A excelência em pesquisa na Unicamp

Foto: Antoninho Perri/ SEC Unicamp (Divulgação)

O reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcelo Knobel, participou da recente reunião dos reitores da Associação de Universidades Grupo Montevidéu (AUGM), que ocorreu no Centro Cultural da UFRGS no início de maio. Na ocasião, apresentou em números a expansão da pesquisa da Unicamp, mas também avaliou os riscos que as novas políticas de cortes do governo federal representam para o desenvolvimento da pesquisa no país.

A que você acha que se deve a avaliação tão positiva da Unicamp?
A Unicamp já foi criada com um modelo diferente. Houve uma motivação muito forte dos idealizadores da universidade de atrair sempre os melhores talentos. Isso foi consolidado com os diversos programas que foram surgindo ao longo dos anos, principalmente logo após a autonomia universitária do estado de São Paulo, o programa chamado Projeto Qualidade – que foi a qualificação de todos os profissionais e professores da universidade e elevou o patamar de qualidade da instituição em tempo relativamente curto.

Que tipo de investimentos e ações esse projeto teve?
Na época, nem todos os docentes eram doutores, então houve um esforço em capacitar os docentes. Hoje, 99% dos nossos professores são doutores e 98% trabalham para a universidade em tempo integral.

A Unicamp se destaca bastante no campo da pesquisa. Como são as políticas da universidade para tratar desse tema?
É uma universidade diferenciada, porque temos praticamente o mesmo número de estudantes de graduação e pós-graduação, em torno de 20 mil alunos de graduação e 20 mil de pós. São mil doutores formados todo ano. Isso sempre caracterizou a universidade, e cada vez mais é parte integrante do dia a dia da Unicamp.

Passamos por um momento de sérias críticas à universidade pública. Como a Unicamp tem se posicionado diante desse cenário?
Temos nos posicionado ativamente, defendendo a universidade pública, mostrando dados concretos, os resultados da instituição. Nossa postura é continuar fazendo o que a gente faz, cada vez mais e cada vez melhor.

Vocês têm alguma ação já desenhada para uma interação com a comunidade?
Nós temos a assessoria de comunicação e temos feito todo tipo de ação possível. Recentemente, fizemos a Universidade de Portas Abertas e recebemos 40 mil visitantes. A área de saúde também é importante, é uma conexão que fazemos no dia a dia. Estamos preparando uma série de eventos, discussões, diálogos. Queremos aprimorar as relações com outras instituições de poder, da sociedade. Temos um diálogo muito interessante com o Ministério do Trabalho e com diferentes atores para respeitar e estreitar laços.

Quando pensamos no fomento da pesquisa, dependemos muito do orçamento estatal. Como percebes isso em relação a outros países?
Em qualquer lugar do mundo, a pesquisa, embora isso seja pouco conhecido, depende fortemente dos recursos estatais. Em todo lugar é assim. Há mitos que precisam ser desconstruídos. Diz-se muito que as universidades não têm contato com empresas, mas isso não é verdade. Este ano, 30% dos valores da Unicamp a gente captou fora, então tem uma quantidade considerável de recursos que captamos de empresas, recursos que não são os nossos. Existe uma falsa ideia de que as universidades não têm captação fora, o que geralmente não é verdade. Em boas universidades públicas do país, o contato com empresas, convênios e projetos com agências são muito importantes para alavancar a pesquisa.

Como a Unicamp tem sido acompanhada para perceber a movimentação orçamentária na pesquisa?
A Unicamp já nasceu com essa perspectiva da inovação, de contato com o setor produtivo. Creio que um ponto importante foi a criação da INOVA, na Unicamp, 16 anos atrás. Isso organizou o contato com as empresas. Tem dado frutos muito interessantes dentro da universidade.

Como poderíamos sintetizar a comparação entre a Unicamp e o MIT (Massachusetts Institute of Technology)?
As duas universidades são muito próximas. O tamanho em termos de professores é muito parecido, mas a Unicamp tem muitos estudantes, embora tenha muito menos pós-doutores. Em termos de recursos, a captação é parecida. A diferença está na quantidade de recursos que o MIT consegue captar, por agências de fomento, e isso reflete muito na pesquisa.

Existe política específica dentro da Unicamp para que os projetos tenham mais duração?
Isso depende muito mais das agências de fomento. Como o momento é delicado, temos muitas incertezas com relação a projetos de pesquisa com maior envergadura. Em São Paulo, temos a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, que criou o centro de pesquisa de inovação e desenvolvimento, um projeto de 10 anos de duração. Atualmente temos projetos com empresas com maior inovação e envergadura. Isso nos dá certa estabilidade.

Everton Cardoso

Editor-chefe