Ensaio | Maio 2019




Brasil, meu nego, deixa eu te contar
A história que a história não conta

Pistas, vestígios, denúncia: a arte nos gestos e expressões insubmissas. Linguagens e contextos distintos oriundos da realidade comum de violência e silenciamento. Desde a traumática travessia – longa e perversa viagem no oceano de lágrimas –, as experiências colonizadoras insistem em negar o corpo negro. Simultaneamente, a força ancestral rompe o silêncio, estraçalha o gesso colonial e faz emergir narrativas que reivindicam e expressam vida. Que corroem a estrutura da casa grande.

O avesso do mesmo lugar
Na luta a gente se encontra

A arte e seu poder transformador, criador e embativo provoca fissuras na realidade, cria tensionamentos e insere novas maneiras de ver o mundo. Garante, assim, a possibilidade de romper a inércia hegemônica e propõe o deslocamento: de si, do espaço e do tempo. O saber negro é movente. Imagens que nos convidam a indagar o que os discursos “oficiais” nos contam. A arte negra carrega duplamente esse ímpeto: desloca o olhar e apresenta narrativas até então silenciadas.

Eu quero um país
que não está no retrato

Podemos experienciar algumas dimensões: do encantamento, da estética, da ancestralidade, que promovem rupturas e contam nossos processos sob um prisma crítico. E assim realizam o movimento de libertar do discurso hegemônico as dinâmicas vivas e suas subjetividades. Obras que expressam diálogos distintos e processam emancipação. A arte negra como cura do trauma e como reinvenção de nós.

Os trechos em cinza acima são versos do samba enredo de 2019 da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira


|| Pelópidas Thebano


|| Leandro Machado
|| Carlos Alberto de Oliveira, o Carlão

Thiago Pirajira é ator, diretor, produtor e professor de teatro. Mestrando em Educação UFRGS.

As obras de Pelópidas Thebano, Leandro Machado e Carlos Alberto de Oliveira integram o projeto ‘Arte Negra na Escola’, desenvolvido pelo departamento de educação e desenvolvimento social (DEDS/Prorext). O material pedagógico foi um dos destaques do 12.o Prêmio Açorianos entregue em março deste ano.