Representação sensível e funções do entendimento em Kant

 
Descrição: 

A Dedução transcendental apresenta-se como uma justificação da validade objetiva dos conceitos puros do entendimento, ou categorias, parte essencial da investigação da possibilidade do conhecimento a priori (donde seu caráter “transcendental”). A fim de demonstrar a necessária aplicação das categorias a objetos, o argumento pretende estabelecer que “apenas mediante elas é a experiência possível” (A93/B126), o que, se provaria o uso legítimo de tais conceitos, fixaria, em contrapartida, os seus limites. O problema mesmo ao qual essa prova visa dar uma solução possui, incontroversamente, alguns pressupostos. Todavia, há maneiras de conceber tais pressupostos que se mostram em aparente tensão com a conclusão da Dedução (dada certa compreensão razoável dela).

A inteligibilidade mesma da questão que a Dedução pretende responder – têm as categorias uso legítimo, ou validade objetiva? – depende da distinção fundamental entre sensibilidade e entendimento, “os dois troncos do conhecimento humano” (A29/B45). O primeiro capítulo da Analítica Transcendental teria mostrado que possuímos certos conceitos originados no entendimento puro, mais exatamente nas funções lógicas de unificação de conceitos em juízos – no pensamento –, consideradas como regras de unificação de múltiplos pelos quais objetos são dados na intuição. Tal seria, em poucas palavras, o resultado do que Kantchama de “dedução metafísica” (B159). Ora, toda intuição de que somos capazes, como seres finitos, é sensível. Assim, se sua origem no entendimento puro garante que estamos, de fato, de posse desses conceitos a priori de objetos – das categorias –, a irredutibilidade de nossa sensibilidade importaria na possibilidade de desacordo entre eles, de um lado, e o que nos aparece segundo as formas dela, de outro. Como escreve Kant no §13 da Crítica, logo antes de iniciar o argumento da Dedução Transcendental, trata-se de “uma dificuldade (…) que não encontrávamos no campo da sensibilidade, a saber, como as condições subjetivas do pensamento haveriam de ter validade objetiva, (…) pois fenômenos certamente podem ser dados na intuição sem as funções do entendimento” (A89-90/B122). Ou como ele acrescenta em seguida: “os fenômenos poderiam afinal ser de tal modo constituídos que o entendimento não os encontrasse em conformidade com as condições de sua unidade” (A90/B123), embora ainda assim “oferecessem objetos à nossa intuição, pois a intuição de maneira alguma requer as funções do pensamento” (A90-91/B123).

Ora, se o ponto de partida da Dedução parece depender de que seja possível um desacordo entre o que é dado aos sentidos e as regras de unificação de representações que são as categorias, o ponto de chegada da Dedução parece ir de encontro a essa possibilidade. Com efeito, a conclusão do argumento corresponde à tese da necessária conformidade do sensivelmente dado a tais conceitos: “todas as percepções possíveis, por conseguinte tudo o que possa porventura chegar à consciência empírica, i. e., todos os fenômenos da natureza, no que concerne à sua ligação, encontram-se sob as categorias” (B164-5).

O tratamento e a eventual resolução dessa tensão é essencial a qualquer compreensão sistemática da Dedução Transcendental – e, com isso, da relação entre representações sensíveis e funções do entendimento em Kant. Não deve surpreender que se trate, historicamente, de um polo de controvérsia na literatura. Nas duas últimas décadas, em particular, sua interpretação tem recebido renovada atenção no contexto do debate entre leitores “conceitualistas” e “não-conceitualistas” da teoria kantiana da intuição e da percepção (enquanto algo distinto da mera intuição, mas mais básico do que a experiência ou cognição empírica).

De acordo com conceitualistas, a Dedução concebe a intuição ou percepção de objetos como pressupondo uma síntese do múltiplo da sensibilidade governada por conceitos a priori. Nessa medida, eles tendem a abordar as passagens do §13 citadas acima como envolvendo uma hipótese ou suposição que a Dedução Transcendental viria a demonstrar posteriormente como falsa (ainda que uma possibilidade lógica). Em contrapartida, não-conceitualistas interpretam aquelas passagens – ao lado de outras passagens da Crítica e do corpus kantiano – atribuindo a Kant a tese da independência da percepção ou da intuição com respeito a qualquer atualização de capacidades conceituais. Reputando às representações sensíveis uma unidade anterior a operações do entendimento, não-conceitualistas interpretam a síntese categorial de que se ocupa a Dedução Transcendental como relativa ao conhecimento de objetos mediante tais representações, por conseguinte como algo que opera sobre elas.

Tanto conceitualistas quanto não-conceitualistas exploram passagens da Crítica e de outras obras do corpus kantiano cuja consideração é essencial a uma visão abrangente da filosofia teórica de Kant. O debate entre esses dois campos interpretativos favorece, ao menos em seus melhores momentos, uma compreensão enriquecida de noções fundamentais da epistemologia transcendental, como sensaçãointuição, percepção, experiência, funções, síntese, conhecimento, objeto e consciência, colocando em relevo suas nuances e múltiplos vínculos.

Todavia, uma compreensão adequada da relação entre representações sensíveis e funções do entendimento em Kant não pode dispensar, para além do confronto entre diferentes passagens, a reconstrução sistemática do argumento kantiano em um texto central como a Dedução B. Nossa pesquisa pretende dedicar-se a essa tarefa, tendo em vista a compreensão dessa relação e atendendo ao debate em tela, para o qual almeja dar uma contribuição.

Objetivo:

A investigação demarcada pelo presente projeto tem como objeto a relação entre representações sensíveis e funções do entendimento na filosofia de Kant, mormente na Dedução Transcendental dos Conceitos Puros do Entendimento na versão da segunda edição da Crítica da Razão Pura (a assim-chamada “Dedução B”). Pretende-se desenvolver essa pesquisa articulando o trabalho de análise e reconstrução do texto da Crítica – considerando outros textos do corpus kantiano que se mostrem relevantes – com o exame e a discussão da literatura recente sobre o tema, em particular a que concerne ao debate entre “conceitualistas” e “não-conceitualistas” na interpretação da teoria kantiana da intuição e da percepção. Para tanto, o projeto prevê sessões de trabalho regulares entre pesquisadores com formação kantiana, a maioria com trabalho especificamente sobre o tema e outros com diferentes contribuições relevantes para o projeto, como o contexto pré-crítico e o diálogo com a filosofia contemporânea. Além do trabalho conjunto regular, a pesquisa prevê a interação com parcerias nacionais e internacionais já estabelecidas com contribuições decisivas para o tema. O objetivo central consiste em mapear de que modo diferentes interpretações quanto à dependência ou independência da representação sensível em relação às funções do entendimento ressaltam diferentes aspectos da Dedução transcendental e, com isso, obter uma melhor contribuição do seu argumento central.

Pesquisadores:

Sílvia Altmann (coordenadora) – UFRGS

Renato Duarte Fonseca – UFRGS

Gerson LuisLouzado – UFRGS

André Klaudat – UFRGS

JônadasTecchio – UFRGS

Pedro Costa Rego – UFRJ

Mitieli Seixas da Silva – UFSM

Eduardo Ruttke von Saltiel – UFN

Alunos:

Gabriel Hickmann – UFRGS

Breno Augusto da Silva Franco – UFRGS Lucas Leitão Silveira

Financiador(es): Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Bolsa.Número de orientações: 1