TRANS: a luta pela própria identidade

A Constituição brasileira é clara: todos têm direito à educação, à saúde e ao trabalho, permitindo que as pessoas vivam de forma digna, com direitos iguais. Porém, basta olhar para o lado, ou para pesquisas, para perceber que, muitas vezes, essas garantias ficam apenas no papel. Ou, então, são destinadas apenas a uma parcela das pessoas. Exemplo dessa discrepância pode ser observada na população transgênera – indivíduos cuja identidade de gênero não corresponde ao seu sexo biológico –, que sofre com a falta de visibilidade, um dos motivos que nos impede de ver o quanto são desrespeitados. “As travestis e as transexuais servem só para ser profissionais do sexo. A gente não tem direito de acesso ao mercado de trabalho”, descreve Joyce da Silva, 56 anos, ativista da Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul.

O artigo terceiro da Constituição Brasileira estabelece como objetivos fundamentais construir uma sociedade livre, justa e solidária e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Na prática, essas normas nem sempre são respeitadas. De acordo com a ONG Transgender Europe, em números absolutos, o Brasil é o país com o maior número de registros de assassinatos relacionados à população transgênera (T). Entre 1º de janeiro de 2008 e 30 de setembro de 2016, foram 900 crimes. Em segundo lugar está o México, com 271 assassinatos. Três vezes menos. Crimes que acontecem, muitas vezes, porque as vítimas estão socialmente desprotegidas e são marginalizadas pela sociedade.

Ao se identificar com um gênero diferente do que lhe foi atribuído no nascimento, o transgênero enfrenta uma luta permanente para que seja reconhecido e respeitado pela sua verdadeira identidade. O estudante de Design Visual Milo Cardoso, 21 anos, destaca que o simples fato de circular por lugares públicos já é uma dificuldade para a população trans. “As pessoas que vão te ver na rua, elas vão te olhar e tem que te encaixar num quadradinho”. Além disso, são excluídas do mercado de trabalho e dos ambientes escolares que sequer avaliam o seu potencial e conhecimento. “Eu gostaria que houvesse mais inclusão. Que fosse visto a capacidade de produção da pessoa, mas é muito difícil porque o preconceito é muito grande”, afirma Julianne da Costa Rosa, 62 anos.

Distantes do mercado de trabalho formal e das escolas e universidades, são marginalizados e hostilizados. Precisam conviver com o assédio e o machismo. “Eu já sofri com difamação, assédio sexual, moral e afetivo. Isso me atrasou a vida em um ano e meio porque eu não conseguia sair de casa. Eu cheguei a 62kg para 1,84m. Eu estava virada num palito”, relata Julianne. A violência contra a população T é tão grande que a sua expectativa de vida é baixíssima. Enquanto a média de vida do brasileiro é de 75,5 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos transgêneros a média cai para 35 anos.

A reportagem “Trans: a luta pela própria identidade” propõe uma reflexão sobre questões sociais que precisam ser discutidas. Além de buscar uma maior visibilidade à comunidade trans, serão disponibilizadas informações relacionadas a serviços, a educação e ao mercado de trabalho.

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