A memória viva de Custódio, príncipe africano que viveu em Porto Alegre

História | A trajetória e o mito do habitante da Cidade Baixa que se tornou um símbolo da luta antirracista e pela livre expressão de cultos africanos

*Foto de capa: Flávio Dutra/Arquivo JU 20 mai. 2017

“Eu cresci com a história do príncipe Custódio”, conta Nina Fola, doutoranda em Sociologia pela UFRGS e participante da Comunidade Terreira Ilé Àse Yemonjá Omi Olódò, ao falar sobre a importância que a figura do príncipe adquiriu em sua vida. Apesar de toda a simbologia acerca da imagem de Custódio, sua história ainda não é conhecida por parte dos habitantes de Porto Alegre. Isso se deve, muitas vezes, à parca quantidade de registros históricos relacionados ao príncipe. Nina pontua que o racismo leva ao apagamento da história de pessoas pretas. “É fundamental a gente fazer a discussão sobre como o racismo nos tira memória. Memória de humanidade, memória de existência, de civilização”, acrescenta.

Mesmo com a invisibilização histórica, Custódio Joaquim de Almeida ainda é lembrado. A oralidade transmitiu grande parte do que se sabe sobre o príncipe, e, agora, as pesquisas acadêmicas avançam para resgatar sua memória e remontar sua trajetória na capital gaúcha. Na UFRGS, diversos estudiosos aprofundam o que se sabe sobre o príncipe e sua figura no imaginário porto-alegrense.

Custódio Joaquim de Almeida, ou Osuanlele Okizi Erupê, como era conhecido em Benin, seu país de origem e onde era príncipe, nasceu em 1831, como indica seu necrológio. Custódio teria vindo ao Brasil em busca de exílio devido ao imperialismo britânico e ao colonialismo europeu. O príncipe chegou ao estado da Bahia, supostamente, em 1898. A partir daí, diz-se que Custódio passou a peregrinar, seguindo ao Rio de Janeiro, onde se instalou por dois meses. Logo após, os búzios lhe teriam indicado que rumasse para o sul do Brasil.

No Rio Grande do Sul, Custódio viveu em diversas cidades, tais como Rio Grande, Pelotas e Bagé, possivelmente nessa sequência. Até que, em 1901, o príncipe teria chegado a Porto Alegre. A tradição diz que Júlio de Castilhos, presidente do estado de 1892 a 1898, havia solicitado cura espiritual para o príncipe, que era também famoso curandeiro e por isso foi levado à capital gaúcha.

Custódio morou no bairro Cidade Baixa, que na época, dentro do contexto pós-abolição, era ocupado pela população negra. Apesar disso, o príncipe tinha contato direto e estável com a elite da cidade e era praticante do turfe, esporte que consiste na corrida de cavalos, e que era frequentado, quase exclusivamente, pela alta elite. 


O legado de Custódio é conectado, na maioria das vezes, ao assentamento do Bará do Mercado Público de Porto Alegre, que foi realizado pelo príncipe com a intenção de abrir os caminhos da cidade. Também é atribuída como mérito de Custódio a disseminação do batuque no Rio Grande do Sul, já que as cidades por onde passou têm uma forte presença de adeptos de religiões de matriz africana.

As lacunas preenchidas e as não preenchidas

Em um recente estudo sobre a história do príncipe Custódio, os historiadores Jovani Scherer, mestre em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), e Rodrigo de Azevedo Weimer, doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), descobriram uma série de documentos inéditos e que esclarecem diversos pontos acerca da presença do príncipe em Porto Alegre. Por meio de uma ferramenta de busca do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, onde Rodrigo trabalha, os historiadores encontraram três processos envolvendo Custódio e, a partir daí, se iniciou uma série de análises sobre o que se acreditava ser real na história tradicional, advinda da oralidade, e o que realmente havia se confirmado como verdadeiro. 

