{"id":2370,"date":"2013-12-05T19:09:31","date_gmt":"2013-12-05T19:09:31","guid":{"rendered":"http:\/\/72.10.55.45\/?p=2370"},"modified":"2018-09-16T15:56:54","modified_gmt":"2018-09-16T18:56:54","slug":"encontro-com-gilbert-durand-ternura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/imaginalis\/encontro-com-gilbert-durand-ternura\/","title":{"rendered":"Encontro com Gilbert Durand: ternura"},"content":{"rendered":"<p><em>Danielle Perin da Rocha Pitta<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Professora colaboradora da UFPE, Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional Yl\u00ea Set\u00ed do Imagin\u00e1rio e Representante das Am\u00e9ricas no comit\u00ea diretivo do CRI2i.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cheguei em Grenoble, vinda de S\u00e3o Paulo onde estudei no Lyc\u00e9e Pasteur, em 1967. Eu tinha um diploma equivalente ao primeiro ano de faculdade e assim, ingressei na Universit\u00e9 de Grenoble II, no segundo ano de sociologia.\u00a0 Na \u00e9poca, quando o professor entrava na sala de aula, todos os estudantes se levantavam e esperavam o sinal do professor para voltar a sentar. A aula era dita \u201cmagistral\u201d, isto \u00e9, a aula era expositiva, e mal o professor terminava de falar, saia da sala. Nada de debates, nada de quest\u00f5es, nada de di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Entre os meus professores, o de sociologia, Gilbert Durand. Na \u00e9poca com 46 anos, era objeto de paix\u00e3o por parte das alunas. Toda uma mitologia de sedutor o acompanhava: contavam onde, quando e como tinha seduzido grande n\u00famero de mulheres. Como docente, apresentava estritamente o conte\u00fado oficial da disciplina e nada sab\u00edamos ent\u00e3o, n\u00f3s os alunos (n\u00e3o existia internet!) dos trabalhos publicados e das pesquisas que desenvolvia sobre o imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Maio 68 se aproximava. A revolta era geral, dos trabalhadores e dos estudantes, contra as pol\u00edticas e a educa\u00e7\u00e3o da \u00e9poca. A reivindica\u00e7\u00e3o: \u201co imagin\u00e1rio no poder\u201d. Era o in\u00edcio da p\u00f3s-modernidade. A partir de ent\u00e3o, as aulas n\u00e3o foram mais \u201cmagistrais\u201d e o di\u00e1logo entre professores e alunos teve in\u00edcio.<\/p>\n<p>Minha aproxima\u00e7\u00e3o com o professor se deu mais tarde quando eu j\u00e1 fazia a \u201cma\u00eetrise\u201d e comecei a ler \u201cas estruturas antropol\u00f3gicas do imagin\u00e1rio\u201d. Confesso que de in\u00edcio, o vocabul\u00e1rio rebuscado, muitas vezes t\u00e9cnico, relativo a outras disciplinas (medicina, psicologia, arquitetura&#8230;), as refer\u00eancias a v\u00e1rias filosofias e a diversos contextos culturais,\u00a0 chegaram a me revoltar: me dava conta da import\u00e2ncia da proposta mas n\u00e3o conseguia entender nem a metade das argumenta\u00e7\u00f5es. A compreens\u00e3o s\u00f3 veio bem mais tarde.