﻿{"id":7791,"date":"2021-07-08T19:23:05","date_gmt":"2021-07-08T22:23:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=7791"},"modified":"2021-09-09T15:26:31","modified_gmt":"2021-09-09T18:26:31","slug":"esporte-e-politica-nao-se-misturam-as-licoes-do-enfrentamento-ao-racismo-no-basquete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2021\/07\/08\/esporte-e-politica-nao-se-misturam-as-licoes-do-enfrentamento-ao-racismo-no-basquete\/","title":{"rendered":"Esporte e pol\u00edtica n\u00e3o se misturam? As li\u00e7\u00f5es do enfrentamento ao racismo no basquete"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Ap\u00f3s o assassinato de <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/reportagens-especiais\/george-floyd-como-negro-morto-pela-policia-inspira-hoje-luta-antirracista\/#cover\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>George Floyd<\/strong><\/a>, um homem negro que foi asfixiado por um policial branco de Mine\u00e1polis, nos Estados Unidos, em maio de 2020, uma onda de protestos invadiu as ruas e as redes sociais do mundo, lembrando aos governos de que Vidas Negras Importam (Black Lives Matter, em ingl\u00eas, como a express\u00e3o se popularizou). No basquete, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi diferente. Atletas, t\u00e9cnicos e federa\u00e7\u00f5es movimentaram as estruturas sociais, contrariando quem acredita que pol\u00edtica e esporte n\u00e3o se misturam.<\/p>\n\n\n\n<p>Na NBA, a temporada 2019\/20, que iniciou com os jogos Utah Jazz vs New Orleans Pelicans e Los Angeles Lakers vs Los Angeles Clippers, foi marcada por uma s\u00e9rie de protestos e manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas contra o racismo. Todos os jogadores, \u00e1rbitros e membros das comiss\u00f5es t\u00e9cnicas aderiram ao movimento Vidas Negras Importam, se ajoelhando durante a execu\u00e7\u00e3o do hino nacional dos Estados Unidos antes das partidas. Al\u00e9m disso, os atletas usaram camisetas pretas com os dizeres \u201cVidas Negras Importam\u201d, \u201cliberdade\u201d e \u201cequidade\u201d, que foram autorizados pela NBA.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte de Floyd completava <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2021\/05\/25\/george-floyd-um-ano-depois-eua-relembram-assassinato-que-desencadeou-protestos-pelo-mundo.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>um ano<\/strong><\/a>&nbsp;em maio de 2021 quando o&nbsp;<strong>Humanista <\/strong>foi atr\u00e1s de hist\u00f3rias que provam que o esporte, pode, sim, dar a sua contribui\u00e7\u00e3o para um tema social e pol\u00edtico como \u00e9 o combate ao racismo, e que inspiram a luta por um mundo mais justo e fraterno.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Dos EUA ao Brasil<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do basquete estadunidense, no Brasil, a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Basketball (CBB), \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o dos eventos e representa\u00e7\u00e3o dos atletas do esporte no pa\u00eds, foi uma das primeiras a aderir ao protesto virtual Blackout Tuesday. O movimento em rede tamb\u00e9m motivado pelo homic\u00eddio de George Floyd, teve como segunda pauta a morte de Jo\u00e3o Pedro, um menino negro de 14 anos assassinado por policiais no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Gerente de Comunica\u00e7\u00e3o da CBB, Thierry Gozzer, o enfrentamento e posicionamento da federa\u00e7\u00e3o esportiva contra a desigualdade racial \u00e9 de suma import\u00e2ncia: \u201cA pessoa precisa claramente saber qual a posi\u00e7\u00e3o da CBB em rela\u00e7\u00e3o a isso. Eu acho que hoje ningu\u00e9m tem d\u00favida. A gente tem v\u00e1rios exemplos de atletas do Brasil, que est\u00e3o na sele\u00e7\u00e3o brasileira, ou que j\u00e1 passaram ou que viveram esse tipo de cen\u00e1rio. Ent\u00e3o, sempre que temos a possibilidade, abra\u00e7amos esse tipo de causa, porque a gente entende que \u00e9 importante e que precisamos estar do lado dos nossos atletas. Assim como eles defendem o Brasil quando jogam, n\u00f3s tamb\u00e9m temos que defend\u00ea-los.