“Durante muito tempo se dizia que não existia documentação sobre o príncipe Custódio. Era um personagem muito conhecido, muito falado, mas com pouca fundamentação em documentação, pouco embasamento. E isso levou a versões que a gente julgava um tanto inverossímeis, um pouco deslocadas do que a gente, como historiadores, estava acostumado a perceber desse período, dessa época em que viveu o príncipe Custódio”

Rodrigo de Azevedo Weimer

O primeiro processo que constava da ficha de Custódio era relacionado a uma briga em que o príncipe teria se envolvido com um “homem português” em um bar de Porto Alegre. “No momento do auto de qualificação, que é onde se descrevem as características para identificar o réu, uma série de coisas sobre o príncipe Custódio foi desmontada em algumas linhas”, revela Rodrigo, ao contar que o documento indicava o ano de 1885, dezesseis anos antes de quando se imaginava que Custódio teria chegado à capital gaúcha. Além disso, no documento, o príncipe declarou ter 32 anos à época, contrariando a ideia de que Custódio teria nascido na década de 1830.

Jovani também comenta sobre outro documento que revelou informações em relação à chegada do príncipe ao Brasil. Trata-se de carta ditada, “por não saber escrever”, e enviada ao jornal A Federação em resposta a uma reportagem publicada na véspera pelo Correio do Povo que o difamava – e que, segundo alude, “em sua totalidade é um trabalho de pura fantasia”. Custódio afirma: “Muito moço, vim para estas generosas terras onde constituí família”. Esse registro, datado de 22 março de 1933, ajuda a confirmar que ele veio ao Brasil ainda muito jovem.

Clique na imagem para ler a carta na “Secção Livre” do jornal A Federação de 22 de março de 1933. Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

A descoberta mais significativa, no entanto, está relacionada à sua descendência. No auto de qualificação, o príncipe revela o nome de seu pai, Joaquim de Almeida. Diferentemente do que se imaginava, o pai de Custódio não era um rei, apesar de Custódio ter sido reconhecido como príncipe em Porto Alegre. Segundo os historiadores Jovani e Rodrigo, acredita-se que Joaquim de Almeida tenha sido um homem muito poderoso e bem afortunado, que foi escravizado após as guerras que dissolveram o império de Oió e depois foi levado à Bahia. “Na Bahia, ele vai se tornar, logo em seguida, o braço direito de Manuel Joaquim de Almeida, de quem ele vai herdar o nome”, complementa Jovani. Trabalhando com Manuel, que era vinculado ao tráfico de escravos, o pai de Custódio se destaca e passa a ser parte de dez por cento dos homens mais ricos do estado.

Joaquim de Almeida volta ao continente africano após a Revolta dos Malês, dura repressão aos africanos na costa da Bahia que durou até o final do século XIX. Nesse contexto ele desempenha uma posição de liderança e poder ao chefiar um grupo de agudás (descendentes de mercadores de escravos e ex-escravos libertos no Brasil retornados ao Benin). Jovani pondera, ainda, que, com as novas descobertas, não se consegue saber o motivo que levou Custódio a vir para o Brasil, e essa passa a ser uma lacuna na história do príncipe. O historiador considera a possibilidade de que ele possa ter vindo ao país em um contexto de perseguição religiosa, ao mesmo tempo que confirma que a tese de exílio do imperialismo britânico não está correta. 

O mediador

“O turfe era o grande encontro que reunia a mais alta sociedade e alguns membros de grupos não tão vinculados – grupos mais subalternos, populares”, explica Jovani, ao contar sobre a ocupação de Custódio com o esporte e em como esse foi um dos principais métodos para que o príncipe tivesse contato direto com a elite. Rodrigo, porém, acha interessante citar que se tratava de uma inserção social na elite local. “Ele tinha essa influência. Só que esse era um poder muito mais simbólico do que econômico. Porque ele era sócio no Haras, mas pediu dinheiro emprestado para comprar a parte dele. Ele se endividou”, relata.

Jovani pontua que, apesar de ser um homem com prestígio, Custódio não era rico e que construiu seu patrimônio trabalhando, provavelmente, com o turfe. Nina Fola considera que a utilização das relações com a classe política por Custódio foi o que lhe garantiu a posição social em que ele se encontrava e, por meio disso, pôde desenvolver um canal de comunicação direto. Rodrigo corrobora essa linha de pensamento: “Ele era um mediador entre os populares e a elite, então acolheu muita gente na sua casa. Ele podia levar demandas de um lado para o outro”.

Jovani relembra a ancestralidade agudá de Custódio, cujo povo era visto como um grupo que se movia entre os poderosos e os menos afortunados. Seu comportamento, portanto, era reflexo de um contexto prévio. 

