Ação mapeia iniciativas de colaboração e assistência no Litoral Norte

Solidariedade | Projeto busca fortalecer as redes de apoio e fazer as doações chegarem às comunidades mais periféricas

*Foto: Arquivo pessoal

Sinthia Cristina Batista, geógrafa e professora do departamento interdisciplinar no Câmpus Litoral Norte, alerta que neste momento de crise da pandemia a questão mais emergencial é a fome. Em diálogo com lideranças comunitárias, que já conhecia em função de saídas de campo feitas em disciplinas da graduação e do projeto de extensão promovidos pelo câmpus em diferentes localidades da região, verificou que elas vinham organizando campanhas de doação.

Com a anuência dessas lideranças, incluiu as ações no mapa Solidariedade e Assistência Social (covid-19), projeto que coordena e é executado por uma equipe de 18 pessoas, entre estudantes, técnicos e docentes. O objetivo é colocar em contato instituições públicas, ações comunitárias, famílias que necessitam de apoio material e indivíduos que desejam oferecer alguma contribuição.

A docente exemplifica: “Uma liderança comunitária está fazendo máscaras em Tramandaí. Os pescadores de Imbé precisam de máscaras. Então tentamos fazer a intermediação, mas não é algo simples, pois precisa de uma logística de transporte e cuidados com o vírus”. A construção do mapa busca justamente promover essa articulação das comunidades regionais, ela acrescenta.

“O mapa é uma representação das relações que a nossa sociedade realiza para produzir o espaço em que a gente vive.”

Sinthia Cristina Batista
Organizações comunitárias constituem pontos de referência

O interesse das lideranças comunitárias, de acordo com Sinthia, vem do fato de que existe uma limitação no processo de construção das campanhas solidárias: em geral, o apoio se restringe à própria comunidade. Poucas vezes ocorre alguma ajuda externa a ela.

Clara Martins, da Cooperativa de Trabalhadores de Reciclagem de Imbé (Cooperi), revela que não fosse a rede de solidariedade armada pelo projeto do mapeamento, estaria com dificuldade para ter o que comer. 

“Com a ajuda consigo alguma coisa para mim e também ajudo outras pessoas. Na última vez veio bastante doação de roupa, um pouco de alimento e mais um valor que rendeu 11 cestas básicas, que distribuí para pessoas da comunidade, não só da cooperativa.”

Clara Martins

O auxílio chega pelas mãos de Nina Gabriela Muller Lopes, para quem sobram elogios de Clara. A estudante do 8.° semestre do curso de Ciências Biológicas – ênfase em Biologia Marinha Costeira e Gestão Ambiental Marinha e Costeira – administra um ponto de coleta no Ceclimar (Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos). “Em contato com a comunidade, conseguimos observar que são eles mesmos que se auxiliam. A ajuda maior é de quem já precisou um dia”, comenta.

Do poder público municipal, Clara até agora só recebeu uma cesta básica. Além disso, a família – o casal e três filhos – vem contando com o auxílio emergencial do governo federal. “Nunca foi tão difícil: hoje até quem antes não precisava de auxílio está precisando. Eu mesma: moro numa casa boa, tenho coisas boas dentro de casa. Só que a gente nunca passou por uma situação tão difícil como está passando agora. E eu tenho 40 anos”, exaspera-se.

A dificuldade, elucida Clara, vem do fato de que estão sem poder trabalhar. A cooperativa composta por sete associados alugava um espaço em Imbé, mas teve que entregar o imóvel porque não puderam mais pagar em função da pandemia. Agora estão aguardando para participar de uma licitação que está para ser realizada pela prefeitura do município para a utilização de um galpão.

Outra iniciativa de articulação comunitária presente no mapa é a Casa da Cultura do Litoral, que sedia o Ponto de Cultura Flor da Areia, em Cidreira. Coordenador da iniciativa e mestre das culturas populares, Ivan Therra conta que a ação de solidariedade está voltada a artistas dos 26 municípios da região, de Tavares a Torres. Tipicamente são músicos que deixaram de tocar em festas, bares ou bailes por conta da pandemia. Muitos deles já têm a Casa da Cultura, que existe há 20 anos, como um local de referência.

“Como temos um trabalho de pesquisa da cultura popular na região praieira gaúcha, já tivemos alguns contatos com a Universidade e mantemos um bom diálogo, participando de eventos e recebendo os acadêmicos na casa. Então, foi bem direta a participação no mapeamento.”

Ivan Therra

Entre as iniciativas do poder público, ele se diz esperançoso de que em 15 dias esteja acessível a verba de projeto direcionado à classe artística que está em tramitação no Senado. Da parte do estado, comemora edital emergencial para atender as pessoas da cultura: “Demorou, mas é importante que esteja acontecendo”.

