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Do rio cansado que insiste em existir ao monumento de concreto euclidiano. As duas rotas, uma atenciosa e outra displicente, surgem como alternativa ao usuário cadavérico. As margens de algo que precisa ser calado servem de caminho ao fetiche porto-alegrense recém reformado. Estes se tornam, no entanto, inconfundíveis pontos de referências: no quarto tu desce. Quatro.

Exprimido entre carros que sufocam os congeladores de tempo, há sempre duas gigantescas escadas:

A primeira – adotando o sentido sul-norte – próxima à três depósitos de moribundos, é onde sobem – ou descem – aqueles cujo período nesse Vale de Lágrimas recém começou. Protagonizam publicidades de refrigerante cola, fazem protesto no centro quinta-feira e lotam bares na parte baixa da cidade.

A segunda – mesmo sentido –, onde ainda não chegou o caminho em vermelho desastrosamente chamado de ciclovia, sobem os mesmos tipos. A nada se diferem morfologicamente. Não vale a pena dissertar sobre psicologismos nas lendas populares, pois pouco se ganha ao levar a sério preconceitos desse povo. Não vale a pena ouvi-los pois pouco tem de substancial.

Em suma: ambos, ocupadores de espaço.

Tipos diferentes, morfologicamente desiguais e socialmente intragáveis, também sobem, dessa vez pouco a pouco, para fazer o que fazem de melhor: ocupar espaço. Juntam-se em horários similares e decidem ocupar espaços juntos. Nas vias, há a típica disputa dos ocupadores de espaço e dos invasores de espaços. Por essa diferença, entende-se:

O primeiro – objeto do atual relato – sempre vem em bando. São em maior número, mas por uma síndrome de Estocolmo, não valem tanto quanto o segundo. Com uma proposta coletiva – mais por condição do que alteridade humana – ocupam o mesmo espaço, desejando o dia em que se tornarão como seus rivais.

O segundo – rival do primeiro – é individual. Ocupa mais espaço, sente-se mais no direito. Devido a um método que clama ser por mérito, este tem sempre mais valia sobre o segundo. Embora por substância, entendam-se como iguais.

Em suma: ambos, sedentos por espaço.

Um dia, conta-se, o rio caudaloso tentou chegar até ao monumento euclidiano que, desesperado, ruía pelos arranhões insanos dos ocupadores de espaço. Os invasores, temendo o pior, tentaram fugir mas acabaram sendo engolidos pelo rio caudaloso que, como já foi dito, há muito estava cansado. Os ocupadores de espaço então, sedentos por espaço e espaço e espaço, viram nesse motim uma luz no fim do túnel: poderiam, finalmente, tornar-se invasores. Todos queimaram raivosos aqueles que um dia os abrigou. E, juntos, de mãos dadas, como num fim épico digno de mitologia, foram nas concessionárias que permaneceram intactas à tragédia.

– Um invasor de cada vez!

Gritava, feliz da vida, o vendedor.

 

 

Gabriel Nonino