A urgência cognitiva da cultura do cuidado

Antonio Lafuente | Pesquisador espanhol questiona o lugar exclusivo da cultura crítica na prática científica e fala da cultura do cuidado como forma de se aproximar do objeto de estudo

*Foto: Antonio Lafuente/Arquivo pessoal

Antonio Lafuente é físico e pesquisador do Centro de Ciências Humanas e Sociais do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha na área de estudos da ciência. Seu interesse pela relação entre tecnologia, patrimônio e bens comuns desembocou nos laboratórios cidadãos, na inovação social e na cultura do prototipado. Sua trajetória de historiador da ciência soma-se ao longo trabalho de pesquisa sobre práticas alternativas de produção de conhecimento (ciência amadora, ciência cidadã, comunidades epistêmicas, cozinhas, laboratórios de garagem…) e, mais recentemente, à prática de coletivos ativistas que combinam o uso de tecnologias digitais à investigação amadora para a inovação cidadã (novos modos de participação e ação política). Um exemplo disso são algumas iniciativas que ele coordena do MediaLab Prado. Em entrevista por chamada de vídeo, tratamos da cultura da crítica e da cultura do cuidado. Segundo ele, ambas têm a contribuir num momento de extrema complexidade inaugurado com as novidades trazidas pela crise sanitária do coronavírus.

Como define cultura científica e cultura do cuidado?
Não sei se sou capaz de defini-las, mas talvez caracterizá-las. Uma pessoa crítica é alguém capaz de ver para além das aparências, de ler nas entrelinhas, de não deixar-se levar pela música do discurso. É capaz de ver o que outros não veem. É um gesto que, de certa forma, revela certa superioridade, uma pessoa que acredita que vê mais que os outros. Por outro lado, a pessoa que acredita formar parte dessa cultura crítica também confia muito na distância com relação ao objeto sobre o qual está falando ou pesquisando. É capaz de desnudá-lo e vê-lo sem paixões. A cultura dos cuidados é o contrário: tem a ver com o reconhecimento de nossas vulnerabilidades, está mais vinculada ao tato do que à visão, pois destrói a distância com o objeto ao tocá-lo. Dissolve a diferença, a distância que existe entre ‘o que falo’ e ‘o eu mesmo’ – já não somos coisas distintas, passamos a ser coisas que estão muito próximas. A pessoa que vivencia a cultura dos cuidados é aquela que sabe escutar, que confia que há uma verdade por trás do ponto de vista divergente. Ela se deixa afetar pelo objeto e confia que na outra maneira de ver as coisas sempre há alguma verdade pela qual vale a pena deixar-se afetar. 

A cultura crítica pode ser associada à arrogância? 
Não diria que a cultura crítica seja arrogante, mas algo associado à ideia de que uma pessoa crítica sabe mais, está mais preparada, como um estatuto de superioridade, de alguém capaz de se colocar acima das coisas. Eu não sei se necessariamente tem a ver com arrogância, entretanto, em termos gerais, está associada a uma falta de compaixão com o objeto que contempla. Com frequência, uma pessoa crítica tem pouca compaixão, é dura e por vezes cruel. É uma pessoa que não se importa com as consequências de suas ideias e que, talvez, não escuta suficientemente.  Tudo isso se aproxima muito da noção de arrogância, mas eu não afirmaria de forma tão clara. Pode ser que haja pessoas críticas que, por vezes, sejam compassivas, por vezes cuidadosas, mas é difícil se ver a combinação.  

Qual o protagonismo da cultura dos cuidados?
Na época do coronavírus, temos visto que é fácil prescindimos de muita gente. Por outro lado, nos damos contas da extrema necessidade que temos das pessoas cujas tarefas estão associadas aos cuidados. Percebemos a importância das pessoas que recolhem o lixo, das pessoas encarregadas do reabastecimento, das enfermeiras, dos pequenos mercados de bairro. Todos são personagens insignificantes no mundo dos grandes atores, das figuras populares, importantes. Temos nos dado conta de que esses indivíduos socialmente sustentam o mundo de uma maneira invisível. Mas como tratei no artigo publicado no Outras Palavras, existe potencial cognitivo na tarefa de cuidar. Cuidar não é somente encarregar-se dos problemas de outras pessoas, de outras situações. É também inaugurar uma relação com essas pessoas ou com esses objetos de natureza completamente nova. E essa relação é uma forma de aproximação, de estabelecer uma nova maneira de relações que gera também um conhecimento distinto, a proposta de outros problemas e, portanto, de encontrar outras soluções. Nesse sentido, há na cultura dos cuidados uma forma de construir um mundo de outra maneira. 

