A voz de uma coletividade na poesia de Oliveira Silveira

Memória | Enquanto o acervo de sua obra aguarda para ser digitalizado, iniciativas buscam dar visibilidade a um dos principais ativistas e poetas afrobrasileiros

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

“Sou escritor, trabalho mais com poesia. Mas também escrevo prosa, na forma de ensaios e matérias jornalísticas. Enfim, sou uma pessoa da literatura.” Assim apresenta-se o poeta gaúcho à jornalista Fernanda Pompeu, que o entrevista em julho de 2008 em um café no centro de Porto Alegre para uma publicação do Instituto da Mulher Negra (GELEDÉS), de São Paulo. Ela observa sua chegada: “Vi surgir um dos homens mais elegantes que já vi na vida. Muito magro, vestindo um sobretudo e apoiando-se em uma bengala. Sem nenhuma senha, trocamos um olhar e sorrimos. Eu perguntei: ‘Oliveira Silveira?’. Ele estendeu a mão para que eu a apertasse”.

Intelectual afrodescendente reconhecido nacionalmente, Oliveira Silveira foi um dos articuladores do Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, e oficialmente instituído pela Lei n.º 12.519 em 2011. Após sua morte em janeiro de 2009, aos 68 anos, foram publicadas três coletâneas de seus escritos: Poemas (2009), Antologia poética de Oliveira (2010) e Oliveira Silveira: obra reunida (2012). 

Como forma de contribuir para a preservação do legado do poeta gaúcho, desde novembro de 2019 faz parte do catálogo do Lúmina – a plataforma de cursos online e abertos da UFRGS – o curso Oliveira Silveira: poeta da consciência negra brasileira, em que se aborda de forma introdutória a vida, a obra e a consciência sobre a negritude do escritor.

Conforme Sátira Pereira Machado, professora da Universidade Federal do Pampa e idealizadora do curso juntamente com Maria da Graça Gomes Paiva, professora aposentada da UFRGS, já são mais de três mil pessoas inscritas.

“Tamanha adesão revelou a demanda represada por cursos sobre a temática da negritude na modalidade a distância”

Sátira Pereira Machado

Segundo a professora, também estão previstos projetos de extensão, como a digitalização do acervo pessoal do poeta e a produção de um jogo digital protagonizado pelo escritor. “Agora o Oliveira Silveira para além de um espaço físico dentro da UFRGS, vai ter um espaço na web de acesso mundial”, comemora.

Poesia em análise 

Uma das homenagens da Feira do Livro deste ano foi à obra de Oliveira. Mediados pela escritora Lilian Rocha, o patrono da feira, o escritor Jeferson Tenório, e Antônio Hohlfeldt analisaram a produção literária do autor. Para além da temática da negritude, ambos pontuaram aspectos diversos na obra de Oliveira. 

Na análise de Jeferson, a poesia do homenageado tem uma vertente existencial e filosófica profunda, que se faz perceber no poema Do estar no mundo, na obra Praça da Palavra (1976). O patrono aponta também uma vereda identitária.

“São poemas que remontam uma identidade, como se ele estivesse territorializando um espaço perdido”

Jeferson Tenório

Esse aspecto, segundo Jefferson, está presente na saudade infinita do território africano perdido e expressa no livro Banzo, saudade negra (1970). Embora não tenha tido a oportunidade de conversar diretamente com Oliveira, o patrono da Feira reconhece o quanto ele o influenciou na tomada de consciência tanto racial quanto intelectual a partir de uma experiência negra.

Por outro lado, aponta Antonio Hohlfeldt, seria empobrecer a poesia de Oliveira reduzi-la à questão da negritude. “Tem outros focos a poesia dele. Tem um conjunto de poemas em que ele trata das injustiças sociais, de modo geral, da sociedade brasileira e da América Latina.”

Segundo Hohlfeldt, há poemas que se constituem de um experimento formal muito acentuado, características que, por vezes, o ligam à Semana de 22 e à geração de 1945. Ele menciona ainda outros aspectos que evidenciam a pluralidade temática de Oliveira, como o erotismo, a questão feminina e o gauchismo. E, como exemplo de construção poética que aciona a memória coletiva, ele recita o poema Faz muito tempo: “Já faz muito tempo/ E o tempo mudou./ Mas eu assumo a dor/ De meu tataravô./A dor da chibata/ E do banzo que mata./ Já faz muito tempo./ Já faz muito longe./ Eu não vi./ Não ouvi./ Mas ecoou em mim/ E eu não esqueci”. 

