A intensa experiência de voluntários nas ruas de Porto Alegre

Solidariedade |Na contramão da pandemia, pessoas mesmo em isolamento social participam de ações de ONG que leva refeições a moradores de rua e a comunidades paupérrimas

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Não é a primeira vez que Vera e Lourenço veem se formar uma longa fila na frente de sua casa, na rua L, na Vila Fátima Pinto, no bairro Bom Jesus. Embora não conheça a maioria das pessoas enfileiradas, a técnica em enfermagem sabe que são moradores da vizinhança e que passam dificuldade econômica, por isso precisam muito das quentinhas doadas por diferentes grupos e instituições. Moradora há 24 anos no bairro, ela considera que é melhor quando distribuem comida pronta, porque “quando a gurizada recebe alimento cru, vende pra comprar droga”, argumenta.

Nessa noite em especial, dia 13, foram entregues 200 marmitas pelos voluntários da ONG Misturaí. Todos os dias das últimas semanas, essa organização tem levado a pessoas em situação de rua e, mais recentemente, a comunidades paupérrimas, de 300 a 400 marmitas, sempre no final de tarde, a partir das 18h, saindo da sede da instituição, na rua Luiz Manoel, 229, dentro da Vila Planetário.  

Lourenço e Vera observam a distribuição de quentinhas pela ONG Misturaí em frente à sua casa, na vila Pinto, no interior da Bom Jesus, em Porto Alegre (Foto: Flávio Dutra/JU)

Mara Luisa Freitas Nunes, coordenadora da ONG e moradora do local onde fica a sede, relata o quanto ficou impactada quando participou pela primeira vez de uma distribuição de refeições para pessoas em situação de rua na Praça da Matriz. 

Por mais dificuldades que tenha passado com a criação de muitos filhos, o fato de ver gente correndo para pegar um prato de comida a deixou muito comovida. “Chorei”, confidencia. 

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Logo que começou a recomendação da quarentena como prevenção à covid-19, Gabriel Goldmeier, idealizador da Misturaí, se deu conta do iminente agravamento da realidade do pessoal em situação de rua: “os restaurantes iam fechar, ia diminuir a circulação de carro nas ruas”, precarizando ainda mais a falta de alimento para essa população. 

No dia 17 de março ele participou de uma reunião na Escola de Porto Alegre, juntamente com outras organizações e representantes de órgãos oficiais, para discutir o assunto. Um dos objetivos de participar desse encontro, revela Gabriel, era aprender com diferentes grupos que já trabalhavam com pessoas em situação de rua. “Buscamos a experiência do PF nas Ruas”, comenta em especial sobre a iniciativa que também distribui refeições. 

Mara lembra-se de sua reação quando Gabriel voltou dessa reunião e perguntou o que ela achava de produzirem quentinhas na Misturaí. “A nossa despensa está quase vazia, só temos uns pães congelados – eles servem café da manhã e lanche às crianças da Vila –, nem temos verba pra isso”, foi a primeira resposta. “Mas se eu conseguir, tu entra nessa comigo”, continuou ele em provocação à única funcionária da organização. A resposta ficou em suspenso, só que “em três dias começou a chegar feijão, arroz…, o Gabriel conhece muita gente”, recorda a coordenadora. 

Voluntariado

Camila Noguez é casada com Alex e tem dois filhos pequenos, João e Tereza, de 3 e 4 anos. Formada em Psicologia, desde 2012 trabalha na Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS. Começou a colaborar com a Misturaí a convite de uma amiga, também psicóloga. Depois ela própria arregimentou mais dez colegas de trabalho, todas da Universidade, para serem voluntárias na ONG, em especial no projeto Amparaí, como foi batizada a iniciativa das quentinhas em tempos de coronavírus. 

Ela e a família moram no bairro Bonfim, no centro de Porto Alegre, onde reside a maior parte dos voluntários que colaboram produzindo refeições em suas cozinhas. Atualmente Camila tem se dedicado bem menos às ações sociais, mas por três dias ela e o marido prepararam marmitas para serem distribuídas pela ONG. Por serem muito pequenos, num primeiro momento, Tereza e João reclamavam atenção, queriam brincar com os pais que estavam às voltas com mantimentos e panelas. 