A experiência deste momento provoca essa reflexão?
Com a emergência da pandemia, há muitas coisas que podemos conhecer não tanto porque tenhamos tecnologias avançadas, matemáticas sofisticadas ou laboratórios maravilhosos. Estamos enfrentando um problema sobre o qual não sabíamos nada, e para conhecê-lo temos que aprender a escutar os pacientes de outra maneira. Nesse contexto, rapidamente a cultura dos cuidados foi colocada no centro da urgência da necessidade de conhecer, de conhecer de outra maneira, de conhecer outro tipo de problema. Nesse sentido, não é a cultura dos cuidados versus a cultura da crítica. Ambas precisam estabelecer entre elas um novo pacto, uma nova aliança.

São saberes que se completam e apontam rumos para resolver situações-limite da vida humana?
É justamente isso. Em situações de emergência extrema, quando as infraestruturas fracassam, quando as ferramentas que havíamos desenhado para situações – digamos – de normalidade já não funcionam, então temos que explorar outras habilidades, temos que inovar – para usar uma palavra da moda – em outras direções e de uma forma barata, que seja acessível a qualquer um, de forma colaborativa. 

Quando você destaca que o resultado de uma pesquisa não pode ser atribuído a um único “cérebro”, mas a um conjunto de pesquisadores que colaboraram para uma conclusão, está descrevendo uma cultura que leva ao isolamento, que não reconhece a importância do coletivo? E que repercussões sociais isso tem?
Tem reflexos políticos e econômicos também. A ideia de criatividade está associada à ideia de originalidade, e a ideia de originalidade à ideia de propriedade. Assim, há toda uma perversão gigante do trabalho. Só vemos a originalidade, mas na realidade o que estamos produzindo é a propriedade. E isso faz com que todos trabalhem em competição, e não em colaboração. Daí o bullying se tornou uma prática cultural perfeitamente institucionalizada e naturalizada na academia. Temos tanta dificuldade de reconhecer a natureza coletiva, social, pública do conhecimento, mas nos parece muito normal pensar o conhecimento como uma tarefa de cérebros privilegiados que se elevam sobre a média e são capazes de oferecer coisas que só estão ao alcance deles. 

Essa competição intelectual pode ter consequências subjetivas?
Exato, e não somente entre os estudantes. Há muitos casos documentados e conhecidos na ciência britânica de pessoas que perderam a subvenção do laboratório porque não teriam alcançado produtividade suficiente e decidiram tirar a própria vida. A vida consagrada à ciência é uma vida que praticamente só se dedica a investigar o tempo todo, com jornadas enormes. De alguma maneira, a ciência também é o grande laboratório neoliberal, que está sempre posto em movimento. É formado por gente que trabalha 14 horas diárias, que só faz isso, que aceitou a competição como um regulamento normal, como se daí nascesse a riqueza das novas ideais. E isso produz um estresse gigantesco, pois defende a ideia de que a evolução é algo que deve ser permanente, rigoroso, e que se não se cumprirem os objetivos podem cancelar o contrato e demitir. Aceitamos isso na academia de forma muito pouco crítica, como se fôssemos trabalhadores sem direitos. Sequer nos vemos como trabalhadores, mas como um tipo de gente especial. Mas nós, os acadêmicos, não chamamos isso de bullying. Por isso comecei a desconfiar da cultura crítica, não total e exclusivamente, mas passei a perceber que ela é uma maneira bastante destrutiva de nos relacionarmos uns com os outros, pois demonstramos as capacidades, de alguma maneira, diminuindo as qualidades e capacidades da outra pessoa. De alguma forma, há algo de perverso, doente e patológico na cultura crítica. Por isso, muitos estamos pensando que o estudo da cultura crítica necessita de uma revisão, necessita de uma crítica.