<\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o se deu realmente quando fiz minha inscri\u00e7\u00e3o em tese (doctorat d\u2019\u00e9tat, na \u00e9poca) e pedi a Gilbert Durand para ser meu orientador (directeur de th\u00e8se). Tivemos um primeiro encontro durante o qual foram estabelecidos o objetivo da tese e o m\u00e9todo a ser desenvolvido. Comecei ent\u00e3o a participar, em Chamb\u00e9ry, dos Ciclo de Estudos sobre o Imagin\u00e1rio que ele organizava. Foi em um destes encontros (em 1973) que pude mostrar meu projeto a Roger Bastide e ser aconselhada a fazer o campo da pesquisa no nordeste do Brasil, que eu n\u00e3o conhecia. Vim para Recife onde o ent\u00e3o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (IJNPS) fundou sob minha dire\u00e7\u00e3o, em 1975, o primeiro Centro de Pesquisas sobre o Imagin\u00e1rio do Brasil. Na \u00e9poca, um \u00fanico livro de Bachelard tinha sido traduzido para o portugu\u00eas: a Po\u00e9tica do Espa\u00e7o.<\/p>\n<p>S\u00f3 voltei para Grenoble em 1978 para terminar a tese e defend\u00ea-la em 1979. Foi quando tive meu segundo encontro com Gilbert Durand, que me assegurou que eu estava no bom caminho. O terceiro, foi para entregar a tese pronta.<\/p>\n<p>Este pequeno hist\u00f3rico mostra bem o quanto estudante e orientador ainda eram distantes. Hoje (2013) esta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 bem diferente. Mas, uma vez a tese defendida, tudo mudou. O di\u00e1logo se estabeleceu (quase) de igual para igual.<\/p>\n<p>A partir de 1975, com a funda\u00e7\u00e3o do Centro, a obra de Durand come\u00e7a a ser divulgada no Brasil e o primeiro interlocutor \u00e9 o antrop\u00f3logo da USP, Jos\u00e9 Carlos de Paula Carvalho.\u00a0 O primeiro Ciclo de Estudos sobre o Imagin\u00e1rio acontece no Recife em 1976 com a participa\u00e7\u00e3o de Jean Duvignaud.<\/p>\n<p>Em 1995, o CICE (Centro de Estudos em Imagin\u00e1rio, Cultura e Educa\u00e7\u00e3o da USP) j\u00e1 reagrupa pesquisadores de v\u00e1rios Estados do Brasil, todos trabalhando com teoria e m\u00e9todo de Gilbert Durand. Tais estudos abrangem v\u00e1rias \u00e1reas de conhecimento: educa\u00e7\u00e3o, antropologia, sociologia, psicologia, filosofia, literatura, comunica\u00e7\u00e3o, jornalismo, arquitetura, sa\u00fade, meio ambiente, e outras.<\/p>\n<p>Gilbert Durand vem ao Brasil pela primeira vez em 1989, a meu convite e o do IJNPS para participar do\u00a0 s\u00e9timo Ciclo de Estudos sobre o tema: Imagin\u00e1rio dos Exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>A liga\u00e7\u00e3o entre Gilbert Durand e o Brasil certamente come\u00e7a com Roger Bastide. Segundo CIaude Ravelet, um Roger Bastide que tem o &#8220;senso dos abismos&#8221; e &#8220;demonstra um individualismo metodol\u00f3gico indo al\u00e9m do c\u00e1lculo frio do lucro para levar em conta os sonhos e as paix\u00f5es. [&#8230;] Longe de cair em um psicologismo, Bastide ser\u00e1 o primeiro a mostrar a inser\u00e7\u00e3o do social at\u00e9 no del\u00edrio e na loucura. Alem disto, \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o seus cinco principais temas que s\u00e3o: &#8220;a sociologia da religi\u00e3o, a interpenetra\u00e7\u00e3o das civiliza\u00e7\u00f5es, a arte e a poesia, o irracional, as doen\u00e7as mentais, tendo como fio de Ariadne a busca do sagrado&#8221;. Os pontos de converg\u00eancia s\u00e3o pois importantes e estabelecer\u00e3o la\u00e7os profundos entre eles, que n\u00e3o ser\u00e3o estranhos \u00e0 vinda de Gilbert Durand ao Brasil.