Dessa forma, enquanto cozinhavam, explicavam sobre o que estavam fazendo e por que estavam fazendo. “Havia realidades diferentes da nossa”, foi uma das justificativas para estarem preparando comida para outras pessoas, para desconhecidos. Num segundo momento, conforme a narrativa de Camila, eles passaram a desenhar nas tampas de algumas quentinhas, fizeram tigres e feras. “Estão nessa fase agora”, explica sobre a temática das ilustrações dos filhos.

Da experiência como o projeto, Camila destaca o quanto é diferente o engajamento em uma causa como a de cozinhar quentinhas. “Transferir para uma conta não te torna afetivamente engajado”, alega sobre porque prefere participar diretamente em vez de doação de valores. Cozinhar, segundo ela, exige atenção: saber dosar o sal, distribuir igualmente a comida entre as viandas. 

“O fato de ter um destinatário no horizonte te traz um retorno.”

Camila Noguez

Para a psicóloga, especialmente em um momento de confinamento social, o voluntariado junto ao Amparaí evidencia-se como uma experiência de conexão. “O uso do teu tempo e das tuas possibilidades para algo que vai além de ti mesmo cria uma conexão”, sintetiza. 

Simone Otto também é voluntária na Misturaí. Jornalista de formação, abandonou a profissão há algum tempo e começou a se dedicar à culinária. Há um ano, ela vem realizando trabalho voluntário junto à ONG e no momento coordena o trabalho dos voluntários que preparam as quentinhas em suas casas. Segundo ela, na primeira ação realizada no dia 30 de março colaboraram 20 pessoas; hoje, são mais de 45 colaboradores cadastrados que cozinham de uma a seis vezes por semana, preparando no mínimo 20 viandas por vez. No início do programa, as refeições eram produzidas exclusivamente na cozinha da sede, mas agora, de acordo com Simone, estão evitando ao máximo produzir no local. “Para prevenir aglomeração”, explica.  

Além de planejar e organizar a produção das quentinhas, Simone também orienta quanto aos procedimentos e cuidados para evitar contágio na hora de preparar os alimentos e de montar as marmitas. Todos os colaboradores recebem luvas e máscara, assim como embalagens e colheres para prepararem os kits. A maioria dos voluntários-cozinheiros recebe os insumos adquiridos pela ONG, mas existem alguns que angariam doações de ingredientes ou eles próprios compram os mantimentos para produzir as comidas. No total, são aproximadamente 70 voluntários que trabalham em diferentes funções, desde a compra dos produtos à entrega das quentinhas, implicando também atividades de planejamento e prospecção. 

Moradores recebem as quentinhas com comida. Feitas por voluntários em suas próprias casas ou por membros da ONG, a comida tem sempre uma proteína e algum carboidrato (Foto: Flávio Dutra/JU)
Mapeamento 

Elisa Casagrande já possuía experiência com trabalhos sociais quando passou a dedicar horas de seu dia a atividades culturais na Misturaí. Mas quando a ONG começou a desenvolver exclusivamente o trabalho de produção e distribuição de quentinhas, ela diz que a característica e demanda do trabalho social ganhou outra dimensão em sua experiência. 

“Entrei mais fundo do que esperava”, confessa. Relações Públicas de profissão, com mestrado em diversidade cultural e inclusão social, nas duas primeiras semanas do Amparaí, Elisa dedicou-se à organização da logística, articulando uma gama de ações diferentes: arrecadar, comprar, cozinhar, entregar. 

“O grande diferencial aqui é valorizar tanto quem tem a experiência de vida como quem tem formação.”

Elisa Casagrande

Nas últimas semanas, juntamente com dois outros integrantes da Misturaí, ela vem se ocupando com a construção de uma ferramenta virtual – aplicativo, site, etc. – que concentre as informações de um mapeamento que já vem sendo realizado, indicando as concentrações de pessoas que necessitam de doações e de grupos informais ou ONGs voltados a essas populações que venham atuando. Um dos objetivos desse levantamento, de acordo com Elisa, é evitar que diferentes organizações abasteçam os mesmos grupos e, assim, mais pessoas possam receber alimentação. Quanto à ferramenta, ela explica que não só disponibilizará os dados resultantes do mapeamento como também servirá como a primeira porta de entrada para futuros voluntários. “Para saber quando, como e onde se inserir nesse processo”, resume. Qualquer pessoa pode apoiar a Misturaí.