Pesquisa sobre os desastres do Alto Vale do Itajaí de dezembro de 2020

Eventos extremos são processos naturais recorrentes relacionados à variabilidade e dinâmica terrestre. Frequentemente estes eventos atuam a favor da ocorrência de condições de perigo à população. Durante a madrugada, entre os dias 16 e 17 de dezembro, moradores das cidades de Rio do Sul, Ibirama e Presidente Getúlio, na região norte de Santa Catarina, foram surpreendidos por um evento de precipitação extrema. O evento resultou na deflagração de diversos movimentos de massa e provocou inundações bruscas nestes municípios. Dentre os impactos do evento, constam 21 óbitos e a destruição de pelo menos 80 residências, deixando 100 pessoas desalojadas e 172 desabrigados, além de danos à infraestrutura pública.

Entre os dias 22 e 28 de dezembro, uma equipe de pesquisadores do Grupo de Pesquisas em Desastres Naturais (GPDEN), do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), liderados pelos professores Dr. Gean Paulo Michel e Dr. Masato Kobiyama estiveram na região realizando o levantamento do evento. Foram sete dias de trabalho intenso, envolvendo o reconhecimento de: (i) pontos de deflagração dos movimentos de massa para coleta de amostras de solo e execução de ensaios de resistência mecânica do solo in situ e permeabilidade do solo; e (ii) trechos afetados pelos fluxos de detritos e inundações bruscas para levantamentos topográficos e batimétricos, delineamento das manchas de inundação, sobrevoos com drones e medições de vazão. Além disso, ocorreu o contato e entrevista de entes públicos e moradores que presenciaram ou atuaram no evento, com o objetivo de entender e reconstituir o fenômeno que impactou a região.

Em campo, identificou-se que a deflagração dos deslizamentos (também chamados de escorregamentos) ocorreu, predominantemente, nas escarpas da formação Serra Mirador, que atua como divisa comum entre os municípios afetados: Rio do Sul à Oeste, Ibirama a Leste e Presidente Getúlio ao Norte. Devido aos aspectos geológicos e de evolução da paisagem local, tais escarpas apresentam elevada declividade, favorecendo o ganho de energia e fluidificação dos escorregamentos. Foi identificada a ocorrência de escorregamentos do tipo translacional raso, que ao adentrarem nas redes de drenagem foram propagados como corridas de massa (também chamadas de fluxos de detritos). Em Presidente Getúlio, um único fluxo, dentre os pelo menos dez fluxos de grande porte identificados, resultou na morte de 9 pessoas, tendo seu início ocorrido há mais de 1 km da primeira residência atingida. Estes movimentos de massa possuem alta capacidade de destruição e, comumente apresentam uma janela de tempo muito curta para a evacuação. Neste evento, em particular, o horário de ocorrência, tarde da noite, pode ter potencializado a gravidade do desastre.

De acordo com os relatos de moradores, a chuva teve uma duração curta, mas de elevada intensidade.  Pluviômetros oficiais indicaram precipitações que vão de cerca de 80 a cerca de 120 mm, durante aproximadamente duas horas. Contudo, moradores de residências localizadas nas regiões mais intensamente afetadas, que possuíam pluviômetros caseiros com marcações até 130 mm, relataram seu transbordamento durante o evento. As evidências apontam, desta forma, que o evento chuvoso foi bastante regionalizado, incorrendo em elevada precipitação em uma área pequena área, sobre as encostas que deflagraram os escorregamentos.

Algumas percepções eram comuns a maior parte dos relatos: foram surpreendidos pelo evento, por nunca terem presenciado algo dessa magnitude e pensado que um desastre desta magnitude jamais aconteceria naquela localidade. Alguns moradores do bairro Revólver em Presidente Getúlio – a localidade mais afetada pelo evento – contudo, relataram a ocorrência de um evento semelhante há cerca de 80 à 90 anos. Também foram encontradas evidências do transporte de sedimentos de médio a grande porte, em camadas de solo expostas pela erosão decorrente dos fluxos de detritos, indicando a ocorrência de processos semelhantes no passado. Desta forma, apesar de existir recorrência do evento, a percepção de perigo por parte da comunidade tornou-se baixa devido ao elevado tempo de recorrência. O bairro Revólver foi relatado, por grande parte dos moradores, como “o bairro mais seguro da cidade”, dado que não era afetado pelas enchentes, que afetam os municípios da região de maneira recorrente. Essa falsa percepção de segurança também é refletida nos mapeamentos de perigo destes municípios, que tratam a suscetibilidade a movimentos de massa de maneira bastante incipiente.

O Grupo de Pesquisa em Desastres Naturais realizou a análise dos dados levantados em campo, a modelagem matemática e o mapeamento das áreas de suscetibilidade, com o objetivo de caracterizar o evento e prover aos agentes públicos uma maior densidade de informações para a tomada de decisão em planejamento urbano e mitigação de impactos, em caso de novas ocorrências. Tais informações foram formalizadas e disponibilizadas com a publicação do Relatório Técnico do Evento, publicado no site do grupo.

Os Membros do Grupo de Pesquisa em Desastres Naturais reafirmam o agradecimento à UFRGS, aos agentes públicos locais e, especialmente aos moradores, que ainda lidando com as consequências do evento, não mediram esforços para ajudar a equipe, no que fosse possível.