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Thierry tamb\u00e9m acredita que um posicionamento contra o racismo por parte da federa\u00e7\u00e3o de basquete \u00e9 essencial, porque \u00e9 um esporte muito praticado por negros: \u201cAchamos que \u00e9 certo um posicionamento em um esporte muito praticado por negros como o basquete. E nesse esporte, voc\u00ea tem um hist\u00f3rico de jogadores negros, como Marta e Alessandra no feminino, Gilson e G\u00e9rson no masculino. Agora voc\u00ea tem o Nen\u00ea, o Fel\u00edcio e Leandrinho. S\u00e3o pessoas que tamb\u00e9m abra\u00e7am essa causa, ent\u00e3o sentimos a obriga\u00e7\u00e3o de participar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Luciano Jorge de Jesus, pesquisador e membro do Observat\u00f3rio da Discrimina\u00e7\u00e3o Racial no Futebol, movimentos como o Vidas Negras Importam s\u00e3o importantes para abalar as estruturas e institui\u00e7\u00f5es racistas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><a href=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-19.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-19.png?w=304\" alt=\"\" class=\"wp-image-3288\" width=\"304\" height=\"194\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>\u201cPressiona que poderosos se posicionem e at\u00e9 mesmo revelem suas contradi\u00e7\u00f5es. E o mesmo acontece com as nossas pr\u00e1ticas cotidianas. Movimentos como o Vidas Negras Importam e os v\u00e1rios movimentos negros no Brasil s\u00e3o um motor importante para o enfrentamento e para a den\u00fancia do racismo e de outras opress\u00f5es. Esses movimentos nos convidam a pensar em outras vidas. A vida de mulheres, a vida de crian\u00e7as, a vida das pessoas LGBTQIA+, a vida de outros grupos \u00e9tnicos que s\u00e3o oprimidos pelo mundo. E nesse sentido, podemos ir incorporando, ou pelo menos notando que existe mais gente para ser aliada nessas lutas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Dentro e fora de quadra<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar da maioria dos atletas do basquete serem negros, o cen\u00e1rio ainda se mostra muito racista. Das inj\u00farias na quadra ao racismo estrutural, quase todo atleta passa por alguma situa\u00e7\u00e3o de preconceito racial.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\">\n<\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><a href=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-20.png\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-20.png?w=330\" alt=\"\" class=\"wp-image-3290\"\/><\/a><figcaption>Almir segurando a bandeira do Pitt\/Corinthias. Foto: reprodu\u00e7\u00e3o\/internet.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Almir Ger\u00f4nimo, conhecido como Anjo Negro no sul, fez parte do \u00fanico time ga\u00facho a ganhar um t\u00edtulo nacional, o Pitt\/Corinthias. A equipe, que foi comandada pelo t\u00e9cnico Ary Vidal, derrotou Franca na final em playoff que terminou em 3\u00d72 para o time, mudando a hist\u00f3ria do basquete ga\u00facho. A trajet\u00f3ria do time virou livro e document\u00e1rio. As m\u00e3os de todos os jogadores do time ficaram eternizadas em gesso na Cal\u00e7ada da Fama do Basquete pelo feito. De 1994 at\u00e9 hoje, o time \u00e9 lembrado na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do marco no esporte ga\u00facho e dos feitos profissionais, Almir conta j\u00e1 ter passado por alguns epis\u00f3dios de racismo durante sua trajet\u00f3ria enquanto atleta: \u201cPor incr\u00edvel que pare\u00e7a, n\u00e3o sofri nada no sul. Por\u00e9m, quando eu jogava aqui no Rio, eu sofri isso dentro da quadra com o t\u00e9cnico Marcel. Fomos para os tribunais e teve uma repercuss\u00e3o muito grande\u201d. Almir sofreu inj\u00farias raciais, em 1999, pelo t\u00e9cnico \u00e0 \u00e9poca, Marcel. Al\u00e9m das inj\u00farias raciais, Almir teve que lidar com o racismo estrutural. \u201cFui acusado de n\u00e3o ir em programas para falar sobre isso, mas n\u00e3o me convidaram. At\u00e9 nisso eu sofri massacres\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Almir ainda conta que muitos amigos de quadra estavam presentes enquanto os ataques aconteceram, que havia muitas evid\u00eancias, mas