Ações para inclusão no cotidiano acadêmico

* Publicado na Edição 230 do JU

Fábio Lopes, aluno de Direito, reclama da falta de comunicação entre instâncias da instituição (Foto: Flávio Dutra/JU)
Acessibilidade | Núcleo, atividades inclusivas e cotas buscam promover equidade no acesso estrutural e pedagógico a estudantes com deficiência na Universidade

Desde o processo seletivo de 2018, a UFRGS vem destinando a candidatos com deficiência física, auditiva, visual e intelectual 25% do total de vagas. A cota inclui ainda pessoas com transtorno do espectro autista, que também é considerado deficiência. A criação dessa modalidade veio em resposta à lei n.º 13.409/16, que exige essa cota.

Já ingressaram por essa política de reserva de vagas mais de 120 estudantes com deficiência. Mas, de acordo com a coordenadora da Divisão de Ingresso, Irma Bueno, não há como precisar o número total de pessoas com deficiência na Universidade, já que há casos de estudantes que ingressam por outras modalidades. Uma das razões para isso é o receio, por parte de alguns candidatos, de não conseguir reunir a documentação necessária para comprovar o acesso à cota e, assim, perder a vaga. Fábio Lopes, aluno do 3.° semestre do curso de Direito noturno, ingressou na Universidade pela modalidade reservada a pessoas com deficiência. Ele descobriu a existência dessa possibilidade no processo seletivo de 2019, quando um amigo lhe sugeriu que ele se encaixaria nos pré-requisitos por ser cadeirante.

Atendimento

Antes do estabelecimento das cotas, a UFRGS já contava, desde 2006, com uma iniciativa que prestava serviços a estudantes e servidores com deficiência. Em 2014, ela passou por uma reestruturação e tornou-se o Núcleo de Inclusão e Acessibilidade (Incluir).

“Com essa mudança, conseguimos ampliar a coordenação, o quadro de servidores, a quantidade de bolsistas. Enfim, agora temos um lugar na Universidade que é justamente para articular essas ações em relação à inclusão e à acessibilidade.”

Adriana Arioli

De acordo com Adriana Arioli, coordenadora do Incluir desde 2016, estudante tem acesso aos serviços do núcleo desde o momento em que ingressa na Universidade: durante a matrícula, recebe da Comissão de Graduação (Comgrad) do curso um formulário com as possibilidades de atendimento disponíveis. Esse formulário conta com campos relativos, por exemplo, aos aspectos pedagógicos que possam sofrer alterações para melhor atender as necessidades do aluno e à mudança de mobília da sala de aula. Depois de preenchido, o processo é protocolado e encaminhado à Comgrad, que o examina e o encaminha aos setores responsáveis.

Além de mediar as solicitações discentes junto aos diversos órgãos da Universidade, o Incluir é responsável por realizar adaptações de materiais didáticos e acompanhar os alunos em sala de aula. Entre as possibilidades estão ampliação de fonte de documentos, transcrição dos textos para braille e tradução e interpretação em libras. Para oferecer esses serviços, o núcleo tem em sua equipe uma revisora de textos em braille, uma pedagoga, uma psicóloga, uma assistente social, uma técnica em assuntos educacionais e dez intérpretes de libras.

O estudante Fábio Lopes afirma que o Incluir tem auxiliado em sua rotina na Universidade. Ele conta, por exemplo, com o apoio de um bolsista do núcleo uma vez por semana para frequentar o Restaurante Universitário – assim recebe auxílio para percorrer o trajeto e servir a refeição.

Além disso, no acompanhamento que recebe da assistente social, é incentivado a participar das reuniões com sua Comgrad, para que assim possa pleitear suas demandas junto aos setores responsáveis. Fábio, que mora em Canoas, reforça que, além disso, é indispensável o suporte que recebe dos outros alunos: “Na realidade, os benefícios principais que eu tenho são os colegas. São eles que me auxiliam na locomoção, e também os professores, que em grande maioria são compreensivos com minhas faltas, pois tenho bastante dificuldade na questão da acessibilidade de Canoas
até Porto Alegre”.

Um problema que Fábio diz identificar na Universidade é a falta de comunicação entre algumas instâncias, ainda que isso não o tenha afetado diretamente. Adriana comenta que é comum os alunos acreditarem que as demandas de inclusão sejam de responsabilidade unicamente do Incluir.
“Na verdade, é algo institucional. Todos estão envolvidos nesse processo, não apenas um setor”, ressalta.No sentido de oferecer serviços que garantam equidade de acesso às pessoas com deficiência, no ano passado o Incluir criou o projeto Leituras Obrigatórias Acessíveis (LEOA).

Todas as obras exigidas no vestibular foram disponibilizadas em arquivos de áudio voltados aos candidatos com deficiência visual. Mais recentemente, o núcleo lançou o projeto Rotas Acessíveis, que produz áudios que narram, com orientações precisas, diferentes percursos pela Universidade. De acordo com Adriana, estão disponíveis até o momento dois caminhos no câmpus Centro: a entrada da avenida João Pessoa até o Incluir e deste até a entrada na rua Sarmento Leite. Essas duas rotas se encontram no site www.ufrgs.br/incluir. “Esse projeto auxilia na locomoção de maneira autônoma, sem necessidade de pedir informação sobre onde fica determinado prédio ou setor”, destaca.

Coletivo

Além dos serviços oferecidos pelo Incluir, existe desde 2018 o Coletivo de Pessoas com Deficiência Adriana Thoma, que reúne alunos e servidores com deficiência para debater as problemáticas tanto nas questões arquitetônicas quanto dos serviços da UFRGS. De acordo com uma das organizadoras, Marinês Lorenz, o grupo vem se reunindo uma vez por mês, ainda sem local fixo.

“O primeiro objetivo foi tornar o coletivo conhecido, instituir uma marca para que todos o reconheçam como um movimento social das pessoas com deficiência dentro da Universidade.”

Marinês Lorenz

Para colocar isso em prática, o grupo promoveu, junto com o Incluir, atividades de capacitação, que, de início, eram só para alunos e servidores com deficiência, mas que se tornaram abertas para todos que quisessem participar. “Assim, podem tomar conhecimento das nossas pautas”, conclui.