Em família

Naiara é a única filha de Oliveira. Ela teve dois filhos, mas foi o primeiro que mais conviveu com o avô e foi seu companheiro de passeios e conversas. O poeta chegava a abandonar cedo reuniões ou jantares se tivesse que acordar cedo para levar o neto à escola no outro dia, ainda que morassem em cidades vizinhas. Thales recorda especialmente da primeira viagem de avião que fez com o avô. Ele estava com 14 anos e por mais que tentasse mudar os planos do avô para os passeios, acabava adorando o roteiro diário de atividades culturais que Oliveira lhe proporcionava. “Foi uma viagem não só de lazer, mas de história”, define. 

“Quando falam em Oliveira Silveira, lembro dele não só como meu avô, não só como o idealizador do 20 de novembro. Lembro dele como o meu melhor amigo, a pessoa que foi um exemplo de como ser: de caráter, de lealdade”

Thales Silveira dos Santos

Hoje Thales está com 27 anos, faz Engenharia Civil e há cerca de um ano mora em Rosário do Sul. Ele comenta que custou a entender o ativismo do avô e o alcance das ideias que ele defendia e pelas quais lutava, até que experimentou na pele o preconceito racial. Um dia, quando estava no trabalho, foi alvo de violento comentário racista. Embora não tenha reagido no momento, ficou surpreso com a reação dos colegas que o incentivaram a denunciar tal episódio com base na Lei  7.716, que define os crimes de racismo. “Pra chegar a isso precisou de alguém. Ele fez, portanto, parte desse reconhecimento do preconceito”, comenta sobre o engajamento de Oliveira. 

“Participei de tudo o que aconteceu em termos de movimento negro de 1970 até a morte dele, e após também, porque isso enraizou em mim”

Naiara Rodrigues Silveira Lacerda

O hábito da leitura diária de jornais, locais e de fora do estado, e as idas todos os anos à Feira do Livro de Porto Alegre são algumas lembranças de Naiara e que explicam de certa forma o volume de livros, recortes de jornais, cartas pessoais e folhas com anotações que sempre caracterizaram o apartamento de Oliveira. Depois da morte do pai, ela, seu filho e alguns amigos mais próximos trabalharam para organizar todo esse material, mas foi alguns anos depois que a então jornalista Sátira Pereira Machado reorganizou o espaço, montando o acervo de Oliveira Silveira. Naiara lamenta que até hoje não houve nenhuma manifestação oficial do estado no sentido de preservar a memória da obra literária e do pensamento de seu pai. “Se ele teve esse cuidado de separar o material, de organizar tudo, foi com um objetivo, não é? Foi pra deixar para que outras pessoas tivessem acesso”, frisa.

“Muito mais do que o professor, do que o poeta, Oliveira Silveira era um historiador”, resume Thales, também se referindo ao tanto que seu avô pesquisava para fazer seu trabalho. O poema Palmares, que Oliveira levou 15 anos para escrever, é prova desse empenho em aprofundar seus conhecimentos antes de chegar ao resultado. Nesse sentido, Naiara menciona também as viagens que fez com o pai para pesquisar sobre o patrimônio imaterial e cultural da secular congada gaúcha Maçambique, em Osório, no litoral norte do estado, estudo que contribuiu para preservar essa memória. 

Quando pergunto a Thales qual a poesia do avô que ele mais gosta, logo se oferece pra recitar; digo que é jornal, mas ele insiste e me envia o áudio de Encontrei minhas origens, do livro Roteiro dos Tantãs, de 1981.

À luz da lamparina 

No interior de Rosário do Sul, em Touro Passo, onde Oliveira nasceu em 16 de agosto de 1941, não havia luz elétrica e ele ficava até tarde lendo à luz de lamparina. Desde cedo, seus pais, Felisberto, homem branco, e Anair, mulher negra, sabiam que esse filho não seria pra viver no campo. Teria que seguir os estudos para além da escolinha que montaram na fazenda, onde estudavam os seis filhos do casal e outras crianças das redondezas. E foi isso o que aconteceu. Depois de fazer o ginásio em Rosário do Sul, Oliveira aventurou-se mudar para Porto Alegre com o amigo e colega Alson.

Enquanto estudava no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, trabalhava na Editora Globo e participava ativamente do movimento estudantil, tendo sido responsável pelo jornal do colégio. Assim que conclui o Clássico, publica o primeiro de seus dez livros – todos com produção autoral –, Germinou, em 1962. A produção literária o acompanhava já desde antes, quando ainda morava em sua cidade natal, publicando em periódicos locais. 

Nasce o ativista 

Porto Alegre vivia o clima da Legalidade, e Oliveira publica no jornal dos estudantes um texto contra o golpe sofrido por João Goulart. Ele também participa da passeata que saiu do Julinho em direção à Praça da Matriz, onde vão encontrar, no Palácio Piratini, o então governador Leonel Brizola. 

