Além da teoria e da prática

Foto: Rochele Zandavalli/ Secom – arquivo

Fazer ranger articulações entre práticas, coligir e correlacionar dados, montar e desmontar formas, refinar a precisão de ideias, usar a livre imaginação para construir e desconstruir as verdades que inventamos é o nosso destino como seres que, ao nascer humanos e finitos, ficamos marcados para desejar, criar e recriar, a partir de perspectivas e vieses, o mundo que nos rodeia.

Ao exercer o ofício de educar, muitas coisas funcionam. Por isso, o problema de pesquisa é se conhecemos as causas e os efeitos desse funcionamento. Isso porque é nossa tarefa de professores-pesquisadores impedir que a educação seja tomada como uma taumaturgia, crença mágica ou profissão impossível, que não possa ser descrita, compreendida e explicada – mesmo levando em conta as limitações e camuflagens da razão quanto à coesão interna e à verificabilidade empírica desse conhecimento.

Em direção contrária ao obscurantismo ou ao charme (geralmente inspirado) da opacidade muda, reivindicamos o rigor de um método pautado pela ideia de que a especificidade do ato de (trans)criação do Arquivo Educacional ocorre, por excelência, de modo tradutório dos originais científicos, artísticos e filosóficos. Esse esforço afasta a ignorância sobre o funcionamento de nossa profissão, erigida em princípio ou mesmo em ideal, para que possamos operar com silêncios intraduzíveis e zonas de sombra, que permanecem na penumbra da eficácia e que nos acostumamos a dizer que não sabemos o que seja.

Na ação de pesquisar, formulamos então as seguintes indagações: criar educação no Ensino Superior, via procedimentos tradutórios, decorre de imaginar, concretizar, ver, antecipar a docência na Educação Básica?; nesse caso, vale o princípio materialista fundamental de que aquilo que conta é a chamada prática na Educação Básica; ou vale o princípio idealista da supremacia da teoria, pretensamente, produzida no Ensino Superior? Por certo, existe um Arquivo Ensino Superior, formado pela educação desenvolvida na universidade, ao longo da história de seus professores, alunos, funcionários, cursos, produções, unidades, grupos de trabalho, redes de pesquisa, gestão. Assim como existe um Arquivo Educação Básica, desenvolvido em sua cumulatividade e descontinuidade históricas.

Pensamos que ambos os Arquivos interagem entre si mediante um método receptivo de experimentação tradutória, que valoriza mais a escuta do avesso e a espera de sentido do que a sua indução ou armazenamento. Arquivos que se movimentam em um plano de imanência, expressando a abertura, a construção e o compartilhamento do real da docência.

Não há jamais um paralelismo simples entre o funcionamento desses Arquivos e o discurso tradutório dos professores sobre tal funcionamento, embora subsista uma característica comum: são processos que mantêm entre si complexas articulações. Aquilo que funciona é traduzido no e pelo discurso, enquanto este reflete e refrata aquele funcionamento como um prisma. O sistema de correspondência é, de saída, desarranjado, pois o discurso tem um meio próprio, desenvolvido pela linguagem e pelo raciocínio, possuindo seus pontos enfáticos e silenciosos, de impasse e de supressão, que são as suas condições de possibilidade, delimitadas pelo território teórico; aquilo que funciona, por seu turno, tem também as suas condições de possibilidade definidas pela dinâmica própria à prática, expressa, em maior ou menor grau, no nível discursivo.

Em meio à tradição dualista dicotômica, chamamos esses domínios de teoria e de prática, mesmo que estejam apanhados em encadeamento constritivo de um pelo outro, enquanto são estudados por um método concebido como o trabalho do pesquisador-professor, que pensa as próprias vivências. Podemos, nesse caso, nomear um domínio de ‘teoria’ e o outro de ‘docência’, resultando daí uma instância, não mais essencialmente teórica nem prática, mas formada pela própria teia da vida docente. Instância transcriadora, que empurra a articulação teórica, sem referência à docência, para o abismo de um pensamento delirante, enquanto encaminha a docência, sem a conceitualização teórica, para o extravio no senso comum ou na onipotência de algum Chão de Escola. Tratamos, aqui, de uma teoria tradutória da docência, como criação e crítica, seja na Educação Básica, seja no Ensino Superior; num liame, ambas se transformam em método de pesquisa que revela o que constrói.

Embora a inflexão teórica ou prática de cada área de estudo e de atuação docente seja necessária para delimitar objetos específicos de investigação e de problematização, além de políticas públicas e institucionais, importa que tal ênfase não ocupe todo o cenário, não antecipe as descobertas nem impeça as aventuras enigmáticas do desconhecido. Logo, os saberes selecionados e acumulados por cada Arquivo não são dotados de um totalitarismo mítico nem carregam um dogmatismo religioso ou moral, de modo que sempre possamos ir ao encontro do movimento amorfo das matérias, tendo borrado esse saber e ficado liberados para nos implicar um novo jogo de escritas-e-leituras (escrileituras), que gera um outro feixe de produção no espaço da relação paradoxal entre Teoria, Prática, Método e Docência.

Fica dito que a teoria é o talho prévio da docência; a prática, o restabelecimento de uma simultaneidade, condição de visibilidade e virtualidade de seu ofuscamento, enquanto as escrileituras daí derivadas são incisões na carne do pesquisador-professor produzidas pela vitalidade inovadora de suas traduções. O método de pesquisa permite que vislumbremos a construção da verdade em conflito: este leque objetal que somos e que nos habita quando exercemos a docência. A escrita-leitura permite o trabalho de reelaboração, efetuado durante a estadia no continente da prática-teoria; trabalho que é também um procedimento de pesquisa, ou seja, o modo particular do continente de lidar com os aspectos escindidos e saturar os poros das respostas, visto serem veiculados conjuntamente com ele.

Logo, o plano teórico nada mais é do que um assinalamento de campo, uma antecipação de direções, em que o pensamento é impelido por conceitualizações, demarcado por experiências de pesquisas e postulados de docências anteriores; embora, ao mesmo tempo, se ofereça, em sua heterogeneidade, como um trampolim para que cada professor-pesquisador (e cada aluno) por ele salte, sem obstruções ou determinações categóricas, em direção a uma docência-pesquisa artistadora. Destravado fica assim o teor autoral da profissão de educar como um direito de cada professor; o que nos faculta a transcriação, muitas vezes, luciferina do próprio Arquivo Docente.

Sandra Mara Corazza

Professora da Faculdade de Educação/UFRGS