Quem quer parar de fumar pode começar mudando para cigarros mais fracos”

“Não misture bebida destilada com fermentada para não passar mal

“Tomar Café à noite não é recomendável para quem tem insônia”

As abordagens mencionadas acima são comuns quando o assunto é drogas legalizadas, como o álcool, a nicotina e a cafeína (vale lembrar que drogas são quaisquer substâncias, naturais ou artificiais, que em contato com o organismo modificam suas funções). Em remédios, especialmente os controlados, alertas estão obrigatoriamente na bula. A ideia é simples e faz bastante sentido: (quase) Ninguém vai deixar de tomar café se lhe disserem que faz mal, ou deixar de tomar uma bebida em uma festa se falarem que beber não é bom. O que se faz, então, é dar conselhos que reduzam as possibilidades das pessoas terem maiores problemas com a substância, ou literalmente reduzir os danos causados por ela.

De maneira geral, no entanto, a tendência é pensar diferente quando se fala de drogas ilegais. Drogas? Nem morto! Ou Apenas diga não. Crack? Nem pensar! A ideia costuma ser de que as drogas ilegais são, por si só, altamente viciantes, capazes de transformar um sujeito normal em um “zumbi” em uma tragada, e logo levá-lo a morte. O problema é que essa ideia está completamente ultrapassada. Sabe-se que a ilegalidade de algumas substâncias é resultado muito mais de preconceito do que de qualquer estudo científico sobre o perigo delas, e a proibição acaba apenas excluindo os usuários.

O vídeo abaixo foi adaptado do livro “Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs” do jornalista Johann Hari, do Huffington Post. O assunto: drogas, vícios e suas causas. Será que é fácil ligar uma coisa a outra? A produção do audiovisual é de Kurzgesagt, um grupo de pessoas que trabalha com design e animação com fins (também) educativos.

Mas afinal de contas, o que é Redução de Danos?

A Redução de Danos (RD) faz parte de uma estratégia de abordagem dos problemas com as drogas, que não parte do princípio de que precisa haver uma imediata e obrigatória extinção do uso dessas substâncias. Pelo contrário, a RD formula práticas que diminuem os danos para aqueles que as consomem e para os grupos sociais em que convivem.

As estratégias da RD se baseiam nos princípios de Tolerância, Pragmatismo e Diversidade. Tolerância diz respeito às escolhas individuais. A liberdade individual deve ser preservada e cabe ao usuário decidir qual a melhor forma de tratamento, seja o consumo reduzido da droga ou a abstinência. O pragmatismo parte do princípio de que o objetivo maior da RD é preservar a vida. Por isso, mesmo que a meta a ser alcançada seja a abstinência total da droga, se ela ainda não for possível, ações para a preservação da vida devem ser tomadas. E diversidade indica a compreensão de que as pessoas são diferentes, usam drogas de formas distintas e há muitas maneiras de compreender a questão – além de variados pontos de vista, incluindo a dimensão social do indivíduo, aspectos culturais, psicológicos, biológicos e jurídicos.

A RD está direcionada a uma forma de agir mais humanitária e é uma medida de baixa exigência, ao contrário das estratégias proibicionistas, porque não fixa como meta inicial para o tratamento a interrupção total do uso da droga.  A estratégia também permite que o usuário participe de seu tratamento, o que a faz ser formulada de baixo para cima, construída em conjunto e em defesa daqueles que usam drogas, e não apenas com base em pesquisas científicas ou estudos acadêmicos.

Dessa forma, para captar as necessidades de uma população específica, mapeando quais estratégias devem ser executadas, são necessários o diálogo e o estabelecimento de um vínculo entre os executores da Redução de Danos e os beneficiados por ela. Não há uma lista de de ações definidas com antecedência que possam ser classificadas como estratégias de RD, mas apenas indicadores, caminhos que podem ser seguido ou não. Também não existe um roteiro. Cada usuário, assim como cada redutor de dano, adota a medida que se adapta melhor à rotina do indivíduo e sua disposição a interromper o uso da droga, ou apenas moderá-lo.

PRÓXIMA PARTE
REDUÇÃO DE DANOS NO BRASIL