Referência no litoral, o Ponto de Cultura Casa de Areia desenvolve ações de solidariedade que buscam ajudar músicos da região que não tem como trabalhar durante o período de distanciamento social (Foto: Arquivo Pessoal)

“Nos municípios, fica escancarada a total falta de compromisso dos governos para com o setor. Dos 26 do Litoral, tenho notícia de apenas dois que estão fazendo ações: Osório e Imbé. É como se as pessoas que trabalham com a cultura simplesmente não existissem para a maioria das prefeituras”, lamenta Ivan.

O pesquisador de culturas populares reflete que a coesão e a articulação comunitária são bem complicadas por ser o Litoral uma região marginal. “As ferramentas de ação do estado não estão presentes no litoral fora do verão.” Além disso, observa, são poucos os sindicatos e coletivos que de fato têm alguma força. “Na grande maioria das vezes, políticas assistencialistas capturam a vontade de as comunidades se organizarem e serem protagonistas de sua história. É fundamental a chegada, a atuação da Universidade junto às nossas comunidades para mudar esse quadro”, sentencia.

Nesse sentido, Sinthia alerta para um risco que pode estar atrelado à distribuição de alimentos pelo poder público neste momento: “Cesta básica no Brasil sempre foi compra de voto. E este ano temos eleições municipais”.

A docente destaca que há uma linha tênue entre solidariedade e assistência social, algo que o mapa busca justamente destacar. 

“Entendemos que se trata de um momento emergencial em que é preciso promover campanhas solidárias, mas também temos que provocar o debate da assistência social no Brasil, sobretudo neste momento em que a miséria e a desigualdade estão escancaradas.”

Sinthia Cristina Batista

A assistência social, ressalta, costuma ser entendida no país como um favor, e não um direito de as pessoas terem as condições mínimas de organizar sua sobrevivência. Para ela, trata-se de uma atividade que deve vir do Estado. Reconhece, no entanto, que no Litoral Norte os municípios são muito pequenos e têm poucos recursos.

Essa ausência do Estado é percebida também por Tadeu Cardoso, presidente do Sindicato Rural de Mostardas. Ele revela que, neste momento, a principal frente de atuação da entidade tem sido o auxílio a toda comunidade – não apenas aos associados da categoria – para acessarem o auxílio emergencial. Se não fosse o sindicato, opina, muitos não estariam recebendo o valor.

Campanhas de ajuda solidária no litoral sofrem com as muitas limitações típicas de épocas que não são temporada de veraneio: as redes de apoio só encontram colaboração na própria comunidade (Foto: Arquivo pessoal)
Municípios não têm um olhar específico para as comunidades tradicionais

Ao mesmo tempo que é lido como lugar do turismo, como se fosse o quintal de veraneio da região metropolitana, o Litoral Norte, constata Sinthia, é uma região muito importante para se pensar uma realidade extremamente rica do ponto de vista das diferenças dos povos: existe a presença de indígenas, quilombolas e pescadores. “É uma história relevante a ser resgatada e compreendida do ponto de vista da apropriação territorial”, sintetiza.

Dentro do mapeamento, há uma preocupação, por exemplo com o Quilombo de Morro Alto, que conta mais de 100 famílias. A comunidade não conseguiu articular um posto de arrecadação no município de Maquiné, onde está localizada. A equipe do projeto, então, decidiu articular o posto de coleta no Ceclimar principalmente para atender essa população. 

Também os grupos indígenas são um foco de articulação dentro da iniciativa do mapa. Michele Doebber, responsável por essa frente de trabalho, observa que a presença dos guarani ainda é muito invisível para a população da região. Por isso não têm uma rede de apoio muito consolidada. “Fora a aldeia da Retomada em Maquiné, as comunidades não recebem muita atenção da sociedade civil”, lamenta a técnica em assuntos educacionais no Câmpus Litoral Norte.

Além disso, assevera, na maioria dos municípios não há um olhar específico para a questão indígena. Os únicos pontos de coleta de doação voltados a essa população estão em Osório, por conta da atuação da professora Maria Cristina Schefer, da UERGS, e em Maquiné, pelo fato de a rede lá já estar mais consolidada.

Para realizar o mapeamento das redes de apoio, Michele relata que tem feito contato com a Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) e a SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena) para saber como está o atendimentos às comunidades. “A princípio elas estão sendo minimamente supridas pelas cestas que estão chegando. Há uma nova demanda com a chegada do frio que são os agasalhos, o que costuma depender principalmente da sociedade civil”, conclui.


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