<\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o causada pela partida f\u00edsica de Gilbert Durand me deixou um tempo imobilizado na express\u00e3o de minha dor. No entanto, como ele mesmo nos ensinou, sua obra tendo-o tornado imortal, \u00e9 dela que devemos retirar as for\u00e7as necess\u00e1rias para lidar com a separa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Gostaria de dizer que o Brasil, pa\u00eds onde vivo e trabalho, \u00e9 particularmente receptivo \u00e0 sua obra que corresponde bem \u00e0s suas caracter\u00edsticas culturais: esp\u00edrito barroco e p\u00f3s-moderno, diversidade de culturas em intera\u00e7\u00e3o cotidiana acelerada. Nas universidades, os estudantes esmagados sob o peso das teorias cl\u00e1ssicas (positivismo, evolucionismo, funcionalismo, marxismo, etc.), t\u00e3o distante da viv\u00eancia cotidiana local,revivem quando entram em contato com a teoria e o m\u00e9todo do Mestre. Entrar por suas palavras no mundo dos s\u00edmbolos \u00e9 para eles um \u201cmaravilhamento\u201d (\u00e9merveillement) e uma abertura impar para o mundo. \u00c9 por isso que, sem d\u00favida, os seus ensinamentos est\u00e3o se multiplicando em v\u00e1rios campos do conhecimento. Em Antropologia: estudos comparativos de grupos culturais, da arte, dos idosos, dos discursos pol\u00edticos, em medicina (doadores de rins, c\u00e2ncer, est\u00e9tica, etc.), dos RPG virtuais ou n\u00e3o; na educa\u00e7\u00e3o: &#8220;media\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas&#8221; nas organiza\u00e7\u00f5es da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), a dimens\u00e3o educativa nos cultos afro-brasileiros na Universidade de Santa Cruz na Bahia, entre outros; em hist\u00f3ria: um estudo da bacia sem\u00e2ntica ligada \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o, na Universidade Federal da Para\u00edba; em Literatura, com Maria Teresa Strongoli da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo e, agora, em Minas Gerais, e Sebastien Joachim em Campina Grande ( UFPB ); em Arquitetura, onde o m\u00e9todo derivado do teste AT- 9 por mim proposto \u00e9 usado na USP; em Comunica\u00e7\u00e3o: na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; em Sociologia da vida cotidiana (Michel Maffesoli ), em v\u00e1rias Universidades. Entre outros. Trata-se, na minha opini\u00e3o, da \u00fanica antropologia, a do imagin\u00e1rio, que nos permite perceber o outro e dialogar com este outro em p\u00e9 de igualdade, em uma situa\u00e7\u00e3o de respeito m\u00fatuo. Mas, o que parece fundamental, \u00e9 que a teoria de Gilbert Durand, mesmo que se tenha conhecimento dela numa universidade, torna-se rapidamente uma nova percep\u00e7\u00e3o do mundo e tem por conseq\u00fc\u00eancia uma a\u00e7\u00e3o imediata: teoria e pr\u00e1tica s\u00e3o aqui indissoci\u00e1veis. Para mim, pessoalmente, ela trouxe, atrav\u00e9s da compreens\u00e3o do mundo que ela propicia, um entusiasmo pela vida e um amor pelo outro que me permitiu ter uma vida feliz, ensolarada, onde as sombras foram uma convite ao conhecimento. Agrade\u00e7o-lhe do fundo da minha alma.<\/p>\n<p>(Parte deste texto foi apresentado na\u00a0Journ\u00e9e d\u2019hommage Gilbert Durand, em 19 juin 2013, na\u00a0Universit\u00e9 Paris Descartes &#8211; Sorbonne.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Danielle Perin da Rocha Pitta &nbsp; Professora colaboradora da UFPE, Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional Yl\u00ea Set\u00ed do Imagin\u00e1rio e Representante das Am\u00e9ricas no comit\u00ea diretivo do CRI2i. &nbsp; Cheguei em Grenoble, vinda de S\u00e3o Paulo onde estudei no Lyc\u00e9e Pasteur, em 1967. 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