Adélia Prado

Arte: Gabriella Gasperim
Vestibular | A nobreza do cotidiano da poesia de Adélia Prado

“Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.”

Trecho do livro Bagagem

A pequena cidade mineira de Divinópolis é palco e inspiração para os deslumbramentos do cotidiano, especialmente sob a ótica da figura feminina, na poesia de Adélia Prado. “Representação do costumeiro metafísico unindo simplicidade e complexidade numa obra marcada pelo diálogo intertextual.” É assim que Fernando Brum, doutor em Letras pela UFRGS, define a poesia da escritora e filósofa mineira.

Adélia nasceu no ano de 1935 em Divinópolis (MG), onde vive até hoje. Ela teve cinco filhos e é praticante da religião católica, viés que perpassa toda a sua obra, mas que é desligado da pregação ou de moralismos. Apesar de escrever desde jovem, somente aos 40 anos publicou o primeiro livro de poesia, Bagagem, que entrou este ano para a lista de leituras obrigatórias do vestibular da UFRGS. O título foi apadrinhado por grandes nomes da literatura nacional, como Carlos Drummond de Andrade e Afonso Romano de Sant’Anna.

De acordo com Fátima Ali, mestra em Literatura Brasileira pela UFRGS, Adélia é uma pessoa discreta, que pouco sai de casa; não gosta de viajar. “Talvez isso explique o fato de ela pouco circular em eventos literários”, diz. Mesmo não sendo um ser cosmopolita, Adélia consegue entender de maneira singular a realidade em que vive e elevar tarefas simples do cotidiano a “patamares de nobreza”. Além disso, sua obra é fortemente marcada pela presença do feminino. “A casa, a intimidade, a família, o corpo, a religião, geralmente vistos como desmerecedores da literatura, são sacralizados. Eles transcendem sua banalidade para atingir o sublime, para virar matéria de poesia”, observa Fátima.

A simplicidade não está apenas no conteúdo, mas também na forma de escrever. Os versos partem da perspectiva modernista, com formato e linguagem livres, abusando da coloquialidade, da oralidade e até do sotaque mineiro. Fernando afirma que Adélia se aproxima do movimento de 1922 na dimensão formal, mas tem a intenção de representar dilemas mais interiores do que exteriores. “A poesia da mineira percorre dois caminhos muito importantes: de um lado o cotidiano, olhando para a simplicidade da vida e das coisas com as quais a vida dialoga; de outro, a metafísica, esse esforço de compreender o sobrenatural [no sentido cristão do termo] a partir do pensamento abstrato. Esses dois caminhos se cruzam o tempo todo em sua obra, fazendo com que a complexidade do metafísico ganhe imagens do cotidiano, e a vida ‘comum’ seja compreendida em toda a sua extensão. Adélia escreve em versos brancos e livres, numa atitude prosaica que lembra muitas vezes a obra de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, mas mantendo a força das imagens”, explica.

Fátima atenta para o fato de que o comportamento literário de Adélia parece ir na contramão do cenário das letras da década de 1970, período da ditadura militar em que muitos intelectuais faziam manifestações políticas e problematizavam o papel da mulher na sociedade patriarcal. “Uma senhora do interior de Minas aparece com um texto que, aparentemente, só vinha reafirmar elementos que se combatiam. Religião, papel coadjuvante da mulher e nenhuma menção ao que o país vivia em termos políticos. No entanto, a obra de Adélia está longe de ser óbvia e, a meu ver, está também longe de defender papéis que coloquem a mulher em posição subalterna. Na minha leitura, a autora usa exatamente os elementos que sempre forjaram a submissão feminina, como a família, a vida doméstica, a religião, para criar um texto cujo alcance transcende tais elementos. É uma literatura que é resistência porque é catarse”, reflete.

Destacam-se nessa “catarse” os poemas contidos no livro Bagagem, Com licença poética – que relê, sob a ótica feminina, o clássico da literatura brasileira “Poema das sete faces”, de Drummond – e Grande desejo, que confere significado ao que comumente se dá pouco valor. Ambos são exemplos da exaltação da simplicidade e da delicadeza da mulher. No primeiro, o eu lírico, na análise de Fátima, defende como poesia aquilo que se faz com o sentir e evidencia a dicotomia dos gêneros no trecho “Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. /Mulher é desdobrável. Eu sou.”.

Em Grande desejo, ainda segundo a mestra em Literatura Brasileira, a oscilação entre felicidade e tristeza é marcante. “As coisas alegres geralmente evocam lágrimas e nostalgia. Nesse poema, a mulher do povo é quem escreve um livro, a despeito de sua banalidade, o que ensejará que o festeje com lágrimas, ‘requintada e esquisita como uma dama.’. Trata-se ali de transcendência, de uma mulher que se recria ou se descobre por meio do livro, da criação poética”, avalia.

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