A doença Noma na Guiné-Bissau

Artigo | Mirinda Fernando Cana Ié e Izabella Barison Matos, do PPG em Saúde Coletiva, discutem a incidência de doença tropical negligenciada, no país da África Subsaariana, e que ocasiona a destruição dos tecidos da face

*Por: Mirinda Fernando Cana Ié e Izabella Barison Matos
*Foto: Vic Macedo

Como guineense, tendo vivido no meu país por 22 anos e pretendendo retornar após a conclusão do mestrado, gostaria de poder contribuir – como profissional da saúde (enfermeira e sanitarista) – para a melhoria das condições de vida principalmente das crianças guineenses. Em 2021, conquistei vaga no Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva (PPGCol) da UFRGS e, tendo feito a qualificação em fevereiro de 2022, estou em fase de elaboração da dissertação sobre a Noma, doença que afeta especialmente crianças entre 2 e 6 anos em condições vulneráveis de saúde em países da África Subsaariana, dentre os quais a Guiné-Bissau.

Ainda pouco conhecida, com escassos dados na literatura, pode-se dizer que a maioria das publicações sobre a Noma está voltada a estudos de caso. Embora não haja consenso sobre sua causa, acredita-se que seja multifatorial, caracterizada pela interação entre desnutrição, doenças infecciosas (sarampo, malária e HIV-AIDS), má higiene bucal, indisponibilidade do serviço específico, condições sanitárias precárias e extrema pobreza. Apresenta-se como uma Doença Tropical Negligenciada (DTN) e destrutiva da região orofacial, entretanto, ainda não foi incluída na agenda das Doenças Tropicais Negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que seria fundamental para a sua erradicação.

A Noma inicia com uma inflamação gengival, evoluindo rapidamente para a destruição dos tecidos moles e duros da face. Os sobreviventes dessa enfermidade enfrentam diversas alterações faciais graves, resultando em prejuízos funcionais, incluindo dificuldades na alimentação, na fala, na respiração e na visão.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimava, em 1998, que no mundo havia uma tendência à alta incidência, à prevalência e à mortalidade, chegando a 90% de casos de Noma com predomínio em países da África Subsaariana com características de pobreza extrema e ausência de serviços de saúde, de educação e sociais, o que ocorre na Guiné-Bissau. 

Neste país, entre 2009 e 2013, foram diagnosticados 148 casos da Noma, dentre os quais 43 crianças submetidas a tratamento cirúrgico no Centro de Tratamento Noma, construído pela Organização Não Governamental (ONG) alemã Hilfsaktion Noma, que atua no país desde 2008. Esse Centro e o Centro de Reintegração estão localizados na cidade de Bissau, capital do país; o primeiro com capacidade para 15 pacientes, cujo tratamento, cirurgias e medicamentos são gratuitos; já o segundo é responsável pela formação e reinserção social. Há também em Safim, no interior do país, a Casa das Crianças, destinada à preparação dos pacientes para procedimentos cirúrgicos.

Numa entrevista à emissora televisiva alemã Deutsche Welle em 2013, Bacar Mané, assistente social do centro de tratamento, informou que o aumento de casos na Guiné-Bissau – de 106, registrados em 2012, para 148 em 2013 – se deve em parte ao preconceito que envolve as pessoas com Noma, pois parte da população associa a doença à maldição. Literatura sobre a cosmovisão relativa à vida e, principalmente, à doença indica que a sociedade guineense tende a legitimar práticas terapêuticas tradicionais. Estas envolvem o apelo a curandeiros como primeira alternativa à manifestação de doenças, situação que pode estar ocorrendo em casos de Noma, podendo implicar o retardo na busca do tratamento específico – ofertado somente pela ONG – e ser responsável pela ocorrência de maiores danos. Embora a atuação da ONG abranja ações preventivas e de conscientização sobre a Noma, verifica-se insuficiência na divulgação das informações. 

Diante de tal quadro, esboçado brevemente, pretendo – para além de aprofundar o conhecimento acerca da doença Noma na minha dissertação junto ao PPGCol – propor o desenvolvimento de ações que visem à promoção da saúde bucal e à boa alimentação de crianças como forma de enfrentamento à Noma, considerando aspectos da realidade social, cultural e econômica do meu país. Importante registrar que o tema saúde bucal vem me acompanhando desde a graduação, quando, para o Trabalho de Conclusão de Curso, abordei a condição de saúde bucal das crianças de 4 a 5 anos no interior do Ceará, além de ter atuado em projetos de extensão e pesquisa na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), em Redenção (CE). 


Mirinda Fernando Cana Ié é enfermeira (UNILAB) e aluna do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva (PPGCol) da UFRGS.
Izabella Barison Matos é doutora em Saúde Pública (ENSP-Fiocruz) e atua como professora-visitante no PPGCol da UFRGS.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”

Especial África

As imagens desta edição foram feitas por Vic Macedo. A partir de um capítulo trágico da história do continente africano, Vic aborda os atos de suicídios dos cativos durante o período do tráfico negreiro— não como sinal de fraqueza, mas como ato de insubmissão e resistência ao trabalho escravo.

Vitória Macedo (Porto Alegre, 1994) é artista visual e graduada em Fotografia pela Unisinos. Clique aqui e confira o ensaio completo que ilustra o Especial África do JU.