Fígado não se compra
Xico Vargas
É tiro e queda. Estão de volta às farmácias, depois de enxotados pela Agência de Vigilância Sanitária, fórmulas que reúnem substâncias rotuladas como hepatoprotetores, ou seja, protetores do fígado. Elas têm vários nomes e uma coisa em comum: são todas falsas. Não passam de placebos.
E placebo é o nome da forma farmacêutica que não serve para nada, mas tem aspecto idêntico ao do remédio de verdade. Pesquisas médicas com doentes usam placebo nuns e remédio noutros, para distinguir o que pode ser melhora psicológica da ação do medicamento. Placebo, então, é uma espécie de nome científico da mentira. Entre dois comprimidos de faz-de-conta e algumas gotas de verdade avança a ciência e descobrem-se tratamentos para dúzias de doenças. A coisa encrenca quando a mentira ganha o balcão da farmácia. Tem marca, bula, embalagem e, geralmente, custa caro. Parece remédio, mas é só uma dose maciça de esperteza..
São inúmeras as marcas que escondem essas drágeas e ampolas de mentira. Entre as mais conhecidas estão Hepatocler, Epocler, Ornihepat, Eparema, Hapatox, Necrohepat, Metiocolin, Legalon, Oddibil e Xantinon, esta uma das pioneiras no embuste da proteção ao fígado. Em comum a maioria desses placebos contêm combinações de arginina, colina, metionina, adenosina, betaína, piridoxina, enfim, uma lista de substâncias que existem separadamente. Mas, o efeito que se promete da combinação é ficção pura.
A malandragem começa pela definição. Hepatoprotetor é pior que relógio de camelô. Quem resolve ver as horas num Rolex comprado na esquina sabe que afivelou um gato no pulso. Mas quando o freguês acha que na farmácia acertam-lhe os ponteiros do fígado, nem sonha que buscou o balcão errado. Ganharia tempo e dinheiro se pedisse uma garrafa de água gelada no primeiro botequim. Qualquer funcionário de jaleco branco das farmácias é capaz de repetir as mesmas barbaridades de Marcela, balconista da CityFarma. Em segundos ela alinhou 12 desses falsos remédios sobre o balcão. "Qual é o melhor?" "São todos muito bons, mas esses três aqui (Epocler R$ 13,45, Hepatocler R$ 5,04 e Ornihepat R$ 22,40) são os mais vendidos", diz ela com a segurança de quem conhece os segredos da cura. "Este (Ornihepat) é tão bom, que até é exportado", reforça. "Exportado?" "É, a bula vem até em inglês".
Pelo telefone (32) 3215-3694, a funcionária Sandra, do Laboratório Farmacêutico Faria Ltda., de Juiz de Fora, informa que Marcela mentiu. "Não, não mandamos para fora. A bula em inglês é porque muita gente compra aqui e leva para o exterior". Descobre-se, portanto, que não poucos brasileiros, além de incautos, são contrabandistas e iludem seus amigos de língua inglesa, idioma no qual foram editados os dois maiores compêndios de medicina interna e farmacologia. Goodman e Gilmans, em "Bases Farmacológicas de Terapias", escreveram 1.753 páginas, fora as referências bibliográficas. Sheila Sherlock e James Dooley produziram as 714 páginas de "Doenças do Fígado e do Sistema Biliar". São milhares de páginas em que não existe uma só referência a hepatoprotetores. E não há por um motivo singelo: trata-se de uma mentira. A medicina ainda não descobriu a maneira de fazer uma abordagem química ao fígado.
Há quase sete anos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária tirou com grande barulho essas falcatruas hepáticas das farmácias. Duas portarias, encontráveis em www.anvisa.gov.br , determinavam que não fossem mais designados como "hepatoprotetores" e condicionavam a volta ao mercado à "apresentação de trabalhos de reconhecido valor técnico-científico". São insondáveis os desígnios que movem a caneta do poder público, mas todas as marcas banidas estão de volta, com o competente número de registro no ministério da Saúde, ainda que não se tenha notícia dos trabalhos técnico-científícos que as resgataram do desterro.
Algumas sequer mudaram aberrações da fórmula, como a velha Xantinon. Há mais de 20 anos nas farmácias, a marca anuncia a associação da vitamina B-12 na fórmula. Médicos sérios asseguram que não há relação possível entre função hepática e B-12, que só encontra indicação para os raros casos de anemia megaloblástica e inflamações dos nervos periféricos.
Cada uma à sua maneira, mas quase sempre com as mesmas palavras, essas fábulas medicamentosas prometem livrar o pobre coitado que acredita nas bulas da culpa pelo pileque do dia anterior. Algumas referem-se expressamente à ressaca. Outras, à "hepatopatias tóxicas por abuso do álcool", que vem a ser a intenção de dizer a mesma coisa usando o nome errado. Todas contam lorotas com aquele jeito de linguagem científica. Nisso, aliás, não são diferentes das bulas em geral. Todas são cuidadosamente escritas para deixar no escuro quem põe a mão no bolso na hora de ir ao caixa.
Falta às fórmulas dos "hepatoprotetores" um componente fundamental e, no caso, perigoso: verdade. Por mais falsos escudos hepáticos que tome, não se livrará o alcoólatra do tremor nas mãos. Não tremem por causa do fígado, mas do cérebro. Da mesma forma, a ressaca do bebedor contumaz ou eventual nada tem a ver com o fígado, mas com o estômago. O excesso de álcool irrita o estômago e desidrata, o que provoca no dono da ressaca desequilíbrio químico e eletrolítico. Daí a dor de cabeça e a sensação de que o mundo vai desabar.
Quem decide açoitar o aparelho digestivo deve fazê-lo sabendo que todos os excessos têm preço. Dos de velocidade aos de consumo de energia. O fígado é uma víscera glandular com extraordinária capacidade de regeneração programada pela natureza e posta a funcionar pelo próprio organismo. Cada exagero deixa uma pequena marca. Repetidos abusos levam o freguês mais rápido para o buraco. Até lá, ressaca se cura com muita água: três litros, de preferência. Bobagens com gosto artificial de fruta, além de inúteis, são mais caras que uma dose de bom uísque.