Aprendizagem infinita

Autores: Nilton Mullet Pereira, Fernanda de Amorim Golembiewski, Marcello Paniz Giacomoni, Maurício da Silva Dorneles, Cristine Gubert Moreira

Peças do jogo “As viagens do Tambor” (Foto: Rochele Zandavalli)

O jogo As viagens do Tambor é criação de uma aprendizagem coletiva de estudantes e professores(as) da UFRGS com pessoas e movimentos sociais negros de Porto Alegre. Foi desenvolvido a partir do Projeto de Extensão Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre, vinculado ao Laboratório de Ensino de História e Educação (LHISTE).

Trata-se de um jogo de tabuleiro para crianças e jovens da educação básica, especialmente a partir do sexto ano do ensino fundamental. Ao abrir o tabuleiro, jogadoras e jogadores entram em contato com um percurso na cidade de Porto Alegre. Esse percurso estabelece diálogos entre o passado e o presente da cidade, a partir de lugares e bairros reconhecidos como territórios negros – tais como a Ilhota, o Quilombo do Areal, o Mercado Público, a Restinga. No jogo, esses lugares encontram-se com personagens negras e negros, como a Mestra Griô Maria Elaine Rodrigues ou o Príncipe Custódio, e práticas culturais, como o Sopapo Poético ou uma roda de capoeira, cujas trajetórias e experiências interligam-se com a história da cidade.

Aos lugares, personagens e práticas culturais, se junta o principal elemento que constitui e dá nome ao jogo: o Tambor. Trata-se de um tambor com vida, com subjetividade, que remonta ao monumento do Tambor localizado na Praça Brigadeiro Sampaio, no centro de Porto Alegre – o primeiro marco do Museu de Percurso do Negro, que conta com obras de arte distribuídas por espaços públicos da cidade. Escolhido como elemento articulador do jogo, o instrumento possui alto valor simbólico para as culturas africanas e afro-brasileiras, e está presente em diversas práticas culturais vinculadas à população negra.

Ao ler as instruções do início de jogo, os(as) participantes descobrem que o Tambor foi tomado por uma vontade de sair da praça e viajar pela cidade para encontrar-se com uma personagem e, junto dela, participar de uma prática cultural. A partir dessas referências, o jogo inicia com a escolha de uma personagem por cada jogador(a). Essa personagem percorrerá um tabuleiro circular a partir do rolar dos dados, entrando nos territórios negros de Porto Alegre, procurando descobrir, por meio de palpites e de raciocínios, para onde foi o Tambor, com quem está e o que está fazendo. Vence o jogo quem primeiro descobrir essas informações.

O jogo proporciona uma aprendizagem infinita, nunca sucumbindo ou se esgotando nas paredes do que pode ser dito ou visto. A cada rodada, os valores que o fundamentam se multiplicam em profusão pela energia trocada pelos(as) jogadores(as), que retomam, na diferença, o prodigioso espetáculo da vida. A ludicidade, a circularidade, a oralidade, a corporeidade, a memória e a energia vital que movimentam o Tambor e os jogadores são valores de vida dos povos negros que envolvem as pessoas a cada instante imensurável do jogar e do brincar, numa ética e numa política das relações – pois as relações são o elemento de onde jorra o tempo e a aprendizagem infinita.

A aprendizagem proporcionada pelo jogo iniciou já em seu processo de construção e criação. Tendo durado aproximadamente dois anos, esse processo é identificado pelos sujeitos envolvidos como uma trajetória de construção coletiva em que diferentes saberes foram reunidos: das teorias dos jogos, da historiografia, da educação, dos movimentos sociais, da Educação para as Relações Étnico-Raciais. Experiências como a da Mestra Griô Maria Elaine Rodrigues foram constitutivas do jogo e lhe trouxeram vida, assim como tantos outros que enriqueceram esse processo com seus saberes. As Viagens do Tambor possibilitaram inúmeras aprendizagens antes mesmo de sua concretização.


O jogo compõe a própria cesura por onde narrativas históricas podem ser criadas. Nessas narrativas, há possibilidades de imaginar e vivenciar o encontro de Mãe Rita e Príncipe Custódio – pessoas que viveram na Porto Alegre do século XIX – com o Sopapo Poético e as Batalhas de Hip Hop – experiências culturais do século XXI. Muitas outras experiências com jogos certamente já existiam em tempos anteriores ao do Tambor.

Muito já se escreveu e se pensou sobre o uso de jogos em sala de aula, sobre o uso de jogos para ensinar História ou mesmo sobre como os jogos podem produzir narrativas históricas. Nosso argumento, entretanto, é que cada uma das experiências precisam ser vistas em sua singularidade, naquilo que, justamente, o olhar não alcança e que as proposições não expressam. Aprender com o que o jogo provoca implica não levá-lo a um lugar-comum em que estariam também outras experiências parecidas. Fazer isso, tanto com o Tambor quanto com qualquer outro jogo desse tipo, é perder a potência que somente esse jogo pode dar. Nós, portanto, somente seremos capazes de aprender com ele se conseguirmos separá-lo de uma tradição, de uma generalidade pedagógica, de um conjunto de propostas didáticas semelhantes e se durarmos na existência incomensurável das viagens do Tambor.

