Ana Cristina Silva: a determinação e a simplicidade

Câmpus do Vale | Estudante da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Colégio de Aplicação da UFRGS relata a sua retomada dos estudos e a busca contínua por conhecimento

*Foto de capa: Arquivo pessoal

Em 2019, Ana Cristina Silva, auxiliar de serviços gerais, retomou os estudos do Ensino Fundamental no módulo da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio de Aplicação da UFRGS (CAP). Hoje, com 52 anos, Ana já está muito perto de concluir o Ensino Médio. A estudante conta que, em certo momento, a vida a fez abandonar os estudos; ao decidir voltar às salas de aula, entretanto, ela só as deixaria com o seu diploma. Dessa vez nem mesmo os desafios impostos pela pandemia puderam afetá-la. 

“Vai ser minha maior conquista. Um diploma mostra que o que eu conquistei é só meu. Ninguém poderia adquirir por mim”, diz ao explicar o quão significativo será concluir o ensino básico em sua vida. A estudante revela que foi uma grande surpresa descobrir o CAP da UFRGS e que lá havia a possibilidade de fazer a EJA.

 Ana relembra a relação de incentivo que possuía com a direção de um laboratório em que trabalhava na Universidade e como ela, por diversas vezes, foi motivada a procurar se inscrever no CAP e obter seu diploma. A estudante relata que uma pessoa na direção lhe avisou das inscrições e insistiu para que ela fosse rapidamente garantir sua vaga. Após ingressar no Colégio, essa pessoa passou a acompanhar a sua jornada. Ela questionou Ana sobre o que pretendia fazer agora que havia retomado os estudos. Ana respondeu: “Olha, uma coisa eu posso te garantir, agora eu só paro quando eu terminar. Dessa vez não vai haver motivo que faça eu parar”.

Essa relação permanece até os dias de hoje. Ana conta que, a cada vez que avança uma etapa no Aplicação, ela manda uma mensagem para a amiga da direção. Outra coisa que também permanece é a determinação de Ana. Em meio ao período de isolamento social, a estudante apenas obteve mais motivação, dessa vez para aprender a adaptar-se aos novos desafios. 

A simplicidade das coisas

“Das coisas mais simples é que a gente sente falta. A gente acaba tendo um encontro dentro da escola, a gente vai fazendo novos amigos a cada nova etapa.”

Ana Cristina Silva

Para Ana, a saudade está em muitas coisas. A estudante relembra diversos momentos com os colegas e professores. Os intervalos sempre lhe proporcionavam interessantes conversas de corredores, onde partilhava um pouco da vida, trocava experiências e se divertia. A estudante brinca que, automaticamente, o primeiro assunto dos alunos entre as aulas era sobre o cardápio da cantina, onde lanchavam juntos e debatiam sobre as aulas. “Depois ficava um dizendo para o outro: ‘Tá na hora, o professor já está aí’. E todo mundo corria pra sala de aula. Pareciam crianças pequenas”, diverte-se Ana. 

A estudante admite que muitas vezes buscava refúgio na biblioteca do Câmpus do Vale. “As pessoas achavam que eu ficava conversando com a bibliotecária, mas não. Eu estava lá folheando livros, bem curiosa”, destaca Ana, que também afirma que a biblioteca era seu lugar favorito para estudar. Para ela, o silêncio ajuda a manter a atenção. “Eu gosto da sala de aula, dos colegas e professores. Mas eu, nos meus 52 anos, produzo melhor no silêncio, meu raciocínio é melhor.”

A estudante ainda pontua que as aulas eram fonte de imensurável conhecimento, não somente por meio dos professores, mas ao conhecer pessoas com diferentes realidades e com tanto a contribuir em sua vida. “Havia pessoas muito parecidas comigo e outras totalmente diferentes de mim. Mas eu gosto de conviver por que eu também aprendo com eles. Gosto desse aprendizado com pessoas diferentes”, acrescenta. 

“Eu acho que o ser humano precisa um do outro.”

Ana Cristina Silva

Fazer uso da tecnologia sempre foi algo que Ana pensava que não conseguiria dominar. Em meio à pandemia, a estudante se viu obrigada a aprender a lidar com o computador e com as atividades remotas. Ana reconhece que, no início, era bastante complicado e que precisava de prática. Para ela, porém, a necessidade sempre resulta em motivação. “Hoje sei fazer pesquisa na internet, consigo manusear mais o computador, aproveitar muito mais essa ferramenta que está sendo muito útil.”

Ana pontua que o formato remoto exige mais organização e atenção, mas que gostaria de continuar tendo atividades online, mesmo após o retorno do formato presencial, para que continuasse tendo contato com a tecnologia. “Queria ter a oportunidade de manter essa lembrança viva. Por que, se eu parar, vou esquecer”, responde com bom humor. 

O futuro

Ao entrar no Colégio de Aplicação, Ana se deparou com conteúdos com os quais nunca tinha tido contato. Desde as aulas de Teatro até as de Música, e também as de Sociologia, a estudante descobriu novas paixões. Mas a maior delas foi a Filosofia. Ela nem mesmo tinha conhecimento da existência dessa área do conhecimento: quando se deparou com a Filosofia, um sentimento que lhe remetia simultaneamente ao passado e ao futuro a fez se interessar por estudar a matéria. 

“Quando eu era criança, eu sempre quis saber mais sobre o que eu já sabia. Eu sempre tinha uma pergunta que vinha depois da pergunta e da explicação.”

Ana Cristina Silva

Ana também gosta de se desafiar. Quando se deparou com os Projetos de Investigação propostos nas aulas, nos quais os alunos desenvolvem pesquisas e apresentam aos colegas, ela viu novamente a oportunidade de se testar. Sua professora ficou intrigada quando a estudante contou que iria fazer seu projeto sobre o filósofo Arthur Schopenhauer.

Ana admite que não sabia nada sobre o pensador, mas que foi exatamente esse o motivo. Após horas de estudo na biblioteca da UFRGS, agora sabe muito sobre o filósofo alemão do século XIX, e seu amor pela Filosofia cresce cada vez mais.

“De fato eu gaguejei um pouco, mas consegui apresentar. Foi muito interessante, a minha sensação foi de provar para mim que eu consigo.”

Ana Cristina Silva

Agora a estudante olha para o futuro esperançosa, cheia de excitação por seu diploma e sua formatura, mesmo que em formato remoto. Ela prometeu que não iria mais parar de estudar e, realmente, ela não pretende. Após finalizar o Ensino Médio, prestará o Enem e deseja cursar Filosofia na UFRGS.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: