NOTA DE FALECIMENTO – PROF. EURICO TRINDADE NEVES

Recebemos, no dia 17/01/2021, a notícia do falecimento do Prof. Eurico Trindade de Andrade Neves.
Nascido em 08/07/1919 na cidade de Rio Grande, mudou-se aos oito anos para Porto Alegre. Sua formação inclui passagem pelos Colégios Anchieta e Júlio Castilhos e pela Escola de Engenharia da Universidade de Porto Alegre, onde obteve os diplomas de Engenheiro Civil (1942) e de Engenheiro Mecânico e Eletricista (1945). O Prof. Eurico soube harmonizar duas carreiras: a administrativa, atuando em fiscalização contábil, e a acadêmica, atuando no magistério superior.
Recém formado, ingressou como Engenheiro concursado da Secretaria de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul, lotado na Diretoria de Saneamento e Urbanismo (atual CORSAN). A atuação em projetos de abastecimento de água e de estações de tratamento de esgoto de várias cidades do estado, bem como a implantação de laboratórios de análises e controle, abriram as portas para a carreira acadêmica, em época em que poucos eram os engenheiros formados e menos ainda eram aqueles que trabalhavam com recursos hídricos.
A seriedade no trato da “coisa pública” e sua capacidade de gestão administrativa fizeram com que ocupasse o cargo de Secretário de Obras Públicas (1954) e assumisse interinamente a Secretaria da Fazenda. Após esta experiência, foi indicado como Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (1955), onde atuou na fiscalização contábil e financeira até o ano de sua aposentadoria em 1989.
A atuação do Prof. Eurico no magistério iniciou em 1945, período em que era projetista de obras de saneamento. Ele foi convidado, pelo próprio Prof. Egydio Hervé, que assumira funções na Reitoria, para substituí-lo na cátedra das disciplinas de Hidráulica Geral e Aplicada e Saneamento na Escola de Engenharia. Cedido pela Secretaria de Obras, tornou-se professor auxiliar pelo período 1945 a 1947, quando então foi nomeado professor assistente do Departamento de Obras Hidráulicas e Saneamento da Escola de Engenharia.
Integrante da Comissão designada pelo Reitor Elyseu Paglioli, em 1953, concebeu e criou a organização do Instituto de Pesquisas Hidráulicas. Neste momento, nascia a ligação entre o Prof. Eurico e o Instituto que seria concretizada anos mais tarde. Com a reforma universitária de 1968, viria a ser transferido definitivamente para o IPH, onde, na qualidade de chefe “pró- tempore” do recém criado Departamento de Hidromecânica e Hidrologia seria responsável por sua implantação e organização. Nesta época, foram criadas as disciplinas IPH01102- Mecânica dos Fluidos e Hidráulica II e IPH01103 – Estações de recalque, por ele ministradas na graduação. Na Pós-Graduação, durante 15 anos, foi o responsável pelas disciplinas Hidromecânica I, Hidromecânica II e Estações de Recalque; orientou dissertações de Mestrado; participou de projetos de pesquisa e integrou bancas acadêmicas. Lecionou na UFRGS até 1989, quando completou 70 anos e recebeu a aposentadoria compulsória.
O Prof. “Pingo d’Água”, assim carinhosamente apelidado pelos alunos devido à sua estatura, seguiu à risca o adágio: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Com fala mansa, sem jamais levantar a voz e letra impecável no quadro negro, ia cativando os alunos, à medida que abordava as leis que regem o escoamento da água. Em uma formação profissional dominada pelo sólido e pelo concreto, mostrou que sem a fluidez da água, a atuação do engenheiro é incompleta.
Com memória prodigiosa, frequentemente relembrava casos ocorridos em sala de aula e era capaz de enumerar os ex-alunos que se tornaram expoentes em suas áreas de atuação.
Contribuiu de forma pioneira e marcante para a consolidação do estudo da Hidráulica, ao escrever, em 1960, o livro “Curso de Hidráulica” publicado pela Editora Globo, que passou a ser adotado em todo o país. Junto com o livro “Manual de Hidráulica” do Prof. Azevedo Neto, constituem-se nos dois primeiros livros de Hidráulica escritos em língua portuguesa no Brasil. Naturalmente, os Profs. Eurico e Azevedo Netto, muitas vezes lado a lado, passaram a participar de bancas acadêmicas (desde Mestrado até livre docência) e comissões de seleção de professores (das categorias auxiliar até titular) em diferentes Universidades, contribuindo para a estruturação da formação acadêmica na área e escolha daqueles que seriam os responsáveis pela geração dos profissionais que atuariam na consolidação da área de recursos hídricos no país.
Mas, as habilidades administrativas desenvolvidas pelo Prof. Eurico não passaram despercebidas. Em 1968, designado pelo Reitor Eduardo Zacaro Faraco, presidiu a Comissão de orçamento da Universidade, que deu origem ao Conselho de Curadores (CONCUR), do qual foi conselheiro fundador e primeiro Presidente. Participou deste Conselho de 1973 até sua aposentadoria em 1989. Neste mesmo ano, como representante do Ministério de Educação, retornou ao CONCUR, onde colaborou pró-bono público até o ano de 2012, fechando o ciclo de 67 anos dedicado à UFRGS.
A importância do Prof. Eurico para a sociedade gaúcha e do país pode ser percebida pelas inúmeras distinções recebidas, entre outras: títulos (Professor Emérito da UFRGS, 1995, Conselheiro Emérito pelo Centro de Coordenação dos Tribunais de Contas do Brasil e Cidadão honorário de Porto Alegre, 2008), medalhas (“Saturnino de Brito” – SP, “Ordem de Ponche Verde” – RS, “Cidade de Porto Alegre” e “Irmão Afonso” – PUCRS), prêmios (Engenheiro do Ano 1989 – SENGE/RS, Expressão Cidadania – UNIRITTER).
O Professor “Pingo d´Água” sai de cena, mas deixa, naqueles que tiveram o privilégio de serem seus alunos, monitores e orientados, a lembrança de um professor educado, erudito, dedicado, solícito e justo, um exemplo de probidade administrativa e capacidade intelectual. Acima de tudo, o exemplo de profissional e mestre pautado pela humanidade e pela humildade, capaz de, em discurso de agradecimento em sessão legislativa, citar Shakespeare para afirmar: “Pobre que sou, sou pobre até nos agradecimentos”.

Texto elaborado pela Profa. Ana Luiza Oliveira Borges