A primeira casa de Fabio

Perfil | Coordenador do Laboratório de Design e Seleção de Materiais fala da importância da fabricação digital durante a pandemia de coronavírus e sobre a sua trajetória ao longo de 25 anos na Universidade

*Foto: Flávio Dutra/JU

Assim como todo o planeta, Fabio Pinto da Silva teve sua rotina completamente alterada pela pandemia de coronavírus. Como coordenador do Laboratório de Design e Seleção de Materiais (LDSM), Fabio sabia que sua experiência em técnicas de fabricação digital – como impressão tridimensional, usinagem e prototipagem rápida – seria de grande valor em um momento em que a oferta de materiais de segurança não acompanhava a demanda.

“Quando a pandemia chegou ao Brasil, a gente já tinha visto que em alguns lugares da Europa estava faltando muito material de segurança e que o pessoal estava produzindo às pressas com fabricação digital”

Fabio Pinto da Silva

Desde o início da pandemia, a Escola de Engenharia cooperou com um movimento em rede encabeçado pela Brothers in Arms, organização focada na captação e na distribuição de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) em hospitais, postos de saúde e quaisquer outros lugares que estivessem na linha de frente da pandemia. Assim, no dia 23 de março de 2020, exatamente uma semana após a suspensão das atividades da Universidade, o Laboratório de Design e Seleção de Materiais, grupo vinculado à Escola de Engenharia, começou a fabricar protetores faciais. O movimento também contava com a colaboração do Pacto Alegre, organização que incentiva a inovação em Porto Alegre.

Enquanto grande parte da população porto-alegrense se mantinha em isolamento, Fabio e outros quatro colegas se revezavam nas idas diárias ao laboratório. Durante a semana, a equipe se concentrava na produção das peças. Contavam com seis impressoras 3D funcionando em uma jornada de trabalho de oito horas, sendo que cada peça era confeccionada em cerca de uma hora. No final da semana, as peças eram montadas e higienizadas para que a equipe levasse os materiais ao pessoal do Brothers in Arms, que se encarregava da distribuição.

Foram pelo menos dois meses nesse ritmo de trabalho. Apenas quando algumas grandes empresas, como Taurus, Stihl e Randon, entraram na rede, que a atividade de fabricação do laboratório foi interrompida e o LDSM passou a colaborar mais na distribuição. “Nosso auxílio se deu nos primeiros dois meses, quando não havia esse material. A fabricação digital foi importante nesse start para não se ficar esse tempo parados, à espera de a produção começar”, afirma Fabio.

Como legado da atuação na pandemia, Fabio entende que a produção imediata foi um aprendizado para o laboratório e para a área de fabricação digital no geral: “Normalmente, tu ficas otimizando e otimizando o projeto até começar a produzir as peças. E nesse contexto não dava para esperar”. O coordenador também ressalta o apoio da sociedade civil ao trabalho – na avaliação dele, a doação de matérias-primas e o empréstimo de impressoras tridimensionais por parte de outros laboratórios contribuíram para o sucesso da empreitada.

Fabio Silva em retrato via Plataforma Zoom, no Laboratório de Design e Seleção de Materiais, no câmpus Centro da UFRGS (Flávio Dutra/JU)
A multidisciplinaridade do LDSM

Fabio ingressou na UFRGS em 1997, quando tinha 17 anos, para cursar Engenharia Mecânica. Em 2000, como aluno de iniciação científica, passou a fazer parte das atividades do Laboratório de Design e Seleção de Materiais e, desde então, nunca mais perdeu seu vínculo com o grupo que, em 2017, viria a coordenar.

Nesse meio tempo, Fabio concluiu mestrado e doutorado em Engenharia e viu a sua vida profissional se aproximar do Design naturalmente. Aliás, viu de perto a implantação do curso e da pós-graduação da disciplina. Hoje ele trabalha como docente do departamento de Design e Expressão Gráfica e do Programa de Pós-graduação em Design – do qual também é coordenador.

Na função de coordenador do LDSM, Fabio é defensor da multidisciplinaridade em sua atuação. Colaboram nas atividades cerca de 40 pessoas de áreas diversas, como Fisioterapia, Engenharia, Geologia e Design.

“A gente nunca tira o pé nem do Design, nem da Engenharia. É exatamente a ideia do laboratório trabalhar nessa interface entre Design e Engenharia. Às vezes é até um pouco confuso, mas é exatamente a nossa ideia. Aproximar as áreas”

Fabio Pinto da Silva

O laboratório possui diversos projetos em andamento. Fabio destaca a atuação na área de tecnologia assistiva, que, segundo ele, pode ser definida como “todo e qualquer auxílio que se possa prestar a pessoas que tenham algum tipo de perda de funcionalidade, quer seja serviço, processo ou produto”.

O tema de seu doutorado foi sobre a personalização de assentos de cadeiras de rodas conforme a necessidade do usuário. Um orientando seu, Alexandre Cassel, desenvolve um dispositivo que avalia a pressão sobre os órgãos inferiores de pessoas que sofreram lesões, auxiliando no processo de reabilitação. Outro projeto do laboratório, desenvolvido por Mariana Pohlmann, atende mulheres mastectomizadas com próteses digitalizadas de mama.

O laboratório também atua na preservação do patrimônio cultural e conta com parcerias com o Museu Joaquim Felizardo, o Museu de Ciências Naturais da UFRGS, o Memorial do Rio Grande do Sul e a Secretaria Municipal de Cultura. Utilizando scanners 3D, é possível digitalizar obras de artes, monumentos históricos e fachadas de prédios e, dessa forma, reproduzi-los e criar acervos digitais. Alguns dos patrimônios digitalizados pelo grupo – em que se destaca a mais nova atualização do Laçador – podem ser acessados pelo site.

“Como a pesquisa gira muito em torno do processo da digitalização e fabricação, a gente consegue atuar em várias frentes”, explica Fabio, mais uma vez se referindo à multidisciplinaridade das atividades do LDSM.

Falando de sua trajetória ao longo dos 25 anos de vínculo, Fabio se diz 100% grato à UFRGS, a instituição que lhe ofereceu oportunidades para crescer como pessoa e profissional. Para ele, sua relação com a Universidade pode ser entendida pela brincadeira que faz com os colegas: “Eu digo que é minha segunda casa e, às vezes, o pessoal até brinca que a UFRGS é a minha primeira casa. Passo lá muito tempo mesmo. Com muito prazer”.