Esse movimento de aprendizagem infinita nos desloca dos lugares aos quais estamos acostumados a andar. Ou seja, faz nos desarmarmos de nós mesmos, de nossas crenças arraigadas, que, sim, dão sentido ao que fazemos e pensamos todos os dias, mas que dificultam o nosso acesso à duração das coisas e, consequentemente, ao aprender com o outro, com os outros e, sobretudo, com a energia vital que exala, pela cesura do tempo, nas bordas do que pode ser dito e do que pode ser visto.

Essa postura indica que, por exemplo, para aprendermos com o Mestre Borel – uma das personagens do jogo –, é preciso nos desarmarmos do nosso cientificismo, do nosso descritivismo, da nossa obsessão explicativa, dos modos e dos estilos de narrativa histórica aos quais estamos acomodados. Mestre Borel, para nos surpreender, precisa que nos deixemos ser surpreendidos, abertos à possibilidade da desconstituição do que somos. E o que somos é uma memória racista e discriminatória, que se acostumou à norma que produz a brancura como normal e que criou silenciamentos em relação às pessoas e às práticas culturais negras em Porto Alegre e no Brasil. Nesse sentido, Mestre Borel não pode ser visto como uma caixa explicativa em um livro didático, na tangente de uma narrativa eurocêntrica que, por uma pretensa obra de benevolência, abre caixas de texto para aqueles a quem reservou o lugar do apagamento e do silêncio. Mestre Borel é protagonista de uma história agora contada e de uma memória agora fulgurante na vida, na escola, no cotidiano da cidade.

Aprendizagem histórica

O jogo As viagens do Tambor sugere mistério e criação. Desse modo, ele tem se mostrado uma novidade interessante no campo da aprendizagem histórica. Ao propor que aprender possa ser outra coisa que responder às perguntas decorrentes do estudo de uma narrativa histórica ou mesmo lembrar as definições de conceitos ou os processos resultantes de estudos de períodos, idades ou eras, estamos sugerindo uma aprendizagem muito mais profunda e intuitiva – como propõe Henri Bergson, em A evolução criadora. A aprendizagem, portanto, é infinita porque o jogar e o brincar com o Tambor nos fazem comungar com um intervalo em que nada há de nomes, definições, formas ou conceitos.

É como se o jogar e o brincar se oferecessem desde uma matéria bruta na qual os sentidos ainda não estão expressos. Colocar-se nesse “entre”, que é aprendizagem infinita, implica pensar que o jogo do Tambor nos aborda num recuo em relação ao que se diz e se pode dizer sobre ele e dos sentidos que ele pode expressar. Essa experiência é, portanto, não com um mundo viciado em definições (materialidade de uma memória racista), mas com a força e a energia vital que escorrem desde o jogar e o brincar.

As viagens do Tambor não opera com o tempo cronológico, ainda que possa decorrer dele uma profusão de linhas que situam as pessoas, os territórios e as práticas dos povos negros em espaço-tempos definidos. O jogo opera com a inteligência, mas também com a imaginação. Nesse sentido, ele é um misto, pois, como a própria energia vital de onde decorrem as atualizações, as formas, os nomes, os esquemas explicativos, ele é a imaginação que nos leva a criar, desde uma ética, futuros ainda não pensados e imprevisíveis.

O movimento criativo se dá desde valores que ultrapassam as racionalizações que conhecemos. Ultrapassam a ideia de um sujeito universal que conhece de modo inteligente e técnico. Ultrapassam o estudo das causas e de todas as matérias já formadas. O movimento criativo se dá desde os valores civilizatórios afro-brasileiros. São valores para produzir a vida. Qualidades puras que não se confundem com o já dito, mas com a experiência. E é por isso que eles ensejam aprendizagens muito mais profundas que um estudo das causas (sempre necessário, obviamente) não pode permitir. Então, o relacionar-se que enseja a resolução do mistério das viagens do Tambor – em qual território está, com qual pessoa e realizando qual prática? – oferece uma aprendizagem infinita com práticas, pessoas, territórios e forças que transitam e atravessam nossas vidas ainda que, por muito tempo, tenhamos negado seu potencial de vida e sufocado suas possibilidades para pensar as relações entre as pessoas.

Desse território bruto que é o jogo, o brincar e o jogar se apresentam como a pura energia que leva à criação: de narrativas, histórias, memórias e aprendizagens infinitas.

Algumas das peças do jogo (Imagens: LHISTE/ Divulgação)

As Viagens do Tambor – Jogo de tabuleiro

Laboratório de Ensino de História e Educação da UFRGS / Editora da UFRGS, 2018. 
Equipe: Maurício da Silva Dorneles, Marcello Paniz Giacomoni, Carmem Zeli de Vargas Gil, Fernanda de Amorim Golembiewski, Carla Beatriz Meinerz, Cristine Gubert Moreira, Nilton Mullet Pereira, Stefany Reis, Daniele Machado Vieira

Material de apoio aos professores e professoras
Equipe: Daniele Machado Vieira, Maurício da Silva Dorneles, Fernanda de Amorim Golembiewski, Carla Beatriz Meinerz, Cristine Gubert Moreira

Nilton Mullet Pereira

*Professor da Faculdade de Educação/UFRGS