00f3rias de Isabel, Mariana e Paula*, refletem a realidade de milhares de mulheres e crian\u00e7as v\u00edtimas da cultura do estupro, do machismo e da misoginia a que somos for\u00e7adas a enfrentar todos os dias. Em 2019, foram registrados 66.123 casos de estupro nas delegacias de todo o pa\u00eds.&nbsp;<\/span><\/p>\n<hr>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7129\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-8.png\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-8.png 1600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-8-300x203.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-8-768x518.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-8-1024x691.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<hr>\n<p>FOTO DE CAPA:&nbsp;ninocare\/pixabay<br \/>\nFOTOS SOB AS ARTES:&nbsp;Canvas Pro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relatos de v\u00edtimas de abuso sexual revelam um perfil comum: mulheres exploradas, objetificadas e violentadas desde o nascimento; a cada 8 minutos um estupro \u00e9 cometido no pa\u00eds. St\u00e9ffany Cuacoski No Brasil, um estupro \u00e9 registrado a cada 8 minutos; 85% das v\u00edtimas s\u00e3o mulheres; em 70% dos casos, a v\u00edtima \u00e9 crian\u00e7a ou vulner\u00e1vel; &#8230; <a title=\"Cultura do estupro: 85% das v\u00edtimas no Brasil s\u00e3o mulheres e 70% dos casos envolvem crian\u00e7as ou vulner\u00e1veis\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2020\/12\/17\/cultura-do-estupro-85-das-vitimas-no-brasil-sao-mulheres-e-70-dos-casos-envolvem-criancas-ou-vulneraveis\/\" aria-label=\"More on Cultura do estupro: 85% das v\u00edtimas no Brasil s\u00e3o mulheres e 70% dos casos envolvem crian\u00e7as ou vulner\u00e1veis\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":7133,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[55,243,33,49,249],"tags":[],"class_list":["post-7122","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-mais-recentes","category-seguranca","category-vida","category-violencia-contra-a-mulher"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7122","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7122"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7122\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7133"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}