A arte é inevitável no Brasil de hoje, diz filósofo

Entrevista | Guilherme Mautone, doutorando em Filosofia, comenta o significado da arte e dos impulsos de censura
Foto: Flávio Dutra/JU

A arte tem vários papéis: em âmbito coletivo, de retratar o tempo histórico ou de ser a vanguarda da sociedade; na esfera pessoal, de expressar emoções, fomentar a identidade e criar laços com outros indivíduos. De qualquer forma, a arte é uma constante na história da humanidade, embora atravesse períodos de censura e incertezas. Em entrevista ao JU, o doutorando em Filosofia com ênfase em arte Guilherme Mautone reflete sobre a natureza da arte, seu contexto atual e a repressão que sofre.

A arte é inescapável ao ser humano?
Interessante a formulação de que a arte é inescapável ao ser humano. Parece que a arte é uma entidade autônoma, que se autorregula. Mas acho que a preocupação de fundo dessa pergunta é se a arte tem alguma vinculação essencial com a ideia de humanidade. Acredito que sim, de duas maneiras: tem um fato empírico, objetivo, antropológico, de que o homem desde o paleolítico produz determinadas coisas especificamente, e essas expressões sempre estiveram ao longo da história da humanidade. Mas eram diferentes do que a gente entende hoje em dia como arte. No entanto, o que interessa para a filosofia não é a relevância desse fato, mas como a gente justifica, entende e argumenta a respeito da existência desses objetos ao longo da história. Nesse sentido, eu acho que é interessante pensar a arte como inescapável, algo que nos inquieta e promove pensamento, como a Filosofia. Podemos continuar essa discussão com a seguinte afirmação: não é possível não fazer arte. Especialmente no momento em que a gente tá vivendo, acho que é inevitável fazer arte.

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Por que existe o medo da arte?
A arte movimenta posições diferentes e não se posiciona de uma maneira muito clara em relação às questões políticas, econômicas e sociais. Ela fica no “entre”, trabalha com a ambiguidade. Por não tomar partido, causa espanto e também trata de elementos mais sombrios da natureza humana. Platão, no século V a.C., oferece dois argumentos para a expulsão dos artistas da cidade ideal: um argumento metafísico, ontológico, sobre a natureza da arte; e um argumento moral, dizendo que a arte estimula as partes mais vulgares da alma dos homens, e os homens não podem se dar a essas emoções complicadas, têm que estimular a parte racional da sua alma. Podemos entender isso como um pouco de medo desse encontro que a arte proporciona com a natureza mais sombria do ser humano. Isso toca no tema da censura e retoma como entendemos a arte atrelada à humanidade, porque se pode dizer que a arte proporciona o encontro e o diálogo e, no momento em que a censuramos, também cerceamos essa possibilidade. Se é isso que nos faz humanos, a gente tá perdendo um pouco da nossa humanidade também.

Defina arte.
Definir arte é um problema filosófico interessante. Quando a gente sobrepõe a história da arte e a história das filosofias que procuraram pensar a arte, temos uma história das definições de arte. Para os gregos, a arte é imitação, mimesis. Depois temos conceitos de arte como representação, expressão, mais contemporaneamente como experiência e estética, depois como forma significativa. Mas a definição sempre é um trabalho de estabilização. É possível estabilizar esse tipo de coisa que é a arte se está sempre mudando? É interessante pensar o quanto as definições também limitam a criatividade dos artistas. Têm teóricos e artistas contemporâneos trabalhando essa noção de que talvez seja difícil, e academicamente empobrecedor, discutir uma definição de arte.

Definir é quase uma forma de censurar?
Não sei se censurar, mas limitar. Isso não é necessariamente ruim; a filosofia trabalha com definições. Agora, existem outras maneiras de identificar a arte. Em 1964, Andy Warhol apresenta como arte as Brillo boxes – caixas de sabão idênticas às dos supermercados. Então o filósofo Arthur Danto se dá conta de que existe algo que determina a obra de arte que não depende mais de aspectos que são manifestos aos olhos, aos ouvidos, que não são mais estéticos, mas que dependem de um contexto. E cria o conceito de Mundo da Arte, que trabalha com essas ideias todas desse contexto maior no qual os objetos aparecem. Passa da necessidade de uma definição essencialista que diz “olha, esse objeto tem uma propriedade x que o faz arte” e começa a dizer “olha, esse objeto agora participa desse contexto e se torna arte”. 

Não se usam mais definições para falar de arte, mas também arte não é qualquer coisa. Danto diz ainda: “Tudo pode ser arte, isso não significa dizer que tudo é arte”. Então, se essas coisas ingressam nesse mundo da arte, ingressam nesses contextos pelo trabalho de artistas e acabam se tornando obras de arte.

Foto: Flávio Dutra/JU

Um governo que se pretende autoritário tende a querer controlar também a arte?
Acho que a censura à arte é um indício do crescimento do autoritarismo. Essas iniciativas nos levam a uma sociedade que não consegue partilhar sensivelmente as produções artísticas, as expressões diversas que produz, começa a não ter mais paciência ou interesse em proporcionar o encontro que a arte e a filosofia produzem. O debate, o dissenso, o contraditório são jogados no lixo, e isso vai descaracterizando o que conhecemos como sociedade democrática.

Qual a importância dessas diferentes expressões para a construção de um coletivo?
Essencial. Tem uma discussão a respeito de racismo na obra da Tarsila do Amaral, por exemplo, sobre a representação de figuras negras descaracterizadas, sem traços que demonstram subjetivação. Mas no momento que têm artistas como a Rosana Paulino, que trabalha com essas questões também, as pessoas começam a olhar e se sentir representadas. Eu trouxe, mais ao gosto filosófico, uma questão da arte como proporcionadora de encontro e discussão. Mas se tu levar para a análise de uma teoria social, dá para a gente pensar nas expressões da cultura também como agregadoras sociais, como colas desse tecido social.


Emerson Trindade Acosta

Estudante de Jornalismo da UFRGS