mesmo assim obteve pouco apoio de seus companheiros:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cTodo mundo se omitiu. Aquilo me magoa demais\u201d<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Felizmente, Almir conseguiu enfrentar essas estruturas racistas e ganhar o processo. \u201cMe pediram para retirar o processo, deixar para l\u00e1. Falaram que eu estava de cabe\u00e7a quente. Mas eu sei da verdade, eu mere\u00e7o que me pe\u00e7a desculpa, que v\u00e1 at\u00e9 o final do processo. Ent\u00e3o, eu quis fazer a vers\u00e3o correta e ganhei\u201d. O t\u00e9cnico foi julgado pelo Tribunal de Justi\u00e7a Desportiva da CBB, que recebeu uma suspens\u00e3o de tr\u00eas jogos.<\/p>\n\n\n\n<p>O ex-atleta explica ainda que viu a vit\u00f3ria do Pitt\/Corinthias como um movimento de ocupa\u00e7\u00e3o da periferia nos espa\u00e7os urbanos da cidade: \u201cMas tinha uma coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o e era a periferia. O pessoal do jogo ia embora para casa depois do jogo e algumas pessoas ficavam. Esse pessoal era da periferia. Eu senti o time abra\u00e7ando a periferia. Ent\u00e3o, depois do jogo na base, \u00edamos para a cidade e eles come\u00e7aram a nos seguir. Ent\u00e3o a cidade come\u00e7ou a ficar cheia de pretos. \u2018Se n\u00e3o fosse voc\u00eas n\u00e3o estar\u00edamos aqui porque as pessoas n\u00e3o aceitavam\u2019\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia, Almir usa do basquete para combater as mazelas sociais. O ex-atleta j\u00e1 fez projetos sociais em algumas comunidades do Rio de Janeiro, como na Rocinha, no Pav\u00e3o-Pav\u00e3ozinho, levando basquete gratuitamente para as crian\u00e7as e adolescentes, em parceria com escolas. Por\u00e9m, por conta da viol\u00eancia, esse projeto teve que ser descontinuado. Mas isso n\u00e3o fez Almir desistir de enfrentar os problemas sociais por meio do esporte.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendendo o esporte como um catalisador de cidadania, h\u00e1 15 anos, o ex-atleta comanda o projeto \u201cBasquete das Estrelas: Amigos do Almir\u201d, que acontece sempre no m\u00eas de dezembro. O evento re\u00fane artistas, como Pedro Bial, e atletas em um jogo de basquete, com o intuito de arrecadar brinquedos para as crian\u00e7as carentes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\">\n<\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image wp-image-7792\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/damiris-dantas.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7792\" width=\"520\" height=\"628\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/damiris-dantas.png 695w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/damiris-dantas-249x300.png 249w\" sizes=\"(max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><figcaption>Damiris Dantas, principal jogadora de basquete do Brasil. Foto: arquivo pessoal.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Damiris Dantas, \u00fanica brasileira na Women\u2019s National Basketball (WNBA) Association, ou liga profissional de basquete feminino, e um dos destaques do time Minnesota Lynx, se consolidou como um s\u00edmbolo de luta e representatividade dentro e fora de quadra. Em diversas entrevistas e em suas redes sociais, Damiris fala abertamente sobre o enfrentamento ao racismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a atleta tamb\u00e9m se posiciona a respeito da igualdade feminina. Em conjunto com suas companheiras de equipe, Damiris iniciou o movimento #LevanteABolaDelas, com o intuito de aumentar a igualdade no esporte, em especial no basquete. Entre as principais pautas do movimento, est\u00e3o o maior apoio dos clubes e mais investimentos e patroc\u00ednio no basquete feminino.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\">\n<\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-22.png\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-22.png?w=602\" alt=\"\" class=\"wp-image-3293\"\/><\/a><figcaption>Lebron James vestindo a camiseta em apoio a luta antirracista. Foto: arquivo pessoal.