Mas, segundo Sátira, que o conheceu quando atuava como jornalista e foi encarregada pelo próprio Oliveira de escrever sua biografia, o embrião do ativista do movimento negro e também a decisão de que faria o curso de Letras com habilitação em francês se dá no momento em que recebe de presente da poeta Lara Lemos o livro Reflexões sobre o racismo, de Jean Paul Sartre, no qual o filósofo desenvolve uma análise psicológica do preconceito antissemita que possibilita a compreensão de alguns aspectos relevantes do desenvolvimento de sentimentos preconceituosos. 

Essa obra é a porta de entrada para Oliveira ter acesso ao trabalho de poetas e autores negros na França e interessar-se pelo conceito de negritude, que aparece na antologia poética de escritores negros para a qual Jean-Paul Sartre escreveu o famoso prefácio Orphée Noir (Orfeu Negro). 

Já adulto e formado, Oliveira acumula seu trabalho no Colégio Estadual Cândido José de Godói, no bairro Navegantes, onde lecionou a vida toda, com a produção literária e ativismo cultural e identitário das causas negras. Em 1988, ele integrava o movimento negro que reivindicava participar da formulação do documento que regeria um novo Brasil, agora sob uma democracia. 

Natália Neris, mestra em Direito, destaca que 1988 é importante para o movimento negro, porque é o ano do centenário da abolição. “Era o momento em que o Estado brasileiro e a mídia tinham muito uma perspectiva de comemorar e celebrar a abolição, e esse movimento dizia: ‘Não, não há nada que comemorar, a desigualdade continua’”, explica a pesquisadora, referindo-se às mobilizações, conforme consta em reportagem publicada no Portal Geledés em janeiro de 2019.  

Anos depois, no governo Lula, em 2003, Oliveira é convidado a ser conselheiro honoris causa da igualdade social na Secretaria Especial de Promoção das Políticas de Igualdade Racial. Gilberto Gil, nessa época, também pede ao poeta e ativista gaúcho que fizesse, através da Fundação Palmares, uma publicação sobre o negro no Rio Grande do Sul. 

Em Porto Alegre, Oliveira Silveira foi atuante em organizações como clubes sociais negros, escolas de samba, congadas. Mas, além disso, organizou vários grupos de ativismo político na capital destinados à luta política e à promoção da cultura negra: Grupo Palmares, Grupo Semba, Revista Tição e Associação Negra de Cultura.

Oliveira Silveira deixou um legado enorme de materiais como livros, anotações, matrizes para gravura, desenhos ou  matérias de jornal que ainda precisa ser catalogado e estudado. Nas imagens acima, parte do conjunto que está guardado no apartamento em que o ativista viveu os últimos anos de sua vida e que é, hoje, cuidado por sua filha, Naiara Silveira Lacerda (Fotos: Flávio Dutra/JU)

Publicações:

Obra individual

  • Germinou. Porto Alegre: Ed. do Autor, 1962.
  • Poemas regionais. Porto Alegre: Ed. do Autor, 1968.
  • Banzo, saudade negra. Porto Alegre: Edição do autor, 1970.
  • Décima do negro peão. Porto Alegre: Edição do autor, 1974.
  • Praça da palavra. Porto Alegre: Ed. do Autor, 1976.
  • Pêlo escuro. Porto Alegre: Edição do autor, 1977.
  • Roteiro dos tantãs. Porto Alegre: Edição do autor, 1981.
  • Poema sobre Palmares. Porto Alegre: Edição do autor, 1987.
  • Anotações à margem. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura, 1994.
  • Poemas. Seleção e prefácio de Oswaldo de Camargo. Porto Alegre: Ediçãos dos Vinte, 2009. Publicação póstuma.

Coautoria

  • Orixás: pinturas e poemas. 2ed. Porto Alegre: SMC/Coord. do Livro e Liter./UEPA, 2000. [série Petit POA]
  • _____. 1 ed. Porto Alegre: SMC/Coord. do Livro e Liter./UEPA, 2000.[série Petit POA]

Antologia

  • Cadernos negros 3 poesias. São Paulo: Quilombhoje, 1980.
  • Axé: antologia contemporânea da poesia negra brasileira. Org. Paulo Colina. São Paulo: Global, 1982.
  • Cadernos literários 19: poetas negros do Brasil, Edições Caravela/Instituto Cultural Português. Porto Alegre, 1983.
  • Razão da chama: antologia de poetas negros brasileiros. Coordenação e seleção de Oswaldo de Camargo; colaboradores: Paulo Colina e Abelardo Rodrigues, São Paulo: GRD, 1986.
  • Quilombo de palavras: a literatura dos afrodescendentes. Orgs. Jônatas Conceição, Lindinalva Amaro Barbosa. 2 ed. Salvador: CEAO/UFBA, 2000.
  • Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 2, Consolidação. Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

Não Ficção

  • A produção literária negra (1975-1985) in: ALVES, Miriam; XAVIER, Arnaldo; CUTI [Luiz Silva] (org.). Criação crioula, nu elefante branco. São Paulo: IMESP, 1987.p.31-49.