5. Trabalho

“Eu passei anos desempregado porque não conseguia emprego. Eu mandava currículo e tudo mais, mas ou não me chamavam ou recebia ligações de pessoas me debochando. Não tinha como outras pessoas saberem meu telefone porque eu só colocava no currículo”, afirma Vincent ao relatar como o preconceito com pessoas trans interfere na falta de oportunidades no mercado de trabalho.

Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) mostram que 90% da população trans acaba na prostituição. “Costumam dizer que pessoas T só têm duas opções: ou se prostituir ou ir para a área da beleza”, afirma a jornalista Luiza dos Santos, que, devido à falta de oportunidades, se tornou manicure por um tempo. “Devido a estereótipos, este mercado é um dos poucos que nos aceita. Tentei trabalhar na área e percebi que não é para mim porque não consigo atingir o nível de exigência necessário. Eu era uma desgraça para fazer (unha) francesinha. Me senti um peixe fora d’água”.

“Costumam dizer que pessoas T só têm duas opções: ou se prostituir ou ir para a área da beleza. Devido a estereótipos, este mercado é um dos poucos que nos aceita.”

 

 

Essa situação demonstra que, muitas vezes, as pessoas trans não têm a oportunidade de escolher o que querem seguir e precisam se conformar com uma realidade que é imposta pela sociedade. A situação se torna um ciclo: a falta de oportunidades de estudar também interfere diretamente na busca pelo emprego. “Geralmente pedem um segundo grau, até a questão do ensino da faculdade, que muitas vezes (pessoas trans) não têm acesso a essa parte do ensino. Completam só o fundamental, que é o básico, para poder, no caso, tentar entrar no mercado de trabalho”, afirma Joyce.

Luiza relata que o preconceito desestimula as pessoas trans na busca por um espaço no mercado de trabalho. “Eu trabalhava em uma empresa de cosméticos e sofri um episódio de transfobia. Não só por parte da minha diretora, como por parte das superioras delas. O negócio pesou muito. Simplesmente desisti de procurar emprego. Felizmente, pude tomar essa decisão porque minha mãe me apoia. Sem isso, a situação seria bem diferente.”

A jornalista relembra uma cena da novela A Força do Querer, exibida pela Rede Globo em 2017, e afirma se identificar com o personagem. “Teve aquela cena em que o Ivan foi procurar emprego numa loja. Quando chegou lá, a mulher disse que a vaga já tinha sido preenchida. Isso é comum, já passei por isso. É o retrato final da nossa realidade”.

Carol Duarte (dir.) interpretou Ivana em “A Força do Querer”, da TV Globo. A personagem se descobriu uma pessoa trans na trama e adotou o nome de Ivan. (Foto: Reprodução/TV Globo)

 

Existem iniciativas que visam ajudar a população transgênera a conseguirem serviços, como o Transempregos. Fundada em 2013 por um grupo de ativistas, a iniciativa cria uma ponte entre as pessoas que estão procurando emprego e as empresas que estão dispostas a contratar pessoas trans. Mesmo assim, a falta de oportunidades ainda se faz bastante presente. “Nós estamos tendo um problema muito grande com o mercado de trabalho. Porque, até então, não é questão de não ter trabalho e, sim, de não ter oportunidade. Muitas empresas não disponibilizam oportunidade para nossa população trans”, afirma Joyce.

Segundo a ativista, algumas empresas chegam a contratar pessoas trans, mas não são a maioria. “Têm empresas que já estão empregando a nossa população, mas ainda são poucas meninas que têm acesso ao trabalho. Além disso, há meninas que têm pouco estudo e que precisam ter um conhecimento grande para serem inseridas dentro do mercado de trabalho”, relata.

Para Luiza, a configuração atual da sociedade não aceita as pessoas trans em nenhum ambiente. “No fim das contas, você percebe que cistema não foi feito para ti. Quando digo, cistema, não é cistema com “s”, é com “c”. Porque a nossa sociedade é cisexista, cisnormativa. Nossa sociedade é cisheteronormativa. Essa é a realidade. As pessoas trans acabam seguindo esse caminho”.