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Lebron James, o maior atleta atual de basquete se constituiu como uma das principais representa\u00e7\u00f5es no movimento negro dos Estados Unidos. O astro da NBA utilizou sua posi\u00e7\u00e3o para confrontar o Estado, se manifestando nas quadras e nas redes sobre o racismo e a viol\u00eancia policial. Em 2014, o atleta tamb\u00e9m tomou a frente de ato feito por jogadores da NBA contr\u00e1rios ao assassinato de Eric Garner, um homem negro, que assim como George Floyd, foi morto asfixiado por um policial. Na \u00e9poca, Lebron James entrou em quadra vestindo uma camiseta com o dizer \u201cI can\u2019t breathe\u201d (\u201cEu n\u00e3o consigo respirar\u201d, em portugu\u00eas).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, tamb\u00e9m utilizando o esporte como um difusor de direitos, o atleta inaugurou o col\u00e9gio p\u00fablico I Promisse School (Eu Prometo Escola, em portugu\u00eas), em Akron. A escola nasceu de um sonho de Lebron James de ajudar crian\u00e7as e adolescentes carentes de sua cidade. O col\u00e9gio \u00e9 mantido e patrocinado pela funda\u00e7\u00e3o Lebron James Family Foundation e se tornou uma refer\u00eancia nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Comiss\u00f5es t\u00e9cnicas, cargos representativos: o racismo estrutural<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Apesar do grande n\u00famero de jogadores negros, tanto no Brasil quanto na NBA, existe pouca representatividade em cargos de comando, como em departamentos esportivos e comiss\u00f5es t\u00e9cnicas. Segundo o levantamento feito, em 2015, por Richad Lapchick, ativista de direitos humanos, 75% dos jogadores da NBA s\u00e3o negros. Por\u00e9m, s\u00f3 26% dos t\u00e9cnicos s\u00e3o negros. Em 73 anos de liga, nunca houve um comiss\u00e1rio negro na NBA. No Brasil, no entanto, n\u00e3o existem dados sobre isso. Por outro lado, o gerente de comunica\u00e7\u00e3o da CBB, Thierry Gozzer, afirma que grande parte dos atletas s\u00e3o negros.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image size-large\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><a href=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-23.png\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-23.png?w=592\" alt=\"\" class=\"wp-image-3294\" width=\"592\" height=\"367\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Almir Ger\u00f4nimo conta que o espa\u00e7o para negros dentro dos cargos de comando das federa\u00e7\u00f5es ainda \u00e9 muito limitado: \u201cNas federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es dificilmente tem espa\u00e7o. \u00c9 de coisa futura. N\u00e3o tem jeito. N\u00e3o abrem. Aqui eles n\u00e3o deixam os t\u00e9cnicos negros ficarem, mesmo os com forma\u00e7\u00e3o\u201d. O ex-atleta destaca que muitas vezes, as pessoas usam de desculpas para manter o racismo estrutural: \u201cEle diz \u2018ah n\u00e3o, ele n\u00e3o \u00e9 bom\u2019, porque n\u00e3o tem o que falar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa problem\u00e1tica est\u00e1 t\u00e3o enraizada que mesmo quando amigo, o branco acredita que negros n\u00e3o podem ocupar aquele cargo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA mudan\u00e7a \u00e9 muito dura. \u00c9 bom ser amigo, mas estar junto eles n\u00e3o gostam. At\u00e9 amigos meus que est\u00e3o na pol\u00edtica colocam filhos, mas n\u00e3o me querem l\u00e1. Dizem que n\u00e3o \u00e9 bom. Ent\u00e3o, querem que o filho fique, querem ficar, mas n\u00e3o querem um negro na pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Luciano Jorge de Jesus, \u00e9 preciso mover todas as estruturas sociais para a efetiva participa\u00e7\u00e3o das minorias em todas as inst\u00e2ncias da vida: \u201cPara enfrentar esses desafios, precisamos de tocar em estruturas historicamente constru\u00eddas para manter o poder na m\u00e3o das mesmas pessoas. Ent\u00e3o, para apontar para novas possibilidades de experi\u00eancias no esporte, precisamos daquilo que precisamos em v\u00e1rias inst\u00e2ncias da vida: participa\u00e7\u00e3o efetiva, inclus\u00e3o de minorias pol\u00edticas, entre tantas outras coisas. Precisamos participar de todas as inst\u00e2ncias no espa\u00e7o esportivo: como dirigentes, t\u00e9cnicas\/os, jornalistas, ju\u00edzas\/es, propondo pol\u00edticas p\u00fablicas para o esporte. O caminho est\u00e1 na ocupa\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os. Mas para isso, algumas estruturas precisam ser tocadas e modificadas.\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sobre o racismo estrutural, Luciano conta que \u00e9 preciso pensar em como foram concebidas as camadas de decis\u00e3o e gest\u00e3o no esporte e como se d\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre o corpo negro, a pol\u00edtica e os espa\u00e7os: \u201cFalar sobre racismo estrutural talvez esteja diretamente ligada a forma como pessoas negras s\u00e3o exclu\u00eddas das diferentes camadas de decis\u00e3o e gest\u00e3o no esporte. Mas tamb\u00e9m com a forma como foram pensadas, formas que ainda est\u00e3o presentes em nosso dia a dia, de conceber o corpo negro, que est\u00e3o diretamente ligadas a como o racismo toma forma no meio jur\u00eddico, na pol\u00edcia, na economia. Ent\u00e3o, falar de racismo estrutural \u00e9 falar dos jogadores que n\u00e3o falam dos seus v\u00ednculos ligados \u00e0s religi\u00f5es de matriz africanas, mas pedem louvores evang\u00e9licos quando marcam tr\u00eas gols e fazem isso com uma naturalidade, que essa sim \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o estrutural. Falar de racismo estrutural \u00e9 falar da forma como ainda desvalorizam o maior jogador de futebol de todos os tempos, por cobrarem dele aquilo nunca cobraram de jogadores muito mais conservadores e reacion\u00e1rios. Mas isso n\u00e3o acontece meramente pela figura do Pel\u00e9, mas \u00e9 falar sobre as nossas no\u00e7\u00f5es de ancestralidade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\">\n<\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/medias.cnnbrasil.com.br\/protesto-black-lives-matter-na-nba.jpeg?format=JPEG&amp;image=https:\/\/mediastorage.cnnbrasil.com.br\/IMAGES\/00\/00\/01\/10743_332EE419D84004D3.jpeg&amp;width=800&amp;height=533&amp;resize=CROP\" alt=\"Protesto Black Lives Matter na NBA\"\/><figcaption>Atletas da NBA se ajoelham durante hino nacional dos Estados Unidos como forma de protesto contra a injusti\u00e7a racial. Foto: USA TODAY Sports.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Como os brancos podem ajudar na luta antirracista<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Para Almir:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image size-large\"><figure class=\"alignright is-resized\"><a href=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-26.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-26.png?w=288\" alt=\"\" class=\"wp-image-3298\" width=\"225\" height=\"226\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cA sua ajuda \u00e9 voc\u00ea estar sempre apoiando quem est\u00e1 do seu lado. Sempre colocando a pessoa para cima. Entender que \u00e9 lutadora tamb\u00e9m, n\u00e3o tem nada diferente, a cor da pele s\u00f3, mas \u00e9 igualzinho os pensamentos, os estudos.\u201d Al\u00e9m disso, o basqueteiro acredita que a nova gera\u00e7\u00e3o precisa ser diferente do que j\u00e1 passou. \u201cQuando j\u00e1 \u00e9 antigo, eu j\u00e1 sei. J\u00e1 vem o ran\u00e7o de fam\u00edlia, achando que \u00e9 superior. Mas quando \u00e9 jovem, precisa romper com isso. S\u00f3 que o jovem est\u00e1 carregando uma heran\u00e7a que n\u00e3o pode carregar. Tem que deixar l\u00e1 atr\u00e1s com os seus bisav\u00f4s, seus av\u00f4s, pais. Tem que ser rebelde. Ser rebelde \u00e9 legal. Voc\u00ea tem que ser diferente. N\u00e3o pode ser igual ao que j\u00e1 passou.\u201d<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Para Luciano:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image size-large\"><figure class=\"alignright is-resized\"><a href=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-27.