Os historiadores frisam, contudo, que seu caráter religioso e de símbolo antirracista são indiscutíveis e que isso foge do estudo histórico elaborado por eles. Todos os documentos estudados por Jovani e Rodrigo, juntamente de suas interpretações a partir deles, estarão disponíveis no livro O refluxo dos retornados: Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe africano de Porto Alegre, de autoria de ambos, que será disponibilizado gratuitamente no site do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul em breve. 

Príncipe do povo

“Ele era um príncipe de Porto Alegre. Ele não era um príncipe por ser filho do Ovonramwen Nogbaisi. Ele era príncipe dos pobres, príncipe do povo. Ele era reconhecido assim pela população”

Rodrigo de Azevedo Weimer

As discussões acerca das origens do príncipe Custódio são válidas; quando se fala de um príncipe africano que viveu em Porto Alegre e se tornou um símbolo para o movimento negro e a livre expressão de cultos afro-gaúchos, essa significação, porém, vai muito além de comprovações históricas, adentrando um imaginário identitário e de afirmação cultural que se mantém até os dias de hoje.

Rodrigo chama atenção novamente para o episódio em que Custódio briga com um homem português em um bar de Porto Alegre. Acredita-se que o motivo da briga tenha sido a revolta do príncipe quando o homem o trata como escravizado. “Por que o português diz que ele não podia estar bebendo naquele bar? Por que ele era negro? Ele era uma pessoa livre, se via como tal e defendia sua posição”, relata Rodrigo. “Eu acho que aqui a gente reencontra uma questão que é muito importante pras pessoas que falam no Custódio, que é o lugar dele como símbolo antirracista. Nesse ponto, a gente tá vendo um Custódio que se insurge, que se coloca contra a dominação.” 

Luz Gonçalves Brito, doutoranda em Antropologia Social pela UFRGS, salienta o assentamento do Bará do Mercado, feito pelo príncipe Custódio, como uma narrativa que traz uma força política muito contundente. “Existe uma erupção do sagrado naquele espaço público de uma forma que é, além de muito interessante do ponto de vista cultural e histórico, também um ato de resistência política”, analisa a pesquisadora, ao frisar a visibilidade do povo negro através do rito sagrado e a manutenção de uma tolerância religiosa por meio dessa tradição. 

Nina destaca o racismo religioso e a visão problemática de como se manifesta a religiosidade. Ela afirma que o Bará do Mercado é um exercício de liberdade religiosa muito significativo. “Eu nunca deixo de passar no Mercado, passar pela encruzilhada e de fazer meu gesto explicitamente”, narra Nina, que também cita as discussões iniciadas quando se propôs uma escavação do Bará, na intenção de encontrar a pedra energizada que teria sido plantada por Custódio.

“Nesse momento histórico não interessa mais se o príncipe plantou ou não plantou, interessa que o Bará já está ali, de tanto que a gente o louvou”

Nina Fola

A socióloga salienta, ademais, a importância de se ter uma figura histórica atrelada ao batuque, que é uma religião afro-gaúcha. Afinal, ainda há uma visão hegemônica do candomblé sobre outras religiões afro-brasileiras. “O príncipe faz parte da genealogia do batuque do Rio Grande do Sul. Então, quando a gente fala de família, de herança, de memória, de história antiga, de fundamentos antigos e de tradição, a gente lembra o príncipe”, declara Nina. 

A partir disso, nota-se o caráter intangível na história do príncipe africano que esteve em Porto Alegre. O principado de corte de Custódio não é mais tão relevante, nem mesmo a suposta pedra enterrada sob o Bará, mas sim os ritos, que, conforme cita Luz, articulam o tempo passado com o presente de uma forma intensa, revivendo uma tradição. 

Ao refletir sobre qual seria o ponto simbólico mais importante deixado pelo príncipe em Porto Alegre, Nina responde sucintamente: “A sua existência”.

O Mercado Público de Porto Alegre é um dos locais de culto para ritos de matriz africana como o batuque que, segundo pesquisadores, têm herança vinculada a Custódio Joaquim de Almeida, ou Osuanlele Okizi Erupê (Vídeo: Flávio Dutra/ Arquivo JU 20 mai. 2017)