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/esportefabico.files.wordpress.com\/2020\/11\/image-27.png?w=226\" alt=\"\" class=\"wp-image-3300\" width=\"217\" height=\"283\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cE a\u00ed, como fazer para enfrentar isso? Talvez pressionando institui\u00e7\u00f5es que se posicionem, para se afirmarem verdadeiramente como antirracistas. Por exemplo, um canal de televis\u00e3o ajuda muito quando denuncia o racismo, mas isso ainda n\u00e3o \u00e9 o bastante. Se um canal tem poucas pessoas negras em suas reda\u00e7\u00f5es e n\u00e3o faz nada para mudar esse quadro, seu discurso pode ser esvaziado de sentido. E isso pode ser ruim, pois, provavelmente essas narrativas, de den\u00fancias de atos racistas, ou de valoriza\u00e7\u00e3o de figuras negras, s\u00e3o constru\u00eddas por pessoas que s\u00e3o verdadeiramente compromissadas com a luta antirracista. Ou seja, institui\u00e7\u00f5es precisam encarar a luta antirracista em todos os sentidos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador ainda acredita que \u00e9 preciso enfrentar essa problem\u00e1tica dentro dos times: \u201cClubes devem investir verdadeiramente nisso. E isso inclui dinheiro, infraestrutura, mudan\u00e7a em pol\u00edticas internas dos clubes e de seu estatuto. Esses s\u00e3o os pontos que os clubes deve se preocupar. Mas isso n\u00e3o vai acontecer gratuitamente, isso vai acontecer com muita press\u00e3o da comunidade, de institui\u00e7\u00f5es como o Observat\u00f3rio da Discrimina\u00e7\u00e3o Racial no Futebol e de outros grupos, coletivos e pessoas que lutam contra opress\u00e3o de minorias pol\u00edticas pelo Brasil e pelo mundo\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>E para al\u00e9m das institui\u00e7\u00f5es, Luciano acredita que o mais importante \u00e9 entender que a luta contra o racismo tamb\u00e9m toca pessoas brancas: \u201cN\u00e3o s\u00f3 por vivermos em uma sociedade, mas por que a no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a pressup\u00f5e a exist\u00eancia de pessoas brancas e essas precisam entender seus privil\u00e9gios, a forma como as rela\u00e7\u00f5es raciais tocam essas pessoas. A ajuda come\u00e7a quando notar que existe uma no\u00e7\u00e3o de branquitude, que \u00e9 estudada por pessoas brancas. Assim, esses temas precisam ganhar espa\u00e7o, pessoas brancas precisam saber que s\u00e3o brancas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra forma de colaborar com a luta racial, para o pesquisador \u00e9 apoiar as divulga\u00e7\u00f5es e dar suporte ao movimento: \u201cPassar a palavra, divulgar pessoas que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o conhecidas, apoiar grandes nomes. Pessoas brancas s\u00e3o importantes na medida em que tomam a luta antirracista como uma necessidade de observar com mais clareza esse espelho chamado Brasil, suas contradi\u00e7\u00f5es e potencialidades. Pessoas brancas s\u00e3o protagonistas na luta antirracista? N\u00e3o. Mas s\u00e3o muito importantes nesse processo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>*Reportagem&nbsp;<a role=\"link\" href=\"https:\/\/esportefabico.wordpress.com\/2020\/11\/13\/esporte-e-politica-nao-se-misturam-o-enfrentamento-ao-racismo-no-basquete\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-raofz=\"15\"><strong>originalmente produzida<\/strong><\/a>&nbsp;na disciplina &#8220;Jornalismo Esportivo&#8221; do curso de Jornalismo da Fabico\/UFRGS no semestre letivo 2020\/2, em maio de 2021, sob a orienta\u00e7\u00e3o da professora <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4765454743087268\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Sandra de Deus<\/strong><\/a>. Edi\u00e7\u00e3o: <strong>Humanista<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s o assassinato de George Floyd, um homem negro que foi asfixiado por um policial branco de Mine\u00e1polis, nos Estados Unidos, em maio de 2020, uma onda de protestos invadiu as ruas e as redes sociais do mundo, lembrando aos governos de que Vidas Negras Importam (Black Lives Matter, em ingl\u00eas, como a express\u00e3o se &#8230; <a title=\"Esporte e pol\u00edtica n\u00e3o se misturam? As li\u00e7\u00f5es do enfrentamento ao racismo no basquete\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2021\/07\/08\/esporte-e-politica-nao-se-misturam-as-licoes-do-enfrentamento-ao-racismo-no-basquete\/\" aria-label=\"More on Esporte e pol\u00edtica n\u00e3o se misturam? 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